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diego

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Imagem: sophiaassociatesinc

Nosso navio costurava a imensidão do Amazonas. Embalados nas redes, assistíamos o dia ir se encostando. Ao pôr-do-sol, eu me embicava na frente do barco, como um moleque curioso – Então, você é o nosso timoneiro? – perguntou um senhorzinho com roupas de motociclista – Sim, eu que tô guiando agora – brinquei.

Ele ficou surpreso por eu saber o que era aquilo, um timoneiro. Mas havia algo ainda na manga, algo que ele podia me dar de presente – E um timo, você sabe o que é esse timo do timoneiro? – eu estava tão feliz quanto ele por não saber. Algo me dizia que ele iria me contar.

Explicou-me que o timo é um órgão do nosso corpo que vai desaparecendo ao longo da vida adulta, até se diluir em nosso corpo. Ele fica ali, no centro do peito, entre o coração e nossos pulmões, apontando sempre adiante, como quem guia nossas emoções, protegendo-nos pelo caminho. Timoneiro nosso.

Porque será que ele vai recuando? Oprimido por corações que se expandiram demais? Apertado por um par de pulmões inflados em busca de liberdade? Nosso timo é sufocado porque a gente amou de um tanto que ele não poderia mais nos proteger? Que biologia perversa é essa que vai desfarelando a gente, que vai nos desligando por fases?

Com o tempo vamos ficando mesmo mais ocos, vamos sendo preenchidos de um vazio novo, recém-chegado na gente. Se é o timo que nos impele pra frente, que direção tomamos quando ele se apaga em nós? Eu e minhas tantas perguntas, pude apenas encarar o rio, pausar a mão ao centro do peito e repetir baixinho – Guie meu coração, mostre-me o caminho, infla-me de sonhos até chegar o dia em que seguiremos nós, embarcações sem timoneiro.

Diego Engenho Novo


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Imagem: thenextweb.com

Às vezes não adianta. Não bate mesmo. Na pausa do – Muito prazer! – da pessoa a gente percebe que não vai com a cara dela e pronto. E estranhamente a gente começa a cavoucar os defeitos, procurar ironias, atento a uma opinião que a gente possa demonizar. A gente procura até que encontra um motivo, ou milhares, que confirmem aquele azedume precoce. Nosso santo não bate, minha filha.

Há uns anos cruzei com o Marcelo no aeroporto. Ambos íamos de Brasília pra Palmas. Não posso dizer que não gostava dele. Eu não o conhecia. Mas nem precisava: o tal do santo não batia de jeito nenhum. Nossos tantos amigos em comum só tornavam a implicância mais estranha ainda. Mas eu permaneci no meu papel de manter-me a uma distância segura. Distância que ele cruzou com seis palavrinhas mágicas – Porque você não gosta de mim? – gelei – Eu não tenho nada contra você Marcelo. A gente só não se conhece, né? – parecia primitivo demais admitir pra ele o real motivo.

No saguão da sala de embarque ecoou o aviso de que nosso voo havia sido mudado de portão, atrasado, atropelado uma garça, ficado preso no Nepal. O universo me queria ali, em banho-maria de constrangimento. Marcelo me chamou pra um café e ficamos ali conversando por cerca de duas horas. Reclamando do atraso juntos. Rindo das mesmas situações. Adorando os mesmos autores. Até aniversário a gente fazia no mesmo dia. Marcelo, para meu pavor, era um cara muito bacana. E eu nunca me senti tão pequeno.

Claro, às vezes o santo que não bate tem fundamento. E ele já nos livrou tantas vezes de gente esquisita. Mas entre seus acertos, penso eu, quantos erros cometi pela vida? Quanta gente foi taxada de antipática por ser tímida? Quanta gente passou por grosseira por estar em um mau dia? Todo mundo pode ter um dia bem ruim. Quanta gente foi repelida por um dizer que a gente escutou errado? Quanto amor abortado antes mesmo de vir à luz? Quanta chance perdida? Quanta gente querida que passou sem nem mesmo ter tempo de encostar-se na vida da gente? Quanta verdade perdida por preguiça, medo ou intolerância nossa? Quantas meias verdades vendidas a preço de ouro?

Perdão a todos vocês que foram vítimas minhas da primeira impressão. É ela que fica, mas não devia. Todo mundo pode errar e isso não o tornar uma pessoa má. Todo mundo pode acordar por dentro de um dia ruim. Inclusive a gente. Inclusive a nossa intuição. Às vezes nosso santo não bate por pura preguiça de olhar para os nossos próprios pecadinhos.


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Foto: healthflexhhs.com/blog/slow-your-roll-enjoying-the-little-things-in-life/

Comecei a pensar nisso no dia em que vi Túlio penando pra cortar o próprio bife – Desde quando você é canhoto, menino? – me sentindo o pior amigo do mundo por nunca ter notado – Eu não sou. Eu estou. Existem estudos que dizem que se você faz algo muito rotineiro de uma forma completamente diferente, isso funciona como um acordar para o cérebro. Neuróbica – explicou enquanto um pedaço de carne voava pra fora da mesa. Não tinha como não pensar mesmo, assim como estimulamos nosso cérebro forçando novas possibilidades, também não conseguiríamos acordar o coração da gente?

Troque as mãos quando for perdoar. Tire-se do lugar de sempre correto e ponha-se no lugar de quem sofre, de quem é agressivo ou desagradável porque se defende. Vire um canhoto da aceitação do próximo. Use uma venda no olhar e caminhe como se fosse cego para as imperfeições do outro. E se só por um dia a gente não atacar, não diminuir quem a gente ama, será que perceberemos o quanto estamos tristemente acostumados a fazer isso o tempo todo?

Tome um caminho novo. E se ao invés de duvidar primeiro, você logo de cara acreditar, mesmo que seja um convite glorioso para quebrar a cara? Os feitos mais doces partiram de corações que não duvidavam. E se você mudar seu relógio para o pulso não costumeiro, será que terá mais tempo para apreciar a companhia dos mais velhos? Terá mais paciência para amá-los mesmo quando os assuntos não forem exatamente do seu interesse do mesmo jeito que eles fizeram por tanto tempo com você? Ótimo exercício.

Que tal andar de costas? E prestar atenção nas pessoas que você deixou pra trás pela falta de tempo, pela mudança de rota, pela mágoa, por orgulho roxo? Sempre haverá tempo pra resgatar alguém que nos ama, mas não está mais em nossa predileção. Ativador máster de corações. Monte quebra-cabeças listando tudo o que ainda o torna incompleto e vá se completar. Há uma viagem para ser feita, um sabor que ficou na infância, uma meta desacreditada. Se ainda não pode realizar seus sonhos, ajude alguém a realizar o próprio. Acorde seu coração, tire-o da normose, coloque-o pra palpitar, alto e forte. Vai que a alma da gente se expande? Dizem que ao lado do coração, a felicidade acorda depois de um tempão dormindo abraçados.

Diego Engenho Novo


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Olá, Di! Tudo bem? Conheci uma pessoa um tempo atrás. A gente se dá muito bem, gosto dele como nunca gostei de alguém. Faz mais de 3 meses que estamos juntos, mas não em relacionamento sério. Conversamos todos os dias, sentimos saudades um do outro. Porém ultimamente ele diz que sente saudade, mas não faz nenhum esforço pra me ver. Ele diz que tem problemas em demonstrar os sentimentos e acho que cada um sabe amar/gostar de uma maneira diferente. Essa maneira pode ser a dele.

Quando ele quer me ver, eu saio e vou vê-lo. Mas quando eu quero vê-lo, tem sempre uma desculpa. Isso tá me machucando demais. Estou sofrendo porque não sei o que faço com esse amor que sinto por ele. Já tentei me afastar, mas ele vem dizendo que sente minha falta, que não me quer longe, vem conversar comigo.

No fundo, mas bem no fundo do meu coração eu sei que ele gosta de mim e me quer por perto, porém, fico um pouco confusa e sinceramente, às vezes, não consigo acreditar que ele goste de mim, porque as atitudes dele me fazem acreditar no contrário e acabo tendo uma certa insegurança em relação a isso. Acho que é medo de sair magoada. Eu quero muito acreditar no que ele diz. Não sei se luto por esse amor ou deixo ele ir. (Isabela, Irati- PR)


Oi, Bela, que bom receber sua carta.

Infelizmente (ou felizmente) na relação há sempre um mais disposto e outro que tem seu tempo mais lento. Tem sempre um mais generoso e outro mais focado nas próprias necessidades. Tem sempre um que se expressa mais e outro mais ensimesmado. Às vezes, faz um bem danado pra gente entender essas diferenças de cada um e parar de lutar contra elas, mas aprender com um pouquinho de cada uma.

Com o tempo, acredito que o disposto ensina o que tem seu tempo lento a buscar mais. No caminho inverso, é o mais quieto que ensina o disposto a aceitar as pausas dos tempos, sem pressa. O generoso não pode transformar o mais egocêntrico em generoso, mas pode ensiná-lo a incluir outras pessoas em seus planos, a fazê-las se sentir especiais. Do outro lado, aquele que é mais focado em si pode ensinar a gente a se amar mais, a se curtir mais um pouco.

Aquele que expressa seus sentimentos precisa ser bem prático e dizer como é que se faz: “Ei, me liga todo dia de manhã pra dar bom dia. Isso é uma ordem de amor!”, “Olha só, não quero mais presente sem cartão. Presente sem cartão não tem alma. Se você não souber o que escrever, diga que me ama e assine. Estará perfeito”. Tem gente que precisa aprender amar como uma criança aprende a escrever: de pouco em pouco, pegando na mão, sendo pacientes. Tem gente que precisa de um verdadeiro “Manual do Gostar de Mim”.

E o que a gente pode aprender com quem não demonstra muito seus sentimentos? Podemos aprender a ser mais práticos, menos dramáticos e guardar algum mistério para o outro. Nada de se mostrar inteiro duma vez. O amor é um exercício delicioso de descoberta.

Eu realmente acho, Bela, que esse moço aí tá precisando de umas dicas práticas. Esse lado meio distante dele não vai mudar drasticamente, faz parte da natureza inata dele, mas vocês dois podem juntos descobrir pequenos atalhos para se amarem mais e se machucarem menos. Podem encontrar formas de driblar o que incomoda para alcançar o que encanta.

Algo me diz que ainda não é hora de desistir. Eu realmente espero que ele descubra logo a mulher incrível e doce que você é. Mostre o caminho a ele. Abração, Diego.

PS. Quando precisar me escreva. Eu estou sempre por aqui pra você.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

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Leia ouvindo isto

A cidade vazia. Todos os prédios ocos, cheios de gente sozinha. O vento parou de brincar com as copas das árvores, os sinos da igreja pararam de exigir as horas, no céu nem uma nuvenzinha.

Naquela manhã ninguém foi trabalhar, descobriram que o amor é que dava sentido. Comiam pra ter forças, vestiam pra ter cor, saiam de casa todos os dias para voltar e encontrar o amor. Um sustinho.

Naquela manhã os pássaros também se aquietaram já que todos cantavam por causa do amor. Calou-se também o mendigo que mendigava amor. Calaram-se os carros, abandonados, que só aceleravam buscando o amor.

As crianças ficaram tristezinhas, as velhinhas pararam de bordar, toda a delicadeza só existia por causa do amor. Não havia mais choro, nem saudade, nem espera, nem olhos que se procuravam. A cidade era apenas um amontoado de saudades ocas sem pessoas dentro.

De repente, ouviu-se um estrondo. O amor, como onda que é, recuou e se despejou imenso sobre toda a cidade. Mas mesmo assim ninguém foi trabalhar, ninguém retomou carro, ninguém subiu à igreja pra tocar os sinos. Naquela manhã todos correram em um sentido e seguraram bem forte quem dava sentido pra todas as coisas.

Diego Engenho Novo

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Minha impaciência de moleque, recentemente abandonada junto com as roupas rasgadas, deram lugar a uma vontade crescente de ter meus pais por perto, cada vez mais e mais. Acho que no meio dos ataques hormonais, da fúria de adolescente, quando eu pedia internamente que meus pais fossem embora, não havia espaço para entender que um dia eles certamente iriam. Eles ainda irão. Nesse dia, se apagará um pedaço de luz no meu olhar, como o lumiar do cômodo de uma casinha. Alguém partiu de nós.

Ao contrário de todo o meu relutar para cair no mundo, para ser dono de minhas escolhas, agora que nos encontramos, percebo que só há descanso lá, no sofá da minha mãe, na cadeira do meu pai, sob seus olhares delicados que me amam cuidadosamente. Depois de conhecer o mundo a gente percebe o quanto é raro ter alguém de quem não precisemos nos defender, alguém em quem confiar nosso fechar de olhos, alguém que trocaria a própria paz pela nossa.

Quando finalmente encontrei meus pais, notei que passei tanto tempo tentando descobrir quem era eu mesmo, crescendo, que nem lembrei de conhecê-los. Foi uma surpresa ouvir as histórias, entendendo que aquelas passagens de alguma forma, também eram minhas. A paixão do meu pai pelo cinema quando garoto, a intensidade da minha mãe como atriz, suas perdas, seus amores. Precisei encontrá-los no meio do caminho para perceber que eles provavelmente eram as pessoas mais fascinantes que conheceria nessa vida.

Me toca pensar que em alguns anos, meus pais serão pra mim como a criança que eu já fui pra eles. Que precisarão de comida na boca, horário de banho e alguém pra pentear seus cabelos enquanto conversam sobre o dia. Um dia eu cuidarei de devolver à luz, delicadamente, meus pais. Me dei conta disso quando nos encontramos, solenemente no meio do caminho da vida, três adultos afinal.

Diego Engenho Novo

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Quando meu som desaparecer no ar, após ondas cada vez mais fracas, de quais palavras você lembrará? Quando minhas cores se aquarelarem nas lembranças, após tons cada vez mais envelhecidos, qual imagem ficará guardada?

Se meu olhar não esteve sempre tão visível, o levo agora ao seu, para que fiquemos quites. Guarde contigo as linhas dos meus olhos e o que nelas sempre esteve escrito. 

Quando eu me tornar uma ilha distante, seus pés inconformados com o frio buscarão meu alcance? Até você me apagar, saiba que reaprender a viver sem ti é quase tão difícil quanto me reinventar. E eu não gostaria de ser outra coisa que não seu.

E serão cada vez menos constantes os rostos na rua que se parecem comigo, e vai se calar o telefone que toca e ainda sou eu, e vão se espaçar, até esvaírem-se os sonhos que te acordam como se fossem verdade. Um encontro marcado onde ainda somos possíveis.

Um dia nós vamos nos perder como se perdem da memória os poemas antigos, apagados, verso após verso não dito. Mas nós dois sabemos, que mesmo esquecidos, poemas antigos ainda falam de amor.

Diego Engenho Novo

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Sim, eu gostaria de protegê-lo, mas não posso. Ainda que estivéssemos abraçados, algo poderia acontecer a você, nos meus braços. Ninguém pode nos proteger da maldade do mundo, das inconsistências do destino, de nossos instintos. Guardá-lo não seria diferente de prendê-lo. Para vê-lo livre é preciso arriscá-lo. De fato jamais tinha me preocupado com alguém até amá-lo. Nem mesmo comigo.

Até amá-lo não havia perigo em saltar, não havia passo retrocedido, nem cálculo, nem covardia. Bastou amar para acovardar-me. Me angustia pensar que sem mim no mundo, quem em ti pensaria? Quem choraria no escuro após um pesadelo? Quem velaria o teu sumiço? Quem se alegraria com a tua volta? Que se debruçaria sobre os teus feridos que não eu? Amar me levou ao ponto de pensar às vezes que única falta que eu sentiria desse mundo, seria sentir-me saudoso de você.

Eu brigaria na rua, gritaria mais alto, eu daria medo em quem quer que pusesse meu medo um passo mais à frente. Mas você me reconheceria? Eu que te falo baixo, que te toco leve, que te amo calmo, que visto candura quando contigo? Eu também queria proteger tua alma do vigor alheio em subestimar. Eu adoraria proteger as pontas das pontas dos teus dedos. E eu te aqueceria antes de queimar. E eu te avisaria antes do tropeço. Eu te privaria do constrangimento de saber que descobri a verdade.

Até amá-lo era incabível esperar, era indiscutível meu querer, vinham as vontades antes do próprio precisar. Mas bastou amar para colocar-me no lugar da espera, em segundo lugar. E faço sem ranço, sem força, sem pensar que o preço é alto. O homem que arou a terra, separou a muda, afastou o sol, se incumbiu da água, esperou o galho, afastou a praga, lhe podou as réstias e velou o pomo, pode dar o fruto para quem achar que é digno de merecê-lo. Não, meu amor não pode protegê-lo, mas é ele que me mantém aqui, atento, para curá-lo do mundo.

Diego Engenho Novo

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Resposta à carta da leitora Chloe de São Paulo-SP

ChloeEu estava casada há oito anos com um cara maravilhoso, quando conheci o Phillipe, um estrangeiro que me seduziu e eu achei que era minha alma gêmea. Eu sou uma pessoa explosiva e meio maluca então achei que deveria ficar com ele. Meu casamento já estava um pouco desgastado, mais por causa do tempo, nada demais. Assim, eu saí de casa, deixei meu marido em choque, assim como eu estou hoje.

Apesar de nossas brigas constantes durante os dois anos que ficamos juntos, Philli sempre foi muito romântico e carinhoso, um príncipe mesmo. No final do ano fomos com a família viajar, foi tudo ótimo, ele super amoroso. Depois disso eu voltei para casa e ele ficou mais uma semana com a família no país deles. Ele voltou estranho, seco, uma outra pessoa e disse que nós dois sabíamos que lá na frente não iria dar certo, que era melhor sofrer agora e terminou comigo, assim do nada. Tentei conversar, mas ele estava decidido e não quis volta.

Perdi dois caras incríveis, perdi minha casa, e agora estou aqui sem chão. Ainda não acredito que ele fez isso comigo. Não entendo como a pessoa em uma semana te ama e de repente é outra pessoa que você nem reconhece. Eu continuei amiga do meu ex, que me perdoou, mesmo que eu não tenha me perdoado, mas acredito que o dele sim era um amor verdadeiro. No fundo eu sei que talvez não daria certo e sei que me arrependi de ter deixado meu marido. Mas sei que não queria terminar, queria tentar ser feliz com ele. Agora estou sozinha, destruída e sem saber o que fazer.


Querida, Chloe

Por vezes, a vida parece mesmo brincar com a gente. Ela brinca, mas esquece de nos contar as regras do jogo. Eu sei, parece inevitável assimilar as coisas, pensar que você está pagando agora pelo que fez no passado. Parece óbvio, como somar um mais um e ainda assim, acabar sozinha.

Certa vez escrevi em uma crônica que falava que se você olha para o mar inteiro, ele parece mesmo invencível, insuperável. Mas, se junta as duas mãos e recolhe um pouco de água salgada, neste momento você se torna maior do que ele, porque separou o mar em uma pequena parte, uma parte que consegue domar. Sua história inteira é o mar, te engolindo com ondas que voltam ainda maiores do passado, talvez seja hora de separá-la em pequenas partes com as quais possa lidar. É isso, ou pirar.

Talvez você tenha mesmo feito uma escolha ruim. Quem nunca? Ainda assim, acredito que fazer escolhas ruins é melhor do que não fazê-las. Talvez, se não tivesse agido na época, você estivesse me escrevendo hoje para falar de um gringo charmoso que você conheceu, de um amor que pensou viver, mas não viveu e como era infeliz por isso, por não ter seguido seu instinto de ser dona de suas vontades. Você escolheu, isso foi muito corajoso.

Talvez Philli não volte mesmo, mas quando você associa seu término com ele com seu relacionamento anterior, o está culpando por isso tudo. Philli te amou, algo mudou dentro dele, talvez ele só esteja com medo de como tudo evoluiu tão rápido, tão intenso, talvez em algum lugar, ele saiba que você se arrependeu da escolha que fez. Este homem a amou com tudo que pode, enquanto pode. Isso é lindo. Não deixe que a dor apague.

Tente não culpar, não somar as histórias. Você está sofrendo agora pelo Phillipe, pela falta dele, pelos planos que fizeram, pela dor que está sentindo. É isso ou se afogar. Ninguém é mais responsável pelas suas escolhas do que você mesma. De igual modo, ninguém pode culpa-la por tentar ser feliz da melhor maneira, nem você mesma. Continue corajosa, fazendo escolhas, escolha sobreviver também a isso.

Nós nunca estaremos completos, é isso que nos move: saber que jamais o seremos, e ainda assim continuar buscando sê-lo. Olhe pra esse punhadinho de água em suas mãos e se pergunte: o que posso fazer agora pra me sentir um tantinho mais completa? Essa é a direção mais certa a seguir. Estou por aqui, sempre com você. Vamos vencer o mar, minha querida.

Di

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas)

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"Quando temos esperança, transformamos todas as nossas perdas em algo melhor do que havia antes"

Fica, vai ter bolo. Não posso ser mesmo injusto com o ano que passou, ou está para passar. Ele foi de fato árido, cheio de complicações, com ondas maiores e maiores, mas, de alguma forma, chegamos ao fim dele, um tanto transformados.

A quem perdeu alguém, digo que pessoas não são perdidas. Elas permanecem aquecidas e vivas por muito tempo dentro de nós. Quando sentir saudade, basta lembrar que ela está por aí, em algum lugar, sendo linda, plantando saudades novas, feliz por caminhar.

A quem perdeu tranquilidade, digo que tranquilidade nunca se perde. Ela se ausenta, olhando-nos ao longe, como um pássaro leve. Porque ela sabe, que enquanto está por perto nós não fazemos grandes alvoroços. Há de fato em todo veneno, uma dose de remédio. Um dia nós compreenderemos isso com um sorriso largo no rosto.

A quem perdeu a esperança, digo que a esperança está além das perdas. Ela se regenera como um rio limpa-se lentamente após as águas turvas da chuva, porque é muito mais a própria esperança que crê em nós, do que nós mesmos nos apoiamos nela. Ela insiste porque sabe que quando temos esperança, transformamos todas as nossas perdas em algo melhor do que havia antes.

Fica, vai ter bolo. Por tudo que passamos nesse ano de tristezas, de perdas, preocupações, sejamos então gratos, por chegarmos ao fim dele mais humanos, mais fortes, mais serenos, maduros e esperançosos de que por mais que a vida não melhore na curva do ano, nós certamente já o somos.

Diego Engenho Novo

 


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