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palavrac

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Eu devia ter uns doze anos quando meu pai me contou que ia me levar parar viajar com ele de caminhão. Com minha mochila miúda, seguimos os dois em direção a Belém. A estrada linda, de cílios verdes alongados ia me saudando e se despedindo em um movimento só, através da janela. Eu adorava ficar ouvindo as histórias engraçadas do meu pai enquanto sentia o vento gelado da noite ou quente da tarde no meu rosto.

Em certa altura da viagem, em uma cidadezinha encoberta pela poeira da estrada, vi uma fila de garotos, cada um com uma pá, lata, enxada, qualquer objeto que lhe valesse para carregar terra. Os buracos da estrada iam pipocando e, para cada um, havia um garoto de prontidão. Eles enchiam o buraco de terra e quando o caminhão se aproximava estendiam a mão, pedindo uma moeda por terem consertado a ferida que eles mesmos haviam feito.

Meu pai disse não para o primeiro. Negou o segundo. Balançou com a cabeça pro terceiro. E foi dizendo não, para aquela fila infinita de garotos cobertos de poeira. Foi aí que ri, ingênuo, quase maldoso e lancei – Que burros. Porque eles continuam pedindo se viram que você já disse não pros primeiros, pai? – Meu pai freou o caminhão e, ao contrário do que pensei, não brigou comigo. Papai sorriu, doce. Abriu a janela e deu algumas moedas para um dos últimos meninos da fila – Cada menino continua insistindo porque não foi pra ele que disseram não, filho – ajeitando meu cabelo suado.

Levei isso comigo por uma vida inteira. Para as portas mais impossíveis, para os degraus mais inalcançáveis, para as derrotas mais temíveis, guardei comigo, que até me dissessem não, nada me haviam negado. Para os medos mais irracionais, para as inseguranças mais solitárias, para os caminhos inférteis em que tantos já haviam falhado, segui. Estirando meu peito aberto às possibilidades, estirando minha mão grata pela tentativa. E após muitos nãos, após quase todos os nãos, veio-me o sim. Veio da mesma porta que para tantos já havia se fechado antes. Mas não para mim.

Diego Engenho Novo


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Conheci Zofia há alguns anos quando a recebi em casa. Ela viajava pela América do Sul com sua mochila e ficou uns dias lá em casa. Sempre muito doce, ensolarada, Zofia adorava falar sobre suas andanças pelo mundo. Zofia foi a polonesa mais brasileira que já conheci.

Em seu último dia na cidade, lhe dei uma escultura de madeira em formato de pássaro que ela havia adorado na feirinha de artesanato. Era pequena, cabia na palma da mão. Ela a pegou, aninhou entre os dedos, me abraçou e disse – Obrirrigado – com seu português meio polaco. Foi aí, que ela me ensinou uma das coisas mais lindas e difíceis que já aprendi na vida.

Ela beijou o pássaro e me devolveu, como quem entrega uma criança recém-nascida, de um par de braços para o outro – Você não quer? – perguntei meio sem jeito – Eu não posso levar. Vai pesar na mochila. Só o essencial. Só o essencial – sorriu e saiu andando para a cozinha. Fiquei ali parado com o passarinho na mão, meio boquiaberto. Nos primeiros dois segundos achei de uma grosseria sem precedentes, mas aí me veio o voo.

Ela tinha muito mais motivos para se ofender que eu. Afinal, eu estava tentando lhe dar algo que ela não podia carregar. Em mochilas de viajantes, tudo é peso. Cada pequeno objeto deve ser muito bem pensado, porque é a soma deles que torna uma mochila possível ou impossível de se carregar. Pra mim, aquele passarinho não pesava nada. Pra mim. Pra ela era presente de grego.

A gente vive fazendo isso. Quando não fazem isso com a gente. Oferecemos um peso, uma cobrança, uma necessidade de afeto que o outro não pode carregar pelo simples fato de que para nós é fácil e muitas vezes até prazeroso. Quantas vezes já nos deram responsabilidades que não eram nossas? Culpas que não cabiam na bagagem da gente? E a gente carregou sem reclamar. Depois de conhecer Zofia, aprendi. Se sei que não será possível, eu agradeço e devolvo com cuidado pra não machucar. Sigo carregando só o que é essencial.

Diego Engenho Novo


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Lucas tinha sido transferido pra cidade há poucos dias. Como não conhecia ninguém, Aline foi encarregada pela chefe de leva-lo pra conhecer a noite. Ao chegar na frente do prédio, viu que ele não combinava muito com os outros rapazes do departamento de TI: ele era forte, alto, bem vestido e tinha um sorriso que a fez esquecer como se engatava a primeira marcha. Mas quando o milagre é muito grande, já viu, né? Não falava com ela direito. Mal olhava na cara dela. No primeiro bar, ele detestou tudo. Seguiram pra uma festa onde Aline se desdobrou para apresentar todas as suas amigas pro bonitão. Uma era chata, a outra baixinha demais, para todas ele dava um defeito perfeito. Chato era ele. Em certo ponto, Aline não aguentou mais. Disse que ele era metido, arrogante, prepotente, antipático, disse tudo o que tava entalado e saiu andando.

No dia seguinte, seu telefone toca. O número era desconhecido, mas a voz era a dele – Desculpa, eu não queria te chatear ontem – quase sem conseguir terminar – Meu Jesus amado! O que é que você quer? Você já infernizou minha noite. Eu paguei caro naquela roupa! – esbravejava do lado de cá – Mas eu não entendi. O que te deixou tão irritada? – Como assim, Lucas? Como você pode ser tão idiota! Eu te apresentei todas as minhas amigas. Eu te apresentei as mulheres mais bonitas que eu conheço e você desdenhou de to-das – foi a vez dele interromper – Você não entendeu nada, Aline. Eu estava interessado em você – silêncio letal, talvez ela tivesse desmaiado – Estava? – sem entender direito – Eu estou.

Aline me contou isso quase chorando e eu tentando não rir. Porque era muito dela promover aquele tipo de desencontro. Era muito dela se colocar nos bastidores, fugir do foco da luz, não aceitar elogios como quem devolve um buquê de flores. Como se isso fosse realmente possível. Era muito dela sempre acreditar que o melhor havia de ser para os outros, era muito dela desacreditar da própria beleza. Era muito dela não reconhecer seu humor adorável, não enxergar o que todo mundo em volta podia ver, que ela era uma mulher incrivelmente magnética. Aline sempre me dizia do quão era difícil acreditar, que ela não era capaz de se enxergar assim – Tudo bem, se você não consegue acreditar nisso, pelo menos desconfie.  A gente precisa, vez ou outra, desconfiar da nossa autocrítica, da autoestima que é por vezes míope e não consegue enxergar a beleza que está bem perto, que está na gente.

Diego Engenho Novo


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Com minhas mãos amedrontadas, te amo. Com meu beijo sem fome, te amo. Com toda a minha distância, te amo. Com meu olhar lacônico, te amo. Com meus pés que machucam enquanto dançam, te amo. Com minha insônia preocupada, com minha fome que por vezes me torna um gremlin odioso, com todas as minhas dúvidas, não resta dúvida nenhuma que te amo.

Com minha falta de jeito, te amo. Com minhas respostas atravessadas, te amo. Com minha falta de memória, te amo. Com meu mau gosto para presentes, amo você. Com minha claustrofobia que não sabe dormir abraçada, com meus horários loucos, minhas manias por escadas, com minha teimosia de velha ceguinha, amo você.

Comendo as pontas das minhas canetas, roendo o dorso das unhas, distraidamente te amo. Com meus pesadelos noturnos, minhas coleções incompletas, minha carência no frio, meu cabelo em ondas revoltas, te amo. Com minha letra que é sempre uma prima distante de si mesma, escrevo que amo você, torcendo para que você me entenda.

Com minha saudade desenfreada, te amo. Com minhas roupas espalhadas pela casa como se fossem pombos, te amo. Com minha incapacidade para abrir embalagens, te amo. Com meus erros de português, minha língua desenfreada, meu sono impróprio quando seu corpo é teso, te amo. Com meu palavreado chulo nas curvas da raiva, com minha resistência tibetana em pedir desculpas, te amo. Com todos os meus erros, defeitos e tropeços pela vida, te amar foi meu maior acerto.

Diego Engenho Novo


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Diziam os antigos que os homens eram anjos lançados à Terra pra aprender os dons do sentir. A eles foi dado um desafio – ao perder uma de suas asas, cada um devia encontrar um jeito de voltar pro céu. Quando conseguissem isso, descobririam também o mistério da vida humana. Centenas de milhares deles, lançados ao mundo, meio mancos. só com uma asa.

Aí, durante milhares de anos, os homens tentaram de tudo pra voltar pra casa. Subiram montanhas que os aproximavam das nuvens, construíram máquinas que os levassem bem alto, plantaram árvores que cresceriam até o céu. Mas nada parecia funcionar. Com apenas uma de suas asas, todos os anjos estavam aprisionados por aqui, sem poder voltar.

Aos poucos, eles perceberam duas coisas fascinantes – primeiro que seu esforço de voltar ao céu, havia desenvolvido, sem querer, os saberes da humanidade. Ao seu modo, cada um havia evoluído em ciência e sabedoria. Segundo, que a resposta pro enigma que os havia trazido sempre esteve ali, ao lado. Abraçados, cada anjo com sua asa solitária formava um par de asas.

E o outro era a benção, e o outro era o equilíbrio. O outro era a liberdade, e também era o sentido. Sempre que penso nessa história, me lembro da minha amiga, Nane. Porque é exatamente assim que me sinto – abençoado pelo nosso encontro. Sinto que juntos poderíamos cumprir qualquer jornada. Nas noites em que eu estivesse cansado de bater minha asa, ela se esforçaria um pouco mais com a sua e nós seguiríamos. Nas tardes em que a fadiga e a descrença a alcançassem, eu tornaria possível e permaneceríamos avançando.

Quando estamos longe, sinto meu mundinho ficar pesado, em processo claro de desequilíbrio. Basta um ‘oi’ e já volto a enxergar respostas, a aceitar caminhos, a ficar levezinho, a flanar em suas histórias. E com tanto amor, tanto cuidado, tanta candura e afeto, nem percebemos que, aos pouquinhos, estamos mesmo retornando. Amigos são a asa que nos eleva e faz a gente enxergar mais longe. Os amigos são anjos que levam a gente de volta pra casa. Assim já diziam os antigos.

Diego Engenho Novo


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Fui visita-la no hospital. Nada sério. Andreia iria sair logo dali, mas eu não perderia a chance de contrabandear chocolate, maquiagem e um tablete, à pedido dela. Deixando-nos a sós, Igor, seu namorado há um ano, sumiu no corredor sorridente – Tem muita gente querendo te visitar. O Mauro falou comigo ontem – e ela ficou branca, ainda bem que estávamos num hospital – Diga a ele que eu morri – fechando a cara.

Mauro e Andreia namoraram por cinco anos. Em meio a planos de casar e ter mais filhos que Jolie e Pitt, terminaram porque ele não conseguia cumprir uma cláusula do contrato do casal que era determinante para Andreia – Mauro não podia ser fiel. Não fazia parte dele. Alguns anos se passaram, o Igor apareceu, Andreia voltou a ser feliz em par, mas algo não mudou. Mesmo que ele não tenha mais nenhum significado na vida dela, Andreia não consegue perdoá-lo.

Eu entendo, difícil mesmo esquecer da dor provocada por alguém que devia justamente nos proteger dela. Difícil deixar pra lá o fato de que a mesma pessoa pode nos levar para um voo alto e, sem mais nem menos, nos deixar cair. Ainda assim, eu espero que um dia a raiva que ela sente, possa se dissipar, se transformar em outra coisa mais leve de carregar – Espera! Não diz pra ele que eu morri. Você entrega um bilhete pra mim? – se ajeitando na cama.

Eu adoraria perdoá-lo, mas isso ainda não é possível. Diante de toda a dor que vivi, fica difícil afastar a raiva que me obriguei a sentir para poder esquecê-lo. Àquela altura, raiva ainda era uma motivação pra me fazer reagir. A boa notícia é que não o odeio, não o quero mal. Eu apenas não o quero por perto. Por perto só mantenho pessoas que admiro, pessoas que significam algo. Encontrá-lo seria me reencontrar com a garota que já fui e o homem que você foi pra mim. Ambos não existem mais. Eu não sou mais triste. Talvez seja hoje feliz como nunca fui: com mais maturidade, entrega e segurança de que encontrei alguém que enxerga a preciosidade do que temos juntos. Um dia, Mauro, eu realmente o perdoarei e estaremos ambos livres, mas você também terá perdido a última e mínima ligação que ainda tinha com a verdade. Viva com suas mentiras pelo tempo que elas puderem durar”. Ela estava curada.

Diego Engenho Novo

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Depois de muitos relacionamentos confusos, de fins, começos e tropeços, me percebi em um relacionamento diferente. Não havia afobação, não havia disputa, não havia espaço pra muito mais além dele, o amor, e nós dois, claro. Seu coração está entardecido – brincou minha amiga Cláudia. Ela havia perdido o marido recentemente. O companheiro de uma vida inteira. Tinha propriedade pra falar de certos assuntos.

Fiquei pensando em como eu tinha sorte de conviver com alguém tão sábio quanto Cláudia. O entardecer, a hora mais doce, quando o dia e a noite param de fugir um do outro e se olham com candura, sim aquela expressão era perfeita para o que eu estava sentindo, vivendo, entardecendo em mim.

Sem a loucura dos carros que buzinam apressados indo para o dia cheio, sem a penumbra que sob a noite oculta segredos, um coração entardecido é revelador, mas brando. Corações entardecidos sabem seu ritmo de ser, apreciam a brevidade das coisas que passam e a preciosidade de tudo o que fica. Eles se rendem à pureza que ri, tem leveza para dizer tudo, generosidade para escutar, fé para guiá-los. Principalmente fé um no outro.

Até meu coração entardecer, todas as pessoas pareciam a pessoa errada, tudo era passagem. Até meu coração entardecer, me desprender parecia fácil e gratuito, o perdão era uma hora distante, quase inacessível. Até meu coração entardecer, toda a força que faria meu relacionamento ir adiante não estava em mim, mas no outro. Peso demais para qualquer mortal carregar.

Até meu coração entardecer tudo o que me desagradava vindo da outra metade parecia uma ofensa direta, ferida inteira. Mas um coração entardecido sabe que devemos antes analisar os desagrados pela lente da paciência e levar à balança de tudo o que já foi construído. Dois corações entardecidos jamais se ferem gratuitamente. Puro exercício de um coração que entardeceu devagar.

Iluminam-se como meninos, aquecem-se de um tanto exato, amam a lógica do tempo invertido, que não corre, não exige. Os amantes entardecidos amam-se sem pressa de chegar. Eles sabem que lá, justo onde já estão, é mesmo a altura que todos têm procurado, como se ali fosse um lugar. E buscam incessantemente, e cercam famintos sem ver, e migram em direção nenhuma, sem saber que o amor nunca foi um lugar. O amor é um tempo, cuidadosamente entardecido pelo lado de dentro.

Diego Engenho Novo

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Resposta à carta da leitora Chloe de São Paulo-SP

ChloeEu estava casada há oito anos com um cara maravilhoso, quando conheci o Phillipe, um estrangeiro que me seduziu e eu achei que era minha alma gêmea. Eu sou uma pessoa explosiva e meio maluca então achei que deveria ficar com ele. Meu casamento já estava um pouco desgastado, mais por causa do tempo, nada demais. Assim, eu saí de casa, deixei meu marido em choque, assim como eu estou hoje.

Apesar de nossas brigas constantes durante os dois anos que ficamos juntos, Philli sempre foi muito romântico e carinhoso, um príncipe mesmo. No final do ano fomos com a família viajar, foi tudo ótimo, ele super amoroso. Depois disso eu voltei para casa e ele ficou mais uma semana com a família no país deles. Ele voltou estranho, seco, uma outra pessoa e disse que nós dois sabíamos que lá na frente não iria dar certo, que era melhor sofrer agora e terminou comigo, assim do nada. Tentei conversar, mas ele estava decidido e não quis volta.

Perdi dois caras incríveis, perdi minha casa, e agora estou aqui sem chão. Ainda não acredito que ele fez isso comigo. Não entendo como a pessoa em uma semana te ama e de repente é outra pessoa que você nem reconhece. Eu continuei amiga do meu ex, que me perdoou, mesmo que eu não tenha me perdoado, mas acredito que o dele sim era um amor verdadeiro. No fundo eu sei que talvez não daria certo e sei que me arrependi de ter deixado meu marido. Mas sei que não queria terminar, queria tentar ser feliz com ele. Agora estou sozinha, destruída e sem saber o que fazer.


Querida, Chloe

Por vezes, a vida parece mesmo brincar com a gente. Ela brinca, mas esquece de nos contar as regras do jogo. Eu sei, parece inevitável assimilar as coisas, pensar que você está pagando agora pelo que fez no passado. Parece óbvio, como somar um mais um e ainda assim, acabar sozinha.

Certa vez escrevi em uma crônica que falava que se você olha para o mar inteiro, ele parece mesmo invencível, insuperável. Mas, se junta as duas mãos e recolhe um pouco de água salgada, neste momento você se torna maior do que ele, porque separou o mar em uma pequena parte, uma parte que consegue domar. Sua história inteira é o mar, te engolindo com ondas que voltam ainda maiores do passado, talvez seja hora de separá-la em pequenas partes com as quais possa lidar. É isso, ou pirar.

Talvez você tenha mesmo feito uma escolha ruim. Quem nunca? Ainda assim, acredito que fazer escolhas ruins é melhor do que não fazê-las. Talvez, se não tivesse agido na época, você estivesse me escrevendo hoje para falar de um gringo charmoso que você conheceu, de um amor que pensou viver, mas não viveu e como era infeliz por isso, por não ter seguido seu instinto de ser dona de suas vontades. Você escolheu, isso foi muito corajoso.

Talvez Philli não volte mesmo, mas quando você associa seu término com ele com seu relacionamento anterior, o está culpando por isso tudo. Philli te amou, algo mudou dentro dele, talvez ele só esteja com medo de como tudo evoluiu tão rápido, tão intenso, talvez em algum lugar, ele saiba que você se arrependeu da escolha que fez. Este homem a amou com tudo que pode, enquanto pode. Isso é lindo. Não deixe que a dor apague.

Tente não culpar, não somar as histórias. Você está sofrendo agora pelo Phillipe, pela falta dele, pelos planos que fizeram, pela dor que está sentindo. É isso ou se afogar. Ninguém é mais responsável pelas suas escolhas do que você mesma. De igual modo, ninguém pode culpa-la por tentar ser feliz da melhor maneira, nem você mesma. Continue corajosa, fazendo escolhas, escolha sobreviver também a isso.

Nós nunca estaremos completos, é isso que nos move: saber que jamais o seremos, e ainda assim continuar buscando sê-lo. Olhe pra esse punhadinho de água em suas mãos e se pergunte: o que posso fazer agora pra me sentir um tantinho mais completa? Essa é a direção mais certa a seguir. Estou por aqui, sempre com você. Vamos vencer o mar, minha querida.

Di

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas)

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"Quando temos esperança, transformamos todas as nossas perdas em algo melhor do que havia antes"

Fica, vai ter bolo. Não posso ser mesmo injusto com o ano que passou, ou está para passar. Ele foi de fato árido, cheio de complicações, com ondas maiores e maiores, mas, de alguma forma, chegamos ao fim dele, um tanto transformados.

A quem perdeu alguém, digo que pessoas não são perdidas. Elas permanecem aquecidas e vivas por muito tempo dentro de nós. Quando sentir saudade, basta lembrar que ela está por aí, em algum lugar, sendo linda, plantando saudades novas, feliz por caminhar.

A quem perdeu tranquilidade, digo que tranquilidade nunca se perde. Ela se ausenta, olhando-nos ao longe, como um pássaro leve. Porque ela sabe, que enquanto está por perto nós não fazemos grandes alvoroços. Há de fato em todo veneno, uma dose de remédio. Um dia nós compreenderemos isso com um sorriso largo no rosto.

A quem perdeu a esperança, digo que a esperança está além das perdas. Ela se regenera como um rio limpa-se lentamente após as águas turvas da chuva, porque é muito mais a própria esperança que crê em nós, do que nós mesmos nos apoiamos nela. Ela insiste porque sabe que quando temos esperança, transformamos todas as nossas perdas em algo melhor do que havia antes.

Fica, vai ter bolo. Por tudo que passamos nesse ano de tristezas, de perdas, preocupações, sejamos então gratos, por chegarmos ao fim dele mais humanos, mais fortes, mais serenos, maduros e esperançosos de que por mais que a vida não melhore na curva do ano, nós certamente já o somos.

Diego Engenho Novo

 


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Não é segredo, é preciso coragem para amar. É preciso ser forte para ser dois nos dias de hoje. É preciso estar atento ao alcance do outro. É preciso ir buscá-lo quando a confusão o levar. É preciso vencer, por vezes as próprias necessidades, é preciso esperar mais um pouco, é preciso, antes de tudo ter fé, de que em seu tempo, o outro assim também o fará.

É preciso ter coragem para enfrentar a maldade e a língua daqueles que não se lançam ao mar. Porque amar é de fato uma jornada perigosa, por ondas, tempestades, em busca de uma terra distante que a gente talvez nunca alcance. É preciso ter coragem para entender que amar não é chegar, amar é ir, meter-se ao mar, ainda que com medo. E isso é muito corajoso.

É preciso ter muita coragem para enfrentar nossas inseguranças todos os dias, para descobrir graça nas histórias que já nos foram contadas, para sentir novos gostos em um sabor que já é de casa. É preciso ter uma coragem danada para calar, mesmo quando temos todas as palavras, mesmo quando donos da razão. É preciso ter coragem para perder na discussão e ganhar em amor.

É preciso coragem para amar após uma vida inteira de desamores, de desencontros, de desencantos e chegarmos com o coração ainda fortalecido, com a coragem de quem jamais naufragou. Se perguntarem aos que insistem em remar pelas águas nem sempre tranquilas e seguras do amor o porquê de insistirem, ouvirá que o mar não seria o mar se não fosse preciso coragem para navegá-lo. Assim também é o amor.

Diego Engenho Novo


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