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Miguel e Emma têm um ritual bem diferente de muitos casais que já conheci. Vez ou outra, os dois se trancam em casa e aí, você já deve imaginar o que acontece. Nada. Isso mesmo, nadinha. Eles descobriram que ambos poderiam ficar sozinhos, inclusive quando juntos. Sem pavor, sem estranheza, sem achar que o outro desamou. Apenas um tempo que é nosso dentro do nosso tempo a dois.
 
Emma atravessa a casa de meias e sua camisetona preferida dos Rolling Stones. Somente o som da chaleira dança pela casa enquanto Miguel ainda dorme. Se espreguiça demoradamente e depois rouba um biscoito de si mesma. Ela se afunda no sofá e, agarrada com um livro, recebe um beijo na testa. Ele acordou.
 
Ao fundo, faz seus milhares de barulhos de homem, mas logo também se aquieta. Miguel adora jogar. Antes de se enfiar entre milhares de tiros fictícios, ele pega um copo gigante de gelo com coca e faz um sanduiche que aprendeu com a mãe. Quando bate saudade, Emma entra discretamente e lhe beija os ombros. Ela já descobriu que há jogos que não se pode pausar.
 
Para quem entende que casais precisam se divertir sempre juntos e acha um absurdo duas pessoas que se amam ocuparem o mesmo espaço sem necessariamente estarem focadas uma na outra, isso pode soar bem estranho. Mas quando conheci os dois isso me fez muito sentido. Eu só podia pensar em como queria um dia ter um amor assim. Eu jamais me sentiria menos amado.
 
Sem culpa, sem angústia, eles simplesmente descobriram que ficavam bem assim também às vezes. Jamais confunda isso com abandono, com solidão acompanhada, com casais que se apagam um pro outro, que começam a se desviar pelos cômodos.
 
O maior prazer deles era se encontrar, como desconhecidos que se conquistam numa festa que é só deles e depois seguirem. O amor deles cresceu tanto que perdeu a pressa, tornou-se maduro, perene como um lago antigo. Um dia eu também quero encontrar alguém com quem possa ficar feliz sozinho.
 
Diego Engenho Novo

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Resposta à carta da leitora Chloe de São Paulo-SP

ChloeEu estava casada há oito anos com um cara maravilhoso, quando conheci o Phillipe, um estrangeiro que me seduziu e eu achei que era minha alma gêmea. Eu sou uma pessoa explosiva e meio maluca então achei que deveria ficar com ele. Meu casamento já estava um pouco desgastado, mais por causa do tempo, nada demais. Assim, eu saí de casa, deixei meu marido em choque, assim como eu estou hoje.

Apesar de nossas brigas constantes durante os dois anos que ficamos juntos, Philli sempre foi muito romântico e carinhoso, um príncipe mesmo. No final do ano fomos com a família viajar, foi tudo ótimo, ele super amoroso. Depois disso eu voltei para casa e ele ficou mais uma semana com a família no país deles. Ele voltou estranho, seco, uma outra pessoa e disse que nós dois sabíamos que lá na frente não iria dar certo, que era melhor sofrer agora e terminou comigo, assim do nada. Tentei conversar, mas ele estava decidido e não quis volta.

Perdi dois caras incríveis, perdi minha casa, e agora estou aqui sem chão. Ainda não acredito que ele fez isso comigo. Não entendo como a pessoa em uma semana te ama e de repente é outra pessoa que você nem reconhece. Eu continuei amiga do meu ex, que me perdoou, mesmo que eu não tenha me perdoado, mas acredito que o dele sim era um amor verdadeiro. No fundo eu sei que talvez não daria certo e sei que me arrependi de ter deixado meu marido. Mas sei que não queria terminar, queria tentar ser feliz com ele. Agora estou sozinha, destruída e sem saber o que fazer.


Querida, Chloe

Por vezes, a vida parece mesmo brincar com a gente. Ela brinca, mas esquece de nos contar as regras do jogo. Eu sei, parece inevitável assimilar as coisas, pensar que você está pagando agora pelo que fez no passado. Parece óbvio, como somar um mais um e ainda assim, acabar sozinha.

Certa vez escrevi em uma crônica que falava que se você olha para o mar inteiro, ele parece mesmo invencível, insuperável. Mas, se junta as duas mãos e recolhe um pouco de água salgada, neste momento você se torna maior do que ele, porque separou o mar em uma pequena parte, uma parte que consegue domar. Sua história inteira é o mar, te engolindo com ondas que voltam ainda maiores do passado, talvez seja hora de separá-la em pequenas partes com as quais possa lidar. É isso, ou pirar.

Talvez você tenha mesmo feito uma escolha ruim. Quem nunca? Ainda assim, acredito que fazer escolhas ruins é melhor do que não fazê-las. Talvez, se não tivesse agido na época, você estivesse me escrevendo hoje para falar de um gringo charmoso que você conheceu, de um amor que pensou viver, mas não viveu e como era infeliz por isso, por não ter seguido seu instinto de ser dona de suas vontades. Você escolheu, isso foi muito corajoso.

Talvez Philli não volte mesmo, mas quando você associa seu término com ele com seu relacionamento anterior, o está culpando por isso tudo. Philli te amou, algo mudou dentro dele, talvez ele só esteja com medo de como tudo evoluiu tão rápido, tão intenso, talvez em algum lugar, ele saiba que você se arrependeu da escolha que fez. Este homem a amou com tudo que pode, enquanto pode. Isso é lindo. Não deixe que a dor apague.

Tente não culpar, não somar as histórias. Você está sofrendo agora pelo Phillipe, pela falta dele, pelos planos que fizeram, pela dor que está sentindo. É isso ou se afogar. Ninguém é mais responsável pelas suas escolhas do que você mesma. De igual modo, ninguém pode culpa-la por tentar ser feliz da melhor maneira, nem você mesma. Continue corajosa, fazendo escolhas, escolha sobreviver também a isso.

Nós nunca estaremos completos, é isso que nos move: saber que jamais o seremos, e ainda assim continuar buscando sê-lo. Olhe pra esse punhadinho de água em suas mãos e se pergunte: o que posso fazer agora pra me sentir um tantinho mais completa? Essa é a direção mais certa a seguir. Estou por aqui, sempre com você. Vamos vencer o mar, minha querida.

Di

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas)

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Não é segredo, é preciso coragem para amar. É preciso ser forte para ser dois nos dias de hoje. É preciso estar atento ao alcance do outro. É preciso ir buscá-lo quando a confusão o levar. É preciso vencer, por vezes as próprias necessidades, é preciso esperar mais um pouco, é preciso, antes de tudo ter fé, de que em seu tempo, o outro assim também o fará.

É preciso ter coragem para enfrentar a maldade e a língua daqueles que não se lançam ao mar. Porque amar é de fato uma jornada perigosa, por ondas, tempestades, em busca de uma terra distante que a gente talvez nunca alcance. É preciso ter coragem para entender que amar não é chegar, amar é ir, meter-se ao mar, ainda que com medo. E isso é muito corajoso.

É preciso ter muita coragem para enfrentar nossas inseguranças todos os dias, para descobrir graça nas histórias que já nos foram contadas, para sentir novos gostos em um sabor que já é de casa. É preciso ter uma coragem danada para calar, mesmo quando temos todas as palavras, mesmo quando donos da razão. É preciso ter coragem para perder na discussão e ganhar em amor.

É preciso coragem para amar após uma vida inteira de desamores, de desencontros, de desencantos e chegarmos com o coração ainda fortalecido, com a coragem de quem jamais naufragou. Se perguntarem aos que insistem em remar pelas águas nem sempre tranquilas e seguras do amor o porquê de insistirem, ouvirá que o mar não seria o mar se não fosse preciso coragem para navegá-lo. Assim também é o amor.

Diego Engenho Novo


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Não é surpresa, anos depois de um casamento muita gente descobre que não conhece com quem se casou. Descobre quando um dos dois sai pela porta repentinamente, quando um dia nota uma risada mais alta por um motivo inusitado, quando se toca que tudo o que ela parecia ser se parece diferente agora. Foi assim como Aline. Um dia seu marido disse que era infeliz e ela pensou ser brincadeira de má hora. Mas ele estava mesmo indo embora. Indo embora dela.

Sempre que ouço histórias assim, tenho a sensação de que quem se depara com o desconhecido plantado ali na sala de casa, vestindo os chinelos do marido, ou carregando a bolsa da esposa, culpa sua própria existência, como se a casa tivesse sido invadida sorrateiramente. Como se um estranho tivesse invadido a casa e não morado por anos ao seu lado nela. É seu marido de vinte anos que está ali, sua mulher da vida inteira, é alguém que você viu por anos, sem enxergar. Reclamar que não conhece o outro, em muitos casos pra mim tem tanta lógica quanto culpar Paris por jamais ter estado lá ou culpar a Índia por ser longe. Em parte dos casos, claro, depende do outro também se mostrar. É preciso que Paris esteja lá para nós.

O que quero dizer e, eu sei: isso vai incomodar, é que muita gente que já ouvi reclamando ter tido um encontro repentino com o lado desconhecido da mulher ou do marido simplesmente não o conhecia por pura e boa falta de atenção e interesse genuíno. Não teve a curiosidade de atravessar a rua pra ver de perto quem disse que amava. Não tinha interesse em ver o que a curiosidade dele apontava no horizonte, não tinha atenção para ouvir as histórias até o fim, estava quase sempre contando algo sobre si, como se o outro fosse apenas testemunha, diário, público pagante.

Ouvi então Aline dizer aquela frase clássica “Meu Deus, quem é essa pessoa com quem me casei?”, pensei dizer – Pois é, é bem provável que ele se pergunte a mesma coisa. Vocês perderam a chance incrível de se conhecer em alma – mas não era isso que ela precisava. Um ombro que lhe segurasse o queixo já bastava. Algumas pessoas só são verdadeiramente notadas por nós quando, à luz da porta, chamam nossa atenção, não porque se tornaram mais nítidas, mas porque simplesmente pararam de nos dar ouvidos e naquele instante se tornaram menos nossas.

Diego Engenho Novo


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Houve um tempo em que eu chorava todas as noites. Houve um tempo em que eu pensava mais em você do que em mim. Houve um tempo em que meu medo me impedia de ir buscar o ar. Houve um tempo em que eu não via nada além da sua ira disfarçada de cuidado. Houve um tempo em que eu seguia seus passos como que desejando que você tropeçasse em mim. Houve um tempo em que eu te amei e nem mesmo me lembro direito o motivo.

Houve um tempo em que eu te desejava nos meus sonhos. Houve um tempo em que me sentia culpada por não sermos mais felizes. Houve um tempo em que eu fui infantil porque achei que seria a melhor forma de alcançar seus cuidados. Houve um tempo em que eu fui distante esperando que você notasse. Houve um tempo em que tudo o que eu fazia tinha sua aprovação como fim. Fim também disso.

Houve um tempo em que meus dedos te buscavam enquanto você dormia, esperando que algo no seu inconsciente ainda desejasse o calor de mim. Houve um tempo em que eu te pedia um beijo como quem pede que uma rosa brote num jardim infértil. Houve um tempo em que eu achei que a distância nos traria saudade, mas a volta das suas viagens só nos trazia mais distâncias.

Houve um tempo em que eu pensei que eu fosse o problema. Tentei mudar meu humor, meus modos, meu corpo, meus cabelos, mas nada parecia mudar à nossa volta. Em outro tempo pensei que podia mudar-te, num esforço tão eficiente quanto carregar a areia e a água do mar, ambas juntas entre os dedos.

Houve um tempo em que tudo isso me doeu e hoje já nem incomoda. Houve um tempo em que tive raiva, mas isso também não ficou. Hoje lhe guardo a candura e o cuidado de alguém que amei de todas as formas possíveis até entender que há um tipo de amor que não pede amor em troca. Hoje sou seu pai, sua mãe, sua filha, sua melhor amiga. Sou uma alma antiga que voltou sentindo saudade.

Diego Engenho Novo


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Foto: Nathália Bariani

Meus amigos Suzete e Roberto completam hoje 38 anos de casados. Desde que os conheço, eles são família minha e minha maior inspiração para seguir acreditando no amor. Não um amor de contos de fadas distante, mas um amor real, regado à dedicação, cumplicidade, esforço mútuo, generosidade e uma dose adorável de bom humor.

Caramba, 38 anos. Suzete viveu mais tempo com seu marido que com seus próprios pais, viveu mais tempo sendo dois que sendo sozinha, viveu e vive, uma vida inteira com o homem que escolheu. E ele a escolheu de volta.

Para celebrar suas bodas de carvalho, a árvore símbolo da sabedoria e da força, fizeram uma tatuagem. Como dois adolescentes apaixonados, que de fato são. Tatuaram uma âncora. Mais do que símbolo de estabilidade, porto seguro um do outro, a âncora no caso deles retrata a liberdade que seu amor esculpiu lentamente através dos anos.

A âncora, eles me ensinaram, não é símbolo de parada, de estagnação, mas uma força que diz: “Vai lá, descobre o mundo com esses olhos que eu adoro tanto e volta pra me contar. Vai lá, que eu serei sempre sua casa, seu retorno, seu conforto pra te consolar do cansaço do mundo. Vai lá, mas depois volta pra me completar e dar o seguir da viagem que só faz sentindo se seguirmos juntos”, lindos.

Trinta e oito anos, quatro filhos, sete netos e você os vê de segredinhos pelos cantos, levando café na cama nos dias preguiçosos, indo ao cinema no meio da semana, morrendo de ciúmes um do outro, sem confessar. Viram que evitei dizer “ainda”? “Ainda” não combina com eles. O amor deles está crescendo, evoluindo e, a gente, que aprendeu admirá-los tanto, vai pegando carona, vai amando também, vai crescendo perto, viajando junto. 

Diego Engenho Novo


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Nunca me esqueço da palavra que vovó usa pra definir um casal que mora junto, mas não é casado – São amigados – fazendo pouco caso. Lembro que quando criança, eu achava esse termo maravilhoso. Pensava em como devia ser bom morar com um amigo. Poder brincar o dia inteiro, dar risada o dia inteiro, um emprestar seus brinquedos pro outro, ninguém pra dar bronca, cobrança. Coisa boa era ser amigado.

Tudo bem, hoje entendo o que ela queria dizer, mas ainda acho que é mais jogo ser amigado que casado com quem a gente ama. Se casar é dividir uma casa, combinar personalidades, juntar duas metades; amigar é ser bem mais parceiro, dividir momentos, aceitar ser amigo do seu companheiro. Julgar menos, ouvir mais. Estar atento aos pequenos sinais de que o outro precisa de colo.

Se casar é dividir as contas, amigar deve ser dividir os sonhos, planejar, tramar juntinho com a pessoa no mundo em que você mais pode confiar. Se casar é tolerar, amigar deve ser adorar estar junto, contar os minutos, ver algo e pensar – Queria que ele também pudesse ver isso. Se casar é achar que os erros do outro são sempre um ataque a você, amigar deve ser a compreensão de que todo mundo está tentando se melhorar.

Se casar é ir a mais jantares, passar mais tempo em casa, ver mais novela. Amigar deve ser adorar dançar com quem se ama, se esforçar pra tirar o outro de casa, porque você quer conhecê-lo ainda sob tantas diferentes luzes. Se casar é lutar contra o tédio no sexo, amigar deve ser contar todos os desejos, aprender com as experiências do outro, se sentindo mais engraçado que culpado. Amigo tem esse dom de dar leveza para tudo o que ele toca. Meu sonho é dividir um mundo contigo e não roubar o seu. Vem se amigar comigo.

Diego Engenho Novo


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Querida Lavínia,

Vejo você se abraçando à sua dor, porque sei que deixá-la ir é também deixar ir a memória do que já foi amor. Não há uma forma fácil de fazer isso. Apenas abra os braços. O perdão é uma oração que se repete continuamente. Pode não fazer sentido para a sua cabeça, mas sempre dirá algo para a sua alma.

Há um exercício que fiz durante anos com minha querida Ravena. Todos os dias, nós nos sentávamos frente à frente e nos olhávamos por alguns segundos em silêncio. Então eu começava a oração: “Peço perdão. Pelos maus pensamentos, se não te honrei quando poderia. Peço perdão pelas palavras, pelos gestos, por não ter tido paciência quando deveria. Peço perdão por alimentar a culpa, por acordar o ego, por provocar sua insegurança. Peço perdão por colocar minha posse à frente, por ser egoísta, por elevar sua ansiedade. Peço perdão e te ofereço perdão por hoje, por ontem e por todos os tempos que vieram antes de nós e que virão daqui pra frente”. Ela repetia e nos abraçávamos, pelo tempo que fosse.

Todos os dias. Imagina o que é isso? De alguma forma, esta oração nos salvou. Fez com que tivéssemos uma relação mais verdadeira, mais amorosa e mais doce. Não, não era fácil. Nos dias em que estávamos muito feridos, com raiva, era difícil sentar diante um do outro para exercitar o amor. Mas nós fazíamos, assim mesmo. No começo, meio que à contragosto, mas ao final, já dominados pelo choro.

Hoje faz dois anos que Ravena se foi e eu ainda oro baixinho, ainda peço perdão e a perdoo. Perdoar é reconhecer a sua humanidade refletida no outro. Abra os braços Lavínia, seu coração precisa de luz, de ar, como um casaco antigo de couro. Sabe qual a receita para se preservar o couro, Lavínia? Preserva-se o couro usando-o, muito e sempre. O perdão é uma oração diária, silenciosa e rara. É um presente que só a gente pode se dar.

Diego Engenho Novo


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(Publicado originalmente em 04/2014)

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Naely encostou-se em sua xícara de chá e aquele pedacinho de ferro brilhou. Era uma aliança. Estava noiva. E eu fiquei ali encantado pensando – quem é que fica noiva hoje em dia? As pessoas se conhecem e partem logo pro abraço. Na urgência de ser feliz como quem faz um check-in, a gente anda desqualificando os rituais. Não chega a ser motivo para se preocupar: a beleza dos rituais está no fato de que sempre há tempo para ritualizar o que já parece tão banal. Os melhores rituais, a gente carrega por dentro.

Ela sabe que você a ama, mas dizer é importante e demonstrar é sagrado. O ‘eu te amo’ é a oração dos amantes. Ele sabe que você está feliz ao seu lado, mas agradecer é sim imprescindível, enquanto sorrir for um rito sagrado, pros dois. É preciso brindar, sempre, pelos motivos mais incríveis ou bobos do mundo. Eu brindo até com o galão do bebedouro se me deixarem. Brindo à vida, à serenidade, ao som da risada dos meus amigos, ao amor dos meus pais, a nós, infinitos em ritos de comunhão.

Para aqueles que são amigos há uma década, ainda é tempo de ritualizar esse cuidado mútuo. Que tal um troféu? – Melhor Amigo de Uma Vida Inteira – em adoráveis letras garrafais numa placa acrílica. Reconhecer quem reconhece em você o melhor: tire um tempo também pra isso. Ritualizar o amor nem é casar. Não precisa de nada disso – igreja, cartório, bufê, flores que não serão cheiradas. Melhor do que casar é se comprometer. Para ritualizar basta fechar os olhos, os dois, juntos, de frente pro mar por cinco segundos e se deixarem abençoar pelo amor um do outro. Eu vos declaro, cúmplices – diz o vento baixinho.

Criemos nossos próprios rituais de amor, de fé, de reconstrução. Celebremos os encontros, as perdas que não fazem falta, a saudade que carregamos, os amigos, as pessoas que serenam nossos corações. Que a vida seja um ritual adorável de agradecimento, porque, em meio a todas as milhares de possibilidades infinitas do universo, nós, tão pequenos e desconexos, tão docemente atordoados, flanadores natos, tivemos a sorte de nos encontrarmos em igualdade de espaço, tempo e de sentimentos.

Diego Engenho Novo


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O que dói mais, Munike? Dói mais descobrir as mentiras dele que encobrir as suas? Ou dói mais ter acreditado que ele poderia ter-te arrancado daquele sentimento de estrangeira do próprio peito? Dói perceber que o caminho de volta é tão longo quanto o de ida. Dormiremos na estrada. Você, eu e o pó.

Se eu fosse você, me levantaria e jogaria o restinho de razão que você finge ter, para o ar. Razão como se fossem confetes. Para o alto. Eu me levantaria, atravessaria o corredor, me colocaria entre ele e a TV e diria. Diria, não. Eu gritaria que estou infeliz. Ele merece saber que está perdendo você para a loucura. Você ficou louca de tanta solidão acompanhada.

Quebre algo. Sua retórica, sua boa educação, sua inteligência não são mais fortes que o abismo que já separa vocês. Para alcançá-lo, para ser ouvida, quebre algo, Munike! Quebre aquele porta-retratos digital que ele te deu de aniversário. E porta-retratos é lá presente? Lance também contra a parede aquele vaso terrível que a mãe dele trouxe da Itália. Megera.

Quebre mesmo. Quebre o coração dele. Os cacos do seu merecem companhia. Obrigue-o a quebrar o próprio calar, a desposar-se da inércia, mesmo que seja para te chamar de histérica, de doente. Ele não estará errado. A sua vida adoeceu, virou uma bagunça. Uma bagunça escura e muda como um quartinho de quinquilharia.

Enquanto isso, o silêncio se deita com ele. Dorme do lado que é seu da cama. O silêncio se multiplica, se conforma, até te cobrir, até te apagar, até você se desconhecer. O que dói mais, Munike, eu sei. Dói muito mais perceber que você se acostumou a aceitar, a chorar mais baixo, a virar paro lado, assentar-se na vida dele, como se também fosse silêncio. Como se fosse pó.

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