O Pai do Jackie Chan

O Pai do Jackie Chan

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Tive na vida um presente de que poucos podem se gabar: fui ao casamento dos meus pais. E não estou fazendo metáforas sobre espermatozoides, à la Augusto Cury. Eu estava mesmo no grande dia deles, em carne e osso. Essa é uma das primeiras lembranças que tenho de vida. Eu tinha quatro anos e ostentava um galo imenso na testa, fruto do sacolejo da Kombi que meu pai guiava apressadamente para o cartório.

Papai nunca bateu na gente, nem de cinto, nem de chinelo. Mas também não precisava; a combinação pai grande e desengonçado com filho gordinho e cabeçudo sempre rendeu hematomas naturais. Era papai derrubando, prendendo o dedo, prensando no sofá e chorando junto com a gente. Doía mais nele, eu sei, mas ser criado pelo Jigsaw parecia ser mais seguro na época.

Hoje damos risada, mas no dia que meu pai me colocou em cima da bicicleta e empurrou ladeira abaixo gritando – Pedala e equilibra! – não pareceu tão engraçado. E ele repetiu esse ritual da águia várias outras vezes – Braçadas e pernadas! Braçadas e pernadas! – ou daquela vez – Relaxa! O cavalo só fica nervoso se você também ficar! – ou então – Passa a marcha! A marcha, filho! O freio, filho! Freia! –  meu velho tinha de ter sido pai do Jackie Chan.

Eu me sentia crescendo no Brooklin. Quando um ladrão levou meu relógio novinho, da escola pra casa, meu pai soltou – E você deixou o cara te assaltar? – anos mais tarde, fui atacado por três cachorros – E você deixou eles te atacarem?. Pode parecer maluquice, mas acho que de alguma forma papai me ensinou a não me vitimizar. Entendi que o que nos acontece na vida, de bom ou de ruim, parte de nós. Não terceirizemos a culpa, amém?

Eu poderia ter seguido direto para os divãs da vida, mas não carrego trauma nenhum do papai. Ele é o meu herói desengonçado, meu grandão admirável. Era uma criança criando outra com o melhor que seus vinte e poucos anos haviam lhe dado. E ele se tornou um grande homem, atencioso, generoso, honrado e especialista em primeiros socorros. Está sempre comigo, me estimulando a saltar sem medo, voar sem culpa e sem culpar pelos tombos que colho.

Diego Engenho Novo


 

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