O Que Todos Meus Nãos Me Ensinaram

O Que Todos Meus Nãos Me Ensinaram

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Eu devia ter uns doze anos quando meu pai me contou que ia me levar parar viajar com ele de caminhão. Com minha mochila miúda, seguimos os dois em direção a Belém. A estrada linda, de cílios verdes alongados ia me saudando e se despedindo em um movimento só, através da janela. Eu adorava ficar ouvindo as histórias engraçadas do meu pai enquanto sentia o vento gelado da noite ou quente da tarde no meu rosto.

Em certa altura da viagem, em uma cidadezinha encoberta pela poeira da estrada, vi uma fila de garotos, cada um com uma pá, lata, enxada, qualquer objeto que lhe valesse para carregar terra. Os buracos da estrada iam pipocando e, para cada um, havia um garoto de prontidão. Eles enchiam o buraco de terra e quando o caminhão se aproximava estendiam a mão, pedindo uma moeda por terem consertado a ferida que eles mesmos haviam feito.

Meu pai disse não para o primeiro. Negou o segundo. Balançou com a cabeça pro terceiro. E foi dizendo não, para aquela fila infinita de garotos cobertos de poeira. Foi aí que ri, ingênuo, quase maldoso e lancei – Que burros. Porque eles continuam pedindo se viram que você já disse não pros primeiros, pai? – Meu pai freou o caminhão e, ao contrário do que pensei, não brigou comigo. Papai sorriu, doce. Abriu a janela e deu algumas moedas para um dos últimos meninos da fila – Cada menino continua insistindo porque não foi pra ele que disseram não, filho – ajeitando meu cabelo suado.

Levei isso comigo por uma vida inteira. Para as portas mais impossíveis, para os degraus mais inalcançáveis, para as derrotas mais temíveis, guardei comigo, que até me dissessem não, nada me haviam negado. Para os medos mais irracionais, para as inseguranças mais solitárias, para os caminhos inférteis em que tantos já haviam falhado, segui. Estirando meu peito aberto às possibilidades, estirando minha mão grata pela tentativa. E após muitos nãos, após quase todos os nãos, veio-me o sim. Veio da mesma porta que para tantos já havia se fechado antes. Mas não para mim.

Diego Engenho Novo


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