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Eu devia ter uns doze anos quando meu pai me contou que ia me levar parar viajar com ele de caminhão. Com minha mochila miúda, seguimos os dois em direção a Belém. A estrada linda, de cílios verdes alongados ia me saudando e se despedindo em um movimento só, através da janela. Eu adorava ficar ouvindo as histórias engraçadas do meu pai enquanto sentia o vento gelado da noite ou quente da tarde no meu rosto.

Em certa altura da viagem, em uma cidadezinha encoberta pela poeira da estrada, vi uma fila de garotos, cada um com uma pá, lata, enxada, qualquer objeto que lhe valesse para carregar terra. Os buracos da estrada iam pipocando e, para cada um, havia um garoto de prontidão. Eles enchiam o buraco de terra e quando o caminhão se aproximava estendiam a mão, pedindo uma moeda por terem consertado a ferida que eles mesmos haviam feito.

Meu pai disse não para o primeiro. Negou o segundo. Balançou com a cabeça pro terceiro. E foi dizendo não, para aquela fila infinita de garotos cobertos de poeira. Foi aí que ri, ingênuo, quase maldoso e lancei – Que burros. Porque eles continuam pedindo se viram que você já disse não pros primeiros, pai? – Meu pai freou o caminhão e, ao contrário do que pensei, não brigou comigo. Papai sorriu, doce. Abriu a janela e deu algumas moedas para um dos últimos meninos da fila – Cada menino continua insistindo porque não foi pra ele que disseram não, filho – ajeitando meu cabelo suado.

Levei isso comigo por uma vida inteira. Para as portas mais impossíveis, para os degraus mais inalcançáveis, para as derrotas mais temíveis, guardei comigo, que até me dissessem não, nada me haviam negado. Para os medos mais irracionais, para as inseguranças mais solitárias, para os caminhos inférteis em que tantos já haviam falhado, segui. Estirando meu peito aberto às possibilidades, estirando minha mão grata pela tentativa. E após muitos nãos, após quase todos os nãos, veio-me o sim. Veio da mesma porta que para tantos já havia se fechado antes. Mas não para mim.

Diego Engenho Novo


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Nossa, menino, como adoro te ler. Me encontro em cada verso teu. Eu sou uma mulher já madura, tenho filhas independentes e netos. Me casei muito cedo, me separei quando completei 23 anos de casada por não desejar mais ficar com meu ex-marido e pai das minhas filhas. Me desligar dele foi difícil mesmo não o amando mais como deveria.

Conheci outro homem e me apaixonei, me joguei, esqueci de mim, fui viver a vida com ele (entenda-se a vida dele). Novamente desamei, preferi me separar por não amá-lo como ele merecia. Sempre tive relacionamentos abusivos por minha inteira culpa, dava amor e atenção pra receber exatamente o mesmo em troca: nada! Depois de me separar do meu segundo companheiro, fui aproveitar a vida, conheci vários caras e não conseguia mais me prender a ninguém.

Conheci uma pessoa que me deixou novamente apaixonada, uma mulher. A princípio foi um baque pra mim. Me deixei envolver, conversávamos diariamente por telefone e era perfeito. Nos conhecemos pessoalmente e depois disso, começaram os nossos problemas. Tive ciúmes de uma grande amiga dela e isso mudou um pouco nosso relacionamento. A partir deste evento ela ficou diferente comigo e passou a se distanciar, não deixa de falar comigo, mas sinto que está mais fria. Sempre está cansada. Vontade de mandar tudo as favas, mas gosto dela. Ou será que gosto do que ela representa: o amor? Marquei terapeuta, acho que preciso me curar. Eu sempre estrago tudo por não saber amar. Isadora, Santa Catarina.


Querida Isadora, também adorei te ler.

É natural que a gente fique meio sem fé na gente, no amor e na gente no amor depois de tantas frustrações, ainda mais depois dessa nova feridinha. Você não está se cobrando demais? O que vi em tudo o que você me contou não foi uma mulher que não sabe amar, mas uma mulher que não foi amada direito. Você se entregou, cuidou, aceitou e teve bem menos em troca. E isso, infelizmente também acontece muito. Para que um relacionamento dê certo é preciso empenho e entrega dos dois lados. Não carregue essa culpa. Você tentou.

Acredito que todas essas experiências ruins estejam refletindo agora na sua insegurança de entrar em uma nova história. Como é que você pode saber se essa mulher adorável que você encontrou a esta altura da vida não é justamente alguém para quem tem se preparado? Alguém que pode te dar todo o carinho, afeto e cumplicidade que sempre faltou? Tudo bem, você começou com o pé esquerdo, nada que uma conversa honesta e o tempo não maturem.

Enquanto tenta construir sua história com ela, construa também uma história consigo, uma história de cumplicidade, auto perdão e verdade. Talvez a questão não seja que você não sabe amar, mas que você ame muito mais aos outros que a si. Chegou o momento de viver uma história leve, doce e terna. Se em algum momento você desconfiar que não está mais feliz, que está remando sozinha, não hesite em saltar desse barco também. A vida já te ensinou que como ninguém você sabe se manter acima das ondas, lutando por sua verdade. Conte sempre comigo. Beijão, Diego.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

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Imagem: thenextweb.com

Às vezes não adianta. Não bate mesmo. Na pausa do – Muito prazer! – da pessoa a gente percebe que não vai com a cara dela e pronto. E estranhamente a gente começa a cavoucar os defeitos, procurar ironias, atento a uma opinião que a gente possa demonizar. A gente procura até que encontra um motivo, ou milhares, que confirmem aquele azedume precoce. Nosso santo não bate, minha filha.

Há uns anos cruzei com o Marcelo no aeroporto. Ambos íamos de Brasília pra Palmas. Não posso dizer que não gostava dele. Eu não o conhecia. Mas nem precisava: o tal do santo não batia de jeito nenhum. Nossos tantos amigos em comum só tornavam a implicância mais estranha ainda. Mas eu permaneci no meu papel de manter-me a uma distância segura. Distância que ele cruzou com seis palavrinhas mágicas – Porque você não gosta de mim? – gelei – Eu não tenho nada contra você Marcelo. A gente só não se conhece, né? – parecia primitivo demais admitir pra ele o real motivo.

No saguão da sala de embarque ecoou o aviso de que nosso voo havia sido mudado de portão, atrasado, atropelado uma garça, ficado preso no Nepal. O universo me queria ali, em banho-maria de constrangimento. Marcelo me chamou pra um café e ficamos ali conversando por cerca de duas horas. Reclamando do atraso juntos. Rindo das mesmas situações. Adorando os mesmos autores. Até aniversário a gente fazia no mesmo dia. Marcelo, para meu pavor, era um cara muito bacana. E eu nunca me senti tão pequeno.

Claro, às vezes o santo que não bate tem fundamento. E ele já nos livrou tantas vezes de gente esquisita. Mas entre seus acertos, penso eu, quantos erros cometi pela vida? Quanta gente foi taxada de antipática por ser tímida? Quanta gente passou por grosseira por estar em um mau dia? Todo mundo pode ter um dia bem ruim. Quanta gente foi repelida por um dizer que a gente escutou errado? Quanto amor abortado antes mesmo de vir à luz? Quanta chance perdida? Quanta gente querida que passou sem nem mesmo ter tempo de encostar-se na vida da gente? Quanta verdade perdida por preguiça, medo ou intolerância nossa? Quantas meias verdades vendidas a preço de ouro?

Perdão a todos vocês que foram vítimas minhas da primeira impressão. É ela que fica, mas não devia. Todo mundo pode errar e isso não o tornar uma pessoa má. Todo mundo pode acordar por dentro de um dia ruim. Inclusive a gente. Inclusive a nossa intuição. Às vezes nosso santo não bate por pura preguiça de olhar para os nossos próprios pecadinhos.


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(leia ouvindo isto http://migre.me/ronPi)

Daqui de cima observo as figueiras que se estiram pelo canteiro central da avenida. Venta forte, talvez chova e, por alguns momentos, me parece mesmo que aquelas árvores de raízes enormes serão levadas como plumas pela brutalidade do vento. Que elas, pesadas e fundas, sairão por aí, contrariando tudo o que se sabe sobre figueiras.

Elas dançam, se curvam, ameaçam, mas não, elas não se vão. Estão há séculos ali, fincadas, fazendo sombra para si próprias, alimentando-se de floquinhos de luz, sendo o que nasceram para ser. Assim também seguimos, ameaçando dar passos que não damos, nos esticando em direção aos nossos sonhos, mas não o suficiente para agarrá-los.

Assim somos, por tantas vezes sem sair do lugar. O que nos prende? É a fundura de nossas raízes ou a rasura de nossos medos? Os amores que nos calharam aceitar; o emprego que paga as contas, mas adoece o peito; os amigos nem tão amigos a quem aprendemos tolerar a maldade; tudo ao que nos acostumamos se torna nossa prisão voluntária.

E as figueiras seguem as mudanças da estação, fingindo que se tornam outras, fingindo-se diferentes, fincadas no canteiro central. Assim, fomos criados para sermos a sombra dos sonhos dos outros. O mundo está aí, sussurrando baixinho.

Contrarie tudo o que se sabe sobre você. Cale as suas próprias ameaças e vá. Ao contrário das figueiras, nossas raízes estão plantadas no solo de nossos corações, mas nossos passos, livres. Perigosamente livres. Gosto de pensar que se não soubessem que são figueiras, o canteiro central agora estaria vazio. Todas soltas por aí. Você é livre e agora sabe.

Diego Engenho Novo


 

 

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Por muito tempo acreditei que dizer não tratava-se de negar pedidos abusivos dos outros, pôr-se em primeiro lugar nas escolhas. Ainda assim, foi muito difícil aprendê-lo.  Algo dentro da gente nos diz que se não dissermos sempre sim, as pessoas que nos cercam nos amarão menos. E a gente aprendeu isso lá atrás, com quem melhor fazia esse jogo: nós mesmos, quando crianças. Ameaçávamos o tempo todo desamar quem negasse nossos desejos. O feitiço contra o feiticeiro.

Lembrei dessa história porque semana passada encontrei meu vizinho na portaria do prédio, cheio de sacolas e subimos juntos de elevador conversando sobre amenidades, como eu tanto adoro. No sétimo andar, paramos para buscar alguém, Lúcia, que não entrou. Confundiu-se. Ia descer. Mas aproveitou a porta aberta para avisar Luis Claudio que iria na casa dele mais tarde pegar uma furadeira. Fiquei surpreso, ninguém gosta da Lúcia do 706. Ela se esforça bastante pra isso. Como tinham virado amigos?

Luis Claudio esperou o elevador voltar a subir pra me confessar – Odeio essa mulher. Energia ruim. Fala mal de todo mundo – tive que rir – Mas vocês pareciam melhores amigos. Até ferramentas você anda emprestando pra ela – indaguei. Luis Claudio me contou que um dia ela simplesmente perguntou no hall do prédio se ele tinha uma chave de fenda. Foi o suficiente para a casa dele virar o QG da bricolagem da dona Lúcia. Toda semana ela passava lá pra pegar uma ferramenta. Não pedia, dizia solenemente que tinha ido buscar a fita métrica ou a fita isolante.

Parece absurdo o nível de passividade do meu vizinho, mas, em maior ou menor escala, todos somos vítimas o tempo todo de gente assim. Gente que se aproveita de nossa distração, abalo emocional ou incapacidade momentânea de reagir para tirar proveito e vampirizar o coreto. Seu chefe com cara de sonso que pede pra você ficar pela terceira vez mais tarde essa semana por amor à empresa, aquela conhecida de um conhecido seu que se convidou pra festa de aniversário da sua filha, aquele namorado que já guarda as chaves do seu carro nos bolsos dele e fez você repetir por aí para as rodas de amigos que se sente mais segura com ele dirigindo. Puro abuso.

Seja sua energia, seu tempo, suas relações, seu dinheiro ou seu afeto, gente assim tentará roubar sua felicidade como formigas que carregam um gafanhoto morto em micronésimas partes, até digerir o todo. É aí que voltamos ao princípio da conversa: tem gente pra quem precisamos dizer não que simplesmente não nos pediram nada. É um duplo esforço. Sagazes que são, elas nem mesmo estão dispostas a escutar o não. Elas não reconhecem essa palavra.

Cabe a nós puxar a força, autoestima, energia e dignidade de onde quer que seja para nos mantermos inteiros e inabalados pelos abusos de quem não merece nem mesmo nossa angústia momentânea. Dizer não é de fato como montar suas próprias prateleiras em casa, no começo pode não ficar perfeito, uns furos no dedo, mas logo, logo você se torna expert em não se desmontar pelos outros. A lojinha de construção do apartamento do Luis Claudio fechou. Fiquei sabendo recentemente. Bom pra ele.

Diego Engenho Novo


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