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lembranças

Aos poucos a saudade foi tomando conta de mim, como a maré que vai embrulhando a praia devagar, mas com força. Como o mar que pisa no chão, a saudade foi me inundando. A saudade contornou-me os dedos compridos das mãos, foi preenchendo o pontilhado do meu entorno, a saudade foi me tornando quem sou.

A saudade segurou-me os pulsos, como quem diz “Não vai não!”, e foi ela mesma quem me lembrou de que tudo na vida se esvai. A saudade foi me vestindo os braços como a roupa pesada de inverno, com cuidado. Tomou-me o peito para si, beijou-me os ombros com delicadeza, a saudade não teve pressa ao passar por mim.

A saudade sombreou meu rosto, meus olhos, meus cabelos, meus pensamentos. A saudade me fez olhar outra vez lá para trás, como quem rememora: “Ei, você tinha notado isso?”. Tarde demais, depois de ir para tão longe, eu só conseguia pensar na falta que ainda me faz observar aqueles ombros miúdos.

Antes mesmo dos fins, ainda abrindo cada novo começo, a saudade já vinha se deitar aos pés da cama, como um cachorro envelhecido. A saudade passava todas as suas noites me assistindo, velando a minha cegueira, encantada pelos meus pés descobertos, encantada por me descobrir. A verdade é que a saudade sempre esteve aqui.

Por fim, a saudade abraçou minhas pernas, fez-me jurar jamais abandoná-la, como Maísa, Florbela, Frida, a saudade queria-me para ser só dela e de ninguém, de ninguém mais. E assim, a saudade se pintou de noiva, casou-se comigo, fez-me jura eterna. E assim, a saudade se deu de presente e hoje o meu mundo inteiro também é ela.

Diego Engenho Novo


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“O que você vai colocar, pai?” Com o passar dos anos, fica cada vez mais difícil enterrar os brinquedos da gente, assim como as lembranças, nosso brinquedo preferido. “Vou escrever uma carta para o futuro, filho”, recebi um sorriso largo de Natan.

Querido Natan, 

Se o tempo não tiver ficado ainda mais maluco, você tem agora 18 anos. Acho ótimo que você esteja lendo isto agora para que não pense que meus conselhos são implicância. Eles foram escritos há dez anos, quando você ainda cabia debaixo do meu blazer, quando tudo que eu dizia ainda era importante pra você. Escrevi uma lição que aprendi para cada ano.

Um. Gostaria que você soubesse que muita gente vai mentir e trair a sua confiança, mas se arriscar ainda é a única forma de não se tornar uma pessoa amarga. É preciso insistir no amor, apesar de tanta desordem por aí.

Dois. Eu disse a vida inteira que você é muito especial. E você é. Para nós. Para o mundo, infelizmente você ainda vai ter que provar isso. O reconhecimento leva outros dez anos de trabalho duro. Quando estiver cansado, volte para se deitar um pouco no colo do pai, onde você sempre será o melhor cara que já existiu.

Três. Relacionamentos são estradas de mão dupla. Há movimento nos dois lados. Se o afeto só vai ou só vem, tem acidente na pista. Por tanto, desvie, tome outro caminho. Não insista nos egoístas. Ninguém pode mudar ouvindo somente a própria voz.

Quatro. Invente desculpas para ver mais seus amigos. Converse fiado, converse sobre o tempo, comemorem o Dia da Árvore, façam de tudo para estar o máximo de tempo juntos. Boa parte dessas pessoas incríveis vai desaparecer misteriosamente, como tudo que é mágico.

Cinco. Seu bisavô me ensinou que a gente nunca deve dar como presente algo que não tem para si. A vida inteira eu achei que ele estivesse falando de livros ou camisas caras. Era de amor que ele estava falando.

Seis. Faça uma lista com 20 pessoas com quem deixou de falar, de quem se afastou por motivos bobos ou por motivos terríveis. Escreva cartas perdoando, pedindo perdão ou as duas coisas. Este foi o exercício mais difícil da minha vida. Mas você vai se surpreender com as respostas e o rumo que a sua vida vai tomar depois disso.

Sete. Pare de dizer que vai fazer aquela viagem incrível. Marque uma data e se comprometa consigo a pegar a estrada. Você pode juntar dinheiro, vender sua guitarra ou parcelar em várias vezes. Tenho amigos que estão há cinquenta anos dizendo que vão para Paris ou Machu Picchu sem saber que a TV da sala deles é quase o preço disso.

Oito. Seja cínico com o seu horóscopo. Quando ele disser algo bom, acredite. Quando for algo ruim, lembre-se que é um estagiário que ganha pouco, dorme pouco e transa pouco quem o escreve. Não acredite quando ele diz que você vai ser sempre desorganizado ou infiel. Você sempre poderá se melhorar se realmente quiser.

Nove. Não perca tanto tempo tentando ter razão nas discussões. As pessoas não querem realmente evoluir a compreensão. Só estão debatendo por questões de ego. Ao invés disso, vá comprar flores para alguém especial ou estudar um idioma que só é falado por uma pequena porcentagem da população do mundo.

Dez. “Só me arrependo do que não faço” é conversa fiada de gente bêbada. Você vai se arrepender de muita coisa que fez. Nem tudo que é quebrado pode ser consertado. Mas precisamos admitir que os bêbados se divertem mais.

 

Com amor, seu pai.

São Paulo, dez anos atrás.

 


 

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Hoje tirei um tempo pra margear um caderno. Ou melhor, tirei um tempo pra voltar no tempo. O cheiro bom da minha mãe, a ansiedade de um novo ano na escola. Sim, eu já fui criança.

Traçar aquelas linhas bobas não fazia sentido pra mim (não que hoje faça), mas, sem querer aos poucos a gente foi traçando as linhas da própria vida, reforçando os traços do nosso próprio caráter, indicando a direção que os sonhos deviam tomar.
Quando criança eu sentia estar perdendo tempo cobrindo de outra cor uma linha que já existia. Avisando àquele muro magro que ele devia barrar a passagem das letras, deter as ideias, frear os meus tantos pensamentos. Mas hoje, margeando um caderno qualquer, me lembrei que a minha mãe, na primeira série, fez esse árduo trabalho por mim, por horas, pouco depois de cobrir as capas com um plástico bonito, que eu mesmo escolhi.
No ano seguinte, ela segurou na minha mão para que eu não deixasse a reta torta. Mesmo com tudo torto, borrado, mesmo que eu parecesse um paciente precoce de Parkinson, mamãe elogiava. Pra ela tudo estava lindo; pra ela, o lindo era eu existindo.
Nos anos seguintes, eu mesmo cuidava de tudo. Eu mesmo bati o pé e reclamei das capas com bolinhas e bichinhos. O rapazinho reclamão, andava cheio de vontades, e mamãe ainda assim, achava graça de tudo – Reclamar vai fazer com que isso termine mais cedo? – não ia. E eu me contentava em chicotear as bordas do caderno com a bic mordida.
Hoje, margeando um caderno entendi que o tempo de quem tanto reclamei, passou. Eu rezei tanto pra crescer, que cresci sem medida. O mundo não é definido pelas margens chatas, retas ou tortas. O mundo acontece, metade, margem à dentro e, bem mais, margem a fora. Saudade boa, mãe.

Diego Engenho Novo


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Tive na vida um presente de que poucos podem se gabar: fui ao casamento dos meus pais. E não estou fazendo metáforas sobre espermatozoides, à la Augusto Cury. Eu estava mesmo no grande dia deles, em carne e osso. Essa é uma das primeiras lembranças que tenho de vida. Eu tinha quatro anos e ostentava um galo imenso na testa, fruto do sacolejo da Kombi que meu pai guiava apressadamente para o cartório.

Papai nunca bateu na gente, nem de cinto, nem de chinelo. Mas também não precisava; a combinação pai grande e desengonçado com filho gordinho e cabeçudo sempre rendeu hematomas naturais. Era papai derrubando, prendendo o dedo, prensando no sofá e chorando junto com a gente. Doía mais nele, eu sei, mas ser criado pelo Jigsaw parecia ser mais seguro na época.

Hoje damos risada, mas no dia que meu pai me colocou em cima da bicicleta e empurrou ladeira abaixo gritando – Pedala e equilibra! – não pareceu tão engraçado. E ele repetiu esse ritual da águia várias outras vezes – Braçadas e pernadas! Braçadas e pernadas! – ou daquela vez – Relaxa! O cavalo só fica nervoso se você também ficar! – ou então – Passa a marcha! A marcha, filho! O freio, filho! Freia! –  meu velho tinha de ter sido pai do Jackie Chan.

Eu me sentia crescendo no Brooklin. Quando um ladrão levou meu relógio novinho, da escola pra casa, meu pai soltou – E você deixou o cara te assaltar? – anos mais tarde, fui atacado por três cachorros – E você deixou eles te atacarem?. Pode parecer maluquice, mas acho que de alguma forma papai me ensinou a não me vitimizar. Entendi que o que nos acontece na vida, de bom ou de ruim, parte de nós. Não terceirizemos a culpa, amém?

Eu poderia ter seguido direto para os divãs da vida, mas não carrego trauma nenhum do papai. Ele é o meu herói desengonçado, meu grandão admirável. Era uma criança criando outra com o melhor que seus vinte e poucos anos haviam lhe dado. E ele se tornou um grande homem, atencioso, generoso, honrado e especialista em primeiros socorros. Está sempre comigo, me estimulando a saltar sem medo, voar sem culpa e sem culpar pelos tombos que colho.

Diego Engenho Novo


 

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Minha avó ainda é daquelas avós de antigamente – ainda faz comidinhas e me dá dinheiro escondido no meu aniversário. Mesmo sendo minha heroína, às vezes solta frases dignas do Darth Vader, como – Quem tem dó do coitado vai para o lugar dele – ou – Quem muito se abaixa acaba mostrando os fundos – terrível. 

Isso me soou como egoísmo da parte dela por muito tempo. Como aquela mulher que fazia tudo por mim, não se importava em nada com os outros? E não é que aprendi recentemente o que ela estava tentando ensinar? A dureza de suas palavras só foi vencida pela dureza da vida. Estou falando de ingratidão. Conseguimos mais uma vez transformar o veneno em antídoto.

Em uma carona no interior do Piauí conheci um homem que me ajudou a digerir a ingratidão humana e o nazismo da vovó. Foi exatamente assim: ele parou o carro, eu entrei, ele disse seu nome e atirou – Pensar mais em si ao ponto de não ser egoísta. Ser bom, mas não ao ponto de ser bobo – sua frase pretendia justificar o motivo de parar para dar carona a um desconhecido. Mal sabe ele, que naquele dia, ele me salvou de mim mesmo.

Entender que o tratamento que damos para as pessoas nem sempre é correspondido é duro, duríssimo. Em diversos momentos nos prejudicamos por não saber dizer não, ou por oferecer demais. Uma boa dica, que aprendi com ele? Ajude os desconhecidos, porque deles você não espera nada de volta, está livre disso. Não existe nada pior do que descobrir em uma curva dessas da vida que a gente não sabe nem a cor real dos olhos de quem achávamos saber tudo. Farinha pouca, meu pirão primeiro – já dizia vovó. 

Diego Engenho Novo


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