Tags Posts tagged with "comportamento"

comportamento

2 582

Mari, minha prima mais porra louca, sumiu no mundo com uma mochila nas costas. Alguns meses depois, avisou que estava de volta e que tinha trazido um pequeno souvenir: um noivo. Levando seu histórico em consideração, já imaginávamos um moço magro, alto, com dreads e aquele papo holístico durante o almoço. No dia marcado, a mesa posta, Mari me aparece com uma pessoa que realmente chocou toda a família. O moço era uma pessoa formal.

Roupa impecavelmente passada, dava pra ler todas as boas marcas, sapato mais limpo que o meu cabelo, tom de voz moderado. Ele não dizia “brigado!”, mas “muito obrigado”. Não era “dá licença, que eu vou ali rapidinho”, mas “com sua licença, vou me retirar alguns instantes”. Estávamos na novela das seis? Sabe aquelas pessoas que a gente até corrige a postura pra conversar? Eu estava tentando conhecer o moço, mas não conseguia parar de pensar que ele tinha tanto a ver com a Mari quanto eu com a torcida organizada do Vasco.

Se você é formal e está me lendo agora, não pense que tenho algo contra você. Não é isso. Torço pra que você seja muito feliz, de forma ponderada e elegante, é claro. Mas porque pessoas formais não se juntam com uma outra pessoa formal? Esse papo de os opostos se atraem não parece ter muito a ver com vocês. É papo de gente passional, romântica, que tem poster do Truffaut em cima da cama. O formal é prático, mental, metódico, namorado da Mari.

A primeira vez que namorei uma pessoa formal e ela respondeu meu “eu te amo” com um sonoro e grave “idem”, corri o mais rápido que pude. Deus me livre de gente que diz idem. Idem nem é palavra direito. É uma redução econômica de outra palavra que já nasceu sem personalidade, sem tesão, desalmada. Gosto de gente que arranca a roupa e te agarra com fúria. O formal não, ele retira calmamente a camisa e a dobra sobre a calça já dobrada. O formal tem pavor de mudança de planos, improvisações e acidentes de percurso: a receita perfeita para fazer novas descobertas. Preciso de alguém que grite aos sete ventos que também é doido por mim, que me ama muito mais e corra pra me beijar. Compare isso com um idem.

Quem é mais espontâneo talvez se atraia pela sensação de segurança, pela lucidez que equilibra, ou pela personagem que criou para tornar o formal mais palatável para seus sonhos. No fundo, o espontâneo acha que pode transformá-lo, torná-lo mais aberto ao seu mundo, vertê-lo em algo um tantinho menos…formal. Mas, veja, bem, se há algo que os formais fazem melhor e muito melhor que você é ter foco, organização e determinação. Nessa guerra de quem muda quem, nós já sabemos quem sai perdendo. Eu sei, eu sei, você o ama. Ele idem.

Diego Engenho Novo

Gostou? Compartilhe. É muito importante pra nós : )Smiling woman

0 816

Naely encostou-se em sua xícara de chá e aquele pedacinho de ferro brilhou. Era uma aliança. Estava noiva. E eu fiquei ali encantado pensando – quem é que fica noiva hoje em dia? As pessoas se conhecem e partem logo pro abraço. Na urgência de ser feliz como quem faz um check-in, a gente anda desqualificando os rituais. Não chega a ser motivo para se preocupar: a beleza dos rituais está no fato de que sempre há tempo para ritualizar o que já parece tão banal. Os melhores rituais, a gente carrega por dentro.

Ela sabe que você a ama, mas dizer é importante e demonstrar é sagrado. O ‘eu te amo’ é a oração dos amantes. Ele sabe que você está feliz ao seu lado, mas agradecer é sim imprescindível, enquanto sorrir for um rito sagrado, pros dois. É preciso brindar, sempre, pelos motivos mais incríveis ou bobos do mundo. Eu brindo até com o galão do bebedouro se me deixarem. Brindo à vida, à serenidade, ao som da risada dos meus amigos, ao amor dos meus pais, a nós, infinitos em ritos de comunhão.

Para aqueles que são amigos há uma década, ainda é tempo de ritualizar esse cuidado mútuo. Que tal um troféu? – Melhor Amigo de Uma Vida Inteira – em adoráveis letras garrafais numa placa acrílica. Reconhecer quem reconhece em você o melhor: tire um tempo também pra isso. Ritualizar o amor nem é casar. Não precisa de nada disso – igreja, cartório, bufê, flores que não serão cheiradas. Melhor do que casar é se comprometer. Para ritualizar basta fechar os olhos, os dois, juntos, de frente pro mar por cinco segundos e se deixarem abençoar pelo amor um do outro. Eu vos declaro, cúmplices – diz o vento baixinho.

Criemos nossos próprios rituais de amor, de fé, de reconstrução. Celebremos os encontros, as perdas que não fazem falta, a saudade que carregamos, os amigos, as pessoas que serenam nossos corações. Que a vida seja um ritual adorável de agradecimento, porque, em meio a todas as milhares de possibilidades infinitas do universo, nós, tão pequenos e desconexos, tão docemente atordoados, flanadores natos, tivemos a sorte de nos encontrarmos em igualdade de espaço, tempo e de sentimentos.

Diego Engenho Novo


Curta a minha página no Facebook

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

E tem mais!

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo

9 915

Por muito tempo, esperei ter dentes perfeitos para sorrir, ter nos lábios as palavras certas para dizer que errei, por tempo demais eu chorei pra ninguém ouvir. Por muito tempo eu tentei, mesmo sabendo que no fim só haveria a mim. Guardei-me para os dias especiais, prometi enxergar-te, verter-me para ti, dar a devida importância, deixar tudo de lado para ficar do seu. Pensei que você ficaria mais tempo por aqui.

Por muito tempo, esperei um convite para partir, uma mão que me guiasse pra bem longe, alguém que me afastasse dos dias tristes que me acompanham. Por muito tempo, esperei que mundo me dissesse que sim, que houvesse uma segunda chance para me defender, que houvesse arrependimento da trincheira à frente, esperei verdade de quem a desconhece, acreditei em um mundo um pouco melhor sem nenhuma mudança vinda de mim.

Por muito tempo, adiei os livros que já nasceram para ser lidos por mim, deixei de ir ao cinema por falta de companhia, guardei meu melhor vinho até ter as taças. Por tanto tempo, guardei a roupa mais incrível para o dia perfeito. Por tanto tempo alimentei tanto minhas ilusões quanto dei de comer às traças. Por muito tempo, quis conhecer a vista do topo do meu próprio prédio, quis vencer a lógica dos domingos e subir a serra, quis pegar um avião sem falar qualquer outro idioma, por muito tempo, quis vencer meu tédio costumeiro e ser livre.

Por muito tempo, esperei as melhores ondas pra entrar no mar. As melhores palavras pra acreditar, o melhor momento pra agir, a melhor desculpa pra fugir. Por muito tempo, esperei a verdade para oferecê-la em troca, esperei o silêncio para dizer, esperei a calma para guarda-la. Por muito tempo esperei primeiro ser amado para depois amar, esperei que fosse eterno para me entregar, esperei por tempo demais para ser feliz.

Diego Engenho Novo


A gente se encontra nas redes sociais : )

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo

 

0 507
As pessoas mais felizes sabem que é preciso se portar dentro de certos padrões para serem aceitas. Essa conversa de não se importar com o que os outros pensam só é bonita quando se tem quinze anos, porque ninguém leva a gente realmente a sério nessa idade. 
 
Quando falo da importância de ser aceito, não estou falando de ser convidado para um jantar, nem ter respeito dos vizinhos, não é isso. Estamos falando de necessidades básicas como comer e se locomover. Se você não tiver pouco mais de uma dezena de anos, talvez seja a hora de se aceitar e promover algum esforço para também ser aceito. Não faça cara feia pra mim. 
 
Veja bem, fora dos padrões convencionais, você não tem direitos, você é louco. Simples assim. Doidos por aqui, medicados por ali. Os loucos não são livres. Esta é outra ideia estranha vendida nas embalagens de Roacutan. Os loucos vivem presos, ilhados dentro da própria realidade. Não estou falando das pessoas com problemas mentais. Não, nós estamos falando dos loucos, gente com labirintite crônica no coração. Acontece que, provavelmente, você não é de todo louco. Você só é meio louco. Ser louco pela metade, ainda ter consciência do próprio sofrimento, é de altíssima crueldade consigo. 
 
As pessoas mais felizes não destratam todos à volta, não constrangem gratuitamente, não estão preocupadas em chocar, somente em estarem confortáveis, sem necessariamente agredir. As pessoas mais felizes entendem o momento exato de abandonar aqueles padrões tão conhecidos, tão repetidos, tão defendidos. Eles são abandonados com elegância, com altivez, com aquele tom espirituoso que só os seres interessantes têm. 
 
As pessoas mais felizes ligam para o que os outros pensam. Claro que ligam. A diferença é que elas também sabem desligar. Liga e desliga, entendeu? Em pensar que tem gente que ainda leiloa a própria felicidade para quem dá mais opinião. O que não falta é gente doida por aí.
Diego Engenho Novo

A gente se encontra nas redes sociais : )

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo

 

 

 

14 1216

Eu tenho profunda inveja de quem aceita, de quem acalma o próprio coração, de quem não tem tempo pra pensar demais. De quem é raso, de quem ri de tudo, de quem não faz questão de entender. Eu tenho profunda inveja de quem é fútil, de quem é monopolizado pela lógica cartesiana das coisas, de quem é bitolado pela fé cega, de quem é adestrado por deuses maus.

Eu tenho, profunda e confessa inveja de quem não viaja no tempo, não sofre pelo amanhã, não se lembra do que comeu. A minha memória, por mais curta que seja, também é seletiva. Ela se esquece de compromissos, receitas, senhas, mas jamais de sentimentos.

A minha vida, me é contada como se fosse a história de um estranho que mora no apartamento ao lado. A minha própria história se vai perdida, mas ali, no meio daqueles vultos de lembranças, eu ainda consigo enxergar a dor, a doçura, a euforia, as saudades que senti.

Admito que tenho inveja, de quem sonha com casa de pé direito alto, carro do ano e roupas caras. Isso tudo parece tão palpável. O que eu quero talvez nem exista. Seria eu bem mais feliz se pudesse parcelar a paz em doze no cartão.

Fico olhando para os casais embriagados, passionais, que brigam se descabelam, fazem ameaças de vida e morte e, no instante seguinte, se beijam loucamente. Eu tenho uma inveja tão grande de quem não pensa no sentido das coisas, de quem não remói, não digere, de quem não guarda nada além de objetos. Que inveja eu tenho de quem vive um bolero.

Eu tenho inveja das pessoas imediatistas que comem quando há fome, bebem quando há sede, ligam quando há saudade. Eu sou do tipo cansado que antes da primeira mordida sofre conflitos, lembra de viagens, pensa em quem não está comendo, conta as calorias e se pergunta quem inventou o tomate seco. Eu bebo quase me afogando, brinco com a garrafa, leio rótulos, eu me molho como uma criança sem coordenação, penso na pedra que vai se formando nos meus rins, na infância, nas aulas de química. Eu como, bebo e penso demais.

A minha mente é inquieta e barulhenta. Nada resolve, nada a cala. Nem remédio, nem meditação. A minha mente é carente, conversadeira, é moça nova, velha maluca. Lá vou eu dormir e ela continua tagarelando. Eu tenho profunda inveja de quem tem a alma muda, monossilábica, alma antipática. Eu tenho inveja, inveja das grandes, de quem tem a ignorância como aliada. A minha cabeça nunca se cala. A minha cabeça nunca se cala.

Diego Engenho Novo


A gente se encontra nas redes sociais : )

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo

 

0 502

Este deve ser o melhor nome que já vi. Meridiana. A conheci entre os abraços efusivos da praça Roosevelt – Que lindo ter nome expansivo, nome que vai pelo mundo – sorri-la – E você, de onde é? – riu-me. A cada ano, fica mais difícil responder a isso.

Ela queria saber onde nasci, onde cresci, onde estudei ou onde me apaixonei pela primeira vez? Onde me demorei, de onde fugi, onde morri um pouquinho, onde me perdi? Onde Meridiana queria chegar? Os homens com os nomes mais simples são os mais complicados. A mulher de nome complicado só queria chegar até mim, simples assim.

Eu não sei mais ao certo de onde sou. Sei de onde vim, por onde caminhei, disso me lembro bem. Acontece que, depois de tanto tempo fazendo e desfazendo malas, enchendo e esvaziando caixas, lendo mapas com a ponta dos dedos, depois de tanto tempo indo embora dos lugares, entendi que o que eu queria mesmo era partir de mim. Partir-me, como quem reparte os gomos, fruto do que o mundo me fez.

Ser eu mesmo já foi uma cidade grande e barulhenta, já foi uma vila encolhida entre dois morros. Ser eu mesmo já foi um rancho que namora um rio, tentando sempre segurar seu braço. Ser eu mesmo já foi uma lanchonete apertada de Tóquio, o vinho barato de Paris, os bolinhos fritos da minha avó e a solidão do cacau de Chuao. Ser eu mesmo custou caro, por isso parcelei pela vida inteira.

De onde vim é difícil resumir, Meridiana. Prefiro dizer onde estou, onde vivo agora, onde você pode sempre me visitar. Eu moro num lugar bem longe. Aqui nunca chega carteiro, leite ou contas. Eu moro numa alameda sem esquinas, minha casa de tão longe, jamais precisou de portas. Eu moro num beco florido, um morro adormecido, num jardim de seres minúsculos. Eu moro num porto, dando comida aos albatrozes. Eu moro num campo, observando naves sem nome. Eu moro em cada novo dia, em cada nova vontade. Eu moro num lugar distante e cheio de saudade. Eu moro em mim.

Diego Engenho Novo


A gente se encontra nas redes sociais : )

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo

 

 

 

Hoje abri uma caixa e encontrei uma foto de quase dez anos atrás. E quem foi que disse que ainda não dá para viajar no tempo? Estávamos lá, assistindo ao sol se ajeitar na cama, com os pés ainda descobertos de coberta. Estávamos ali, sentados sobre o rochedo que apelidamos de “O abismo”. Estávamos encarando os nossos próprios precipícios.

Fiquei olhando por uns instantes para os braços do tempo jogados carinhosamente por cima dos nossos ombros. O tempo não foi embora pela manhã, preferiu ficar abraçado, ouvindo nossas histórias. E a gente sabia que era feliz? Sabia, ué. A gente não se cansava de usar essa felicidade descarada como pretexto para sermos ainda mais felizes. Um desbunde, quase ilícito.

A gente se juntou pra ver jogo, que eu detesto, mas que me matava de rir. Eu jamais entendia quem ganhava e quem perdia já que a gente parecia sempre em estado de comemoração. Vai ver que foi a gente que levantou a taça. Mais um brinde, a nós.

A gente se juntou pra ler, pra ver filme e pra dormir antes das histórias terem fim. A gente se juntou pra falar da vida dos outros enquanto cozinhávamos. E enquanto falavam da vida da gente, a gente comia. Comia muito. Nos juntamos pra contar piada descabida, pra reclamar da política, pra sonhar com um bar que sabíamos que jamais teríamos.

Quando fez frio, a gente se juntou. E depois outra vez pra afastar o calor obstinado do verão. A gente se juntou pra beber, cair e levantar. E Deus sabe de todas as vezes que a gente se levantou, rindo das dores do amor ou da falta dele. A gente se juntou e continuamos sentados, lado a lado, porque envelhecer sozinho é muito chato. A gente se juntou e continua a se juntar. O tempo só está dormindo. O tempo é um menino.

Diego Engenho Novo


A gente se encontra nas redes sociais : )

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo

 

 

 

6 532

Estávamos lá, olhando para o monitor. Aquele grãozinho arredondado já era uma vida, já tinha mais coração que muita gente que eu conheço. Ali, tentando desenhar perninhas e bracinhos onde ainda só existia uma pocinha acumulada de amor, parei para pensar que tipo de árvore cresceria daquela semente dançando no ar.

– Se for menino, vai ser Miguel – profetizava a mãe – Miguel não pode. Miguel não é nome de advogado. Advogado tem nome forte, nome que bate de frente: Aldebaran! – defendeu o avô – E isso lá é nome de criança, pai? – chorosa – Bom, ele vai ser criança por pouco tempo – encerrou. Enquanto isso, Miguel, Aldebaran ou Brenda, continuava ali satisfeito com o ritmo do seu coração.

Que cores vai usar, que nome vai ter, quantos meses vão te dar de mamar, Aldebaran? Você vai brincar muito ou dizer suas primeiras palavras na escolinha de inglês para bebês? Me diga você, Miguel ou Brenda, você vai ter amigos ou vai preferir ficar quietinho conversando com um livro? Não quero ouvir dos outros, quero saber de você, essa estrelinha pulsante no céu da mamãe.

Ele ignorava, se mantinha incógnito, concentrando-se em crescer. Não sabia de nada ainda e já me ensinava tanto. Enquanto o mundo lhe colocava uma profissão nas costas, uma casa grande em parcelas, viagens em torno do mundo, meu sobrinho ou sobrinha preferia descansar, sem esforço para simplesmente ser vida. Grandioso.

Não aceitava a ansiedade que queriam lhe dar de regalo. Regalo bom é presente. É quem diz pra gente dormir quando tem sono, sorrir quando tem graça, chorar quando está doendo. Presente mesmo é quem nos puxa de volta para o agora, quem não nos projeta para lugar nenhum, quem gosta do que a gente já é e não do que a gente pode ser. Não era menino, nem menina, era uma manchinha simpática num monitor. Era a vida pintando um quadro novo.

Diego Engenho Novo


A gente se encontra nas redes sociais : )

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo

 

 

 

0 800

Sorria. Sorria quando deu de cara com Doralice, a vizinha intrigueira no portão voltando da padaria. Sorriu para o gato que não se importava, preguiçoso na mureta . Sorriu para o chaveiro careca que sorriu de volta sem tirar a atenção completamente do rádio, nem da dobra miuda da chave. Sorriu para a perua e seu cachorro entojado. Atravessou a rua e sorriu para a fileira de carros, sorriu para a jornaleira desbocada e também para o frentista de peruca.

Deu sorriso ainda maior para  a doida das gravatas que amaldiçoava do alto do banco da praça. Sorriu para três freiras, dois pedreiros e um executivo apressado que nem viu o sorriso mas o recebeu.

Descendo a ladeira, sorriu para o locutor da porta da loja, para o turco corintiano e sua mulher. Havia também sorriso para a atendente da lanchonete do chinês e para o taxista que aparava o bigode no espelhinho. Hoje ele não negou o panfletinho de empréstimo consignado. Recebeu, agradeceu e também sorriu para a velha com legging de oncinha.

Sorriu para o hippie, para os nigerianos que ofereciam relógios e para a loira que vendia agasalhos naquele dia de sol. Sorriu para a cigana Daiana e seus dentes de ouro. Passou pelos rapazes que se beijavam sem pressa na esquina. Mas eles já estavam sorrindo antes mesmo dele chegar também com o seu. Sorriu para a mulher que brigava ao telefone com o namorado e para a solitária que comprava um livro na máquina.

Sorriu para o fortão com espinhas nos ombros, para a garota de óculos grandes, sorriu para o vagão inteiro do metrô, mas quase ninguém percebeu. Sorriu para a velhinha distraída plantada do lado errado da escada rolante. Sorriu para o policial, para o maconheiro e acenou para a prostituta de piercing no umbigo.

Não era primeiro dia de trabalho, nem de aula. Não tinha recebido férias, aumento ou carta de longe. Não tinha ganhado nada, achado nada, não tinha perdido a vergonha. Aquela ondinha boba virada, aquele “sim” desenhado no rosto, aquela vírgula dos lábios, aquele sorriso instalado eram mesmo o princípio, um prólogo do amor.

Diego Engenho Novo


 

A gente se encontra nas redes sociais : )

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo

 

 

0 497

A casa de poucos cômodos abrigava um restaurante improvisado no meio da Guajira colombiana. Enquanto aguardava meu pollo, reclamei com uma das três moças que há horas estava sendo perseguido por uma gangue de pequenas abelhas negras – Incluso el ladrón, no viene sino es invitado – disparou a menor, sem dó, nem piedade.

O prato veio fumegando da cozinha e deitou-se sobre a mesa pequena, solenemente – O que ela quis dizer com isso?- perguntei inquieto – Preste atenção a estas pequenas flores grudadas à sua perna: elas estão atraindo as abelhas. Você reclama delas, mas as está chamando – completou a mais velha. Engoli em silêncio, a comida e a cena.

Meu amigo Guttenberg também levou tempo para compreender seu dom especial para atrair mulheres malucas, verdadeiras abelhas africanas. Até cair na real, ele passou por delegacias, perdeu emprego e ganhou hematomas. Marcele, coitada, foi batizada maldosamente na roda de amigos como “Dona Clotilde”, porque nunca arrumou um namorado sequer que gostasse de trabalhar. Foram anos de terapia até descobrir que havia ali uma boa dose de autossabotagem e dois dedinhos de baixa autoestima. Freud explica, herança do pai.

Infelizmente, não há mais ninguém a quem possamos culpar. Não existe no mundo tamanho azar que nos arraste todas as vezes para o mesmo erro, sob diferentes CPFs. Sim, é você que sempre atrai o bem, o mal e as abelhas pra sua vida.

Antes de deixar o restaurante, ouvi a moça do meio despedir-se – As flores também podem atrair passarinhos – fomos embora. Eu e minhas abelhas.

Diego Engenho Novo


A gente se encontra nas redes sociais : )

https://www.facebook.com/DiegoEngenhoNovo/

twitter: @engenhonovo

snapchat: diegoengenho

instagram: @engenhonovo

youtube.com/diegoengenhonovo

https://plus.google.com/+DiegoEngenhoNovo