Ouvidos Moucos

Ouvidos Moucos

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Closeup on a young woman's feet and legs as she is trekking in the mountains

A trilha do Pai Zé se estirava à minha frente. Íngreme, dura, mas de fato, linda. À volta o som da mata e de minha falta de ar. Pouco adiante, duas mulheres na faixa dos sessenta anos, seguiam devagarinho com seus bastões de caminhada supermodernos e aqueles chapéus engraçados com proteção solar.

Em certo momento, um grupo de adolescentes, uns oito, descia a trilha na direção oposta voltando do pico. Falavam alto, riam e, ao cruzarem as duas senhoras, soltaram frases como – Ish, nesse pique, chega não – Firma o passo aí que tá longe ainda e a pior parte da trilha nem chegou – Boa sorte, vocês vão precisar. Banho de água fria. Eu murchei na hora.

O que gente assim ganha fazendo esse tipo de coisa? Sempre me pergunto isso. Que prazer estranho é esse de desmotivar os outros, de projetar suas frustrações no caminho alheio? Eles se sentiram um pouco melhores ao nos deixar piores? Baixa autoestima? Eu estava tão irritado que só não disse umas verdades pra eles porque simplesmente não tinha fôlego pra falar. Que bom que não tive.

Mas eu ainda podia ouvir, e ouvi docemente uma das senhoras perguntando à outra em inglês se ela tinha entendido o que os garotos estavam tentando dizer. Sua amiga, tão gringa quanto, concluiu que, como o grupo estava sorrindo pra elas, deviam estar avisando – Logo ali, depois da curva! – Vocês estão chegando, coragem! – E sorriram também uma pra outra, concordando que a trilha provavelmente estava chegando ao fim. Minutos depois, ao topo, reencontrei as duas, emocionadas por terem conseguido chegar.

Será esse o segredo? Simplesmente não ouvir? Que meus ouvidos se fechem para a maldade gratuita, o desejo inoportuno, o vampirismo inconsciente, o mal querer por tantas vezes ciente das pessoas que cruzam. Que enquanto seus lábios me dizem para parar, eu entenda ‘seguir’, e de fato siga, duas vezes mais forte. Que quando aqueles, que mal tentaram, me disserem que também não conseguirei, eu só escute o som do meu peito, bravo e inabalável, afirmando que para mim aquele caminho é possível. Ouvidos moucos, essa é a receita dos que chegam ao topo da trilha da vida. 

Diego Engenho Novo


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