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você

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Quatro da manhã, entrei na ponta dos pés, fechei a porta com cuidado, acendi a luz devagar, como se fosse possível. Minha mãe estava sentada no sofá da sala, aos prantos – Quando você for pai, vai entender – repetia quase sempre que a desobedecia. Fui aborrescente dos bons. Sumia sem dar notícia, dava má resposta, comia porcaria, amanhecia na gandaia, gostava de bruxaria. E minha mãe, com seus olhos fundos, preocupados, só me parecia alguém que contrariava toda a diversão – Quando você tiver seus filhos, vai me dar razão – resmungava pelos cantos.

Ela perdoou meus ataques de hormônio, minha teimosia, minha música alta, minha porta do quarto, sempre fechada. Ela perdoou minha antipatia, meu destrato com as visitas, meu cabelo colorido, o troco que eu não devolvi, o colo desperdiçado. E eu entrei em choque quando finalmente virei aquela chavezinha na minha cabeça. Um dia eu acordei e o sentimento estava lá, como se fosse caso de abdução alienígena ou rede nova de wifi instalada – Bom dia. Você é pai – diz algo dentro da gente.

Pânico. Como ela conseguia? Ver seu moleque exposto a tantos perigos, à maldade do mundo, à possibilidade de nunca mais voltar? Sem nem mesmo ter nascido, meu filho já não podia ir na esquina sozinho. Decidi assumir que eu seria um pai superprotetor, sociopata das bicicletas com rodinhas, arquiteto das quinas de mesa acolchoadas. Eu era bem pior nesse quesito que a Dona Florinda.

Me diz, mãe, como podia ser tão forte a ponto de não enlouquecer? Ainda ter cabeça pra estudar, trabalhar e fazer charme pro próprio marido, com seu filho dormindo, sem saber se ele estava mesmo respirando? Ela colocava o dedinho na frente das minhas narinas pra sentir. Eu terei um tanque de oxigênio no quarto dele, ao lado do ressuscitador e dos curativos.

Ao contrário de sua praga do bem, eu não a entendi. Não seria capaz. Ela foi muito mais sábia, generosa e corajosa do que eu poderia ser. E quem é que pode explicar esse amar sem tamanho, proteger sem ressalvas, querer bem sem espera, embalar para o mundo ter? Quando estou com mais medo é para o colo dela que eu volto, é nas palavras dela que eu me encosto. Quem diria, que os filhos antes de ensinar a gente a ser pai deles, preferem mostrar a grandeza que já existia nos nossos? Um dia você também vai entender.

Diego Engenho Novo


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(leia ouvindo isto http://migre.me/ronPi)

Daqui de cima observo as figueiras que se estiram pelo canteiro central da avenida. Venta forte, talvez chova e, por alguns momentos, me parece mesmo que aquelas árvores de raízes enormes serão levadas como plumas pela brutalidade do vento. Que elas, pesadas e fundas, sairão por aí, contrariando tudo o que se sabe sobre figueiras.

Elas dançam, se curvam, ameaçam, mas não, elas não se vão. Estão há séculos ali, fincadas, fazendo sombra para si próprias, alimentando-se de floquinhos de luz, sendo o que nasceram para ser. Assim também seguimos, ameaçando dar passos que não damos, nos esticando em direção aos nossos sonhos, mas não o suficiente para agarrá-los.

Assim somos, por tantas vezes sem sair do lugar. O que nos prende? É a fundura de nossas raízes ou a rasura de nossos medos? Os amores que nos calharam aceitar; o emprego que paga as contas, mas adoece o peito; os amigos nem tão amigos a quem aprendemos tolerar a maldade; tudo ao que nos acostumamos se torna nossa prisão voluntária.

E as figueiras seguem as mudanças da estação, fingindo que se tornam outras, fingindo-se diferentes, fincadas no canteiro central. Assim, fomos criados para sermos a sombra dos sonhos dos outros. O mundo está aí, sussurrando baixinho.

Contrarie tudo o que se sabe sobre você. Cale as suas próprias ameaças e vá. Ao contrário das figueiras, nossas raízes estão plantadas no solo de nossos corações, mas nossos passos, livres. Perigosamente livres. Gosto de pensar que se não soubessem que são figueiras, o canteiro central agora estaria vazio. Todas soltas por aí. Você é livre e agora sabe.

Diego Engenho Novo


 

 

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Por muito tempo acreditei que dizer não tratava-se de negar pedidos abusivos dos outros, pôr-se em primeiro lugar nas escolhas. Ainda assim, foi muito difícil aprendê-lo.  Algo dentro da gente nos diz que se não dissermos sempre sim, as pessoas que nos cercam nos amarão menos. E a gente aprendeu isso lá atrás, com quem melhor fazia esse jogo: nós mesmos, quando crianças. Ameaçávamos o tempo todo desamar quem negasse nossos desejos. O feitiço contra o feiticeiro.

Lembrei dessa história porque semana passada encontrei meu vizinho na portaria do prédio, cheio de sacolas e subimos juntos de elevador conversando sobre amenidades, como eu tanto adoro. No sétimo andar, paramos para buscar alguém, Lúcia, que não entrou. Confundiu-se. Ia descer. Mas aproveitou a porta aberta para avisar Luis Claudio que iria na casa dele mais tarde pegar uma furadeira. Fiquei surpreso, ninguém gosta da Lúcia do 706. Ela se esforça bastante pra isso. Como tinham virado amigos?

Luis Claudio esperou o elevador voltar a subir pra me confessar – Odeio essa mulher. Energia ruim. Fala mal de todo mundo – tive que rir – Mas vocês pareciam melhores amigos. Até ferramentas você anda emprestando pra ela – indaguei. Luis Claudio me contou que um dia ela simplesmente perguntou no hall do prédio se ele tinha uma chave de fenda. Foi o suficiente para a casa dele virar o QG da bricolagem da dona Lúcia. Toda semana ela passava lá pra pegar uma ferramenta. Não pedia, dizia solenemente que tinha ido buscar a fita métrica ou a fita isolante.

Parece absurdo o nível de passividade do meu vizinho, mas, em maior ou menor escala, todos somos vítimas o tempo todo de gente assim. Gente que se aproveita de nossa distração, abalo emocional ou incapacidade momentânea de reagir para tirar proveito e vampirizar o coreto. Seu chefe com cara de sonso que pede pra você ficar pela terceira vez mais tarde essa semana por amor à empresa, aquela conhecida de um conhecido seu que se convidou pra festa de aniversário da sua filha, aquele namorado que já guarda as chaves do seu carro nos bolsos dele e fez você repetir por aí para as rodas de amigos que se sente mais segura com ele dirigindo. Puro abuso.

Seja sua energia, seu tempo, suas relações, seu dinheiro ou seu afeto, gente assim tentará roubar sua felicidade como formigas que carregam um gafanhoto morto em micronésimas partes, até digerir o todo. É aí que voltamos ao princípio da conversa: tem gente pra quem precisamos dizer não que simplesmente não nos pediram nada. É um duplo esforço. Sagazes que são, elas nem mesmo estão dispostas a escutar o não. Elas não reconhecem essa palavra.

Cabe a nós puxar a força, autoestima, energia e dignidade de onde quer que seja para nos mantermos inteiros e inabalados pelos abusos de quem não merece nem mesmo nossa angústia momentânea. Dizer não é de fato como montar suas próprias prateleiras em casa, no começo pode não ficar perfeito, uns furos no dedo, mas logo, logo você se torna expert em não se desmontar pelos outros. A lojinha de construção do apartamento do Luis Claudio fechou. Fiquei sabendo recentemente. Bom pra ele.

Diego Engenho Novo


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Tenha um amigo que seja maior do que você. Não somente pelos braços mais compridos que nem mesmo precisam se alargar para te abraçar. Nem mesmo pelas ciências da vida que ele já recita como um poema curto de Adélia Prado, ciências que você ainda tenta assimilar, com certa dificuldade. Tenha um amigo de alma maior, coração mais largo e olhar mais sereno que o seu.

E ele, em muito vai lembrar a candura de seu pai, o humor preocupado de sua mãe, e pouco a pouco também se tornará sua família. E mesmo nos dias em que ele se sentir menor e reivindicar seu colo, você ainda estará sendo protegido por ele. Há gente que cuida da gente num caminho inverso quando deitam na paciência do nosso colo, quando choram no mirante de nosso peito, quando a sua simples presença nos torna também um pouco maiores.

Tenha um amigo que seja maior do que você. Que lhe ensine a ser generoso com miudezas como te emprestar um livro que você nem pediu ou te levar para tomar café quando você estiver perdido. Que lhe mostre a dignidade desculpando-se quando você nem estava exatamente bravo e lhe perdoando exatamente nos momentos em que você não poderia ser tão mais errado.

E a partir do respeito imenso que você recebe dele e do respeito legítimo que devolve de volta, estará criado um adorável círculo vicioso, como as vasilhinhas que viajam de uma casa para a outra. Nunca vazias, sempre comadres, refil eterno de um agrado novo, marmitas fartas de gratidão e amor. Tenha um amigo maior do que você. Para cultivá-lo como um campo florido que se alastra por quilômetros: delicado e imponente, simples e misterioso, valioso e aberto para quem quiser ver.

Diego Engenho Novo


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