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Olá, Di! Tudo bem? Conheci uma pessoa um tempo atrás. A gente se dá muito bem, gosto dele como nunca gostei de alguém. Faz mais de 3 meses que estamos juntos, mas não em relacionamento sério. Conversamos todos os dias, sentimos saudades um do outro. Porém ultimamente ele diz que sente saudade, mas não faz nenhum esforço pra me ver. Ele diz que tem problemas em demonstrar os sentimentos e acho que cada um sabe amar/gostar de uma maneira diferente. Essa maneira pode ser a dele.

Quando ele quer me ver, eu saio e vou vê-lo. Mas quando eu quero vê-lo, tem sempre uma desculpa. Isso tá me machucando demais. Estou sofrendo porque não sei o que faço com esse amor que sinto por ele. Já tentei me afastar, mas ele vem dizendo que sente minha falta, que não me quer longe, vem conversar comigo.

No fundo, mas bem no fundo do meu coração eu sei que ele gosta de mim e me quer por perto, porém, fico um pouco confusa e sinceramente, às vezes, não consigo acreditar que ele goste de mim, porque as atitudes dele me fazem acreditar no contrário e acabo tendo uma certa insegurança em relação a isso. Acho que é medo de sair magoada. Eu quero muito acreditar no que ele diz. Não sei se luto por esse amor ou deixo ele ir. (Isabela, Irati- PR)


Oi, Bela, que bom receber sua carta.

Infelizmente (ou felizmente) na relação há sempre um mais disposto e outro que tem seu tempo mais lento. Tem sempre um mais generoso e outro mais focado nas próprias necessidades. Tem sempre um que se expressa mais e outro mais ensimesmado. Às vezes, faz um bem danado pra gente entender essas diferenças de cada um e parar de lutar contra elas, mas aprender com um pouquinho de cada uma.

Com o tempo, acredito que o disposto ensina o que tem seu tempo lento a buscar mais. No caminho inverso, é o mais quieto que ensina o disposto a aceitar as pausas dos tempos, sem pressa. O generoso não pode transformar o mais egocêntrico em generoso, mas pode ensiná-lo a incluir outras pessoas em seus planos, a fazê-las se sentir especiais. Do outro lado, aquele que é mais focado em si pode ensinar a gente a se amar mais, a se curtir mais um pouco.

Aquele que expressa seus sentimentos precisa ser bem prático e dizer como é que se faz: “Ei, me liga todo dia de manhã pra dar bom dia. Isso é uma ordem de amor!”, “Olha só, não quero mais presente sem cartão. Presente sem cartão não tem alma. Se você não souber o que escrever, diga que me ama e assine. Estará perfeito”. Tem gente que precisa aprender amar como uma criança aprende a escrever: de pouco em pouco, pegando na mão, sendo pacientes. Tem gente que precisa de um verdadeiro “Manual do Gostar de Mim”.

E o que a gente pode aprender com quem não demonstra muito seus sentimentos? Podemos aprender a ser mais práticos, menos dramáticos e guardar algum mistério para o outro. Nada de se mostrar inteiro duma vez. O amor é um exercício delicioso de descoberta.

Eu realmente acho, Bela, que esse moço aí tá precisando de umas dicas práticas. Esse lado meio distante dele não vai mudar drasticamente, faz parte da natureza inata dele, mas vocês dois podem juntos descobrir pequenos atalhos para se amarem mais e se machucarem menos. Podem encontrar formas de driblar o que incomoda para alcançar o que encanta.

Algo me diz que ainda não é hora de desistir. Eu realmente espero que ele descubra logo a mulher incrível e doce que você é. Mostre o caminho a ele. Abração, Diego.

PS. Quando precisar me escreva. Eu estou sempre por aqui pra você.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

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Resposta à carta da leitora Joice de Três Lagoas-MS

Foto: Zastaki.com

 

Oi Diego, eu leio seu blog há dois anos e sempre me vejo de alguma forma nas suas palavras. Acabei de terminar um namoro de pouco mais de quatro meses. Ele era do bem, atencioso, carinhoso, mas depois de alguns meses, simplesmente fui me cansando, me sentindo sufocada. Terminamos. Terminei na verdade. Eu fiquei triste, mas fiquei ainda mais aliviada. Isso não seria grande coisa se já não tivesse acontecido várias vezes comigo. Se você me perguntar porque meus relacionamentos anteriores acabaram, eu te juro, que não sei. Nenhum deles durou muito mais do que alguns meses, acho que todos eram caras incríveis, que hoje me acham uma maluca. Eu sou maluca? Tenho a sensação de que nunca terei uma relação de verdade. E agora medo de conhecer outro cara legal e passar por tudo de novo, machucar ele. O que eu faço? (Joice – Três Lagoas-MS)


Joice você não tem ideia da quantidade de gente que está lendo isso agora e pensando – gente, essa sou eu! Sim, muita gente sofre da síndrome do Doce Novembro. Sabe, aquele filme? Nele, uma moça se relaciona com um cara por mês e depois some do nada. Ela não quer se apegar (nem pode), mas também acredita que os primeiros 30 dias são mágicos, seguidos de cobranças e frustrações de ambas as partes.

Tem gente que, vivendo dessa síndrome, começa a sabotar o próprio relacionamento depois de uns meses – mesmo que inconscientemente – porque fica assustada quando a magia do novo vai dando lugar a uma visão mais realista da coisa. De certo modo, nossas máscaras vão caindo, e pra não ficarmos expostos, fugimos. A gente tem medo que o outro perceba que somos cheios de defeitinhos. Abandonamos para não sermos abandonados. Péssima ideia.

Tem também quem sabote os próprios relacionamentos porque internamente acredita que não merece ser feliz. Sim, em diversos momentos da vida, nós jogamos contra o nosso próprio time. Seja por falta de autoestima, seja por que tivemos uma criação de pouca valoração. Freud explica.  Há uma opção mais leve e totalmente compreensível: vai ver que você se sente muito nova para algo mais sério e quer conhecer outras pessoas. Qual o problema nisso?

Pode ser um monte de coisas. Uma terapia ia ajudar. Não, você não é maluca. A consciência de que tem algo esquisito nessa história é a maior prova disso, rs. Mas às vezes a gente precisa de ajuda mesmo pra desanuviar os sentimentos, pra ter paz com nosso próprio silêncio.

Independentemente das respostas que encontrar, eu quero que você saiba que eu acredito que você vai superar isso e passar a ter relacionamentos mais profundos. Com maior entrega, com perdão mútuo, vendo a magia que existe também nas sombras do outro, na redenção que a maturidade vai trazendo aos poucos. Um dia a gente percebe que fugir do sofrimento vem acompanhado de uma sensação de liberdade, mas que só somos livres mesmo quando decidimos ficar e fazer que nossa estadia seja doce, pelo tempo que durar. Vai sem medo, Joice.

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Resposta à carta da leitora Chloe de São Paulo-SP

ChloeEu estava casada há oito anos com um cara maravilhoso, quando conheci o Phillipe, um estrangeiro que me seduziu e eu achei que era minha alma gêmea. Eu sou uma pessoa explosiva e meio maluca então achei que deveria ficar com ele. Meu casamento já estava um pouco desgastado, mais por causa do tempo, nada demais. Assim, eu saí de casa, deixei meu marido em choque, assim como eu estou hoje.

Apesar de nossas brigas constantes durante os dois anos que ficamos juntos, Philli sempre foi muito romântico e carinhoso, um príncipe mesmo. No final do ano fomos com a família viajar, foi tudo ótimo, ele super amoroso. Depois disso eu voltei para casa e ele ficou mais uma semana com a família no país deles. Ele voltou estranho, seco, uma outra pessoa e disse que nós dois sabíamos que lá na frente não iria dar certo, que era melhor sofrer agora e terminou comigo, assim do nada. Tentei conversar, mas ele estava decidido e não quis volta.

Perdi dois caras incríveis, perdi minha casa, e agora estou aqui sem chão. Ainda não acredito que ele fez isso comigo. Não entendo como a pessoa em uma semana te ama e de repente é outra pessoa que você nem reconhece. Eu continuei amiga do meu ex, que me perdoou, mesmo que eu não tenha me perdoado, mas acredito que o dele sim era um amor verdadeiro. No fundo eu sei que talvez não daria certo e sei que me arrependi de ter deixado meu marido. Mas sei que não queria terminar, queria tentar ser feliz com ele. Agora estou sozinha, destruída e sem saber o que fazer.


Querida, Chloe

Por vezes, a vida parece mesmo brincar com a gente. Ela brinca, mas esquece de nos contar as regras do jogo. Eu sei, parece inevitável assimilar as coisas, pensar que você está pagando agora pelo que fez no passado. Parece óbvio, como somar um mais um e ainda assim, acabar sozinha.

Certa vez escrevi em uma crônica que falava que se você olha para o mar inteiro, ele parece mesmo invencível, insuperável. Mas, se junta as duas mãos e recolhe um pouco de água salgada, neste momento você se torna maior do que ele, porque separou o mar em uma pequena parte, uma parte que consegue domar. Sua história inteira é o mar, te engolindo com ondas que voltam ainda maiores do passado, talvez seja hora de separá-la em pequenas partes com as quais possa lidar. É isso, ou pirar.

Talvez você tenha mesmo feito uma escolha ruim. Quem nunca? Ainda assim, acredito que fazer escolhas ruins é melhor do que não fazê-las. Talvez, se não tivesse agido na época, você estivesse me escrevendo hoje para falar de um gringo charmoso que você conheceu, de um amor que pensou viver, mas não viveu e como era infeliz por isso, por não ter seguido seu instinto de ser dona de suas vontades. Você escolheu, isso foi muito corajoso.

Talvez Philli não volte mesmo, mas quando você associa seu término com ele com seu relacionamento anterior, o está culpando por isso tudo. Philli te amou, algo mudou dentro dele, talvez ele só esteja com medo de como tudo evoluiu tão rápido, tão intenso, talvez em algum lugar, ele saiba que você se arrependeu da escolha que fez. Este homem a amou com tudo que pode, enquanto pode. Isso é lindo. Não deixe que a dor apague.

Tente não culpar, não somar as histórias. Você está sofrendo agora pelo Phillipe, pela falta dele, pelos planos que fizeram, pela dor que está sentindo. É isso ou se afogar. Ninguém é mais responsável pelas suas escolhas do que você mesma. De igual modo, ninguém pode culpa-la por tentar ser feliz da melhor maneira, nem você mesma. Continue corajosa, fazendo escolhas, escolha sobreviver também a isso.

Nós nunca estaremos completos, é isso que nos move: saber que jamais o seremos, e ainda assim continuar buscando sê-lo. Olhe pra esse punhadinho de água em suas mãos e se pergunte: o que posso fazer agora pra me sentir um tantinho mais completa? Essa é a direção mais certa a seguir. Estou por aqui, sempre com você. Vamos vencer o mar, minha querida.

Di

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas)