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saudosismo

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Chovia há dois dias seguidos. Minha mãe atravessou a cozinha determinada, pegou um graveto à porta e começou a desenhar algo no chão de terra laranja que polvilhava o quintal. Meus olhos de moleque se estiraram. Adulto no chão era algo que não se via o tempo todo. Ela estava desenhando. Ela estava desenhando um sol. Pouco tempo depois, a chuva calou e o sol se sacudiu lá fora. Incrível, mãe.

Lembrei-me hoje disso. Chuva danada aqui dentro de mim. Trovoadas nos pensamentos. Eu tenho sido pesado pra mim mesmo. Tem sido difícil me levar adiante. Desenhei essa manhã um sol pequetito no meu pulso. Com todos os pensamentos naquela manhã em que a minha infância se tornou mágica. Será possível que o sol se abra também em mim?

Repeti isso muitas vezes ainda quando criança. Mal anuviava, já corria eu com a vareta pra rabiscar o quintal. Na maioria das vezes, a chuva me ignorava, um besourinho. Mas quando ela respeitava meu ritual, quando desenhar um sol fazia mesmo parar de chover, todas as vezes que não havia dado certo simplesmente desapareciam.

Claro, resultado do acaso, da imaginação dos pequenos. Deus está mais ocupado abrandando corações galvanizados. A luz precisa ser convidada para aquietar-se dentro da gente. O medo precisa entender que preferimos observar a coragem se espreguiçando. A dúvida precisa aceitar que ela passa e nós, como é de praxe, sobrevivemos. Após o tempo fechado há temperança. A chuva permanece lá, a gente é que vai entendendo que às vezes nuvem também é bênção.

Diego Engenho Novo


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Ninguém disse pra gente que um dia nós teríamos preocupações maiores do que passar de ano. Ninguém contou que não haveria volta após nosso primeiro cadarço amarrado, nossa primeira ida independente ao supermercado, nosso primeiro coração despedaçado. Ninguém disse que o sono que nos arrasta de volta pra cama, um dia, simplesmente iria embora, deixando a gente na companhia dos pensamentos lentos e dos filmes antigos na TV.

Foram contando aos poucos, que o céu não era azul e que o velhinho vestido de vermelho e barba no shopping ganhava por hora pra ouvir da gente nossos perrengues. O que ninguém contou é que ser adulto é olhar cada vez menos pro céu e contar cada vez mais para os estranhos os perrengues da gente. Para alguns deles, a gente também paga por hora.

Ninguém disse que a comida da nossa mãe, da qual a gente mais reclamava, era a que um dia ia fazer mais falta. Ninguém disse que os amigos poderiam um dia sumir tão magicamente quanto apareceram, após cumprirem sua missão graciosa de nos ensinar um truque novo. Porque raios ninguém contou que um dia nossas gordurinhas e dobrinhas iam deixar de ser graciosas pro mundo? Eu adoro as suas. Adoro tudo que venha com você. Adoro tudo que fica comigo.

Ninguém disse pra gente que havia dor maior que caco de vidro na sola do pé, testa fincada na quina da porta, maior do que as dores dos dentes cadentes feito estrelas. Ninguém disse que depois de crescidos, chorar não ia resolver grande coisa. Que chorar só iria fazer jorrar uma fonte abundante que a gente carrega por dentro e que o povo antigo chama de fé.

Diego Engenho Novo


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Passe quanto tempo passe, aconteçam quantas mudanças aconteçam ao centro de nossas órbitas: reencontrar um olhar cúmplice, um cheiro conhecido, um abraço despreocupado é sempre reencontrar-se. Se pessoas são lugares, encontros são estradas. Reencontrar é pôr-se em trânsito, na ânsia das chegadas, no ímpeto das partidas. Reencontrar é colocar a alma para viajar como um carro antigo que volta às curvas de uma estrada conhecida, sem pressa.

A dádiva do reencontro fica mais clara, é claro, sobre as costas largas do tempo que se espreguiça, ainda que também seja possível reencontrar quem se vê todo dia. Reencontrar com a mesma doçura quem se viu antes dos sonhos, quem se reencontra na régua tórrida dos dias, no empilhar quase metódico das horas, quem a gente sempre tem à mão para dividir nossas banalidades mais simplórias. Penso até que amar é reencontrar alguém todo santo dia.

Reencontrar um olhar que descansa, um afago que toca, uma música que remete, um assunto que se continua após anos e anos como se só tivesse esperado a fervura do café. Alguém que traz consigo um tempo em que o tempo parecia ser mais distraído, alguém que nos devolve a firmeza da pele, a abundância dos cabelos, o aveludado da voz, alguém que nos devolve uma parte de nós que a gente nem sabia mais que existia. Reencontros deviam ser vendidos em potinhos: o melhor anti-idade que existe.

E devagarinho a gente nota que a beleza da vida também vive na fidelidade dos ciclos. Porque quem vai e nos deixa mais vagos, quem parte e nos reparte em gomos, quem constrói pontes de saudade que ligam um lugar a si mesmo, quem esmaece da retina e da rotina, mas a gente nunca esquece, também um dia volta. E nós, que até então éramos só um tantinho menores pela falta, nos tornamos imensos pela presença, abençoados pelo reencontrar. Ontem reencontrei meu amigo Glauber.

Diego Engenho Novo


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Em uma pequena portinha da Avenida São João. Foi ali que esperei por alguns minutos até recuperarem para CD uma fita K7 que encontrei em uma caixa antiga. Não havia nenhuma inscrição, capa, nem pista, nadinha. Só mesmo as escritas do tempo em seu acrílico ralado e um lado mais ouvido do que o outro dos lados. Em casa, sentei-me ao lado da janela como quem vai ouvir um amigo que telefona do exterior. Não era uma música. Era a voz de um menino. Era eu.

Som, som, som, testando. Gravando! Eu sei que com o tempo você vai se esquecer, mas hoje, tudo o que você mais quer é ter algum significado. Você tem? Encontrou pela vida pessoas que te amam muito, que cortariam o dedo por você? Você foi pra Índia, pro México, pra um faroeste? Sentiu o cheiro de um camelo? Você já comeu caramujo? Você já encontrou alguém que ame tanto que sinta dor de barriga? Você aprendeu a pilotar um avião?

Hoje na escola, a professora deu um livro e um desafio: quem em meia hora conseguiria encontrar mais palavras proparoxítonas (isso te serviu de alguma coisa? As proparoxítonas e a raiz quadrada de oito?). E não é que você ganhou? A professora disse que você era bom em encontrar palavras e você discordou, por dentro. Por que, não sei aí na frente, mas aqui, a gente sente que ainda não encontrou as palavras certas pra dar nome pro que sente. Você se encontrou com elas? Eu ainda existo por aí? Mesmo que um pouquinho em você? Eu ainda existo ou eu dei lugar para alguém que não entende nada de camelos, o animal mais incrível que existe? Tenho que ir. Câmbio desligo.

Fiquei ali, encolhido, meio que sorrindo, meio que chorando. Queria que ele soubesse que, sim, eu amei até sentir dor de barriga e tantas outras dores. Doeu pra caramba e foi incrível, vai entender. Que sim, eu encontrei algumas palavras, mas que muita coisa na vida prefere não ter nome. Que sim, me encontrei com gente que me amou bem mais do que eu já mereci. Você ficaria contente em saber que acabei de comprar uma passagem. Acabei de me lembrar que meu mundo é bem maior que essa ilha de sentimentos indigentes. Em março, sentirei o cheiro de um camelo, o animal mais incrível que existe. Eu prometo.

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“Mãe, o que tem depois da estrela, lá atrás?”. “Lá atrás, filho, mora o infinito”. E eu fiquei ali, olhando, tentando manter meu pensamento indo, indo e indo. O máximo que podia. Eu queria medir, eu queria alcançar a distância entre o começo e o fim do que jamais termina.

Apertava os olhos, tentava contar, me imaginava viajando entre as estrelas, que geravam estrelas, que recebiam estrelas, que passeavam estrelas, que passavam, que cuspiam novas estrelinhas menores, que brotavam estrelas maiores, sem fim. Mas o infinito sempre acabava.

Eu queria tocá-lo, eu queria entendê-lo. Se eu, que era um dos maiores garotos de oito anos da rua, começava na ponta do cabelo e terminava de algum jeito em todas as direções, também tinha que terminar o breu do céu, o quintal das estrelas. O céu era o menino mais alto da rua. Se o infinito começa de algum lugar, também deságua em outro. Tudo tem que acabar, nem que seja nas voltas de si mesmo.

Ninguém poderia desenhar por toda a vida, por dias e noites, sem repetir o traço, sem adormecer sobre o esboço. Um dia, eu sabia, o tempo teria ficado cansado e simplesmente parado. Fim do infinito. Um dia, o tempo teria parado de tecer, arrematado as bordas e dobrado em quatro partes. É isso, está lá em algum lugar, a rua sem saída das estrelas. A beirada dos sentidos, a ribanceira do esquecimento, as margens do infinito, a minha resposta.

“Isso não está certo, mãe”, injuriei. “O que não está certo, filho?”, me olhou enquanto eu apertava os olhos entre as estrelas. “O infinito não ter fim. Não pode ser. As coisas que não acabam não tem graça de nada. Imagina um dia de escola infinito, um filme infinito, um sorvete infinito. As coisas só têm graça quando a gente sabe que elas vão acabar”, disse em tom científico. “Você está certo. O céu não parece mesmo ter muita graça, filho. Ele é escuro, desorganizado, frio e distante. Isso não parece coisa de coisas infinitas pra você?”, apoiada nos cotovelos. “Mas você disse que ele é, não disse?”, inconformado. “É o que o meu pai me disse, filho, que o universo é infinito em todas as direções”, tentou novamente minha mãe.

“Mas alguém foi lá, mediu, tirou foto no infinito?”, com as mãozinhas na cintura. “Menino, não tem como fazer nada disso. O infinito não existe”, perdendo a paciência. “Mas você acabou de dizer que existe! Eu não estou entendendo. Eu não estou entendendo, mãe”, emburrado. Ela riu alto e me abraçou, me abraçou, me abraçou e eu entendi. Havia um pouco de infinito ali, um infinito pequenininho só entre nós.

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Imagem: huffingtonpost.co.uk

Esta é uma carta de despedida. Prefiro escrevê-la agora, no auge da vida, no topo do sentimento, enquanto as vistas ainda voam largas, enquanto escuto meu coração forte, enquanto morrer me parece uma fábula fantasiosa distante e sarcástica. Prefiro me despedir agora, antes que o medo me abrace e que o tempo me encolha e que as palavras me faltem à memória, antes que toda a minha felicidade seja apenas um lapso de memória escrita nas linhas fundas do meu corpo.

Prefiro dizer adeus hoje, porque estou feliz, profundamente feliz e gostaria que você se lembrasse para sempre de mim desse jeito. Na minha rua, há um jardim que não é meu. Todas as manhãs eu estico meus dedos para alcançar a ponta dos capins, eles em sua briga eterna contra a tosa educada do jardineiro. Faço isso porque tocá-los me lembra quem sou. Cumprimentá-los me lembra que devo continuar me esticando em direção à luz, como um menino, tentando ver o show do meio da multidão, o espetáculo que é estar aqui.

Se fecho meus olhos, enxergo milhares de fotos: do mar, das ondas, do mato, do quintal da minha avó, das portas, das janelas, dos segredos, dos beijos, de todo o amor que recebi e que dei. Pense em mim assim, como alguém que buscou mais que respostas, mais do que sensações, mais do que motivos que justificassem uma vida inteira. Buscar só foi meu pretexto para andar por aí.

Cada segundo vivido, cada sentido alimentado, pra mim foi intenso, verdadeiro e mágico. Mesmo que eu me torne somente pulso, luz, estágio, eu seguirei amando a todos que tive no horizonte dos braços. Quando sentir saudade, não olhe para o céu, dona Beta. Olhe para o capim, que começa pequeno, sem valor e se torna vasto. Crescendo e crescendo em sua insistência silenciosa, em sua existência delicada. É ali que está toda a grandiosidade.

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Estávamos ali, quase vinte minutos sem dizer uma palavra, apenas observando a lagoa estendida à nossa frente, um cetim verde escuro esticado, dormente. Caramba! Três anos sem ver Rafaela – Isso deve até ser crime em algum país islâmico – brincou ao me abraçar com demora no Galeão. Nosso abraço nunca tinha pressa.

Três anos sem nossas conversas longas, sem seu olhar intrigado, sem seu cheiro de cigarro de palha misturado com sândalo. Rafa tinha aquele cheiro doce de manhã que eu adorava. A vida criara uma constelação entre nós, com vários sóis, estrelas e planetas maiores. E a gente ali, dois planetinhas que se gostavam, orbitando cada vez mais longe.

A gente se amava, muito, claro, ela era uma das minhas melhores amigas, mesmo que eu jamais tivesse dito isso. A gente não dizia por que achava que nunca ia precisar desse tipo de coisa. O nosso amor era tátil, físico, como uma terceira companhia. Se íamos jantar, havia um terceiro prato, se viajávamos juntos havia uma terceira cama no quarto, no cinema, comprávamos o assento do meio para ele, o amor. A gente nunca foi lá muito bom da cabeça. Nenhum dos três.

Estávamos sempre com um assunto novo na ponta da língua, um novo passeio a fazer sem precisar largar as taças banhadas de nosso vinho preferido. Era de um tipo seco, tinto, chileno, daqueles baratinhos que a gente costumava tomar nos tempos de faculdade. Por mais que a gente já pudesse tomar vinhos melhores em taças mais caras, beber aquele vinho era como voltar no tempo sem pagar pelo excesso de bagagem.

– A gente nunca disse que se amava – Rafa e sua mania de roubar meus pensamentos. Peguei uma folhinha seca ao lado, – Toma! Toda vez que você olhar pra ela vai se lembrar que a gente se ama – Expliquei – Nós somos livres como essa folha que, mesmo dispersa, jamais deixará de ser parte de uma árvore, ela sempre será parte de algo maior. Agora…se você segurá-la assim ó, consegue ver a dimensão do nosso sentimento – Nosso amor é do tamanho da folha? – encafifada. – Não, nosso amor é tudo que há em volta dela – dois planetinhas outra vez em silêncio.

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Maurício é meu amigo desde criança. Rodou o mundo, arrasou corações, nunca foi lá o melhor aluno, mas ficou rico rápido ao lado do pai no ramo imobiliário. Quando nos encontramos, mesmo após um ano inteiro de distância, nos sentimos retomando o assunto de ontem. Ele me dá uns tapas fortes sobre os ombros e diz que eu estou ficando careca. Toda santa vez.

– Você usa boné? Boné faz perder o cabelo – provoca. Tento responder que não, mas Maurício já está lá na frente, subindo a árvore dos três mundos. Nós vínhamos aqui sempre, quando crianças. Passávamos horas lá em cima, imaginando como seria o futuro, desenhando quem seríamos. Eu queria curar as pessoas, não ser médico, que nunca me dei com sangue. Eu queria curar o coração das pessoas -Psicologia? Isso não dá dinheiro – irritava o pequeno Maurício. Não era isso. Psicólogo conserta a cabeça das pessoas, ajeita as ideias soltas. Eu queria consertar corações. Corações quebradiços como o meu.

 – Lembra que você queria ser embaixador nos Estados Unidos? – sorri esticando a vista na direção do galho no qual ele se equilibrava – Hoje eu poderia comprar aquela joça – riu e depois parou – Você é feliz? – Maurício tinha dessas de fazer pergunta complicada. Respondi que às vezes me sentia feliz e que pela média geral de pequenas felicidades me considerava mais feliz do que vazio.

– O contrário de ‘feliz’ é ‘triste’, ô burro! – dessa vez foi o Maurício de doze anos quem disse. Mal sabia ele que o triste remoía algo, perdido ou não encontrado. O triste sentia falta, saudade, raiva encolhida. O vazio não tinha nada, nem alegria, nem tristeza o afetava. O vazio tinha um monte de coisas ocas, histórias ocas, memórias rasas. Existe coisa mais triste do que não ter do que se arrepender? Gente vazia jamais seria algo diferente do que a vida a desenhou pra ser.

O vazio não chorava mais, porque o choro é o transbordo do nosso dique cheio de sentimentos, bons ou ruins – Às vezes eu acho que eu não fui feliz – soltou com o pulso sombreando os olhos – Como não? Você ainda tem cabelo, Maurício! – arrancando uma risada alta dele. Olhei nos olhos grandes do meu velho amigo e percebi que ele não era nada vazio, muito pelo contrário, havia um lago inteiro ali. Cheio, bem cheio. Talvez, meu eu menino tivesse razão: ao menos um coração eu ajudei a consertar.

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Aos poucos a saudade foi tomando conta de mim, como a maré que vai embrulhando a praia devagar, mas com força. Como o mar que pisa no chão, a saudade foi me inundando. A saudade contornou-me os dedos compridos das mãos, foi preenchendo o pontilhado do meu entorno, a saudade foi me tornando quem sou.

A saudade segurou-me os pulsos, como quem diz “Não vai não!”, e foi ela mesma quem me lembrou de que tudo na vida se esvai. A saudade foi me vestindo os braços como a roupa pesada de inverno, com cuidado. Tomou-me o peito para si, beijou-me os ombros com delicadeza, a saudade não teve pressa ao passar por mim.

A saudade sombreou meu rosto, meus olhos, meus cabelos, meus pensamentos. A saudade me fez olhar outra vez lá para trás, como quem rememora: “Ei, você tinha notado isso?”. Tarde demais, depois de ir para tão longe, eu só conseguia pensar na falta que ainda me faz observar aqueles ombros miúdos.

Antes mesmo dos fins, ainda abrindo cada novo começo, a saudade já vinha se deitar aos pés da cama, como um cachorro envelhecido. A saudade passava todas as suas noites me assistindo, velando a minha cegueira, encantada pelos meus pés descobertos, encantada por me descobrir. A verdade é que a saudade sempre esteve aqui.

Por fim, a saudade abraçou minhas pernas, fez-me jurar jamais abandoná-la, como Maísa, Florbela, Frida, a saudade queria-me para ser só dela e de ninguém, de ninguém mais. E assim, a saudade se pintou de noiva, casou-se comigo, fez-me jura eterna. E assim, a saudade se deu de presente e hoje o meu mundo inteiro também é ela.

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Parou e fincou os pés na areia, como se jamais fosse sair dali. Olhou demoradamente para as ondas acinzentadas – Você não vai entrar, Natan? – esticando o olho – Não, pai. Eu não gosto de entrar, eu gosto de olhar – respondeu o homenzinho.  Acho que nesse dia, Natan resumiu, sem querer, minha questão de uma vida inteira. Assim me parecia o amor: uma força incrível da natureza, majestosa e perigosa, que eu preferia observar da areia, sem ter que lutar contra as ondas.

Quando caminhávamos nas pedras, Natan puxou-me as pontas dos dedos, chamando a atenção, sem querer fazer barulho – Olha aquilo, pai! – eram cavalos-marinhos – Um dia, Natan, eu tinha quase a sua idade e ouvi uma história que jamais saiu de dentro de mim – colocando-o numa pedra mais alta – Era sobre uma corrida. Uma corrida de cavalos-marinhos. Mas, eles não competiam pra ver quem chegava primeiro. Competiam pra ver quem cruzava a linha de chegada por último -olhando para aqueles olhinhos esbugalhados.

Natan amarrou os beiços. Não queria interromper, não a mim, mas aos cavalos da história – Você deve estar pensando que isso não tem a menor lógica, não é mesmo? – a cara dele confirmava que sim – Mas você precisa entender que os cavalos-marinhos estão sempre sendo levados pela correnteza. A competição não é sobre agilidade, mas sobre força, sobre quem se mantém por mais tempo acima da ansiedade – aquele finalzinho ele não pegou.

Como ensinar pra um guri de oito anos o que era ansiedade? – O que é ansiedade, pai? – pronto, caminho sem volta. Fui tentando. Ansiedade era perguntar se tava chegando do banco de trás do carro, era querer abrir todos os presentes logo duma vez no dia do aniversário, era ficar com medo de tirar nota ruim na prova de geografia, ansiedade era querer que o tempo soprasse a resposta do enigma, roubasse no jogo, piscasse um sinal com o olho. E ela vai arrastando a gente para futuro como uma corrente do mar. É preciso ser forte para viver o presente.

Não sei se o Natan entendeu completamente. Ele estava mais preocupado em observar os bichinhos, em vê-los graciosos, de um lado pro outro. Natan ria. Virava o corpo pra trás, segurava na barriga e ria mais. Ele estava mais preocupado em amar cada nova descoberta, como quem ama o mar de fora, sem tocá-lo. Natan não estava preocupado em entender os contextos, nem ler os futuros. Natan estava compenetrado em escrever o presente.

Diego Engenho Novo


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