Saúde

Saúde

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Não há uma forma menos banal de começar essa conversa, perdão. Então, hoje eu espirrei na rua. E um moço jovem acompanhado da mulher soltou um solene “Saúde!” ao passar por mim. Primeiro achei inusitado. Traços de gentileza e afeto gratuito saltam aos olhos na dureza concreta de São Paulo. Mas o que me tocou mesmo foi pra onde aquela benção de um desconhecido me levou. De volta pra casa.

Lembrei de todas as vezes que a minha mãe parou tudo o que estava fazendo, me olhou e desejou saúde após meu espirrinho mirrado de moleque. Ela fazia isso e depois ficava mais uns segundos me olhando docemente, semi-sorrindo, me amando em silêncio. Esse moço da rua me levou de volta pra esse olhar que eu havia perdido. Me lembrou que durante muito tempo eu também desejei saúde para desconhecidos. Era hábito. Desejar algo bom pros outros era automático. Pensa na beleza disso nisso. Porque raios eu parei de dizer?

Lembrei também das manhãs tardias de domingo antes do almoço em que minha vó se sentava no sofá, me botava num banquinho na frente e ficava me ensinando a pedir a benção. Repetia, repetia e repetia fingindo seriedade didática. Mas logo caía na risada quando eu dizia “Deus te abençoe, vó” no lugar de pedir a benção dela. Demorei pra entender, mas não importava. Esse moço desconhecido me levou de volta praquele domingo e para o poder forte e mágico da prece e do amor ancestral.

A vida vai mudando nosso jeito de se portar, dando novos significados pras nossas tradições, a gente deixa de acreditar numa coisas e embarca noutras. Normal. Mas quem sabe vez ou outra a gente não possa sorrateiramente voltar pro lugar que enche a gente de calor, afeto e amor em conserva? Tudo continua lá, do jeitinho que a sua saudade deixou. A gente precisa fazer isso por nós, salvar nossas lembranças tirando-as de vez em quando da caixinha de guardados e botando elas pra acontecer. Pelo simples fato de fazer.

Passar o café do jeito que se passava na infância, escutar a música que lembra um dia banal de vinte anos atrás e a casa cheia, desejar o melhor para um desconhecido de graça, murmurar a reza que seus pais te ensinaram antes de dormir. Nosso afeto também enferruja, nossas memórias também perdem significância. Não deixa! Na busca de sermos melhores e mais sérios a gente vai se empobrecendo. Ao moço desconhecido, eu disse e repito: obrigado! Eu realmente me sinto bem melhor agora.

Diego Engenho Novo

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