Por Um Fio

Por Um Fio

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Foto: Laura Doss/Corbis

Mavel havia perdido um dente quando saiu no braço com outra travesti. Se recusava a corrigir a falha dentária por que adorava contar que brigou até perder um canino e amava a utilidade daquele espaço para segurar seu cigarro. Aquela garota tinha seu próprio porta-cigarros – Você já se ligou a alguém aqui na cidade?  perguntou-me em espanhol com sua voz rouca.

Eu só conseguia olhar para a engenhosidade do tabaco flutuando entre seus dentes e imaginar quantos outros objetos, ela conseguiria prender exatamente ali – Me ligar? No compreendo, Mavel – arrastei. Sorrindo, sem deixar cair o trago, me explicou que se ligar é conhecer alguém, se aproximar, beijar, ficar, se ligar e pronto! Simples assim. Espanhóis não “ficam”, espanhóis se ligam a pessoas e depois desligam-se. Ou ao menos é isso que se imagina.

Quem dera mesmo que a gente pudesse se desligar da mesma forma que se liga. Se ligar é encostar a sua vida em outra vida, bem pertinho mesmo. Um perigo danado! Não importa se você acha que encontrou o pai dos seus filhos ou inventou um nome falso para que ela não te procure depois do orgasmo: você se ligou, se conectou.

Imagine que você saiu do quarto na ponta dos pés, tentando descobrir a saída. “Tentando descobrir”, porque não se lembra como entrou, nem que gosto tinha aquele beijo, mas o cenário não mente: aquele homem desmaiado na cama é culpa sua e em breve, você também será parte da culpa dele.

E na ponta dos pés você tenta não despertar-lo, não acordar o constrangimento. Mas observe que um fiozinho, quase invisível, vem preso à sua perna. Ele segue pelo corredor, até o quarto de onde você foge agora, até o homem que parecia mais bonito sob efeito da tequila, vocês estão ligados, por um fio.

E a gente não os enxerga, mas carrega dezenas deles. Centenas, coloridos. Alguns cor de culpa, outros de saudade, outros orgulho e depois vergonha. Tem fios mais grossos por onde achamos o caminho de volta e outros que preferimos esquecer, mas eles estão e sempre estarão lá. E não estamos falando somente de sexo. A gente se liga ao padeiro quando sorri pra ele; ao religioso madrugador quando batemos a porta na cara dele; ao motorista do carro ao lado quando o chamamos (com toda a razão) de barbeiro. Viver é se conectar, no sentido mais arcaico do termo.

A gente se ligou e nem percebeu, aos amigos do antigo colégio, à nova pessoa aceita na sua rede social, ao atendente de telemarketing com voz tristonha. Para todo o sempre e sempre. A gente nem percebeu, quando entrou na vida de alguém e veio puxando a fitinha do sentimento pela calçada. Talvez para você, somente outro enfeite, mas quem ficou na outra ponta do nó prefere chamar de laço, prefere crer em um encontro mais forte na linha da vida, em um trançado bonito que o tempo não desfaz.

Diego Engenho Novo

 


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