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Tânia buzinou em frente ao café. Entrei e rapidamente engatamos um assunto. Ela estava tendo problemas por causa da teimosia tardia dos pais idosos. Íamos conhecer o sítio que ela acabara de comprar. Sonho antigo. Lá pelas tantas, já na marginal, o painel do carro dela começou a apitar insistentemente – Ele me avisa toda vez que eu ultrapasso a velocidade permitida. Avisa quando eu passo do ponto – riu, Tânia, suavizando o pé do acelerador.

Onde compra? Eu queria um desses pra levar pra vida. Um que avisasse quando a gente está levianamente machucando quem é do amor da gente. Um que apitasse sempre que as palavras fossem duras de mais. Um que parasse o princípio de todo arrependimento, o falar mais que a boca, sem passar pelo filtro do coração. Já notou como a gente costuma ser duro justamente com quem mais merecia nossa candura, nossa paciência? Erro brutal de condução.

Todas as intensidades, diante do amor, se tornam um tanto mesmo desmedidas. O que nem incomodava ver, fere as vistas. O que nem importava ouvir, ofende o baço. O que todos sempre disseram parece de uma arbitrariedade sem precedentes vindos justamente de quem mais se preocupa com o bem da gente.

Acontece que na mistura da posse, no afã de defender nossos tantinhos de autoestima, incoerentemente, somos monstruosos justo com quem queríamos ser os melhores. Não queremos que ele veja nossas feiurinhas e isso o afasta também de nossa beleza.

Nessas horas, um sinal vindo do painel seria bem-vindo – Ei! Você está exagerando! – E a gente instantaneamente se lembraria que o amamos tanto, que temos nele nosso melhor amigo, que seu medo é proteção, que nosso orgulho nem estaria tão ferido se aquela fosse a opinião do Seu João da padaria. A gente é mesmo muito doida e mesmo assim ele nos ama, aguenta nossas patadas, releva nossos rompantes, mas, até quando? Por hoje, serei eu o seu sinal.

Diego Engenho Novo


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Se perguntarem por mim, diz que eu saí. Diz que eu não to. Que hoje eu não to nem aí. Se perguntarem por mim, já me aponta de longe, virando uma esquina. Deixemos os acertos, as culpas, deixemos tudo na companhia das promessas que ganhei. Amanhã, que é outro dia, pingos dos is. Pros meus sapatos se entreolhando, dos meus fracassos recorrentes, dos meus anti-amores debulhando-se, deixo o contorno de minhas costas como resposta.

Hoje eu não atendo, não aceito troco em bala, não dobro desaforo pra viagem, não engulo meias palavras. Se perguntarem o que deu em mim, só diz que eu saí, que eu cansei, me danei por aí. Das roupas que não me cabem, do tédio que não me paga, da companhia que só leva de mim e nunca me leva por aí. A todos eles que perguntarem, só diz que eu fui.

Hoje virei moleca que foge gastando os chinelos. Se perguntarem, não culpem o mundo. Foram minhas dores que desandaram-me. Então meus olhos serão do novo, do estar à frente, quero perder-me ainda que seja por poucas horas. Das carências que cobram afeto, das lembranças que cobram preços abusivos, a todos que devo desculpas pela falta de jeito, quando perguntarem por que saí depressa, só diz. Diz que eu saí de mim e volto tarde.

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Quando moleque, eu tinha certeza de que havia alguém do outro lado da estrela para a qual olhava admirado todo começo de noite. Havia de haver alguém do lado de lá me observando, pensando em mim, sem nem ao menos me conhecer, porque eu também me sentia assim.

Me sentava todas as noites religiosamente na frente da casa e ficava ali, imaginando que um dia eu me apaixonaria por alguém que já amava baixinho. Eu já pensava nisso, antes mesmo de ter ideia da complicação que era amar. Aquele olhar para a estrela era um pressentimento bom de que alguém iria me salvar, da minha baixa estatura, do meu tédio, mas daquele vazio já tinha nascido comigo, que nasce e morre com todos nós.

Hoje, décadas depois, me sentei novamente. Agora na frente do prédio em que vivo. A lua mal podia ser avistada. As estrelas, apenas velhinhas tentando ser notadas na multidão de luzes da cidade. E eu, olhando novamente para a estrela, senti uma saudade imensa da certeza que eu já tive um dia. A certeza de que alguém me esperava. Aquela tristeza era a mesma de ver uma estrela morrer. Pena misturada com miudeza.

Senti uma culpa gigantesca por não ter permitido que meu eu menino se encontrasse com aquele outro olhar. De certa forma, foram as escolhas erradas que fiz que os afastaram. Não falo das pessoas. Pessoas nunca serão escolhas erradas. Todas elas nos levam para algum lugar em que deveríamos invariavelmente chegar. Quando falo de escolhas erradas, digo das intensidades desmedidas, dos medos que me impediram de submergir na confiança, das segundas chances que não dei, muitas e tantas vezes, para mim mesmo. E hoje eu sinto uma saudade cortante, funda, doída daquela certeza de que alguém também sonhava comigo.

Uma vez, contei essa história para minha amiga Analice, deitados nas redes da varanda dela – E para qual estrela exatamente você olhava todas as noites? Você lembra? – Perguntou curiosa botando metade do dorso pra fora do pano – Não era uma estrela em especial. Acho que eu só olhava pra cima e mirava na primeira. Era ali nosso encontro – Ela sorriu e olhou para o céu bonito do quintal – Então, seu amor nunca se tratou de certeza, mas de fé – E por alguns minutos meu coração voltou a acreditar.

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Jogou as flores pela janela meio aberta e mandou que saísse. Que deixasse livre a sala do apartamento, que deixasse livre a vida que era dela. Antes de vê-lo ralentar a porta para não deixar bater atrás de si, disse novamente aquelas palavras que a tanto tempo perseguiam Lilian – Você é louca, sabia? – para a qual ela respondeu com uma espécie de grunhido, do tipo que só as doidas dão.

Talvez estivesse mesmo ficando meio pirada, mas naquele instante, ela era toda a razão. Quem sabe se arrependesse em uma ou duas horas, mas talvez não. O que Lilian sabia era que naquele instante manda-lo ir embora era tudo o que podia e gostaria de fazer. Sem plano adiante, sem grandes reflexões, sem noite mal dormida. Apenas mandou que saísse após se sentir mais uma vez diminuída. Fez-se gigante.

Sentiria sua falta na oca de cobertores? Pensaria mais nele quando chegasse o domingo? Provavelmente. Se manteria firme em seu ato de mantê-lo longe até que virasse hábito? Ou correria atrás dele desejando um único perdão que consertasse aquela lambança toda? Não sabia. Não era a obrigação dela ali. Por doida já havia passado, a fama já tinha. Decidiu usar isso para não enlouquecer.

Estava errada em sua raiva desmedida? Imaginando coisas onde nada morava? Estava exagerando ou estava dando a ele a resposta exata que merecia? Só mesmo o amanhã diria. Naquela noite dormiu sozinha, dolorida, mas respirando mais aliviada. Naquela noite não sentiu culpa, insegurança, medo. Ele havia levado com ele toda a confusão de sentimentos com as quais a envolvia. E, veja, que grande ironia, havia ficado ela apenas com sua loucura emprestada e a certeza de que naqueles minutos de paz que lhe rondavam, ela estava coberta de razão. Fez o que queria. Feito raro nos dias de hoje.

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Eu devia ter uns doze anos quando meu pai me contou que ia me levar parar viajar com ele de caminhão. Com minha mochila miúda, seguimos os dois em direção a Belém. A estrada linda, de cílios verdes alongados ia me saudando e se despedindo em um movimento só, através da janela. Eu adorava ficar ouvindo as histórias engraçadas do meu pai enquanto sentia o vento gelado da noite ou quente da tarde no meu rosto.

Em certa altura da viagem, em uma cidadezinha encoberta pela poeira da estrada, vi uma fila de garotos, cada um com uma pá, lata, enxada, qualquer objeto que lhe valesse para carregar terra. Os buracos da estrada iam pipocando e, para cada um, havia um garoto de prontidão. Eles enchiam o buraco de terra e quando o caminhão se aproximava estendiam a mão, pedindo uma moeda por terem consertado a ferida que eles mesmos haviam feito.

Meu pai disse não para o primeiro. Negou o segundo. Balançou com a cabeça pro terceiro. E foi dizendo não, para aquela fila infinita de garotos cobertos de poeira. Foi aí que ri, ingênuo, quase maldoso e lancei – Que burros. Porque eles continuam pedindo se viram que você já disse não pros primeiros, pai? – Meu pai freou o caminhão e, ao contrário do que pensei, não brigou comigo. Papai sorriu, doce. Abriu a janela e deu algumas moedas para um dos últimos meninos da fila – Cada menino continua insistindo porque não foi pra ele que disseram não, filho – ajeitando meu cabelo suado.

Levei isso comigo por uma vida inteira. Para as portas mais impossíveis, para os degraus mais inalcançáveis, para as derrotas mais temíveis, guardei comigo, que até me dissessem não, nada me haviam negado. Para os medos mais irracionais, para as inseguranças mais solitárias, para os caminhos inférteis em que tantos já haviam falhado, segui. Estirando meu peito aberto às possibilidades, estirando minha mão grata pela tentativa. E após muitos nãos, após quase todos os nãos, veio-me o sim. Veio da mesma porta que para tantos já havia se fechado antes. Mas não para mim.

Diego Engenho Novo


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Conheci Zofia há alguns anos quando a recebi em casa. Ela viajava pela América do Sul com sua mochila e ficou uns dias lá em casa. Sempre muito doce, ensolarada, Zofia adorava falar sobre suas andanças pelo mundo. Zofia foi a polonesa mais brasileira que já conheci.

Em seu último dia na cidade, lhe dei uma escultura de madeira em formato de pássaro que ela havia adorado na feirinha de artesanato. Era pequena, cabia na palma da mão. Ela a pegou, aninhou entre os dedos, me abraçou e disse – Obrirrigado – com seu português meio polaco. Foi aí, que ela me ensinou uma das coisas mais lindas e difíceis que já aprendi na vida.

Ela beijou o pássaro e me devolveu, como quem entrega uma criança recém-nascida, de um par de braços para o outro – Você não quer? – perguntei meio sem jeito – Eu não posso levar. Vai pesar na mochila. Só o essencial. Só o essencial – sorriu e saiu andando para a cozinha. Fiquei ali parado com o passarinho na mão, meio boquiaberto. Nos primeiros dois segundos achei de uma grosseria sem precedentes, mas aí me veio o voo.

Ela tinha muito mais motivos para se ofender que eu. Afinal, eu estava tentando lhe dar algo que ela não podia carregar. Em mochilas de viajantes, tudo é peso. Cada pequeno objeto deve ser muito bem pensado, porque é a soma deles que torna uma mochila possível ou impossível de se carregar. Pra mim, aquele passarinho não pesava nada. Pra mim. Pra ela era presente de grego.

A gente vive fazendo isso. Quando não fazem isso com a gente. Oferecemos um peso, uma cobrança, uma necessidade de afeto que o outro não pode carregar pelo simples fato de que para nós é fácil e muitas vezes até prazeroso. Quantas vezes já nos deram responsabilidades que não eram nossas? Culpas que não cabiam na bagagem da gente? E a gente carregou sem reclamar. Depois de conhecer Zofia, aprendi. Se sei que não será possível, eu agradeço e devolvo com cuidado pra não machucar. Sigo carregando só o que é essencial.

Diego Engenho Novo


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Lucas tinha sido transferido pra cidade há poucos dias. Como não conhecia ninguém, Aline foi encarregada pela chefe de leva-lo pra conhecer a noite. Ao chegar na frente do prédio, viu que ele não combinava muito com os outros rapazes do departamento de TI: ele era forte, alto, bem vestido e tinha um sorriso que a fez esquecer como se engatava a primeira marcha. Mas quando o milagre é muito grande, já viu, né? Não falava com ela direito. Mal olhava na cara dela. No primeiro bar, ele detestou tudo. Seguiram pra uma festa onde Aline se desdobrou para apresentar todas as suas amigas pro bonitão. Uma era chata, a outra baixinha demais, para todas ele dava um defeito perfeito. Chato era ele. Em certo ponto, Aline não aguentou mais. Disse que ele era metido, arrogante, prepotente, antipático, disse tudo o que tava entalado e saiu andando.

No dia seguinte, seu telefone toca. O número era desconhecido, mas a voz era a dele – Desculpa, eu não queria te chatear ontem – quase sem conseguir terminar – Meu Jesus amado! O que é que você quer? Você já infernizou minha noite. Eu paguei caro naquela roupa! – esbravejava do lado de cá – Mas eu não entendi. O que te deixou tão irritada? – Como assim, Lucas? Como você pode ser tão idiota! Eu te apresentei todas as minhas amigas. Eu te apresentei as mulheres mais bonitas que eu conheço e você desdenhou de to-das – foi a vez dele interromper – Você não entendeu nada, Aline. Eu estava interessado em você – silêncio letal, talvez ela tivesse desmaiado – Estava? – sem entender direito – Eu estou.

Aline me contou isso quase chorando e eu tentando não rir. Porque era muito dela promover aquele tipo de desencontro. Era muito dela se colocar nos bastidores, fugir do foco da luz, não aceitar elogios como quem devolve um buquê de flores. Como se isso fosse realmente possível. Era muito dela sempre acreditar que o melhor havia de ser para os outros, era muito dela desacreditar da própria beleza. Era muito dela não reconhecer seu humor adorável, não enxergar o que todo mundo em volta podia ver, que ela era uma mulher incrivelmente magnética. Aline sempre me dizia do quão era difícil acreditar, que ela não era capaz de se enxergar assim – Tudo bem, se você não consegue acreditar nisso, pelo menos desconfie.  A gente precisa, vez ou outra, desconfiar da nossa autocrítica, da autoestima que é por vezes míope e não consegue enxergar a beleza que está bem perto, que está na gente.

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Com minhas mãos amedrontadas, te amo. Com meu beijo sem fome, te amo. Com toda a minha distância, te amo. Com meu olhar lacônico, te amo. Com meus pés que machucam enquanto dançam, te amo. Com minha insônia preocupada, com minha fome que por vezes me torna um gremlin odioso, com todas as minhas dúvidas, não resta dúvida nenhuma que te amo.

Com minha falta de jeito, te amo. Com minhas respostas atravessadas, te amo. Com minha falta de memória, te amo. Com meu mau gosto para presentes, amo você. Com minha claustrofobia que não sabe dormir abraçada, com meus horários loucos, minhas manias por escadas, com minha teimosia de velha ceguinha, amo você.

Comendo as pontas das minhas canetas, roendo o dorso das unhas, distraidamente te amo. Com meus pesadelos noturnos, minhas coleções incompletas, minha carência no frio, meu cabelo em ondas revoltas, te amo. Com minha letra que é sempre uma prima distante de si mesma, escrevo que amo você, torcendo para que você me entenda.

Com minha saudade desenfreada, te amo. Com minhas roupas espalhadas pela casa como se fossem pombos, te amo. Com minha incapacidade para abrir embalagens, te amo. Com meus erros de português, minha língua desenfreada, meu sono impróprio quando seu corpo é teso, te amo. Com meu palavreado chulo nas curvas da raiva, com minha resistência tibetana em pedir desculpas, te amo. Com todos os meus erros, defeitos e tropeços pela vida, te amar foi meu maior acerto.

Diego Engenho Novo


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Quando a grande luz abaixou por trás da montanha serena, ele foi uma das primeiras coisas que eu vi. Tava ali curioso, ensaiando pra me cumprimentar. Pessoinha intrigante, o gigante pequeno. Vinha de tempos em tempos, meio desconfiado, tentando me entender com os olhos. Parecia justa a curiosidade. Eu era a novidade que eles gostavam de chamar de – o bebê. Pouco imponente, eu sei, mas todos os gigantes atrás da montanha serena respeitavam – Lá vem o bebê! – abriam caminho.

Ao contrário dos outros, ele era silencioso como uma nuvem a passeio. Minha paz no meio de tantos zumbidos, miados, fungadas, que era o que soava enquanto eu passava de mão em mão, como um prêmio. Sobrevivi também a isso. Descobri cedo que se eu ficasse com os olhos bem abertos e estatelados, eles simplesmente param. Entenda isso – gigantes adoram atenção.

Às vezes me deixavam tomando conta dele, do pequeno, e claro, eu vigiava. Entre uma soneca e outra, entre uma fome e outra, eu me certificava de que ele estava ali se também à minha existência. Falávamos sobre um monte de coisas que não me tinham sentido, mas eu gostava do som pausado da fala dele.

No dia em que ele apareceu sem o sorriso das bochechas, eu não pensei duas vezes: tirei minha chupeta e quis emprestar. Orgulhoso que era, não aceitou. Ficamos ali em silêncio, acompanhando a pausa do outro. Ele não era lá muito forte, mas, ainda assim, tentava me dar apoio pra que eu enxergasse o mundo inteiro além da montanha serena. Era sempre um rápido e incrível passeio. Ele me foi companhia, foi o alcance do meu braço, ele era o pequeno gigante que também me tornava maior. Hoje, acredite você – eu me tornei um gigante bem maior do que ele. À montanha serena nós damos o nome de mãe.

Para meu irmão Marcos,

que sempre me viu bem maior do que eu era.

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Diziam os antigos que os homens eram anjos lançados à Terra pra aprender os dons do sentir. A eles foi dado um desafio – ao perder uma de suas asas, cada um devia encontrar um jeito de voltar pro céu. Quando conseguissem isso, descobririam também o mistério da vida humana. Centenas de milhares deles, lançados ao mundo, meio mancos. só com uma asa.

Aí, durante milhares de anos, os homens tentaram de tudo pra voltar pra casa. Subiram montanhas que os aproximavam das nuvens, construíram máquinas que os levassem bem alto, plantaram árvores que cresceriam até o céu. Mas nada parecia funcionar. Com apenas uma de suas asas, todos os anjos estavam aprisionados por aqui, sem poder voltar.

Aos poucos, eles perceberam duas coisas fascinantes – primeiro que seu esforço de voltar ao céu, havia desenvolvido, sem querer, os saberes da humanidade. Ao seu modo, cada um havia evoluído em ciência e sabedoria. Segundo, que a resposta pro enigma que os havia trazido sempre esteve ali, ao lado. Abraçados, cada anjo com sua asa solitária formava um par de asas.

E o outro era a benção, e o outro era o equilíbrio. O outro era a liberdade, e também era o sentido. Sempre que penso nessa história, me lembro da minha amiga, Nane. Porque é exatamente assim que me sinto – abençoado pelo nosso encontro. Sinto que juntos poderíamos cumprir qualquer jornada. Nas noites em que eu estivesse cansado de bater minha asa, ela se esforçaria um pouco mais com a sua e nós seguiríamos. Nas tardes em que a fadiga e a descrença a alcançassem, eu tornaria possível e permaneceríamos avançando.

Quando estamos longe, sinto meu mundinho ficar pesado, em processo claro de desequilíbrio. Basta um ‘oi’ e já volto a enxergar respostas, a aceitar caminhos, a ficar levezinho, a flanar em suas histórias. E com tanto amor, tanto cuidado, tanta candura e afeto, nem percebemos que, aos pouquinhos, estamos mesmo retornando. Amigos são a asa que nos eleva e faz a gente enxergar mais longe. Os amigos são anjos que levam a gente de volta pra casa. Assim já diziam os antigos.

Diego Engenho Novo


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