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Depois de muitos relacionamentos confusos, de fins, começos e tropeços, me percebi em um relacionamento diferente. Não havia afobação, não havia disputa, não havia espaço pra muito mais além dele, o amor, e nós dois, claro. Seu coração está entardecido – brincou minha amiga Cláudia. Ela havia perdido o marido recentemente. O companheiro de uma vida inteira. Tinha propriedade pra falar de certos assuntos.

Fiquei pensando em como eu tinha sorte de conviver com alguém tão sábio quanto Cláudia. O entardecer, a hora mais doce, quando o dia e a noite param de fugir um do outro e se olham com candura, sim aquela expressão era perfeita para o que eu estava sentindo, vivendo, entardecendo em mim.

Sem a loucura dos carros que buzinam apressados indo para o dia cheio, sem a penumbra que sob a noite oculta segredos, um coração entardecido é revelador, mas brando. Corações entardecidos sabem seu ritmo de ser, apreciam a brevidade das coisas que passam e a preciosidade de tudo o que fica. Eles se rendem à pureza que ri, tem leveza para dizer tudo, generosidade para escutar, fé para guiá-los. Principalmente fé um no outro.

Até meu coração entardecer, todas as pessoas pareciam a pessoa errada, tudo era passagem. Até meu coração entardecer, me desprender parecia fácil e gratuito, o perdão era uma hora distante, quase inacessível. Até meu coração entardecer, toda a força que faria meu relacionamento ir adiante não estava em mim, mas no outro. Peso demais para qualquer mortal carregar.

Até meu coração entardecer tudo o que me desagradava vindo da outra metade parecia uma ofensa direta, ferida inteira. Mas um coração entardecido sabe que devemos antes analisar os desagrados pela lente da paciência e levar à balança de tudo o que já foi construído. Dois corações entardecidos jamais se ferem gratuitamente. Puro exercício de um coração que entardeceu devagar.

Iluminam-se como meninos, aquecem-se de um tanto exato, amam a lógica do tempo invertido, que não corre, não exige. Os amantes entardecidos amam-se sem pressa de chegar. Eles sabem que lá, justo onde já estão, é mesmo a altura que todos têm procurado, como se ali fosse um lugar. E buscam incessantemente, e cercam famintos sem ver, e migram em direção nenhuma, sem saber que o amor nunca foi um lugar. O amor é um tempo, cuidadosamente entardecido pelo lado de dentro.

Diego Engenho Novo

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Resposta à carta da leitora Chloe de São Paulo-SP

ChloeEu estava casada há oito anos com um cara maravilhoso, quando conheci o Phillipe, um estrangeiro que me seduziu e eu achei que era minha alma gêmea. Eu sou uma pessoa explosiva e meio maluca então achei que deveria ficar com ele. Meu casamento já estava um pouco desgastado, mais por causa do tempo, nada demais. Assim, eu saí de casa, deixei meu marido em choque, assim como eu estou hoje.

Apesar de nossas brigas constantes durante os dois anos que ficamos juntos, Philli sempre foi muito romântico e carinhoso, um príncipe mesmo. No final do ano fomos com a família viajar, foi tudo ótimo, ele super amoroso. Depois disso eu voltei para casa e ele ficou mais uma semana com a família no país deles. Ele voltou estranho, seco, uma outra pessoa e disse que nós dois sabíamos que lá na frente não iria dar certo, que era melhor sofrer agora e terminou comigo, assim do nada. Tentei conversar, mas ele estava decidido e não quis volta.

Perdi dois caras incríveis, perdi minha casa, e agora estou aqui sem chão. Ainda não acredito que ele fez isso comigo. Não entendo como a pessoa em uma semana te ama e de repente é outra pessoa que você nem reconhece. Eu continuei amiga do meu ex, que me perdoou, mesmo que eu não tenha me perdoado, mas acredito que o dele sim era um amor verdadeiro. No fundo eu sei que talvez não daria certo e sei que me arrependi de ter deixado meu marido. Mas sei que não queria terminar, queria tentar ser feliz com ele. Agora estou sozinha, destruída e sem saber o que fazer.


Querida, Chloe

Por vezes, a vida parece mesmo brincar com a gente. Ela brinca, mas esquece de nos contar as regras do jogo. Eu sei, parece inevitável assimilar as coisas, pensar que você está pagando agora pelo que fez no passado. Parece óbvio, como somar um mais um e ainda assim, acabar sozinha.

Certa vez escrevi em uma crônica que falava que se você olha para o mar inteiro, ele parece mesmo invencível, insuperável. Mas, se junta as duas mãos e recolhe um pouco de água salgada, neste momento você se torna maior do que ele, porque separou o mar em uma pequena parte, uma parte que consegue domar. Sua história inteira é o mar, te engolindo com ondas que voltam ainda maiores do passado, talvez seja hora de separá-la em pequenas partes com as quais possa lidar. É isso, ou pirar.

Talvez você tenha mesmo feito uma escolha ruim. Quem nunca? Ainda assim, acredito que fazer escolhas ruins é melhor do que não fazê-las. Talvez, se não tivesse agido na época, você estivesse me escrevendo hoje para falar de um gringo charmoso que você conheceu, de um amor que pensou viver, mas não viveu e como era infeliz por isso, por não ter seguido seu instinto de ser dona de suas vontades. Você escolheu, isso foi muito corajoso.

Talvez Philli não volte mesmo, mas quando você associa seu término com ele com seu relacionamento anterior, o está culpando por isso tudo. Philli te amou, algo mudou dentro dele, talvez ele só esteja com medo de como tudo evoluiu tão rápido, tão intenso, talvez em algum lugar, ele saiba que você se arrependeu da escolha que fez. Este homem a amou com tudo que pode, enquanto pode. Isso é lindo. Não deixe que a dor apague.

Tente não culpar, não somar as histórias. Você está sofrendo agora pelo Phillipe, pela falta dele, pelos planos que fizeram, pela dor que está sentindo. É isso ou se afogar. Ninguém é mais responsável pelas suas escolhas do que você mesma. De igual modo, ninguém pode culpa-la por tentar ser feliz da melhor maneira, nem você mesma. Continue corajosa, fazendo escolhas, escolha sobreviver também a isso.

Nós nunca estaremos completos, é isso que nos move: saber que jamais o seremos, e ainda assim continuar buscando sê-lo. Olhe pra esse punhadinho de água em suas mãos e se pergunte: o que posso fazer agora pra me sentir um tantinho mais completa? Essa é a direção mais certa a seguir. Estou por aqui, sempre com você. Vamos vencer o mar, minha querida.

Di

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas)

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"Quando temos esperança, transformamos todas as nossas perdas em algo melhor do que havia antes"

Fica, vai ter bolo. Não posso ser mesmo injusto com o ano que passou, ou está para passar. Ele foi de fato árido, cheio de complicações, com ondas maiores e maiores, mas, de alguma forma, chegamos ao fim dele, um tanto transformados.

A quem perdeu alguém, digo que pessoas não são perdidas. Elas permanecem aquecidas e vivas por muito tempo dentro de nós. Quando sentir saudade, basta lembrar que ela está por aí, em algum lugar, sendo linda, plantando saudades novas, feliz por caminhar.

A quem perdeu tranquilidade, digo que tranquilidade nunca se perde. Ela se ausenta, olhando-nos ao longe, como um pássaro leve. Porque ela sabe, que enquanto está por perto nós não fazemos grandes alvoroços. Há de fato em todo veneno, uma dose de remédio. Um dia nós compreenderemos isso com um sorriso largo no rosto.

A quem perdeu a esperança, digo que a esperança está além das perdas. Ela se regenera como um rio limpa-se lentamente após as águas turvas da chuva, porque é muito mais a própria esperança que crê em nós, do que nós mesmos nos apoiamos nela. Ela insiste porque sabe que quando temos esperança, transformamos todas as nossas perdas em algo melhor do que havia antes.

Fica, vai ter bolo. Por tudo que passamos nesse ano de tristezas, de perdas, preocupações, sejamos então gratos, por chegarmos ao fim dele mais humanos, mais fortes, mais serenos, maduros e esperançosos de que por mais que a vida não melhore na curva do ano, nós certamente já o somos.

Diego Engenho Novo

 


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"Um dia o amor imenso que sinto há de me redimir e também me fazer maior"

Esqueci nosso aniversário de namoro. Sou terrível com datas. Sou terrível com milhões de outras coisas. Mas não é disso que quero falar. Não exatamente. Comentei na internet o ocorrido, já passado, já rido, já perdoado, e fui cercado por uma enxurrada de críticas, em tom carinhoso e amável, claro, mas com seu fundo de verdade – Mas você não é o cara que fala tanto sobre o amor?
 
Esse mesmo. Estou sempre falando sobre o amor, muito mais sobre o que descubro sobre ele do que sobre as coisas que penso saber. Falo muito mais sobre a tentativa do que o êxito, falo muito mais sobre a intenção do que a ação em si. Sim, os poetas, os românticos, nós, também esquecemos datas, mas ninguém comenta que deixamos bilhetes apaixonados todos os dias, que gritamos na rua o quanto amamos, que damos presentes em horas inapropriadas, que dizemos do nosso amor uma segunda vez repetida por puro e delicioso esquecimento.
 
Nunca falei de amores perfeitos, de pessoas impecáveis. A natureza do que escrevo parte sempre da beleza da imperfeição, das miudezas, da delicadeza que há em se assumir errado, pedir perdão. Não posso falar do que é perfeito justamente por desconhecê-lo. Sou errante, inconsequente, sem paciência, falo palavrão, tenho insônia, preguiça, ciumes, inseguranças, saudade de quem não devia.
 
Eu estou quase sempre na contramão, jamais ditando regras, jamais apontando dedos, jamais me colocando no lugar de melhor ou superior. O que sempre digo é que somos parecidos. E quando alguém me lê de volta, me acena com o braço alto, sinto por dentro que também não estou só em minhas tentativas. Sim, esqueço-me de datas, mas jamais do dia em que nos conhecemos. Um dia o amor imenso que sinto há de me redimir e também me fazer maior.

Diego Engenho Novo


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Não é segredo, é preciso coragem para amar. É preciso ser forte para ser dois nos dias de hoje. É preciso estar atento ao alcance do outro. É preciso ir buscá-lo quando a confusão o levar. É preciso vencer, por vezes as próprias necessidades, é preciso esperar mais um pouco, é preciso, antes de tudo ter fé, de que em seu tempo, o outro assim também o fará.

É preciso ter coragem para enfrentar a maldade e a língua daqueles que não se lançam ao mar. Porque amar é de fato uma jornada perigosa, por ondas, tempestades, em busca de uma terra distante que a gente talvez nunca alcance. É preciso ter coragem para entender que amar não é chegar, amar é ir, meter-se ao mar, ainda que com medo. E isso é muito corajoso.

É preciso ter muita coragem para enfrentar nossas inseguranças todos os dias, para descobrir graça nas histórias que já nos foram contadas, para sentir novos gostos em um sabor que já é de casa. É preciso ter uma coragem danada para calar, mesmo quando temos todas as palavras, mesmo quando donos da razão. É preciso ter coragem para perder na discussão e ganhar em amor.

É preciso coragem para amar após uma vida inteira de desamores, de desencontros, de desencantos e chegarmos com o coração ainda fortalecido, com a coragem de quem jamais naufragou. Se perguntarem aos que insistem em remar pelas águas nem sempre tranquilas e seguras do amor o porquê de insistirem, ouvirá que o mar não seria o mar se não fosse preciso coragem para navegá-lo. Assim também é o amor.

Diego Engenho Novo


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E depois de tanto tempo você volta. Como quem sempre esteve por aqui, como quem só foi ali na esquina ver o ocorrido do ruído estrondoso, como quem após tanto tempo ouviu meu choro, minha dor, minha prece e decidiu voltar para me acalmar.

Depois de tudo limpo e reposto, depois que me reconstruo você volta como se não fosse sua falta o motivo maior do meu ruir. Quando não mais preciso você me vem com as palavras que há tempos eu tanto precisava.  Talvez você não saiba, mas, as palavras têm prazo de validade.

E então você chega como quem saiu para cuidar do jardim e esqueceu alguma ferramenta, como quem foi ao mercado e deixou a carteira em cima da mesa, justo quando eu finalmente consegui me esquecer de ti, você volta. Você poderia me esmagar com esses olhos, mas prefere fazer com que eu me perca neles. Parece mais divertido.

E agora você procura por mim, reclamando do vazio, quando não estou mais só, você reaparece e a casa agora parece cheia demais. Há pessoas que só voltam momentaneamente para garantir que estaremos sempre à espera delas, como um terreno baldio, onde jamais se construirá nada, nem permitirá também a quem quer morar construir.

Você continua o mesmo, como se nada tivesse mudado, como se eu fosse seu porto à espera, como se o tempo tivesse parado, como se a vida não seguisse adiante. E depois de tanto tempo você volta, sem parecer saber, sem querer notar, que a mulher que você deixou esperando simplesmente não existe mais.

Diego Engenho Novo


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5 1889

Como folhas secas no ar, como água pura entre os dedos, como um riozinho metendo-se caminho à dentro, deixa ir. Como profetas que caminham na beira da estrada, como dentes-de-leão que se despedaçam, como uma montanha que se esfarela, ano após ano, sem ninguém notar, deixa ir. Deixa partir de ti o amor que não te torna grande, o calor que não te acompanha, a saudade que só existe em você. Como estrela que se lança ao mar, segura de um novo céu, deixa ir.

Como a criança que se lança à frente em primeiros passos, sem medo algum de cair, como a noite que joga seu manto, dona imensa de si, deixa ir. Como a fé que segue adiante, como o livro que é viajante, como a pluma que de mãos dadas com a brisa, se torna também brisa por aí, deixa, deixa ir. Deixa que vá o apego ao medo, o desejo vazio, o silêncio como resposta, deixa que vá quem já vive à porta. Como as horas que giram, crianças fazendo ciranda, meninos matando o tempo na inocência do repetir, deixa ir.

Como as bolhas de sabão o sabem, como o pássaro que se põe mais longe, como os velhinhos que se guardam em si, cada dia um pouco mais. Como o beijo que se fez roubado, como o galho que aponta para o alto, acenando aos deuses que está ali, deixa ir. Deixa que tudo siga seu caminho mais natural. Porque também é da ordem das coisas que o seu encontre seus braços abertos, que o seu se deite em seu peito liberto, que te encontre através dos seus olhos iluminados. Como pista de pouso, como constelação, como farol que espreita as ondas escuras, deixa também o caminho aberto para quem quiser vir.

Diego Engenho Novo


 

 

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Conversávamos através das paredes finas das barracas, como duas crianças. Maurício já tinha prometido dezenas de vezes subir até o Pico das Cinzas comigo. Tarde da noite e ele me contou sobre a primeira vez que estivera ali. Há quinze anos, perdido com mais cinco companheiros de trilha, andando durante a madrugada, sem saber ao certo para onde estavam caminhando, sem poder parar e acampar no terreno acidentado, sem baterias nas lanternas, sem estrelas que os guiassem. Breu.

Tateando o caminho com os pés, Maurício parou por um segundo para ouvir um choro. Uma moça do grupo chorava desesperada, assustada, com frio. Seguindo o som dos soluços, meu amigo alcançou seus dois ombros e disse olhando nos olhos dela, não vendo-os, mas imaginando-os brilhando nas trevas daquela noite – Acalme-se, vai amanhecer em alguns minutos e nós reencontraremos nosso caminho.

Suas palavras a calaram – Como você pode saber? Como sabe que vai amanhecer? Não tem sequer um sinal de luz no céu e eu estou tão cansada – suspirando fundo – Ano após ano observando o céu pacientemente, eu aprendi que quanto mais próximo do nascer do sol, mais escura fica a noite – e um filete laranja do sol se espreguiçando começou a iluminar devagarinho o sorriso que eles trocavam sem saber.

Quantas vezes tive medo, perdi a fé, me senti o mais sozinho dos homens? Quantas vezes me perguntei onde tinha errado o caminho, quando me deixei encobrir pelo manto da tristeza? Eu só queria ter ouvido essa frase antes. Eu só queria tê-la em meus dias mais tristes para me dar a certeza de que a escuridão total à minha frente era também um sinal doce e certeiro de que a luz estava para chegar.

É isso que me faz seguir caminhando, essa sabedoria que Maurício tinha sem perceber, de que até mesmo a dor é carregada de sinais de que as feridas se curam, os embaraços se desfazem e a manhã nem tarda, nem falha. A manhã sempre vem pra nós.

Diego Engenho Novo


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Não é surpresa, anos depois de um casamento muita gente descobre que não conhece com quem se casou. Descobre quando um dos dois sai pela porta repentinamente, quando um dia nota uma risada mais alta por um motivo inusitado, quando se toca que tudo o que ela parecia ser se parece diferente agora. Foi assim como Aline. Um dia seu marido disse que era infeliz e ela pensou ser brincadeira de má hora. Mas ele estava mesmo indo embora. Indo embora dela.

Sempre que ouço histórias assim, tenho a sensação de que quem se depara com o desconhecido plantado ali na sala de casa, vestindo os chinelos do marido, ou carregando a bolsa da esposa, culpa sua própria existência, como se a casa tivesse sido invadida sorrateiramente. Como se um estranho tivesse invadido a casa e não morado por anos ao seu lado nela. É seu marido de vinte anos que está ali, sua mulher da vida inteira, é alguém que você viu por anos, sem enxergar. Reclamar que não conhece o outro, em muitos casos pra mim tem tanta lógica quanto culpar Paris por jamais ter estado lá ou culpar a Índia por ser longe. Em parte dos casos, claro, depende do outro também se mostrar. É preciso que Paris esteja lá para nós.

O que quero dizer e, eu sei: isso vai incomodar, é que muita gente que já ouvi reclamando ter tido um encontro repentino com o lado desconhecido da mulher ou do marido simplesmente não o conhecia por pura e boa falta de atenção e interesse genuíno. Não teve a curiosidade de atravessar a rua pra ver de perto quem disse que amava. Não tinha interesse em ver o que a curiosidade dele apontava no horizonte, não tinha atenção para ouvir as histórias até o fim, estava quase sempre contando algo sobre si, como se o outro fosse apenas testemunha, diário, público pagante.

Ouvi então Aline dizer aquela frase clássica “Meu Deus, quem é essa pessoa com quem me casei?”, pensei dizer – Pois é, é bem provável que ele se pergunte a mesma coisa. Vocês perderam a chance incrível de se conhecer em alma – mas não era isso que ela precisava. Um ombro que lhe segurasse o queixo já bastava. Algumas pessoas só são verdadeiramente notadas por nós quando, à luz da porta, chamam nossa atenção, não porque se tornaram mais nítidas, mas porque simplesmente pararam de nos dar ouvidos e naquele instante se tornaram menos nossas.

Diego Engenho Novo


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Houve um tempo em que eu chorava todas as noites. Houve um tempo em que eu pensava mais em você do que em mim. Houve um tempo em que meu medo me impedia de ir buscar o ar. Houve um tempo em que eu não via nada além da sua ira disfarçada de cuidado. Houve um tempo em que eu seguia seus passos como que desejando que você tropeçasse em mim. Houve um tempo em que eu te amei e nem mesmo me lembro direito o motivo.

Houve um tempo em que eu te desejava nos meus sonhos. Houve um tempo em que me sentia culpada por não sermos mais felizes. Houve um tempo em que eu fui infantil porque achei que seria a melhor forma de alcançar seus cuidados. Houve um tempo em que eu fui distante esperando que você notasse. Houve um tempo em que tudo o que eu fazia tinha sua aprovação como fim. Fim também disso.

Houve um tempo em que meus dedos te buscavam enquanto você dormia, esperando que algo no seu inconsciente ainda desejasse o calor de mim. Houve um tempo em que eu te pedia um beijo como quem pede que uma rosa brote num jardim infértil. Houve um tempo em que eu achei que a distância nos traria saudade, mas a volta das suas viagens só nos trazia mais distâncias.

Houve um tempo em que eu pensei que eu fosse o problema. Tentei mudar meu humor, meus modos, meu corpo, meus cabelos, mas nada parecia mudar à nossa volta. Em outro tempo pensei que podia mudar-te, num esforço tão eficiente quanto carregar a areia e a água do mar, ambas juntas entre os dedos.

Houve um tempo em que tudo isso me doeu e hoje já nem incomoda. Houve um tempo em que tive raiva, mas isso também não ficou. Hoje lhe guardo a candura e o cuidado de alguém que amei de todas as formas possíveis até entender que há um tipo de amor que não pede amor em troca. Hoje sou seu pai, sua mãe, sua filha, sua melhor amiga. Sou uma alma antiga que voltou sentindo saudade.

Diego Engenho Novo


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