Tesão de Alma

Tesão de Alma

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Clarice conheceu um cara. Embora outras centenas de histórias comecem e terminem assim, esta era diferente. Aquele novo homem; inteligente, educado, desencanado, tinha idade para ser seu pai. Mas felizmente não o era. Não, ele não tinha lá grandes atributos. Não era desses quarentões geração saúde, tinha mais aquele ar do Fagundes, sabe?
 
Esse homem já tinha ultrapassado a barreira dos cinquenta e observava Clarice lá do outro lado da linha da vida, convidando-a com os olhos, calmamente. Não era alto, nem tinha força nas pernas direito, andava lerdo, como quem passeia. Não se pode dizer que era feio, porque a feiura chama atenção. Pior que ser feio é ser comum.
 

Clarice percebia isso e internamente se corrigia: “Seremos bons amigos”. Mentira tão deslavada como a da criança incendiária que é pega com os fósforos na mão e ainda assim nega. A fogueira já estava alta, as chamas comiam as paredes, as cortinas, o sofá. Aquele fogo engolia o coração de Clarice e ela preferia negar.

Quem é que pode explicar o tesão que você sente pelo jeito como ele te conta histórias, o desejo quase físico de ouvir ele falar sobre pessoas que você não conheceu, dos livros que ele já leu, dos filmes que ele adorou e adoraria te emprestar? Se ele lia pessoas e páginas tão bem, talvez pudesse te ler também. Talvez ele possa finalmente te ajudar a descobrir quem você é.

Clarice não queria alguém que a estimulasse gemer, mas falar. Clarice queria conversar. Não na fila do Burger King, não enquanto esperava a conta do motel, não no bar da boate. Boates são projetadas para quem não tem o que dizer ou não quer escutar. Aquele homem ouvia, digeria, levantava a bola para Clarice marcar. Não havia pressa, ele não estava a aguentando tagarelar, não estava louco para que ela terminasse para poder voltar para a corrida de carros na TV. Aquele cara queria assistir Clarice, como um especial de Natal.

Quem é que vai nos dizer de onde vem o tesão pelo volume que não vem da calça, que não cresce do bolso, que não estoura as mangas da camiseta em músculos? Quem é que vai entender, como é você foi capaz de trocar o fofo do Daniel pelo cosplay do avô dele? Relação boa não é a que os outros entendem, é aquela em que vocês se entendem e pronto. “Tesão de alma”, definiu Clarice, a incendiária. 

Diego Engenho Novo


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