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liberdade

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Fui ao cinema dia desses e, antes do filme, meio que tentando equilibrar minha pipoca, chocolate e refrigerante gigantes, vi o teaser de uma exposição da Yoko Ono que está passando por São Paulo. Olhando fixamente para mim ela disse algo que me fez pausar um dos bocados de pipoca na metade do trajeto. “Pessoas são como estrelas, às vezes nós só precisamos saber observa-las em sua órbita, brilhando”, disse Yoko.

Me lembrei de quando fui conhecer um centro de observação do céu e o astrônomo apontava para cada luzinha contando suas histórias. Mas por mais que ele tentasse transmitir toda a sua paixão pela estrela Sírius, todo seu fascínio pelas nebulosas, ninguém parecia estar realmente empolgado. Me incluo nisso. Eu só conseguia pensar se aquele frio que eu sentia seria uma sensação parecida com a de mergulhar de sunga num lago congelado da Sibéria.

Foi aí que ele apontou um dos telescópios gigantes para a Lua e disse que quem quisesse poderia fazer uma foto nítida das crateras lunares com o celular. Euforia geral. A ideia de sequestrar um punhado de satélite natural e levar consigo deixou todos nós instantaneamente empolgados. Mas porquê? Aquilo ficou martelando comigo por muito tempo, até ouvir a frase de Yoko. Como quem liga estrelas na noite e enxerga algo maior.

A gente leva essa mania feiinha para tantos espaços de nossas vidas. Aprendemos que o relacionar-se com os outros é meio que também desse jeito: como a tentativa boba de coletar estrelas, como o guardar de um pedaço do rio entre os dedos, como engarrafar o assovio bonito do vento. Nós seguimos tentando ter  as pessoas. Coleta-las de suas rotinas, rouba-las para nossas órbitas e inseguranças, tão infinitas quanto o próprio espaço.

O amor seria tão mais verdadeiro se pudéssemos olhar para as pessoas de nossas vidas como Yoko olha para as estrelas: apenas admirados de sua capacidade de brilhar, fascinados com seu mistério de existir, gratos pela possibilidade de nos conectarmos justamente a elas numa infinitude de possibilidades. As estrelas não existem para serem tidas. Como o amor, as estrelas existem para que a gente se sinta menos perdidos, para que nós nunca nos esqueçamos que tudo na vida pode ser grandioso.

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Despeço-me do homem que já fui. Do cara que construí e levei nos braços até ontem ou anteontem. E com ele despeço-me de todos os meus meninos, de toda a esperança infundada de um dia ser maior. E para quê? Eu te pergunto. Despeço-me com um abraço demorado que aperta, com o peito envergado para dentro que diz – Fica um pouco mais – pedindo e também respondendo.

Despeço-me do homem que já fui, de minhas inseguranças, de meus medos que não me matavam, nem me fortaleciam e sigo levando somente os fatos. Enfrento de frente o que está adiante. Afasto de lado o que não está ao lado, mas à margem. Deixo para trás o que não é memória, nem aprendizado, só culpa, estridente, quase que bonita como as latas amarradas que perseguem os carros dos recém-casados.

Acho que me casei com minha culpa. Depois pari minhas inseguranças, ninei minhas vergonhas, só minhas, filhinhas, miúdas, até serem grandes o bastante para também me carregarem. Tudo meu, tudo eu, tudo de mim, eucentrista como toda mãe.

Despeço-me então todos os dias, acompanhando a velocidade do reciclar da matéria. Nasce todo dia e morre a célula. Nascem todo dia e morrem minhas ideias. Nasço todo dia e, logo depois, morro. Sem estardalhaço, ali naquelas horas caladas entre o tatear insone dos chinelos para ir ao banheiro de madrugada e o despertar vitorioso no segundo que antecede o despertador.

Despeço-me do homem que já fui todas as manhãs, engolindo-o junto com o café amargo demais ou demasiadamente doce. Despeço-me dele e vou perdendo minhas histórias, minhas manias. Elas já foram de fato minhas ou foi alguém que me deu?

Vou abandonando minhas notas longas, minhas semibreves, como uma sinfonia que se simplifica dia após dia, até ser apenas três ou quatro notas que abrem um elevador, que empurram um metrô, que ligam um smartphone, que nunca são ouvidas diferentes, mas que igualmente jamais são iguais porque despedem-se de si segundo por segundo.

A pessoa que vocês conheceram não vive mais aqui. Destinatário não encontrado, favor devolver ao remetente.

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Se perguntarem por mim, diz que eu saí. Diz que eu não to. Que hoje eu não to nem aí. Se perguntarem por mim, já me aponta de longe, virando uma esquina. Deixemos os acertos, as culpas, deixemos tudo na companhia das promessas que ganhei. Amanhã, que é outro dia, pingos dos is. Pros meus sapatos se entreolhando, dos meus fracassos recorrentes, dos meus anti-amores debulhando-se, deixo o contorno de minhas costas como resposta.

Hoje eu não atendo, não aceito troco em bala, não dobro desaforo pra viagem, não engulo meias palavras. Se perguntarem o que deu em mim, só diz que eu saí, que eu cansei, me danei por aí. Das roupas que não me cabem, do tédio que não me paga, da companhia que só leva de mim e nunca me leva por aí. A todos eles que perguntarem, só diz que eu fui.

Hoje virei moleca que foge gastando os chinelos. Se perguntarem, não culpem o mundo. Foram minhas dores que desandaram-me. Então meus olhos serão do novo, do estar à frente, quero perder-me ainda que seja por poucas horas. Das carências que cobram afeto, das lembranças que cobram preços abusivos, a todos que devo desculpas pela falta de jeito, quando perguntarem por que saí depressa, só diz. Diz que eu saí de mim e volto tarde.

Diego Engenho Novo


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Conheci Zofia há alguns anos quando a recebi em casa. Ela viajava pela América do Sul com sua mochila e ficou uns dias lá em casa. Sempre muito doce, ensolarada, Zofia adorava falar sobre suas andanças pelo mundo. Zofia foi a polonesa mais brasileira que já conheci.

Em seu último dia na cidade, lhe dei uma escultura de madeira em formato de pássaro que ela havia adorado na feirinha de artesanato. Era pequena, cabia na palma da mão. Ela a pegou, aninhou entre os dedos, me abraçou e disse – Obrirrigado – com seu português meio polaco. Foi aí, que ela me ensinou uma das coisas mais lindas e difíceis que já aprendi na vida.

Ela beijou o pássaro e me devolveu, como quem entrega uma criança recém-nascida, de um par de braços para o outro – Você não quer? – perguntei meio sem jeito – Eu não posso levar. Vai pesar na mochila. Só o essencial. Só o essencial – sorriu e saiu andando para a cozinha. Fiquei ali parado com o passarinho na mão, meio boquiaberto. Nos primeiros dois segundos achei de uma grosseria sem precedentes, mas aí me veio o voo.

Ela tinha muito mais motivos para se ofender que eu. Afinal, eu estava tentando lhe dar algo que ela não podia carregar. Em mochilas de viajantes, tudo é peso. Cada pequeno objeto deve ser muito bem pensado, porque é a soma deles que torna uma mochila possível ou impossível de se carregar. Pra mim, aquele passarinho não pesava nada. Pra mim. Pra ela era presente de grego.

A gente vive fazendo isso. Quando não fazem isso com a gente. Oferecemos um peso, uma cobrança, uma necessidade de afeto que o outro não pode carregar pelo simples fato de que para nós é fácil e muitas vezes até prazeroso. Quantas vezes já nos deram responsabilidades que não eram nossas? Culpas que não cabiam na bagagem da gente? E a gente carregou sem reclamar. Depois de conhecer Zofia, aprendi. Se sei que não será possível, eu agradeço e devolvo com cuidado pra não machucar. Sigo carregando só o que é essencial.

Diego Engenho Novo


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Imagem: sophiaassociatesinc

Nosso navio costurava a imensidão do Amazonas. Embalados nas redes, assistíamos o dia ir se encostando. Ao pôr-do-sol, eu me embicava na frente do barco, como um moleque curioso – Então, você é o nosso timoneiro? – perguntou um senhorzinho com roupas de motociclista – Sim, eu que tô guiando agora – brinquei.

Ele ficou surpreso por eu saber o que era aquilo, um timoneiro. Mas havia algo ainda na manga, algo que ele podia me dar de presente – E um timo, você sabe o que é esse timo do timoneiro? – eu estava tão feliz quanto ele por não saber. Algo me dizia que ele iria me contar.

Explicou-me que o timo é um órgão do nosso corpo que vai desaparecendo ao longo da vida adulta, até se diluir em nosso corpo. Ele fica ali, no centro do peito, entre o coração e nossos pulmões, apontando sempre adiante, como quem guia nossas emoções, protegendo-nos pelo caminho. Timoneiro nosso.

Porque será que ele vai recuando? Oprimido por corações que se expandiram demais? Apertado por um par de pulmões inflados em busca de liberdade? Nosso timo é sufocado porque a gente amou de um tanto que ele não poderia mais nos proteger? Que biologia perversa é essa que vai desfarelando a gente, que vai nos desligando por fases?

Com o tempo vamos ficando mesmo mais ocos, vamos sendo preenchidos de um vazio novo, recém-chegado na gente. Se é o timo que nos impele pra frente, que direção tomamos quando ele se apaga em nós? Eu e minhas tantas perguntas, pude apenas encarar o rio, pausar a mão ao centro do peito e repetir baixinho – Guie meu coração, mostre-me o caminho, infla-me de sonhos até chegar o dia em que seguiremos nós, embarcações sem timoneiro.

Diego Engenho Novo


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Como folhas secas no ar, como água pura entre os dedos, como um riozinho metendo-se caminho à dentro, deixa ir. Como profetas que caminham na beira da estrada, como dentes-de-leão que se despedaçam, como uma montanha que se esfarela, ano após ano, sem ninguém notar, deixa ir. Deixa partir de ti o amor que não te torna grande, o calor que não te acompanha, a saudade que só existe em você. Como estrela que se lança ao mar, segura de um novo céu, deixa ir.

Como a criança que se lança à frente em primeiros passos, sem medo algum de cair, como a noite que joga seu manto, dona imensa de si, deixa ir. Como a fé que segue adiante, como o livro que é viajante, como a pluma que de mãos dadas com a brisa, se torna também brisa por aí, deixa, deixa ir. Deixa que vá o apego ao medo, o desejo vazio, o silêncio como resposta, deixa que vá quem já vive à porta. Como as horas que giram, crianças fazendo ciranda, meninos matando o tempo na inocência do repetir, deixa ir.

Como as bolhas de sabão o sabem, como o pássaro que se põe mais longe, como os velhinhos que se guardam em si, cada dia um pouco mais. Como o beijo que se fez roubado, como o galho que aponta para o alto, acenando aos deuses que está ali, deixa ir. Deixa que tudo siga seu caminho mais natural. Porque também é da ordem das coisas que o seu encontre seus braços abertos, que o seu se deite em seu peito liberto, que te encontre através dos seus olhos iluminados. Como pista de pouso, como constelação, como farol que espreita as ondas escuras, deixa também o caminho aberto para quem quiser vir.

Diego Engenho Novo


 

 

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Algo tem me consumido. Uma vontade louca de ir-me ao ermo, lançar-me à rua como quem lança panfletos, como quem grita verdades, ainda que ninguém escute.  De espalhar-me por aí, como que não tivesse pecados e levinho, levinho, seguisse com o vento, bandeando-se para qualquer lado.

Queria dividir-me por aí como quem já não se cabe mais, tem de si a contento. Tornei-me pequeno pra mim mesmo. Queria envolver-me de um papel bonito e enviar-me pra presente pra todos os meus amigos. Tornei-me grande demais para caber nos meus sonhos.

E assim fico, batendo a porta da rua e voltando. Esqueci o embrulho, esqueci o lixo, esqueci a lista, esqueci o agasalho e eis, que de esquecimento em esquecimento, fazendo a porta da rua de leque, nunca saio. Há sempre algo minúsculo me prendendo.

Quartas não são dias bons para ir, tardes tarde demais para ir, o mar longe demais pra alcançar, ainda que ele também se estire em minha direção. E assim, algo tem me consumido. O que é mesmo que me prende aqui? Porque não deixo a porta escancarada e saio, deixando para dentro todos os esquecimentos? Porque não lanço-me para cima como uma pilha de cartas sorteadas no programa da TV de domingo?

Paro por um segundo, só decidindo que direção seguir, só me perguntando-me pra onde quero ir. Direita ou esquerda? Já fora do portão. E então me lembro que foi aqui o lugar em que sempre quis estar. Foi para cá que eu fugi. Algo tem me consumido. Não sei o que se faz da vida depois que se é feliz. Como um cão atônito ao ver o carro que perseguia simplesmente parar.

Diego Engenho Novo

 


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(leia ouvindo isto http://migre.me/ronPi)

Daqui de cima observo as figueiras que se estiram pelo canteiro central da avenida. Venta forte, talvez chova e, por alguns momentos, me parece mesmo que aquelas árvores de raízes enormes serão levadas como plumas pela brutalidade do vento. Que elas, pesadas e fundas, sairão por aí, contrariando tudo o que se sabe sobre figueiras.

Elas dançam, se curvam, ameaçam, mas não, elas não se vão. Estão há séculos ali, fincadas, fazendo sombra para si próprias, alimentando-se de floquinhos de luz, sendo o que nasceram para ser. Assim também seguimos, ameaçando dar passos que não damos, nos esticando em direção aos nossos sonhos, mas não o suficiente para agarrá-los.

Assim somos, por tantas vezes sem sair do lugar. O que nos prende? É a fundura de nossas raízes ou a rasura de nossos medos? Os amores que nos calharam aceitar; o emprego que paga as contas, mas adoece o peito; os amigos nem tão amigos a quem aprendemos tolerar a maldade; tudo ao que nos acostumamos se torna nossa prisão voluntária.

E as figueiras seguem as mudanças da estação, fingindo que se tornam outras, fingindo-se diferentes, fincadas no canteiro central. Assim, fomos criados para sermos a sombra dos sonhos dos outros. O mundo está aí, sussurrando baixinho.

Contrarie tudo o que se sabe sobre você. Cale as suas próprias ameaças e vá. Ao contrário das figueiras, nossas raízes estão plantadas no solo de nossos corações, mas nossos passos, livres. Perigosamente livres. Gosto de pensar que se não soubessem que são figueiras, o canteiro central agora estaria vazio. Todas soltas por aí. Você é livre e agora sabe.

Diego Engenho Novo


 

 

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Ninguém devia se importar com seu corte de cabelo, sua roupa justa, sua fé em pêndulos, seu desejo por morangos azedos, sua boca suja de palavrões inteiros, sua bota da estação passada, suas unhas sujas da terra que você plantou.

Ninguém devia se importar com seu riso alto, sua voz que quase não fala quando não há o que dizer, sua preferência por séries, muitas vezes mais sensatas que pessoas, seu amor por um pet, pelos livros que você não sentiu o mínimo tesão de ler.

Ninguém devia se importar com as delícias que decidiram morar em você. Ninguém devia ligar a mínima para seus óculos extravagantes, sua bolsa gigante, seus brincos de diamantes que você nem pode pagar.

Ninguém devia ligar se a namorada nova do Miguel não conhece tão bem outros verbos além de beijar, amar e abraçar. Ninguém devia se importar com quem gasta dois terços do salário com jogos e outro terço com comida congelada pra não ter que perder tempo com o que não lhe importa.

Ninguém devia ligar para os casais que nem mesmo respeitam o período de carência dos convênios pra casar – Eu adoro seu jeito de rir. Vem morar comigo? – e amou aquele riso desconhecido por muitos anos ainda. Ninguém devia se importar com nada isso.

Ninguém devia ligar para as pessoas que dançam, que bebem demais, que dizem que amam sem nem conhecer. Nem com a chuva que invade o meio do dia, nem com os garotos de doze anos que andam de salto melhor que você.

Ninguém devia ligar para a ausência de proteína no prato dos veganos, para a ausência de cabelos, para o banquete de unhas, para a falta de jeito de quem não sabe gargalhar sem roncar. Ninguém devia ligar pra quem ama o funk e acha que Roberto Carlos é mais nu dos reis nus.

Ninguém devia ligar, já que a vida é um tempo tão curtinho e sedento que voa na pressa, sem perdoar as nossas distrações. Ninguém devia se importar com as tentativas dos outros de serem felizes do seu jeito. Ninguém devia ligar, mas somente tentar, fazer ao menos uma coisa na vida, como jamais foi feito.

Diego Engenho Novo


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6 720

(leia ouvindo:http://migre.me/odaU1)

Há alguns anos, parti. Tomei minha mochila como casa, meus pés como bússola e os segui. Troquei minha mobília pela estrada, minha cama por estadas, minhas janelas pelo infinito à frente. Mas, estranhamente, ao contrário do que pensei, a cada novo quilômetro, a cada nova fronteira ultrapassada, a cada novo pontinho no mapa, eu não me sentia mais leve. Só me sentia mais só.

Apesar, do silêncio imenso do amanhecer, meus medos, minhas dores, minhas saudades, minhas lembranças, amanheciam também comigo. Fingindo-se escondidos por entre a bagagem, como uma criança que segue com o circo, sussurravam-me verdades, segredos que eu não queria ouvir. Ao anoitecer, quando também estava sozinho entre os murmúrios da mata ou observando as ondas da praia, eu podia ouvir meu coração com um medo imenso de jamais se sentir preenchido.

Naquele outubro, com os pés feridos, sentei-me aos pés do monte Kukenan e chorei, e chorei, e chorei até me esvaziar por completo. Ali, pedi aos espíritos, que as crianças me disseram existir na montanha, que me libertassem do peso que carregava. Adormeci e em meus sonhos recebi as respostas todas que me faltavam. Eu vi, um dente-de-leão, lançando suas pequenas partes pelo céu, com uma doçura que jamais saberei descrever. Eu vi e foi só aí que realmente acordei.

Liberdade é não estar preso a nada e ainda sim fazer parte de um todo, é se perder milhares de vezes, mas jamais se esquecer de onde se veio. É viver o quanto mais livre das emoções do outro, mas, ainda assim, amar cada aproximação do próximo, porque ele também te torna inteiro.

Não vê, que mesmo despedaçado em milhares de pequenas partes, o dente-de-leão ainda é um dente-de-leão inteiro? Não vê que quando partido, solto e multiplicado pela vontade do vento, é que ele faz ainda mais sentido? Certas almas só estarão completas livres, mas é preciso que elas também aceitem isso. Por isso vou, pelo mundo voo. E quanto mais me espalho por aí, mais me sinto inteiro.

Diego Engenho Novo


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