Cartas dos Leitores: O Mar de Sofia

Cartas dos Leitores: O Mar de Sofia

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Olá, Diego. Leio suas crônicas e assim como tantos outros leitores, também sou apaixonada por você, por suas palavras. Sei que já deve ter recebido várias cartas de desabafo e a minha será mais uma. Sinto-me próxima de você, daquelas amizades mais profundas. Namorei quase dois anos com um homem mais velho e com ele realizei todas as minhas fantasias românticas: tomamos banho na chuva, ele me surpreendia todos os dias, cuidava de mim como ninguém, me dava a atenção que eu nunca recebi. Obviamente, existiam coisas ruins, mas pra mim, as brigas não pesavam mais do que as coisas boas. Todavia pra ele foi acabando e hoje ele já não gosta mais. Partiu sem dizer um adeus digno, partiu levando uma parte de mim. Ahhhh, Diego, como fazer morrer quem ainda está vivo dentro de mim? Gostaria de escutar suas palavras. Já escutei muitos conselhos, para seguir, para me amar, para deixar de sofrer, para sofrer e depois superar. Mas nesse momento, gostaria de escutar você que tanto me toca com suas palavras. Abraços, Diego. (Sofia – Palmas-TO)


Oi Sofia, que bom que você se sente tão próxima a mim, quanto eu me sinto de você agora que também estou te lendo. Que bom que você tem consciência do quão foi feliz ao lado dele. Muita gente passa a vida procurando por sentimentos e formas de relacionamento tão distantes e humanamente inviáveis que simplesmente não percebem que viveram sim grandes histórias, para as quais não estavam totalmente presentes. O amor, que andaram procurando a vida inteira, bateu à porta e elas nem notaram. Como é bom poder fechar os olhos e respirar baixinho: eu fui muito amada e eu sei disso, eu reconheço isso.

Eu já escrevi muito sobre términos, sobre recomeçar, sobre juntar os próprios pedaços após a explosão, na hora mais dura, quando um silêncio quase palpável se estabelece em nós. O que dá pra fazer? Poxa, faça o que dá pra ser feito. Todas essas fórmulas seguem o mesmo preceito: não há o que fazer a não ser sobreviver a isso. Pense comigo: se você está no mar escuro e turbulento após um naufrágio, o que você faz? Faz o que dá. Mantém a cabeça pra fora da água, busca algo pra se apoiar, boia, nada, sobrevive. Pense no sentido dessa palavra: se manter sobre a vida, apoiada nela, acima das necessidades básicas. Respire fundo e escute seu próprio instinto, é ele quem joga a boia.

Eu sinto ter que te dizer que certas pessoas se misturam em nossa alma, como um rio que se deixa engolir pelo mar aberto. Certas pessoas jamais partem, mesmo que você as mande embora. Certas pessoas jamais morrem ou deixam nosso coração, talvez porque em outros tempos a gente tenha justamente pedido isso, com toda força. A boa notícia é que essas pessoas podem ser realocadas. Elas adormecem num cantinho especial, são guardadas juntas com suas lembranças, seus vestígios, dentro da gente. Então, Sofia, não gaste tanta energia tentando mata-lo ou esquece-lo, mas tentando acomodá-lo onde melhor lhe couber. Por um lado, pensar que ele jamais vai embora pode parecer doloroso, mas tira um peso enorme das costas.

Seja forte, seja grata, você foi muito amada e será ainda mais. Consegue enxergar? Lá na covinha do sorrido do mar? Terra à vista, Sofia. Terra à vista. Beijo enorme, Diego.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

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