Sétimo

Sétimo

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Manu observava o contorno desfeito das unhas dos pés. O pijama estampado entregava. O cabelo desgrenhado confessava. Nenhum dos setenta e tantos canais da TV a cabo podiam negar: ela precisava de companhia.  Não para aquela noite, mas para a vida.

Alguém que não viesse só pelo sexo, alguém que também desse cobertura nos dias desinteressantes, também disponível nos sábados à noite e domingos à tarde. Alguém com quem pudesse dividir a mesa em um restaurante caro ou um miojo, quando a preguiça fosse maior que o tesão por comer.

Manu queria um namorado e, logo depois, uma manicure. Ambos que não a machucassem, ambos que a ouvissem, ambos que não custassem caro, ambos com algum tempo para dedicar a ela. Era tarde para sair de casa, então decidiu experimentar algo extremo, um site de namoros. Constrangida, começou a preencher o formulário. “Como você imagina o parceiro perfeito?”. Manu observava o cursor piscar na tela como um navio que se afasta. Não era desespero, nem falta de critério, Manu só estava cansada. Cansada de escolhas erradas.

Inspirou-se então em algo que aprendera com o Sexto, que além de ex-namorado, era também advogado. Uma cliente, moça de família tradicional mineira, havia se apaixonado por um famoso ladrão de bancos – Como você pode se apaixonar por um homem tão errado? – ela enxugou as bochechas e sentenciou – Nós somos iguais. Ele não me julga, nem compete comigo. Ele não quer ser melhor, nem pior, só quer ser meu – Sexto, não entendeu aquela baboseira, mas foi justamente essa frase que fez com que Manu o deixasse.

“Como eu imagino o par perfeito? Eu não quero promessas que não possam ser cumpridas. Eu não desejo sacrifícios, nem mudanças de rota. Não preciso que você me encante com sonhos, nem que me diga que tudo vai ficar bem, se nem mesmo você sabe. Não preciso que você me lave o peito, nem que me enxugue os olhos. Não precisa me jurar honra, nem lealdade, nem eternidade. Eu entenderia suas mentiras, eu entenderia seus erros, eu abraçaria seus diabos, eu o esconderia da Justiça. Porque você nunca me disse que era santo, nunca julgou meus atos. Você só disse que eu era a pessoa certa para o seu jeito todo errado”, finalizando, Manu, seu cadastro tímido e o retoque das unhas. Sete era seu número da sorte.

Diego Engenho Novo

 


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