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amizade

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Se eu pudesse dar um conselho hoje, eu apenas diria: aproveita! Porque a gente se distrai mesmo das pessoas que já foram o centro do nosso coração errante. A gente se distrai delas, seja através do estranhamento calcado diariamente, por decepção violenta, seja porque naturalmente é da gente um dia também se distrair da dor.
 
A gente se distrai tomando a triste ciência de que tem gente que abusa do afeto. Eu entendo: há gente que aprendeu que as relações são assim, amensalistas, um dando-se para o tomar constante do outro. Há gente que cresceu em lares pouco afetuosos, há gente que foi endurecendo-se pela crueza da vida.
 
Há gente que foi ficando assim sem perceber, mas a partir do momento que eu percebo, cabe a mim escolher: permanecer ou não nesse tipo de laço, como aquele que sempre perde um pouco mais, como aquele que perdoa mais uma vez a falta de cuidado, como aquele que sempre é sugado para o caos alheio, envolvido por laços que mais parecem embaraços constantes. Eu não posso ser mais essa pessoa para ninguém. Foge-me o tempo, urge-me a pressa de relações mais verdadeiras, de pessoas mais verdadeiras inclusive para si mesmas.
 
Triste ou naturalmente, a gente também se distrai de quem nessa vida só nos foi amor. Demora um tantinho mais, não vem vestido nas formas ácidas do amargor, mas acontece. A gente se distrai do estar à volta delas tomando um avião, um caminho diferente que só nossos pés compreendem. Então aproveita, ama no tempo da pureza, olha demoradamente enquanto a beleza ainda está lá para ser vista. Porque a vida distrai a gente das pessoas. Das que nos fazem bem e das que não fazem a menor diferença.
 
Para quem me é benção ou para quem só faz bem para si, eu só digo uma coisa: aproveita. Para a vida ou para a curva distraída que a finda, nós um dia nos distrairemos um do outro. Uns guardo comigo como o bem que também me foram. Outros, apenas como pessoas que se vão entre uma distração e outra.
Diego Engenho Novo

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Diziam os antigos que os homens eram anjos lançados à Terra pra aprender os dons do sentir. A eles foi dado um desafio – ao perder uma de suas asas, cada um devia encontrar um jeito de voltar pro céu. Quando conseguissem isso, descobririam também o mistério da vida humana. Centenas de milhares deles, lançados ao mundo, meio mancos. só com uma asa.

Aí, durante milhares de anos, os homens tentaram de tudo pra voltar pra casa. Subiram montanhas que os aproximavam das nuvens, construíram máquinas que os levassem bem alto, plantaram árvores que cresceriam até o céu. Mas nada parecia funcionar. Com apenas uma de suas asas, todos os anjos estavam aprisionados por aqui, sem poder voltar.

Aos poucos, eles perceberam duas coisas fascinantes – primeiro que seu esforço de voltar ao céu, havia desenvolvido, sem querer, os saberes da humanidade. Ao seu modo, cada um havia evoluído em ciência e sabedoria. Segundo, que a resposta pro enigma que os havia trazido sempre esteve ali, ao lado. Abraçados, cada anjo com sua asa solitária formava um par de asas.

E o outro era a benção, e o outro era o equilíbrio. O outro era a liberdade, e também era o sentido. Sempre que penso nessa história, me lembro da minha amiga, Nane. Porque é exatamente assim que me sinto – abençoado pelo nosso encontro. Sinto que juntos poderíamos cumprir qualquer jornada. Nas noites em que eu estivesse cansado de bater minha asa, ela se esforçaria um pouco mais com a sua e nós seguiríamos. Nas tardes em que a fadiga e a descrença a alcançassem, eu tornaria possível e permaneceríamos avançando.

Quando estamos longe, sinto meu mundinho ficar pesado, em processo claro de desequilíbrio. Basta um ‘oi’ e já volto a enxergar respostas, a aceitar caminhos, a ficar levezinho, a flanar em suas histórias. E com tanto amor, tanto cuidado, tanta candura e afeto, nem percebemos que, aos pouquinhos, estamos mesmo retornando. Amigos são a asa que nos eleva e faz a gente enxergar mais longe. Os amigos são anjos que levam a gente de volta pra casa. Assim já diziam os antigos.

Diego Engenho Novo


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Imagem: thenextweb.com

Às vezes não adianta. Não bate mesmo. Na pausa do – Muito prazer! – da pessoa a gente percebe que não vai com a cara dela e pronto. E estranhamente a gente começa a cavoucar os defeitos, procurar ironias, atento a uma opinião que a gente possa demonizar. A gente procura até que encontra um motivo, ou milhares, que confirmem aquele azedume precoce. Nosso santo não bate, minha filha.

Há uns anos cruzei com o Marcelo no aeroporto. Ambos íamos de Brasília pra Palmas. Não posso dizer que não gostava dele. Eu não o conhecia. Mas nem precisava: o tal do santo não batia de jeito nenhum. Nossos tantos amigos em comum só tornavam a implicância mais estranha ainda. Mas eu permaneci no meu papel de manter-me a uma distância segura. Distância que ele cruzou com seis palavrinhas mágicas – Porque você não gosta de mim? – gelei – Eu não tenho nada contra você Marcelo. A gente só não se conhece, né? – parecia primitivo demais admitir pra ele o real motivo.

No saguão da sala de embarque ecoou o aviso de que nosso voo havia sido mudado de portão, atrasado, atropelado uma garça, ficado preso no Nepal. O universo me queria ali, em banho-maria de constrangimento. Marcelo me chamou pra um café e ficamos ali conversando por cerca de duas horas. Reclamando do atraso juntos. Rindo das mesmas situações. Adorando os mesmos autores. Até aniversário a gente fazia no mesmo dia. Marcelo, para meu pavor, era um cara muito bacana. E eu nunca me senti tão pequeno.

Claro, às vezes o santo que não bate tem fundamento. E ele já nos livrou tantas vezes de gente esquisita. Mas entre seus acertos, penso eu, quantos erros cometi pela vida? Quanta gente foi taxada de antipática por ser tímida? Quanta gente passou por grosseira por estar em um mau dia? Todo mundo pode ter um dia bem ruim. Quanta gente foi repelida por um dizer que a gente escutou errado? Quanto amor abortado antes mesmo de vir à luz? Quanta chance perdida? Quanta gente querida que passou sem nem mesmo ter tempo de encostar-se na vida da gente? Quanta verdade perdida por preguiça, medo ou intolerância nossa? Quantas meias verdades vendidas a preço de ouro?

Perdão a todos vocês que foram vítimas minhas da primeira impressão. É ela que fica, mas não devia. Todo mundo pode errar e isso não o tornar uma pessoa má. Todo mundo pode acordar por dentro de um dia ruim. Inclusive a gente. Inclusive a nossa intuição. Às vezes nosso santo não bate por pura preguiça de olhar para os nossos próprios pecadinhos.


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Ia ver Caio. Gosto tanto de conversar com ele que quando sei que vou vê-lo, fico revisitando as pautas, organizando os assuntos na minha cabeça. Eu ensaio mentalmente nossa conversa. Enquanto fazia isso, pensei em levar um presente. Caio adora escrever também. Daria um caderno.

Lembrei que, dia desses, passando pela papelaria, tinha me apaixonado por um papel de presente antigo, com flores imensas nele. Entrei e comprei, sem saber quando o usaria. Por alguns minutos, fiquei tão contente, ali, apanhando da fita adesiva, brigando com a borda que teimava em ficar torta, segurando a tesoura do jeito errado, como sempre faço: enfio o polegar no espaço pros outros dedos e os dedos no buraco menor.

Tentei me lembrar da última vez que embalei um presente, pensando em como seria bom que, alguns minutos depois, destruíssem tudo aquilo com a surpresa estampada no rosto. Pensei em como estamos ficando sem tempo para a delicadeza. Há quanto tempo não secamos uma folha dentro de um livro, só pra um dia, depois, encontrá-la lá, adorável? Há quanto tempo não colocamos nossa música preferida para ouvi-la de olhos fechados? Há milhares e milhares de séculos não temos tempo para sentir o cheirinho que antevem o beber do café. 

Faz séculos que a gente não se esforça pra ver as estrelas, aprender o nome de uma constelação nova. Foi em outra vida, que a gente alinhou os lápis de cor pra fazer um desenho bonito e dar de presente pra alguém? Eu adoraria ganhar um desenho, um bordado, um crochê, um pão feito em casa, qualquer mimo delicado que tenha passado pela delicadeza do fazer.

Em tempos em que não temos tempo nenhum, existirá presente maior do que tirar dois minutos pra amar de um jeito diferente? Caio adorou a lembrancinha. Eu adorei estar com ele. Estar com quem desperta o melhor na gente é sempre um presente. Estar com quem acorda na gente a delicadeza que a pressa adormeceu.

Diego Engenho Novo


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Tenha um amigo que seja maior do que você. Não somente pelos braços mais compridos que nem mesmo precisam se alargar para te abraçar. Nem mesmo pelas ciências da vida que ele já recita como um poema curto de Adélia Prado, ciências que você ainda tenta assimilar, com certa dificuldade. Tenha um amigo de alma maior, coração mais largo e olhar mais sereno que o seu.

E ele, em muito vai lembrar a candura de seu pai, o humor preocupado de sua mãe, e pouco a pouco também se tornará sua família. E mesmo nos dias em que ele se sentir menor e reivindicar seu colo, você ainda estará sendo protegido por ele. Há gente que cuida da gente num caminho inverso quando deitam na paciência do nosso colo, quando choram no mirante de nosso peito, quando a sua simples presença nos torna também um pouco maiores.

Tenha um amigo que seja maior do que você. Que lhe ensine a ser generoso com miudezas como te emprestar um livro que você nem pediu ou te levar para tomar café quando você estiver perdido. Que lhe mostre a dignidade desculpando-se quando você nem estava exatamente bravo e lhe perdoando exatamente nos momentos em que você não poderia ser tão mais errado.

E a partir do respeito imenso que você recebe dele e do respeito legítimo que devolve de volta, estará criado um adorável círculo vicioso, como as vasilhinhas que viajam de uma casa para a outra. Nunca vazias, sempre comadres, refil eterno de um agrado novo, marmitas fartas de gratidão e amor. Tenha um amigo maior do que você. Para cultivá-lo como um campo florido que se alastra por quilômetros: delicado e imponente, simples e misterioso, valioso e aberto para quem quiser ver.

Diego Engenho Novo


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Passe quanto tempo passe, aconteçam quantas mudanças aconteçam ao centro de nossas órbitas: reencontrar um olhar cúmplice, um cheiro conhecido, um abraço despreocupado é sempre reencontrar-se. Se pessoas são lugares, encontros são estradas. Reencontrar é pôr-se em trânsito, na ânsia das chegadas, no ímpeto das partidas. Reencontrar é colocar a alma para viajar como um carro antigo que volta às curvas de uma estrada conhecida, sem pressa.

A dádiva do reencontro fica mais clara, é claro, sobre as costas largas do tempo que se espreguiça, ainda que também seja possível reencontrar quem se vê todo dia. Reencontrar com a mesma doçura quem se viu antes dos sonhos, quem se reencontra na régua tórrida dos dias, no empilhar quase metódico das horas, quem a gente sempre tem à mão para dividir nossas banalidades mais simplórias. Penso até que amar é reencontrar alguém todo santo dia.

Reencontrar um olhar que descansa, um afago que toca, uma música que remete, um assunto que se continua após anos e anos como se só tivesse esperado a fervura do café. Alguém que traz consigo um tempo em que o tempo parecia ser mais distraído, alguém que nos devolve a firmeza da pele, a abundância dos cabelos, o aveludado da voz, alguém que nos devolve uma parte de nós que a gente nem sabia mais que existia. Reencontros deviam ser vendidos em potinhos: o melhor anti-idade que existe.

E devagarinho a gente nota que a beleza da vida também vive na fidelidade dos ciclos. Porque quem vai e nos deixa mais vagos, quem parte e nos reparte em gomos, quem constrói pontes de saudade que ligam um lugar a si mesmo, quem esmaece da retina e da rotina, mas a gente nunca esquece, também um dia volta. E nós, que até então éramos só um tantinho menores pela falta, nos tornamos imensos pela presença, abençoados pelo reencontrar. Ontem reencontrei meu amigo Glauber.

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Caio não queria parar. Dançava suspenso no ar. Naquela noite, haviam combinado de abandonar tudo, como o dia abandona a claridade para ser descanso, como as flores que abandonam as pontas dos dedos dos galhos para ser perdão, como quem abandona as próprias dores para ser descaso, para ser qualquer outra coisa que não dor. Naquela noite, Caio abandonou a si mesmo.

Caio não queria insistir. Meu poeta preferido girava como quem tenta misturar por dentro os ingredientes da própria alma, bagunçar a calma que assusta quando enche o peito da gente de silêncios. Como quem tenta dançar com o calor dos próprios ombros, Caio girava. E em volta de si tentava encontrar a si mesmo. Na demência do tempo, na ilusão dos erros, ao amanhecer de seus medos. Caio, meu amigo, há mais de dez anos, queria esquecer só naquela noite que seu tempo para tornar-se inesquecível estava acabando. A gente vive uma vida inteira para ser lembrado.

Caio não queria sumir. Costurar-se com as árvores preguiçosas das manhãs no parque, ou às luzes histéricas da máquina de músicas que embalava o último sozinho do bar. Caio não queria fenecer, diluir-se entre as curvas dos amores noturnos, confundir-se com os prédios tristes da Vieira de Carvalho. Na noite em que abandonamos tudo, em que suspendemos a nossa dor de existir como quem suspende um balão no ar, naquela noite nós não éramos ninguém, mas éramos tudo. Um para o outro.

Caio não queria chorar. Seu choro podia lavar sua alma e apagá-lo aos poucos, como azul das casas ralenta com as lágrimas do entrudo. Então chorei eu. Pelos sonhos que nos foram tirados quando medidos, quando acordados, quando vendidos, inclusive por nós mesmos. Mas hão de abrirem-se também em mim sorrisos. Se teu objetivo em vida é ser eterno, Caio, tenha-lo por cumprido. Quem já viveu na sombra calma do amor de alguém, não pode jamais ser esquecido.

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Abraça-me. Me abraça, que eu quero me encostar todo em teu mundo. Em teu peito, serei menino, com sua orelha pregada na parede tentando ouvir os segredos que moram dentro. Abraça-me e naquele minuto eterno eu serei só abraço. Abraço que não é substantivo direito, que é ação, mas não é verbo perfeito, que é a demora mais curta que se pode querer.

Aceita-me. Envoltos um pelo outro, abra-me e eu também te abrirei, como quem diz ‘sim’ com o corpo todo. Sim. Como quem aceita o outro inteiro e sem reparos. Aceita-me que eu também te aceito, deixa-te acalentar pelo meu respiro que sobe forte e desce devagarinho pra não te machucar. Aceita-me e depois encaixa tua volta à minha volta, como um laço.

Fica aqui, na ternura que sombreia o meu queixo quando você está sobre os meus ombros. Fica em mim pelo tempo que precisar, até a dor passar, até a saudade se distrair, até sua alegria me inundar, até quando não for preciso, abraço preventivo. Cala naquele instante meus zumbidos, minhas dúvidas, minha ânsia de me demorar bem pouco.

Abre-te e me abra também como quem ensina a voar, baixinho, curtinho, sem sair do entorno de si. Abraça-me, agraça-me e eu te abraçarei também por toda a vida que me restar para ser o abrigo do teu avesso. Abre-te. Abre teus braços e me acalma como uma baía acalenta um pedaço da fúria do mar.

Diego Engenho Novo


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Estávamos ali, quase vinte minutos sem dizer uma palavra, apenas observando a lagoa estendida à nossa frente, um cetim verde escuro esticado, dormente. Caramba! Três anos sem ver Rafaela – Isso deve até ser crime em algum país islâmico – brincou ao me abraçar com demora no Galeão. Nosso abraço nunca tinha pressa.

Três anos sem nossas conversas longas, sem seu olhar intrigado, sem seu cheiro de cigarro de palha misturado com sândalo. Rafa tinha aquele cheiro doce de manhã que eu adorava. A vida criara uma constelação entre nós, com vários sóis, estrelas e planetas maiores. E a gente ali, dois planetinhas que se gostavam, orbitando cada vez mais longe.

A gente se amava, muito, claro, ela era uma das minhas melhores amigas, mesmo que eu jamais tivesse dito isso. A gente não dizia por que achava que nunca ia precisar desse tipo de coisa. O nosso amor era tátil, físico, como uma terceira companhia. Se íamos jantar, havia um terceiro prato, se viajávamos juntos havia uma terceira cama no quarto, no cinema, comprávamos o assento do meio para ele, o amor. A gente nunca foi lá muito bom da cabeça. Nenhum dos três.

Estávamos sempre com um assunto novo na ponta da língua, um novo passeio a fazer sem precisar largar as taças banhadas de nosso vinho preferido. Era de um tipo seco, tinto, chileno, daqueles baratinhos que a gente costumava tomar nos tempos de faculdade. Por mais que a gente já pudesse tomar vinhos melhores em taças mais caras, beber aquele vinho era como voltar no tempo sem pagar pelo excesso de bagagem.

– A gente nunca disse que se amava – Rafa e sua mania de roubar meus pensamentos. Peguei uma folhinha seca ao lado, – Toma! Toda vez que você olhar pra ela vai se lembrar que a gente se ama – Expliquei – Nós somos livres como essa folha que, mesmo dispersa, jamais deixará de ser parte de uma árvore, ela sempre será parte de algo maior. Agora…se você segurá-la assim ó, consegue ver a dimensão do nosso sentimento – Nosso amor é do tamanho da folha? – encafifada. – Não, nosso amor é tudo que há em volta dela – dois planetinhas outra vez em silêncio.

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Maurício é meu amigo desde criança. Rodou o mundo, arrasou corações, nunca foi lá o melhor aluno, mas ficou rico rápido ao lado do pai no ramo imobiliário. Quando nos encontramos, mesmo após um ano inteiro de distância, nos sentimos retomando o assunto de ontem. Ele me dá uns tapas fortes sobre os ombros e diz que eu estou ficando careca. Toda santa vez.

– Você usa boné? Boné faz perder o cabelo – provoca. Tento responder que não, mas Maurício já está lá na frente, subindo a árvore dos três mundos. Nós vínhamos aqui sempre, quando crianças. Passávamos horas lá em cima, imaginando como seria o futuro, desenhando quem seríamos. Eu queria curar as pessoas, não ser médico, que nunca me dei com sangue. Eu queria curar o coração das pessoas -Psicologia? Isso não dá dinheiro – irritava o pequeno Maurício. Não era isso. Psicólogo conserta a cabeça das pessoas, ajeita as ideias soltas. Eu queria consertar corações. Corações quebradiços como o meu.

 – Lembra que você queria ser embaixador nos Estados Unidos? – sorri esticando a vista na direção do galho no qual ele se equilibrava – Hoje eu poderia comprar aquela joça – riu e depois parou – Você é feliz? – Maurício tinha dessas de fazer pergunta complicada. Respondi que às vezes me sentia feliz e que pela média geral de pequenas felicidades me considerava mais feliz do que vazio.

– O contrário de ‘feliz’ é ‘triste’, ô burro! – dessa vez foi o Maurício de doze anos quem disse. Mal sabia ele que o triste remoía algo, perdido ou não encontrado. O triste sentia falta, saudade, raiva encolhida. O vazio não tinha nada, nem alegria, nem tristeza o afetava. O vazio tinha um monte de coisas ocas, histórias ocas, memórias rasas. Existe coisa mais triste do que não ter do que se arrepender? Gente vazia jamais seria algo diferente do que a vida a desenhou pra ser.

O vazio não chorava mais, porque o choro é o transbordo do nosso dique cheio de sentimentos, bons ou ruins – Às vezes eu acho que eu não fui feliz – soltou com o pulso sombreando os olhos – Como não? Você ainda tem cabelo, Maurício! – arrancando uma risada alta dele. Olhei nos olhos grandes do meu velho amigo e percebi que ele não era nada vazio, muito pelo contrário, havia um lago inteiro ali. Cheio, bem cheio. Talvez, meu eu menino tivesse razão: ao menos um coração eu ajudei a consertar.

Diego Engenho Novo


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