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amor

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Fui ao cinema dia desses e, antes do filme, meio que tentando equilibrar minha pipoca, chocolate e refrigerante gigantes, vi o teaser de uma exposição da Yoko Ono que está passando por São Paulo. Olhando fixamente para mim ela disse algo que me fez pausar um dos bocados de pipoca na metade do trajeto. “Pessoas são como estrelas, às vezes nós só precisamos saber observa-las em sua órbita, brilhando”, disse Yoko.

Me lembrei de quando fui conhecer um centro de observação do céu e o astrônomo apontava para cada luzinha contando suas histórias. Mas por mais que ele tentasse transmitir toda a sua paixão pela estrela Sírius, todo seu fascínio pelas nebulosas, ninguém parecia estar realmente empolgado. Me incluo nisso. Eu só conseguia pensar se aquele frio que eu sentia seria uma sensação parecida com a de mergulhar de sunga num lago congelado da Sibéria.

Foi aí que ele apontou um dos telescópios gigantes para a Lua e disse que quem quisesse poderia fazer uma foto nítida das crateras lunares com o celular. Euforia geral. A ideia de sequestrar um punhado de satélite natural e levar consigo deixou todos nós instantaneamente empolgados. Mas porquê? Aquilo ficou martelando comigo por muito tempo, até ouvir a frase de Yoko. Como quem liga estrelas na noite e enxerga algo maior.

A gente leva essa mania feiinha para tantos espaços de nossas vidas. Aprendemos que o relacionar-se com os outros é meio que também desse jeito: como a tentativa boba de coletar estrelas, como o guardar de um pedaço do rio entre os dedos, como engarrafar o assovio bonito do vento. Nós seguimos tentando ter  as pessoas. Coleta-las de suas rotinas, rouba-las para nossas órbitas e inseguranças, tão infinitas quanto o próprio espaço.

O amor seria tão mais verdadeiro se pudéssemos olhar para as pessoas de nossas vidas como Yoko olha para as estrelas: apenas admirados de sua capacidade de brilhar, fascinados com seu mistério de existir, gratos pela possibilidade de nos conectarmos justamente a elas numa infinitude de possibilidades. As estrelas não existem para serem tidas. Como o amor, as estrelas existem para que a gente se sinta menos perdidos, para que nós nunca nos esqueçamos que tudo na vida pode ser grandioso.

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Foto: Greg Raines

Saí pouco antes da luz acender, ainda sob os fortes aplausos que nós da plateia enviávamos calorosamente às duas atrizes no palco. Saí meio aplaudindo, meio enxugando as lágrimas, meio curvado carregando minha vergonha de homem crescido chorando feito criança. Havia terminando a leitura aberta da peça Aquário com Peixes de Franz Keppler.

Não sei o que me deu. Não sou de chorar para fora. Sou do tipo que chora, ri e conversa para dentro. Mas a história daquelas duas mulheres que se amavam, mas se separavam, daquele amor que ia acabando como se acaba o ar, me tocou profundamente.

Ninguém havia me enganado: desde a primeira cena, do primeiro ato, ficava claro que o amor delas iria acabar. Não era segredo: desde o primeiro momento, transpareciam no palco os últimos momentos da história das duas. E libertos da ansiedade de vê-las juntas para sempre, só cabia a nós, amar o tempo que mantinha a elas, próxima uma da outra.

“Porque é tão difícil isso? ” Me perguntei tentando acertar o botão que me levaria para meu andar. Porque era tão difícil aceitar que as histórias são simplesmente histórias que começam e se acabam? Porque a gente não aprende? A valorizar os meios, os durantes, os tempos juntos, as noites de quarta-feira. A gente perde tempo demais nessa de achar que teremos todo o tempo do mundo.

Porque simplesmente não aceitamos que amores nascem para se consumirem até a penúltima gota? Jamais a última, jamais a última. A gente devia mesmo aprender a amar pelo tempo que durar, aprender a crer pelo tempo que amor for a nossa fé cega e suficiente, aprender a gostar mesmo daquilo que não vai ser nosso para sempre. Exercício terrível de desapego logo com o maior de todos os nossos apegos.

A gente devia mesmo aceitar que todo amor que começa já avisa na primeira cena, no primeiro ato: ‘O que começa agora, como tudo na vida, vai terminar. Talvez pela própria vida, talvez no dia em que a luz que é dela se apagar. Aproveite o meio, onde está o recheio, onde dorme o sabor. Ame enquanto puder e se fortaleça disso para quando a dor do fim vier nos doer. Por favor, desliguem seus celulares: a peça já vai começar’. Começo, meio e fim.

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Foto: Brooke Cagle

Desculpa chegar, depois de tanto tempo, como se ele, o tempo, não tivesse atravessado à nossa frente, forasteiro. Como se muitas noites não tivessem me feito companhia antes dessa. Como se eu não tivesse, por tantas vezes, inventando caminhos e motivos novos para não passar à sua porta. É engraçado cultivar esse quase medo dos lugares onde a gente foi tão feliz.

Talvez você nem more mais no número dois-sete-meia da avenida. Depois de tantos meses daria pra você ter se mudado de país e aprendido outra língua, daria pra você ter largado o escritório e se tornado cuidador de cavalos. Todo esse tempo seria suficiente para abraçar uma vida, embora não tenha sido suficiente ainda pra mudar o que sinto por você.

“Só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto”

E quando o interfone tocar, ao contrário de meses atrás, minha imagem não será seu primeiro pensamento. Poderia ser uma reclamação mal-humorada vinda do andar debaixo, a entrega da comida que sempre chega fria mesmo vinda da esquina, ou um amigo pedindo sofá para se curar da bebida. Mas dessa vez, querido, quando o interfone tocar, serei eu, me convidando outra vez para entrar na sua vida. Eu em minha eterna entrega pra tudo que vem de você.

E naqueles dois segundos após o abrir da porta, serão meus olhos inundando você num misto de curiosidade, saudade, dúvida e dívidas. As marcas de sol que revelam mais idas ao litoral, os cabelos por cortar mostrando que você está mergulhado em seu novo livro, uns quilos a mais contando de suas idas acompanhado ao restaurante que a gente adorava, uns quilos a menos dedurando que você finalmente tirou seu plano da gaveta de aprender a correr. Eu sei que é horrível dizer, mas sim, seria respeitoso da sua parte não ter vivido maravilhosamente bem sem mim.

E meio que sem jeito eu tentaria parecer confortável, e desconfortavelmente tentaria transparecer uma paz que não tenho, desde que nos despedimos pela última vez. E depois de tantos meses eu voltaria com algo seu embaixo do braço como desculpa, só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto. Porque foi exatamente assim que me apaixonei por você.

Diego Engenho Novo

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Meus avós costumavam contar que antigamente, quando ainda não existia eletricidade nas casas, e combustível para as lamparinas era artigo raro, a pouca luz que se tinha em casa era regrada. À noite, as pessoas apenas se aquietavam.

Mas quando ia se fazer uma visita ou levar um agrado, a luz da lamparina que iluminava o caminho, que clareava a estrada, era recebida pela casa com as seguintes palavras: “Bem-vindo você que trouxe luz para essa casa”. Eu sempre adorei essa história.

E o que é o amor se não isso, luz trazida de longe para iluminar a gente por dentro? Basta olhar para ver como os amantes se iluminam mutuamente. Em uma medida rara, são o ascender dos sonhos do outro, o aquecer da candura do outro, a centelha que generosamente se multiplica em nome do outro, sem esforço desproporcional, sem anulação. Iluminam, um ao outro, apenas existindo.

E nos momentos difíceis, em que nos perguntamos se o amor vale mesmo todos os desafios, a conta é fácil: se há respeito pela grandiosidade do outro, vale. Se há generosidade de aguardar o tempo de maturação da calma do outro, vale. Se após a tempestade, vem a doçura se assentando no horizonte, ainda que tomada emprestada das memórias, vale.

Vale porque, muito além do que se abre mão, há tudo que se ganha sendo dois. Ganha-se um colo que não exige pressa, pés que entrelaçados nos situam na noite, olhos que entrelaçados nos aprumam no dia. Ganha-se um parceiro sem julgamento para os domingos preguiçosos, uma voz que acalma em meio à rotina, um riso pela casa que também faz rir.

Ganha-se na espontaneidade de quem rima com seu jeito sem ensaio, ganha-se em silêncios que se respeitam, orgulhos que se põem de lado em espera, beijos paliativos, conversas que não se despedem. Ganha-se mãos que encorajam, interesse para os seus assuntos sem nexo preferidos, intimidade deliciosamente conquistada, ganha-se compreensão. Ganha-se o estado constante de estar-se iluminado pela existência do outro.

Diego Engenho Novo

 

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Miguel e Emma têm um ritual bem diferente de muitos casais que já conheci. Vez ou outra, os dois se trancam em casa e aí, você já deve imaginar o que acontece. Nada. Isso mesmo, nadinha. Eles descobriram que ambos poderiam ficar sozinhos, inclusive quando juntos. Sem pavor, sem estranheza, sem achar que o outro desamou. Apenas um tempo que é nosso dentro do nosso tempo a dois.
 
Emma atravessa a casa de meias e sua camisetona preferida dos Rolling Stones. Somente o som da chaleira dança pela casa enquanto Miguel ainda dorme. Se espreguiça demoradamente e depois rouba um biscoito de si mesma. Ela se afunda no sofá e, agarrada com um livro, recebe um beijo na testa. Ele acordou.
 
Ao fundo, faz seus milhares de barulhos de homem, mas logo também se aquieta. Miguel adora jogar. Antes de se enfiar entre milhares de tiros fictícios, ele pega um copo gigante de gelo com coca e faz um sanduiche que aprendeu com a mãe. Quando bate saudade, Emma entra discretamente e lhe beija os ombros. Ela já descobriu que há jogos que não se pode pausar.
 
Para quem entende que casais precisam se divertir sempre juntos e acha um absurdo duas pessoas que se amam ocuparem o mesmo espaço sem necessariamente estarem focadas uma na outra, isso pode soar bem estranho. Mas quando conheci os dois isso me fez muito sentido. Eu só podia pensar em como queria um dia ter um amor assim. Eu jamais me sentiria menos amado.
 
Sem culpa, sem angústia, eles simplesmente descobriram que ficavam bem assim também às vezes. Jamais confunda isso com abandono, com solidão acompanhada, com casais que se apagam um pro outro, que começam a se desviar pelos cômodos.
 
O maior prazer deles era se encontrar, como desconhecidos que se conquistam numa festa que é só deles e depois seguirem. O amor deles cresceu tanto que perdeu a pressa, tornou-se maduro, perene como um lago antigo. Um dia eu também quero encontrar alguém com quem possa ficar feliz sozinho.
 
Diego Engenho Novo

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Lucas encontrou Marina após alguns meses que haviam terminado. Ela estava linda, com um olhar sereno, feliz. Ele não. Pensou em dizer mil coisas, das centenas de milhares que sentia, mas ateve-se a dizer que estava bem. Me contou isso com certo orgulho por ter vencido o drama, a falta que sentia dela. Tentei alertá-lo de que aquilo não era exatamente vitória. Ele havia perdido. Havia perdido a chance de vivenciar quando as coisas são realmente ditas.

Não acho que dizer que sentia a falta dela seria minimizá-lo, reduzi-lo ou descambar pro risco de se reaproximarem. Mas o que é sentido precisa ser dito. Ele mora ali por algum motivo, como um velhinho com sua casa de palha à beira da estrada. Talvez ela precisasse ouvir, talvez ele precisasse se ouvir dizer pra finalmente esquecer, mas fato é que o sentimento estava vivo e ele simplesmente o amordaçou. Com a tristeza de um carro alegórico passando em silêncio.

Manu e Léa, conheci em um evento recente de lançamento do meu livro. O fato de estarem juntas na mesma frase dá pistas de que tudo deu certo entre elas, mas poderia não ter dado. Se conheceram em uma festa. Se olharam, se beijaram, riram por alguns minutos, até que Manu disse que tinha que ir, que a noite ainda estava só começando para as duas, que deveriam beijar outras pessoas. O velho cálculo falho da quantidade em troca da qualidade.

No dia seguinte, Léa a escreveu dizendo que havia ficado triste com o desfecho da noite. Que não queria mais procurar ninguém. Havia a encontrado. Que não pediu que ela ficasse porque pareceria falta de amor próprio, pedir para o outro ficar. Manu esclareceu, que pensou em pedir para ficar, mas imaginou que uma guria tão linda quanto a Léa, estaria interessada em conhecer outras pessoas na festa. Aí sim, alguma falta de autoestima.

Houve tempo, ainda que tardio, para as coisas serem ditas. Sempre há. Mesmo que se passe um mês, dois anos, uma vida inteira. Algumas palavras brotam para serem entregues e nós seguimos carregando dizeres dentro da gente que não são nem nossos – Você me desculpa? Como eu fui tonta – disse, Manu – Não se desculpe. Eu não fiquei triste com você. Eu fiquei triste sem você – e dito, isso também não pertencia mais a ela.

Diego Engenho Novo


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Tânia buzinou em frente ao café. Entrei e rapidamente engatamos um assunto. Ela estava tendo problemas por causa da teimosia tardia dos pais idosos. Íamos conhecer o sítio que ela acabara de comprar. Sonho antigo. Lá pelas tantas, já na marginal, o painel do carro dela começou a apitar insistentemente – Ele me avisa toda vez que eu ultrapasso a velocidade permitida. Avisa quando eu passo do ponto – riu, Tânia, suavizando o pé do acelerador.

Onde compra? Eu queria um desses pra levar pra vida. Um que avisasse quando a gente está levianamente machucando quem é do amor da gente. Um que apitasse sempre que as palavras fossem duras de mais. Um que parasse o princípio de todo arrependimento, o falar mais que a boca, sem passar pelo filtro do coração. Já notou como a gente costuma ser duro justamente com quem mais merecia nossa candura, nossa paciência? Erro brutal de condução.

Todas as intensidades, diante do amor, se tornam um tanto mesmo desmedidas. O que nem incomodava ver, fere as vistas. O que nem importava ouvir, ofende o baço. O que todos sempre disseram parece de uma arbitrariedade sem precedentes vindos justamente de quem mais se preocupa com o bem da gente.

Acontece que na mistura da posse, no afã de defender nossos tantinhos de autoestima, incoerentemente, somos monstruosos justo com quem queríamos ser os melhores. Não queremos que ele veja nossas feiurinhas e isso o afasta também de nossa beleza.

Nessas horas, um sinal vindo do painel seria bem-vindo – Ei! Você está exagerando! – E a gente instantaneamente se lembraria que o amamos tanto, que temos nele nosso melhor amigo, que seu medo é proteção, que nosso orgulho nem estaria tão ferido se aquela fosse a opinião do Seu João da padaria. A gente é mesmo muito doida e mesmo assim ele nos ama, aguenta nossas patadas, releva nossos rompantes, mas, até quando? Por hoje, serei eu o seu sinal.

Diego Engenho Novo


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Volta daqui um ano. Passa daqui uns meses, combinado? Volta que agora o passado é que não me deixa seguir adiante. Volta e se coloca preciosamente diante dos meus olhos. A sua visão é a primeira que tenho depois de nada enxergar, depois de muito tempo. Como um alumiar fazendo cócegas na dureza noturna. Você pode voltar?

Agora não dá. É tempo perdido, momento errado, dia desses que ninguém mais cabe. Ninguém além das memórias da gente. Promete que volta? Passe mesmo na volta pra me encontrar. Até lá, talvez eu já possa transformar essa adoração delicada em algo que faça bem a nós dois. De fato, hoje só me sinto inapta.

Talvez até lá eu já carregue no peito um lugar tranquilo onde você possa esquecer-se que de nós nada fica. E mesmo cientes de que toda vida é preenchida de ida, tramaremos segui-la juntos. Idos os anos em que nos maturamos e nada aprendemos. E nada aprendemos.

Passe na volta. Por enquanto só quero me sentar à porta como quem também mora pelo lado de fora. Por enquanto só posso amarrar meus cabelos em uma desordem mais contida, respirar bem fundo acarinhando meus pulmões, ser leveza, ser sozinha, ser eu mesma, miudinha, abraçando os próprios joelhos.

Você parece mesmo ser incrível e, ao mesmo tempo, incrivelmente inconveniente. Pra você darei meu ‘sim’. Não agora. Eu nunca soube amar menos do que com tudo. Passa outra hora, vai! – como se apaixonar-se pudesse mesmo voltar, como retornam depois do frio as estações mais quentes.

Diego Engenho Novo


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Estávamos nos bastidores de um evento em que eu ia dar uma palestra. Seu Inácio era um conhecido das antigas, de outros festivais, por assim dizer. Eu já havia assistindo alguns shows dele e de sua família. Um grupo lindo de rabequeiros que sempre me emocionava muito. Senti falta de dona Maria Flor, sua mulher, que dava o tom rezado para os vocais – Ela faleceu, faz dois anos – me contou sentido. Pedi desculpas. Eu realmente não tinha como saber.

Me contou, chegando mais perto, mirando a fala pro chão, que há pouco mais de dois meses havia se apaixonado novamente. Quase setenta anos. Após passado o luto da perda da companheira de uma vida inteira, reencontrou uma amiga dos tempos de moço, com quem tinha tido um namoro breve. Na época, ela era muito intempestiva, briguenta e ele não queria compromisso. Afastaram-se. Para surpresa dele, também era viúva recente. História de novela. Voltaram a se conversar, a se fazerem companhia, voltaram a se amar, depois de mais de cinco décadas.

Ainda era amor puro, deixou claro pra mim. Gostavam de passear, jantar juntos, conversar por um tempão embaixo da oiticica centenária do quintal. Nem beijo havia acontecido ainda. Duas crianças namorando sem a outra saber. Questão de tempo. Tempo que não tinham, mas nem por isso faziam questão de apressar. Deu a hora do show e Seu Inácio me deixou ali, com meus pensamentos. E não é que o amor nem sempre vem do novo? Talvez você possa se apaixonar outra vez por alguém que já passou. Pelo que ela se tornou com o passar do tempo.

A gente olha, não adianta, sempre para o novo. A gente imagina que o amor vem pela porta da frente. Talvez não. Talvez você não precise contar toda sua história novamente, talvez você não precise justificar suas manias, talvez você possa viver novas memórias com alguém do passado. Talvez. Há gente que não muda, claro. Gente que não escuta as prosas do tempo, que não aprende com os próprios erros, gente que só seria em nossas vidas o mesmo erro, como um filme reprisado até o cansaço na Sessão da Tarde. Não há segurança, não há garantias. Assim é todo amor novo. Basta deixar-se apaixonar outra vez.

Diego Engenho Novo


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Você ficaria comigo se soubesse que não teremos tempo para ser eternos? Ficaria se soubesse que um dia talvez eu me canse de nós? Ficaria se soubesse que um dia eu também me tornarei muito cansativo pra você? A minha voz se tornará um zumbido, irritante e insistente, reclamando atenção.

Do que você tem medo? De não durarmos o suficiente para nos gabar? De gastarmos o dobro do tempo para esquecer? Parece um preço muito alto a se pagar, mas eu não trocaria nossos minutos e segundos por nada disso.

Depois que nos distanciamos eu me virei e olhei sua doçura indo embora de mim. Soube ali que nunca mais nos veríamos, mas eu senti um orgulho imenso de nós dois, pouco antes de me desfazer em medo. Dividimos o respeito que plantamos e colhemos em partes iguais. Alimento a contento.

Nós fomos incríveis, vorazes, intensos como um beijo que se esconde no meio da multidão, um acenar que pausa a solidão de um desconhecido, como estrelas que se aproximam sem nunca de fato poder se encostar. Não havia garantias, nós nunca as tivemos em momento nenhum de uma vida inteira sem retidão. E é isso que eu mais amo em você.

Jamais direi que te amo no passado. Meu amor não passa como chuvas esparsas. Meu amor vai ficando de pedaço em pedaço para quem me dou. E para cada parte que fica, como um postal antigo que diz – Eu já estive ali – para cada parte, meu amor se desdobra e também se reparte em dois. Você faria tudo outra vez se soubesse que não iríamos nos demorar?

Onde quer que eu esteja, para todos eu digo, você foi um dos lugares mais lindos em que pude estar.