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engenho

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Estava me vestindo pra sair e de repente notei algo incomum. Você estava rindo enquanto dormia. Não sorrindo, rindo mesmo. E eu fiquei ali congelado, sorrindo pro seu riso iluminado. Pensei em filmar pra guardar, mas não havia tempo. Esse era um daqueles pequenos momentos mágicos que só quem ama pode enxergar. Aquele exato momento em que, no meio do cotidiano, das contas pra pagar, do estar sempre atrasado, da roupa pra lavar, do cachorro que exige atenção, no meio disso tudo, acontece algo pequenininho que faz você se apaixonar de novo.

Não que não estivesse apaixonado antes, não que eu não seja. Mas é sim muito gostoso descobrir algo novo que me encanta em você. Aconteceu também no dia em que ficamos dançando sozinhos na sala escura. E outra vez quando achei um bilhete seu na minha carteira na fila do supermercado. Aconteceu também no dia em que vi você com chocolate do brigadeiro de panela na orelha. Sabem lá os deuses como aquilo foi parar ali. Mistério, assim como se reapaixonar um tantinho novo, diariamente.

Aconteceu numa madrugada dessas em que eu senti frio, ainda meio inconsciente, e seu abraço me alcançou. E depois quando você encostou o nariz na janela de vidro e disse que se sentia voando, igual criança. Acontece quando sinto o cheiro doce das suas costas e depois quando me deito sobre seus ombros. Acontece sempre que enxergo a vida um tantinho diferente por estar do seu lado. Enquanto você dormia, mais uma vez, nosso amor se acordava em mim.

Diego Engenho Novo


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Imagem: sophiaassociatesinc

Nosso navio costurava a imensidão do Amazonas. Embalados nas redes, assistíamos o dia ir se encostando. Ao pôr-do-sol, eu me embicava na frente do barco, como um moleque curioso – Então, você é o nosso timoneiro? – perguntou um senhorzinho com roupas de motociclista – Sim, eu que tô guiando agora – brinquei.

Ele ficou surpreso por eu saber o que era aquilo, um timoneiro. Mas havia algo ainda na manga, algo que ele podia me dar de presente – E um timo, você sabe o que é esse timo do timoneiro? – eu estava tão feliz quanto ele por não saber. Algo me dizia que ele iria me contar.

Explicou-me que o timo é um órgão do nosso corpo que vai desaparecendo ao longo da vida adulta, até se diluir em nosso corpo. Ele fica ali, no centro do peito, entre o coração e nossos pulmões, apontando sempre adiante, como quem guia nossas emoções, protegendo-nos pelo caminho. Timoneiro nosso.

Porque será que ele vai recuando? Oprimido por corações que se expandiram demais? Apertado por um par de pulmões inflados em busca de liberdade? Nosso timo é sufocado porque a gente amou de um tanto que ele não poderia mais nos proteger? Que biologia perversa é essa que vai desfarelando a gente, que vai nos desligando por fases?

Com o tempo vamos ficando mesmo mais ocos, vamos sendo preenchidos de um vazio novo, recém-chegado na gente. Se é o timo que nos impele pra frente, que direção tomamos quando ele se apaga em nós? Eu e minhas tantas perguntas, pude apenas encarar o rio, pausar a mão ao centro do peito e repetir baixinho – Guie meu coração, mostre-me o caminho, infla-me de sonhos até chegar o dia em que seguiremos nós, embarcações sem timoneiro.

Diego Engenho Novo


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Imagem: thenextweb.com

Às vezes não adianta. Não bate mesmo. Na pausa do – Muito prazer! – da pessoa a gente percebe que não vai com a cara dela e pronto. E estranhamente a gente começa a cavoucar os defeitos, procurar ironias, atento a uma opinião que a gente possa demonizar. A gente procura até que encontra um motivo, ou milhares, que confirmem aquele azedume precoce. Nosso santo não bate, minha filha.

Há uns anos cruzei com o Marcelo no aeroporto. Ambos íamos de Brasília pra Palmas. Não posso dizer que não gostava dele. Eu não o conhecia. Mas nem precisava: o tal do santo não batia de jeito nenhum. Nossos tantos amigos em comum só tornavam a implicância mais estranha ainda. Mas eu permaneci no meu papel de manter-me a uma distância segura. Distância que ele cruzou com seis palavrinhas mágicas – Porque você não gosta de mim? – gelei – Eu não tenho nada contra você Marcelo. A gente só não se conhece, né? – parecia primitivo demais admitir pra ele o real motivo.

No saguão da sala de embarque ecoou o aviso de que nosso voo havia sido mudado de portão, atrasado, atropelado uma garça, ficado preso no Nepal. O universo me queria ali, em banho-maria de constrangimento. Marcelo me chamou pra um café e ficamos ali conversando por cerca de duas horas. Reclamando do atraso juntos. Rindo das mesmas situações. Adorando os mesmos autores. Até aniversário a gente fazia no mesmo dia. Marcelo, para meu pavor, era um cara muito bacana. E eu nunca me senti tão pequeno.

Claro, às vezes o santo que não bate tem fundamento. E ele já nos livrou tantas vezes de gente esquisita. Mas entre seus acertos, penso eu, quantos erros cometi pela vida? Quanta gente foi taxada de antipática por ser tímida? Quanta gente passou por grosseira por estar em um mau dia? Todo mundo pode ter um dia bem ruim. Quanta gente foi repelida por um dizer que a gente escutou errado? Quanto amor abortado antes mesmo de vir à luz? Quanta chance perdida? Quanta gente querida que passou sem nem mesmo ter tempo de encostar-se na vida da gente? Quanta verdade perdida por preguiça, medo ou intolerância nossa? Quantas meias verdades vendidas a preço de ouro?

Perdão a todos vocês que foram vítimas minhas da primeira impressão. É ela que fica, mas não devia. Todo mundo pode errar e isso não o tornar uma pessoa má. Todo mundo pode acordar por dentro de um dia ruim. Inclusive a gente. Inclusive a nossa intuição. Às vezes nosso santo não bate por pura preguiça de olhar para os nossos próprios pecadinhos.


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Foto: healthflexhhs.com/blog/slow-your-roll-enjoying-the-little-things-in-life/

Comecei a pensar nisso no dia em que vi Túlio penando pra cortar o próprio bife – Desde quando você é canhoto, menino? – me sentindo o pior amigo do mundo por nunca ter notado – Eu não sou. Eu estou. Existem estudos que dizem que se você faz algo muito rotineiro de uma forma completamente diferente, isso funciona como um acordar para o cérebro. Neuróbica – explicou enquanto um pedaço de carne voava pra fora da mesa. Não tinha como não pensar mesmo, assim como estimulamos nosso cérebro forçando novas possibilidades, também não conseguiríamos acordar o coração da gente?

Troque as mãos quando for perdoar. Tire-se do lugar de sempre correto e ponha-se no lugar de quem sofre, de quem é agressivo ou desagradável porque se defende. Vire um canhoto da aceitação do próximo. Use uma venda no olhar e caminhe como se fosse cego para as imperfeições do outro. E se só por um dia a gente não atacar, não diminuir quem a gente ama, será que perceberemos o quanto estamos tristemente acostumados a fazer isso o tempo todo?

Tome um caminho novo. E se ao invés de duvidar primeiro, você logo de cara acreditar, mesmo que seja um convite glorioso para quebrar a cara? Os feitos mais doces partiram de corações que não duvidavam. E se você mudar seu relógio para o pulso não costumeiro, será que terá mais tempo para apreciar a companhia dos mais velhos? Terá mais paciência para amá-los mesmo quando os assuntos não forem exatamente do seu interesse do mesmo jeito que eles fizeram por tanto tempo com você? Ótimo exercício.

Que tal andar de costas? E prestar atenção nas pessoas que você deixou pra trás pela falta de tempo, pela mudança de rota, pela mágoa, por orgulho roxo? Sempre haverá tempo pra resgatar alguém que nos ama, mas não está mais em nossa predileção. Ativador máster de corações. Monte quebra-cabeças listando tudo o que ainda o torna incompleto e vá se completar. Há uma viagem para ser feita, um sabor que ficou na infância, uma meta desacreditada. Se ainda não pode realizar seus sonhos, ajude alguém a realizar o próprio. Acorde seu coração, tire-o da normose, coloque-o pra palpitar, alto e forte. Vai que a alma da gente se expande? Dizem que ao lado do coração, a felicidade acorda depois de um tempão dormindo abraçados.

Diego Engenho Novo


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Olá, Di! Tudo bem? Conheci uma pessoa um tempo atrás. A gente se dá muito bem, gosto dele como nunca gostei de alguém. Faz mais de 3 meses que estamos juntos, mas não em relacionamento sério. Conversamos todos os dias, sentimos saudades um do outro. Porém ultimamente ele diz que sente saudade, mas não faz nenhum esforço pra me ver. Ele diz que tem problemas em demonstrar os sentimentos e acho que cada um sabe amar/gostar de uma maneira diferente. Essa maneira pode ser a dele.

Quando ele quer me ver, eu saio e vou vê-lo. Mas quando eu quero vê-lo, tem sempre uma desculpa. Isso tá me machucando demais. Estou sofrendo porque não sei o que faço com esse amor que sinto por ele. Já tentei me afastar, mas ele vem dizendo que sente minha falta, que não me quer longe, vem conversar comigo.

No fundo, mas bem no fundo do meu coração eu sei que ele gosta de mim e me quer por perto, porém, fico um pouco confusa e sinceramente, às vezes, não consigo acreditar que ele goste de mim, porque as atitudes dele me fazem acreditar no contrário e acabo tendo uma certa insegurança em relação a isso. Acho que é medo de sair magoada. Eu quero muito acreditar no que ele diz. Não sei se luto por esse amor ou deixo ele ir. (Isabela, Irati- PR)


Oi, Bela, que bom receber sua carta.

Infelizmente (ou felizmente) na relação há sempre um mais disposto e outro que tem seu tempo mais lento. Tem sempre um mais generoso e outro mais focado nas próprias necessidades. Tem sempre um que se expressa mais e outro mais ensimesmado. Às vezes, faz um bem danado pra gente entender essas diferenças de cada um e parar de lutar contra elas, mas aprender com um pouquinho de cada uma.

Com o tempo, acredito que o disposto ensina o que tem seu tempo lento a buscar mais. No caminho inverso, é o mais quieto que ensina o disposto a aceitar as pausas dos tempos, sem pressa. O generoso não pode transformar o mais egocêntrico em generoso, mas pode ensiná-lo a incluir outras pessoas em seus planos, a fazê-las se sentir especiais. Do outro lado, aquele que é mais focado em si pode ensinar a gente a se amar mais, a se curtir mais um pouco.

Aquele que expressa seus sentimentos precisa ser bem prático e dizer como é que se faz: “Ei, me liga todo dia de manhã pra dar bom dia. Isso é uma ordem de amor!”, “Olha só, não quero mais presente sem cartão. Presente sem cartão não tem alma. Se você não souber o que escrever, diga que me ama e assine. Estará perfeito”. Tem gente que precisa aprender amar como uma criança aprende a escrever: de pouco em pouco, pegando na mão, sendo pacientes. Tem gente que precisa de um verdadeiro “Manual do Gostar de Mim”.

E o que a gente pode aprender com quem não demonstra muito seus sentimentos? Podemos aprender a ser mais práticos, menos dramáticos e guardar algum mistério para o outro. Nada de se mostrar inteiro duma vez. O amor é um exercício delicioso de descoberta.

Eu realmente acho, Bela, que esse moço aí tá precisando de umas dicas práticas. Esse lado meio distante dele não vai mudar drasticamente, faz parte da natureza inata dele, mas vocês dois podem juntos descobrir pequenos atalhos para se amarem mais e se machucarem menos. Podem encontrar formas de driblar o que incomoda para alcançar o que encanta.

Algo me diz que ainda não é hora de desistir. Eu realmente espero que ele descubra logo a mulher incrível e doce que você é. Mostre o caminho a ele. Abração, Diego.

PS. Quando precisar me escreva. Eu estou sempre por aqui pra você.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

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Estou correndo, voando pra casa. Estou voltando, vencendo os semáforos. Estou chegando, subindo as escadas. Como se só mais um degrau me separasse da sala, como se o corrimão fosse dar em você. Estou à porta, as chaves na mão. Jogo a bolsa, e me deito bem ao meio do seu peito, sem nenhuma cerimônia. Estive correndo o dia inteiro, todo esse tempo voltando pra casa.

Pego sua mão, penduro em meus cabelos. São seus dedos que devagarinho fazem toda a mágica. Eles têm esse dom de apagar meus maus pensamentos. Como quem limpa a poeira da capa de um livro e se põe a lê-lo. Como quem afasta as folhas da íris de um rio e o enxerga fundo. Como quem sabe que tudo o que eu preciso após um dia imenso é me tornar pequeno pendurado à volta de suas costelas.

E sem dizer uma palavra, só me beijando as pálpebras, você limpa meus olhos que te amam do avesso. E sem som nenhum, meus olhos também transbordam-se de amor por você. Brota nossa cumplicidade como uma flor pequenininha que se alimenta de luz, sem pressa nenhuma, sem fazer alarde, sem saber do tamanho de sua grandeza.

E basta seus braços para assentar todos os meus pensamentos. Bastam-me eles para apartar toda a confusão, pra adestrar todos as minhas inseguranças, num estalo, num abraço. Como a proteção de um templo de portas sempre abertas, uma catedral que guarda segredos atrás de janelas altas, um refúgio para os pobres medos inquietos. Com o tempo nosso amor se tornou a hora em que em mim tudo cala.

Diego Engenho Novo

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Leia ouvindo isto

A cidade vazia. Todos os prédios ocos, cheios de gente sozinha. O vento parou de brincar com as copas das árvores, os sinos da igreja pararam de exigir as horas, no céu nem uma nuvenzinha.

Naquela manhã ninguém foi trabalhar, descobriram que o amor é que dava sentido. Comiam pra ter forças, vestiam pra ter cor, saiam de casa todos os dias para voltar e encontrar o amor. Um sustinho.

Naquela manhã os pássaros também se aquietaram já que todos cantavam por causa do amor. Calou-se também o mendigo que mendigava amor. Calaram-se os carros, abandonados, que só aceleravam buscando o amor.

As crianças ficaram tristezinhas, as velhinhas pararam de bordar, toda a delicadeza só existia por causa do amor. Não havia mais choro, nem saudade, nem espera, nem olhos que se procuravam. A cidade era apenas um amontoado de saudades ocas sem pessoas dentro.

De repente, ouviu-se um estrondo. O amor, como onda que é, recuou e se despejou imenso sobre toda a cidade. Mas mesmo assim ninguém foi trabalhar, ninguém retomou carro, ninguém subiu à igreja pra tocar os sinos. Naquela manhã todos correram em um sentido e seguraram bem forte quem dava sentido pra todas as coisas.

Diego Engenho Novo

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Minha impaciência de moleque, recentemente abandonada junto com as roupas rasgadas, deram lugar a uma vontade crescente de ter meus pais por perto, cada vez mais e mais. Acho que no meio dos ataques hormonais, da fúria de adolescente, quando eu pedia internamente que meus pais fossem embora, não havia espaço para entender que um dia eles certamente iriam. Eles ainda irão. Nesse dia, se apagará um pedaço de luz no meu olhar, como o lumiar do cômodo de uma casinha. Alguém partiu de nós.

Ao contrário de todo o meu relutar para cair no mundo, para ser dono de minhas escolhas, agora que nos encontramos, percebo que só há descanso lá, no sofá da minha mãe, na cadeira do meu pai, sob seus olhares delicados que me amam cuidadosamente. Depois de conhecer o mundo a gente percebe o quanto é raro ter alguém de quem não precisemos nos defender, alguém em quem confiar nosso fechar de olhos, alguém que trocaria a própria paz pela nossa.

Quando finalmente encontrei meus pais, notei que passei tanto tempo tentando descobrir quem era eu mesmo, crescendo, que nem lembrei de conhecê-los. Foi uma surpresa ouvir as histórias, entendendo que aquelas passagens de alguma forma, também eram minhas. A paixão do meu pai pelo cinema quando garoto, a intensidade da minha mãe como atriz, suas perdas, seus amores. Precisei encontrá-los no meio do caminho para perceber que eles provavelmente eram as pessoas mais fascinantes que conheceria nessa vida.

Me toca pensar que em alguns anos, meus pais serão pra mim como a criança que eu já fui pra eles. Que precisarão de comida na boca, horário de banho e alguém pra pentear seus cabelos enquanto conversam sobre o dia. Um dia eu cuidarei de devolver à luz, delicadamente, meus pais. Me dei conta disso quando nos encontramos, solenemente no meio do caminho da vida, três adultos afinal.

Diego Engenho Novo

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Quando meu som desaparecer no ar, após ondas cada vez mais fracas, de quais palavras você lembrará? Quando minhas cores se aquarelarem nas lembranças, após tons cada vez mais envelhecidos, qual imagem ficará guardada?

Se meu olhar não esteve sempre tão visível, o levo agora ao seu, para que fiquemos quites. Guarde contigo as linhas dos meus olhos e o que nelas sempre esteve escrito. 

Quando eu me tornar uma ilha distante, seus pés inconformados com o frio buscarão meu alcance? Até você me apagar, saiba que reaprender a viver sem ti é quase tão difícil quanto me reinventar. E eu não gostaria de ser outra coisa que não seu.

E serão cada vez menos constantes os rostos na rua que se parecem comigo, e vai se calar o telefone que toca e ainda sou eu, e vão se espaçar, até esvaírem-se os sonhos que te acordam como se fossem verdade. Um encontro marcado onde ainda somos possíveis.

Um dia nós vamos nos perder como se perdem da memória os poemas antigos, apagados, verso após verso não dito. Mas nós dois sabemos, que mesmo esquecidos, poemas antigos ainda falam de amor.

Diego Engenho Novo

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Sim, eu gostaria de protegê-lo, mas não posso. Ainda que estivéssemos abraçados, algo poderia acontecer a você, nos meus braços. Ninguém pode nos proteger da maldade do mundo, das inconsistências do destino, de nossos instintos. Guardá-lo não seria diferente de prendê-lo. Para vê-lo livre é preciso arriscá-lo. De fato jamais tinha me preocupado com alguém até amá-lo. Nem mesmo comigo.

Até amá-lo não havia perigo em saltar, não havia passo retrocedido, nem cálculo, nem covardia. Bastou amar para acovardar-me. Me angustia pensar que sem mim no mundo, quem em ti pensaria? Quem choraria no escuro após um pesadelo? Quem velaria o teu sumiço? Quem se alegraria com a tua volta? Que se debruçaria sobre os teus feridos que não eu? Amar me levou ao ponto de pensar às vezes que única falta que eu sentiria desse mundo, seria sentir-me saudoso de você.

Eu brigaria na rua, gritaria mais alto, eu daria medo em quem quer que pusesse meu medo um passo mais à frente. Mas você me reconheceria? Eu que te falo baixo, que te toco leve, que te amo calmo, que visto candura quando contigo? Eu também queria proteger tua alma do vigor alheio em subestimar. Eu adoraria proteger as pontas das pontas dos teus dedos. E eu te aqueceria antes de queimar. E eu te avisaria antes do tropeço. Eu te privaria do constrangimento de saber que descobri a verdade.

Até amá-lo era incabível esperar, era indiscutível meu querer, vinham as vontades antes do próprio precisar. Mas bastou amar para colocar-me no lugar da espera, em segundo lugar. E faço sem ranço, sem força, sem pensar que o preço é alto. O homem que arou a terra, separou a muda, afastou o sol, se incumbiu da água, esperou o galho, afastou a praga, lhe podou as réstias e velou o pomo, pode dar o fruto para quem achar que é digno de merecê-lo. Não, meu amor não pode protegê-lo, mas é ele que me mantém aqui, atento, para curá-lo do mundo.

Diego Engenho Novo

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