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autoestima

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Lucas tinha sido transferido pra cidade há poucos dias. Como não conhecia ninguém, Aline foi encarregada pela chefe de leva-lo pra conhecer a noite. Ao chegar na frente do prédio, viu que ele não combinava muito com os outros rapazes do departamento de TI: ele era forte, alto, bem vestido e tinha um sorriso que a fez esquecer como se engatava a primeira marcha. Mas quando o milagre é muito grande, já viu, né? Não falava com ela direito. Mal olhava na cara dela. No primeiro bar, ele detestou tudo. Seguiram pra uma festa onde Aline se desdobrou para apresentar todas as suas amigas pro bonitão. Uma era chata, a outra baixinha demais, para todas ele dava um defeito perfeito. Chato era ele. Em certo ponto, Aline não aguentou mais. Disse que ele era metido, arrogante, prepotente, antipático, disse tudo o que tava entalado e saiu andando.

No dia seguinte, seu telefone toca. O número era desconhecido, mas a voz era a dele – Desculpa, eu não queria te chatear ontem – quase sem conseguir terminar – Meu Jesus amado! O que é que você quer? Você já infernizou minha noite. Eu paguei caro naquela roupa! – esbravejava do lado de cá – Mas eu não entendi. O que te deixou tão irritada? – Como assim, Lucas? Como você pode ser tão idiota! Eu te apresentei todas as minhas amigas. Eu te apresentei as mulheres mais bonitas que eu conheço e você desdenhou de to-das – foi a vez dele interromper – Você não entendeu nada, Aline. Eu estava interessado em você – silêncio letal, talvez ela tivesse desmaiado – Estava? – sem entender direito – Eu estou.

Aline me contou isso quase chorando e eu tentando não rir. Porque era muito dela promover aquele tipo de desencontro. Era muito dela se colocar nos bastidores, fugir do foco da luz, não aceitar elogios como quem devolve um buquê de flores. Como se isso fosse realmente possível. Era muito dela sempre acreditar que o melhor havia de ser para os outros, era muito dela desacreditar da própria beleza. Era muito dela não reconhecer seu humor adorável, não enxergar o que todo mundo em volta podia ver, que ela era uma mulher incrivelmente magnética. Aline sempre me dizia do quão era difícil acreditar, que ela não era capaz de se enxergar assim – Tudo bem, se você não consegue acreditar nisso, pelo menos desconfie.  A gente precisa, vez ou outra, desconfiar da nossa autocrítica, da autoestima que é por vezes míope e não consegue enxergar a beleza que está bem perto, que está na gente.

Diego Engenho Novo


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Nossa, menino, como adoro te ler. Me encontro em cada verso teu. Eu sou uma mulher já madura, tenho filhas independentes e netos. Me casei muito cedo, me separei quando completei 23 anos de casada por não desejar mais ficar com meu ex-marido e pai das minhas filhas. Me desligar dele foi difícil mesmo não o amando mais como deveria.

Conheci outro homem e me apaixonei, me joguei, esqueci de mim, fui viver a vida com ele (entenda-se a vida dele). Novamente desamei, preferi me separar por não amá-lo como ele merecia. Sempre tive relacionamentos abusivos por minha inteira culpa, dava amor e atenção pra receber exatamente o mesmo em troca: nada! Depois de me separar do meu segundo companheiro, fui aproveitar a vida, conheci vários caras e não conseguia mais me prender a ninguém.

Conheci uma pessoa que me deixou novamente apaixonada, uma mulher. A princípio foi um baque pra mim. Me deixei envolver, conversávamos diariamente por telefone e era perfeito. Nos conhecemos pessoalmente e depois disso, começaram os nossos problemas. Tive ciúmes de uma grande amiga dela e isso mudou um pouco nosso relacionamento. A partir deste evento ela ficou diferente comigo e passou a se distanciar, não deixa de falar comigo, mas sinto que está mais fria. Sempre está cansada. Vontade de mandar tudo as favas, mas gosto dela. Ou será que gosto do que ela representa: o amor? Marquei terapeuta, acho que preciso me curar. Eu sempre estrago tudo por não saber amar. Isadora, Santa Catarina.


Querida Isadora, também adorei te ler.

É natural que a gente fique meio sem fé na gente, no amor e na gente no amor depois de tantas frustrações, ainda mais depois dessa nova feridinha. Você não está se cobrando demais? O que vi em tudo o que você me contou não foi uma mulher que não sabe amar, mas uma mulher que não foi amada direito. Você se entregou, cuidou, aceitou e teve bem menos em troca. E isso, infelizmente também acontece muito. Para que um relacionamento dê certo é preciso empenho e entrega dos dois lados. Não carregue essa culpa. Você tentou.

Acredito que todas essas experiências ruins estejam refletindo agora na sua insegurança de entrar em uma nova história. Como é que você pode saber se essa mulher adorável que você encontrou a esta altura da vida não é justamente alguém para quem tem se preparado? Alguém que pode te dar todo o carinho, afeto e cumplicidade que sempre faltou? Tudo bem, você começou com o pé esquerdo, nada que uma conversa honesta e o tempo não maturem.

Enquanto tenta construir sua história com ela, construa também uma história consigo, uma história de cumplicidade, auto perdão e verdade. Talvez a questão não seja que você não sabe amar, mas que você ame muito mais aos outros que a si. Chegou o momento de viver uma história leve, doce e terna. Se em algum momento você desconfiar que não está mais feliz, que está remando sozinha, não hesite em saltar desse barco também. A vida já te ensinou que como ninguém você sabe se manter acima das ondas, lutando por sua verdade. Conte sempre comigo. Beijão, Diego.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

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Você tem que se amar mais. Falam isso como se fosse moleza. Como se a gente tivesse um botãozinho de autoamor. Apertou, amou. Tem gente que entende que o jeito é pra ir pra academia, tomar uns shakes, fechar a boca, fazer luzes. De fato, a autoestima melhora. Mas estima não é amor. Seguindo por aí, a gente no máximo aumenta o tesão por si. Se acha uma delícia, se convida pra sair, mas não liga no dia seguinte. A gente não quer nada sério com a gente.

E como é que se ama? Desconfio que amar a si mesmo é como amar o outro, ora. Primeiro a gente se conhece, troca olhares, a gente se escuta atentamente. Descobre do que gosta, acha graça dos defeitos, se aproxima aos pouquinhos. A gente se apaixona quando quer saber de toda a história, de todos os detalhes que ninguém antes perguntou. E então, encantado por aqueles caminhos, a gente vai entrando neles, até se perder, adoravelmente.

A gente se encanta, mas não se apaixona só por um corpão. A gente se apaixona mesmo por um corpão com belas curvas de humor, sacadas bem definidas, pelo cuidado, pela atenção, pelos músculos fortes do coração do outro. Conheço um monte de gente que não tem isso por si mesmo. Não ri das próprias piadas, não se encanta pelas próprias descobertas, não se cuida, não se ouve atentamente, não esculta o próprio pulsar. Conheço um monte de gente que não entendeu ainda que a gente só ama quem admira.Mire em si mesmo para admirar.

Amar a si mesmo não é fácil. Eu nunca disse isso. Se amar mais é uma trilha longa e demorada de conquista. Digamos que nós nos façamos de difíceis para nós mesmos. A gente faz um doce danado para nossa própria conquista, tem um pé atrás consigo mesmos. Vai ver que é porque a gente conhece a encrenca, conhecemos nossas próprias neuras e manias, a gente já foi machucado muito por esse tal de si mesmo. Cabe a nós tentarmos enxergar os encantos adoráveis que é ser quem se é. Leve o tal do si mesmo para fazer algo que ele adora. Parece um bom começo para qualquer relação amorosa.

Diego Engenho Novo


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A casa de poucos cômodos abrigava um restaurante improvisado no meio da Guajira colombiana. Enquanto aguardava meu pollo, reclamei com uma das três moças que há horas estava sendo perseguido por uma gangue de pequenas abelhas negras – Incluso el ladrón, no viene sino es invitado – disparou a menor, sem dó, nem piedade.

O prato veio fumegando da cozinha e deitou-se sobre a mesa pequena, solenemente – O que ela quis dizer com isso?- perguntei inquieto – Preste atenção a estas pequenas flores grudadas à sua perna: elas estão atraindo as abelhas. Você reclama delas, mas as está chamando – completou a mais velha. Engoli em silêncio, a comida e a cena.

Meu amigo Guttenberg também levou tempo para compreender seu dom especial para atrair mulheres malucas, verdadeiras abelhas africanas. Até cair na real, ele passou por delegacias, perdeu emprego e ganhou hematomas. Marcele, coitada, foi batizada maldosamente na roda de amigos como “Dona Clotilde”, porque nunca arrumou um namorado sequer que gostasse de trabalhar. Foram anos de terapia até descobrir que havia ali uma boa dose de autossabotagem e dois dedinhos de baixa autoestima. Freud explica, herança do pai.

Infelizmente, não há mais ninguém a quem possamos culpar. Não existe no mundo tamanho azar que nos arraste todas as vezes para o mesmo erro, sob diferentes CPFs. Sim, é você que sempre atrai o bem, o mal e as abelhas pra sua vida.

Antes de deixar o restaurante, ouvi a moça do meio despedir-se – As flores também podem atrair passarinhos – fomos embora. Eu e minhas abelhas.

Diego Engenho Novo


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