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Houve um tempo em que eu chorava todas as noites. Houve um tempo em que eu pensava mais em você do que em mim. Houve um tempo em que meu medo me impedia de ir buscar o ar. Houve um tempo em que eu não via nada além da sua ira disfarçada de cuidado. Houve um tempo em que eu seguia seus passos como que desejando que você tropeçasse em mim. Houve um tempo em que eu te amei e nem mesmo me lembro direito o motivo.

Houve um tempo em que eu te desejava nos meus sonhos. Houve um tempo em que me sentia culpada por não sermos mais felizes. Houve um tempo em que eu fui infantil porque achei que seria a melhor forma de alcançar seus cuidados. Houve um tempo em que eu fui distante esperando que você notasse. Houve um tempo em que tudo o que eu fazia tinha sua aprovação como fim. Fim também disso.

Houve um tempo em que meus dedos te buscavam enquanto você dormia, esperando que algo no seu inconsciente ainda desejasse o calor de mim. Houve um tempo em que eu te pedia um beijo como quem pede que uma rosa brote num jardim infértil. Houve um tempo em que eu achei que a distância nos traria saudade, mas a volta das suas viagens só nos trazia mais distâncias.

Houve um tempo em que eu pensei que eu fosse o problema. Tentei mudar meu humor, meus modos, meu corpo, meus cabelos, mas nada parecia mudar à nossa volta. Em outro tempo pensei que podia mudar-te, num esforço tão eficiente quanto carregar a areia e a água do mar, ambas juntas entre os dedos.

Houve um tempo em que tudo isso me doeu e hoje já nem incomoda. Houve um tempo em que tive raiva, mas isso também não ficou. Hoje lhe guardo a candura e o cuidado de alguém que amei de todas as formas possíveis até entender que há um tipo de amor que não pede amor em troca. Hoje sou seu pai, sua mãe, sua filha, sua melhor amiga. Sou uma alma antiga que voltou sentindo saudade.

Diego Engenho Novo


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Isso não vai acabar bem…Esse empréstimo vai amarrar as suas pernas de um tal jeito que você não vai ter como fazer mais nada. Vê o que eu tô te dizendo – falou a mulher de cabelos tingidos de vermelho, abraçada à bolsa na fila do consultório. Primeiro pensei que ela tinha toda a razão. Depois me senti invadido. Minhas finanças expostas ali na espera do dentista. Só então me toquei que eu não tinha feito empréstimo nenhum. Aquela mulher, sentada à minha frente, não estava falando comigo. Estava era falando sozinha.

Doidinha toda, comentei comigo, passando o paninho no vitral do meu teto. E quem é você, mocinho, pra chamar a mulher de doida? Você tem conversas homéricas sozinho. Opa, opa, opa! Respeito é bom e todo mundo gosta. Sozinho não, comigo. Você tem conversas e mais conversas comigo – ajeitou a pessoinha que mora por dentro. E depois que foi morar no centro antigo, onde o barulho dos carros, das ambulâncias e dos assoalhos de madeira rangendo, ofendem os silêncios, só fez ficar pior. Ou melhor nisso – diagnosticou.

Quando moleque não tinha lá muita paciência pra ladainha curta dos outros miúdos. Correr, esconder, atirar, salvar o mundo com os meninos da rua, vá lá, era até divertido. Mas salvar meu mundo interior constantemente explodindo era uma tarefa solitária, como é a guerra diária de todo herói de gibi. Por falar em guerra, há dias em que a cabeça faz bico e fica de mal do coração, pobrecito. Quando é o coração que vira as costas e deixa o juízo falando sozinho, eu logo sei: ali na frente só mesmo as noites insones pra colocarem alguma ordem na gente.

Tem gente que tem medo. E eu entendo bem isso. Não dá pra exigir elegância da pessoinha que mora por dentro. Desbocada, ela não mede as palavras, canceriana com ascendência em escorpião, Narcisa Tamborindeguy na percussão. Essa figurinha se torna facilmente um metralhadora de realidades, sincericida inveterada, alma desalmada que fala por dentro. Ela está sempre pronta pra revelar toda a sua verdade, seja no programa mais polêmico da tarde, na espera do dentista, no desvio de um olhar. Melhor conversar, melhor passar por doido que enlouquecer. Melhor falar, cada vez que você fala consigo, tem uma chance a mais de verdadeiramente se escutar.

Diego Engenho Novo


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Clarice conheceu um cara. Embora outras centenas de histórias comecem e terminem assim, esta era diferente. Aquele novo homem; inteligente, educado, desencanado, tinha idade para ser seu pai. Mas felizmente não o era. Não, ele não tinha lá grandes atributos. Não era desses quarentões geração saúde, tinha mais aquele ar do Fagundes, sabe?
 
Esse homem já tinha ultrapassado a barreira dos cinquenta e observava Clarice lá do outro lado da linha da vida, convidando-a com os olhos, calmamente. Não era alto, nem tinha força nas pernas direito, andava lerdo, como quem passeia. Não se pode dizer que era feio, porque a feiura chama atenção. Pior que ser feio é ser comum.
 

Clarice percebia isso e internamente se corrigia: “Seremos bons amigos”. Mentira tão deslavada como a da criança incendiária que é pega com os fósforos na mão e ainda assim nega. A fogueira já estava alta, as chamas comiam as paredes, as cortinas, o sofá. Aquele fogo engolia o coração de Clarice e ela preferia negar.

Quem é que pode explicar o tesão que você sente pelo jeito como ele te conta histórias, o desejo quase físico de ouvir ele falar sobre pessoas que você não conheceu, dos livros que ele já leu, dos filmes que ele adorou e adoraria te emprestar? Se ele lia pessoas e páginas tão bem, talvez pudesse te ler também. Talvez ele possa finalmente te ajudar a descobrir quem você é.

Clarice não queria alguém que a estimulasse gemer, mas falar. Clarice queria conversar. Não na fila do Burger King, não enquanto esperava a conta do motel, não no bar da boate. Boates são projetadas para quem não tem o que dizer ou não quer escutar. Aquele homem ouvia, digeria, levantava a bola para Clarice marcar. Não havia pressa, ele não estava a aguentando tagarelar, não estava louco para que ela terminasse para poder voltar para a corrida de carros na TV. Aquele cara queria assistir Clarice, como um especial de Natal.

Quem é que vai nos dizer de onde vem o tesão pelo volume que não vem da calça, que não cresce do bolso, que não estoura as mangas da camiseta em músculos? Quem é que vai entender, como é você foi capaz de trocar o fofo do Daniel pelo cosplay do avô dele? Relação boa não é a que os outros entendem, é aquela em que vocês se entendem e pronto. “Tesão de alma”, definiu Clarice, a incendiária. 

Diego Engenho Novo


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