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Despeço-me do homem que já fui. Do cara que construí e levei nos braços até ontem ou anteontem. E com ele despeço-me de todos os meus meninos, de toda a esperança infundada de um dia ser maior. E para quê? Eu te pergunto. Despeço-me com um abraço demorado que aperta, com o peito envergado para dentro que diz – Fica um pouco mais – pedindo e também respondendo.

Despeço-me do homem que já fui, de minhas inseguranças, de meus medos que não me matavam, nem me fortaleciam e sigo levando somente os fatos. Enfrento de frente o que está adiante. Afasto de lado o que não está ao lado, mas à margem. Deixo para trás o que não é memória, nem aprendizado, só culpa, estridente, quase que bonita como as latas amarradas que perseguem os carros dos recém-casados.

Acho que me casei com minha culpa. Depois pari minhas inseguranças, ninei minhas vergonhas, só minhas, filhinhas, miúdas, até serem grandes o bastante para também me carregarem. Tudo meu, tudo eu, tudo de mim, eucentrista como toda mãe.

Despeço-me então todos os dias, acompanhando a velocidade do reciclar da matéria. Nasce todo dia e morre a célula. Nascem todo dia e morrem minhas ideias. Nasço todo dia e, logo depois, morro. Sem estardalhaço, ali naquelas horas caladas entre o tatear insone dos chinelos para ir ao banheiro de madrugada e o despertar vitorioso no segundo que antecede o despertador.

Despeço-me do homem que já fui todas as manhãs, engolindo-o junto com o café amargo demais ou demasiadamente doce. Despeço-me dele e vou perdendo minhas histórias, minhas manias. Elas já foram de fato minhas ou foi alguém que me deu?

Vou abandonando minhas notas longas, minhas semibreves, como uma sinfonia que se simplifica dia após dia, até ser apenas três ou quatro notas que abrem um elevador, que empurram um metrô, que ligam um smartphone, que nunca são ouvidas diferentes, mas que igualmente jamais são iguais porque despedem-se de si segundo por segundo.

A pessoa que vocês conheceram não vive mais aqui. Destinatário não encontrado, favor devolver ao remetente.

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Foto: Greg Raines

Saí pouco antes da luz acender, ainda sob os fortes aplausos que nós da plateia enviávamos calorosamente às duas atrizes no palco. Saí meio aplaudindo, meio enxugando as lágrimas, meio curvado carregando minha vergonha de homem crescido chorando feito criança. Havia terminando a leitura aberta da peça Aquário com Peixes de Franz Keppler.

Não sei o que me deu. Não sou de chorar para fora. Sou do tipo que chora, ri e conversa para dentro. Mas a história daquelas duas mulheres que se amavam, mas se separavam, daquele amor que ia acabando como se acaba o ar, me tocou profundamente.

Ninguém havia me enganado: desde a primeira cena, do primeiro ato, ficava claro que o amor delas iria acabar. Não era segredo: desde o primeiro momento, transpareciam no palco os últimos momentos da história das duas. E libertos da ansiedade de vê-las juntas para sempre, só cabia a nós, amar o tempo que mantinha a elas, próxima uma da outra.

“Porque é tão difícil isso? ” Me perguntei tentando acertar o botão que me levaria para meu andar. Porque era tão difícil aceitar que as histórias são simplesmente histórias que começam e se acabam? Porque a gente não aprende? A valorizar os meios, os durantes, os tempos juntos, as noites de quarta-feira. A gente perde tempo demais nessa de achar que teremos todo o tempo do mundo.

Porque simplesmente não aceitamos que amores nascem para se consumirem até a penúltima gota? Jamais a última, jamais a última. A gente devia mesmo aprender a amar pelo tempo que durar, aprender a crer pelo tempo que amor for a nossa fé cega e suficiente, aprender a gostar mesmo daquilo que não vai ser nosso para sempre. Exercício terrível de desapego logo com o maior de todos os nossos apegos.

A gente devia mesmo aceitar que todo amor que começa já avisa na primeira cena, no primeiro ato: ‘O que começa agora, como tudo na vida, vai terminar. Talvez pela própria vida, talvez no dia em que a luz que é dela se apagar. Aproveite o meio, onde está o recheio, onde dorme o sabor. Ame enquanto puder e se fortaleça disso para quando a dor do fim vier nos doer. Por favor, desliguem seus celulares: a peça já vai começar’. Começo, meio e fim.

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Foto: Brooke Cagle

Desculpa chegar, depois de tanto tempo, como se ele, o tempo, não tivesse atravessado à nossa frente, forasteiro. Como se muitas noites não tivessem me feito companhia antes dessa. Como se eu não tivesse, por tantas vezes, inventando caminhos e motivos novos para não passar à sua porta. É engraçado cultivar esse quase medo dos lugares onde a gente foi tão feliz.

Talvez você nem more mais no número dois-sete-meia da avenida. Depois de tantos meses daria pra você ter se mudado de país e aprendido outra língua, daria pra você ter largado o escritório e se tornado cuidador de cavalos. Todo esse tempo seria suficiente para abraçar uma vida, embora não tenha sido suficiente ainda pra mudar o que sinto por você.

“Só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto”

E quando o interfone tocar, ao contrário de meses atrás, minha imagem não será seu primeiro pensamento. Poderia ser uma reclamação mal-humorada vinda do andar debaixo, a entrega da comida que sempre chega fria mesmo vinda da esquina, ou um amigo pedindo sofá para se curar da bebida. Mas dessa vez, querido, quando o interfone tocar, serei eu, me convidando outra vez para entrar na sua vida. Eu em minha eterna entrega pra tudo que vem de você.

E naqueles dois segundos após o abrir da porta, serão meus olhos inundando você num misto de curiosidade, saudade, dúvida e dívidas. As marcas de sol que revelam mais idas ao litoral, os cabelos por cortar mostrando que você está mergulhado em seu novo livro, uns quilos a mais contando de suas idas acompanhado ao restaurante que a gente adorava, uns quilos a menos dedurando que você finalmente tirou seu plano da gaveta de aprender a correr. Eu sei que é horrível dizer, mas sim, seria respeitoso da sua parte não ter vivido maravilhosamente bem sem mim.

E meio que sem jeito eu tentaria parecer confortável, e desconfortavelmente tentaria transparecer uma paz que não tenho, desde que nos despedimos pela última vez. E depois de tantos meses eu voltaria com algo seu embaixo do braço como desculpa, só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto. Porque foi exatamente assim que me apaixonei por você.

Diego Engenho Novo

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Você ficaria comigo se soubesse que não teremos tempo para ser eternos? Ficaria se soubesse que um dia talvez eu me canse de nós? Ficaria se soubesse que um dia eu também me tornarei muito cansativo pra você? A minha voz se tornará um zumbido, irritante e insistente, reclamando atenção.

Do que você tem medo? De não durarmos o suficiente para nos gabar? De gastarmos o dobro do tempo para esquecer? Parece um preço muito alto a se pagar, mas eu não trocaria nossos minutos e segundos por nada disso.

Depois que nos distanciamos eu me virei e olhei sua doçura indo embora de mim. Soube ali que nunca mais nos veríamos, mas eu senti um orgulho imenso de nós dois, pouco antes de me desfazer em medo. Dividimos o respeito que plantamos e colhemos em partes iguais. Alimento a contento.

Nós fomos incríveis, vorazes, intensos como um beijo que se esconde no meio da multidão, um acenar que pausa a solidão de um desconhecido, como estrelas que se aproximam sem nunca de fato poder se encostar. Não havia garantias, nós nunca as tivemos em momento nenhum de uma vida inteira sem retidão. E é isso que eu mais amo em você.

Jamais direi que te amo no passado. Meu amor não passa como chuvas esparsas. Meu amor vai ficando de pedaço em pedaço para quem me dou. E para cada parte que fica, como um postal antigo que diz – Eu já estive ali – para cada parte, meu amor se desdobra e também se reparte em dois. Você faria tudo outra vez se soubesse que não iríamos nos demorar?

Onde quer que eu esteja, para todos eu digo, você foi um dos lugares mais lindos em que pude estar.

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Tínhamos o dia a dia posto à mesa. Uma normalidade servida em abundância, como frutas da estação. Tínhamos dias bons em que nos fazíamos rir e noites terríveis em que a mágoa vinha se sentar. Tínhamos as tardes em que descobríamos algo deliciosamente novo sobre o outro, ébrios pela preguiça, e noites em que nos perdíamos como se jamais fôssemos nos reencontrar. Ainda assim, tínhamos um ao outro. Tínhamos um ao outro, até você nos deixar.

Foi tentando entender sua falta que percebi que não era só você que me faltava. Me faltava quilometragem, me faltava risco, faltava a mim vastamente. Faltavam-me sabores que só existem em um país mais longe, faltavam-me sons de um instrumento sem nome, faltava-me ser sozinha sem desespero ao menos uma vez na vida.

Deixar-me me fez ir por aí. Precisei ser dor para ser forte, ser o atordoo para encontrar Norte, precisei me ver diminuída segundos antes de finalmente crescer. Até você nos deixar, te amar era tudo o que eu tinha, tudo o que eu era. E mesmo para um amor tão grande, em resumo era pouco demais para que eu só o fosse. Precisei ser destruída em miúdas partes para entender que a gente não completa ninguém o fazendo carregar nossas incompletudes.

Diego Engenho Novo


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Jogou as flores pela janela meio aberta e mandou que saísse. Que deixasse livre a sala do apartamento, que deixasse livre a vida que era dela. Antes de vê-lo ralentar a porta para não deixar bater atrás de si, disse novamente aquelas palavras que a tanto tempo perseguiam Lilian – Você é louca, sabia? – para a qual ela respondeu com uma espécie de grunhido, do tipo que só as doidas dão.

Talvez estivesse mesmo ficando meio pirada, mas naquele instante, ela era toda a razão. Quem sabe se arrependesse em uma ou duas horas, mas talvez não. O que Lilian sabia era que naquele instante manda-lo ir embora era tudo o que podia e gostaria de fazer. Sem plano adiante, sem grandes reflexões, sem noite mal dormida. Apenas mandou que saísse após se sentir mais uma vez diminuída. Fez-se gigante.

Sentiria sua falta na oca de cobertores? Pensaria mais nele quando chegasse o domingo? Provavelmente. Se manteria firme em seu ato de mantê-lo longe até que virasse hábito? Ou correria atrás dele desejando um único perdão que consertasse aquela lambança toda? Não sabia. Não era a obrigação dela ali. Por doida já havia passado, a fama já tinha. Decidiu usar isso para não enlouquecer.

Estava errada em sua raiva desmedida? Imaginando coisas onde nada morava? Estava exagerando ou estava dando a ele a resposta exata que merecia? Só mesmo o amanhã diria. Naquela noite dormiu sozinha, dolorida, mas respirando mais aliviada. Naquela noite não sentiu culpa, insegurança, medo. Ele havia levado com ele toda a confusão de sentimentos com as quais a envolvia. E, veja, que grande ironia, havia ficado ela apenas com sua loucura emprestada e a certeza de que naqueles minutos de paz que lhe rondavam, ela estava coberta de razão. Fez o que queria. Feito raro nos dias de hoje.

Diego Engenho Novo


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(leia ouvindo isso: http://goo.gl/g4HbBf)

Não é possível, curar seu coração após feri-lo, abraçar sua solidão enquanto parto, permanecer ao seu lado agora que não estamos mais lado a lado. Não é possível, abrigar suas lágrimas e as minhas ao mesmo tempo. Não é possível segurar sua mão enquanto a solto, dobrar nossos sonhos com cuidado como quem os guarda para o amanhã. Eu não estarei aqui ao amanhecer.

Não é possível, tomar fôlego sem sentir seu ar, ainda próximo, ainda aqui. Não é possível retomar o começo, consertar as estradas, salvar-nos de nós mesmos. Não é possível engolir palavras, mas apenas cobri-las com palavras menos doloridas, como que as colocando pra dormir.

Eu não posso acompanha-lo em sua dor, nem amar de volta na amplitude que desejou. Mas eu espero verdadeiramente que alguém possa. Ainda que esse alguém seja você mesmo. Sigamos sem culpa, sem arrependimentos, porque na vida se tenta até acertar ou errar de vez. Nós fomos erro e acerto. Mas agora não é possível que eu proteja seus pés do caminhar pelas sombras. O que restou do meu amor só ilumina lembranças que de mim também partirão com o tempo.

Redescobrir nossas pequenas partes, repartir nossas descobertas e seguir com nossos tantinhos. Eles que juntos se faziam gigantes e um passo afastados já são menores. Mas não é possível continuar. Há um momento em que dois rios que se encontraram tornando-se o mesmo leito, despedem-se pra se tornarem mar. Nem mais juntos, nem mais separados. Outra coisa.

Diego Engenho Novo


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Fui visita-la no hospital. Nada sério. Andreia iria sair logo dali, mas eu não perderia a chance de contrabandear chocolate, maquiagem e um tablete, à pedido dela. Deixando-nos a sós, Igor, seu namorado há um ano, sumiu no corredor sorridente – Tem muita gente querendo te visitar. O Mauro falou comigo ontem – e ela ficou branca, ainda bem que estávamos num hospital – Diga a ele que eu morri – fechando a cara.

Mauro e Andreia namoraram por cinco anos. Em meio a planos de casar e ter mais filhos que Jolie e Pitt, terminaram porque ele não conseguia cumprir uma cláusula do contrato do casal que era determinante para Andreia – Mauro não podia ser fiel. Não fazia parte dele. Alguns anos se passaram, o Igor apareceu, Andreia voltou a ser feliz em par, mas algo não mudou. Mesmo que ele não tenha mais nenhum significado na vida dela, Andreia não consegue perdoá-lo.

Eu entendo, difícil mesmo esquecer da dor provocada por alguém que devia justamente nos proteger dela. Difícil deixar pra lá o fato de que a mesma pessoa pode nos levar para um voo alto e, sem mais nem menos, nos deixar cair. Ainda assim, eu espero que um dia a raiva que ela sente, possa se dissipar, se transformar em outra coisa mais leve de carregar – Espera! Não diz pra ele que eu morri. Você entrega um bilhete pra mim? – se ajeitando na cama.

Eu adoraria perdoá-lo, mas isso ainda não é possível. Diante de toda a dor que vivi, fica difícil afastar a raiva que me obriguei a sentir para poder esquecê-lo. Àquela altura, raiva ainda era uma motivação pra me fazer reagir. A boa notícia é que não o odeio, não o quero mal. Eu apenas não o quero por perto. Por perto só mantenho pessoas que admiro, pessoas que significam algo. Encontrá-lo seria me reencontrar com a garota que já fui e o homem que você foi pra mim. Ambos não existem mais. Eu não sou mais triste. Talvez seja hoje feliz como nunca fui: com mais maturidade, entrega e segurança de que encontrei alguém que enxerga a preciosidade do que temos juntos. Um dia, Mauro, eu realmente o perdoarei e estaremos ambos livres, mas você também terá perdido a última e mínima ligação que ainda tinha com a verdade. Viva com suas mentiras pelo tempo que elas puderem durar”. Ela estava curada.

Diego Engenho Novo

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Resposta à carta da leitora Joice de Três Lagoas-MS

Foto: Zastaki.com

 

Oi Diego, eu leio seu blog há dois anos e sempre me vejo de alguma forma nas suas palavras. Acabei de terminar um namoro de pouco mais de quatro meses. Ele era do bem, atencioso, carinhoso, mas depois de alguns meses, simplesmente fui me cansando, me sentindo sufocada. Terminamos. Terminei na verdade. Eu fiquei triste, mas fiquei ainda mais aliviada. Isso não seria grande coisa se já não tivesse acontecido várias vezes comigo. Se você me perguntar porque meus relacionamentos anteriores acabaram, eu te juro, que não sei. Nenhum deles durou muito mais do que alguns meses, acho que todos eram caras incríveis, que hoje me acham uma maluca. Eu sou maluca? Tenho a sensação de que nunca terei uma relação de verdade. E agora medo de conhecer outro cara legal e passar por tudo de novo, machucar ele. O que eu faço? (Joice – Três Lagoas-MS)


Joice você não tem ideia da quantidade de gente que está lendo isso agora e pensando – gente, essa sou eu! Sim, muita gente sofre da síndrome do Doce Novembro. Sabe, aquele filme? Nele, uma moça se relaciona com um cara por mês e depois some do nada. Ela não quer se apegar (nem pode), mas também acredita que os primeiros 30 dias são mágicos, seguidos de cobranças e frustrações de ambas as partes.

Tem gente que, vivendo dessa síndrome, começa a sabotar o próprio relacionamento depois de uns meses – mesmo que inconscientemente – porque fica assustada quando a magia do novo vai dando lugar a uma visão mais realista da coisa. De certo modo, nossas máscaras vão caindo, e pra não ficarmos expostos, fugimos. A gente tem medo que o outro perceba que somos cheios de defeitinhos. Abandonamos para não sermos abandonados. Péssima ideia.

Tem também quem sabote os próprios relacionamentos porque internamente acredita que não merece ser feliz. Sim, em diversos momentos da vida, nós jogamos contra o nosso próprio time. Seja por falta de autoestima, seja por que tivemos uma criação de pouca valoração. Freud explica.  Há uma opção mais leve e totalmente compreensível: vai ver que você se sente muito nova para algo mais sério e quer conhecer outras pessoas. Qual o problema nisso?

Pode ser um monte de coisas. Uma terapia ia ajudar. Não, você não é maluca. A consciência de que tem algo esquisito nessa história é a maior prova disso, rs. Mas às vezes a gente precisa de ajuda mesmo pra desanuviar os sentimentos, pra ter paz com nosso próprio silêncio.

Independentemente das respostas que encontrar, eu quero que você saiba que eu acredito que você vai superar isso e passar a ter relacionamentos mais profundos. Com maior entrega, com perdão mútuo, vendo a magia que existe também nas sombras do outro, na redenção que a maturidade vai trazendo aos poucos. Um dia a gente percebe que fugir do sofrimento vem acompanhado de uma sensação de liberdade, mas que só somos livres mesmo quando decidimos ficar e fazer que nossa estadia seja doce, pelo tempo que durar. Vai sem medo, Joice.

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Quando meu som desaparecer no ar, após ondas cada vez mais fracas, de quais palavras você lembrará? Quando minhas cores se aquarelarem nas lembranças, após tons cada vez mais envelhecidos, qual imagem ficará guardada?

Se meu olhar não esteve sempre tão visível, o levo agora ao seu, para que fiquemos quites. Guarde contigo as linhas dos meus olhos e o que nelas sempre esteve escrito. 

Quando eu me tornar uma ilha distante, seus pés inconformados com o frio buscarão meu alcance? Até você me apagar, saiba que reaprender a viver sem ti é quase tão difícil quanto me reinventar. E eu não gostaria de ser outra coisa que não seu.

E serão cada vez menos constantes os rostos na rua que se parecem comigo, e vai se calar o telefone que toca e ainda sou eu, e vão se espaçar, até esvaírem-se os sonhos que te acordam como se fossem verdade. Um encontro marcado onde ainda somos possíveis.

Um dia nós vamos nos perder como se perdem da memória os poemas antigos, apagados, verso após verso não dito. Mas nós dois sabemos, que mesmo esquecidos, poemas antigos ainda falam de amor.

Diego Engenho Novo