Prólogo

Prólogo

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Sorria. Sorria quando deu de cara com Doralice, a vizinha intrigueira no portão voltando da padaria. Sorriu para o gato que não se importava, preguiçoso na mureta . Sorriu para o chaveiro careca que sorriu de volta sem tirar a atenção completamente do rádio, nem da dobra miuda da chave. Sorriu para a perua e seu cachorro entojado. Atravessou a rua e sorriu para a fileira de carros, sorriu para a jornaleira desbocada e também para o frentista de peruca.

Deu sorriso ainda maior para  a doida das gravatas que amaldiçoava do alto do banco da praça. Sorriu para três freiras, dois pedreiros e um executivo apressado que nem viu o sorriso mas o recebeu.

Descendo a ladeira, sorriu para o locutor da porta da loja, para o turco corintiano e sua mulher. Havia também sorriso para a atendente da lanchonete do chinês e para o taxista que aparava o bigode no espelhinho. Hoje ele não negou o panfletinho de empréstimo consignado. Recebeu, agradeceu e também sorriu para a velha com legging de oncinha.

Sorriu para o hippie, para os nigerianos que ofereciam relógios e para a loira que vendia agasalhos naquele dia de sol. Sorriu para a cigana Daiana e seus dentes de ouro. Passou pelos rapazes que se beijavam sem pressa na esquina. Mas eles já estavam sorrindo antes mesmo dele chegar também com o seu. Sorriu para a mulher que brigava ao telefone com o namorado e para a solitária que comprava um livro na máquina.

Sorriu para o fortão com espinhas nos ombros, para a garota de óculos grandes, sorriu para o vagão inteiro do metrô, mas quase ninguém percebeu. Sorriu para a velhinha distraída plantada do lado errado da escada rolante. Sorriu para o policial, para o maconheiro e acenou para a prostituta de piercing no umbigo.

Não era primeiro dia de trabalho, nem de aula. Não tinha recebido férias, aumento ou carta de longe. Não tinha ganhado nada, achado nada, não tinha perdido a vergonha. Aquela ondinha boba virada, aquele “sim” desenhado no rosto, aquela vírgula dos lábios, aquele sorriso instalado eram mesmo o princípio, um prólogo do amor.

Diego Engenho Novo


 

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