O Livro dos Sentidos

O Livro dos Sentidos

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Natan andava cheio de perguntas engraçadas. Não, ele não queria saber de onde vinham os bebês ou a chuva. Quem me dera. Ele não queria saber exatamente o significado das coisas, mas seu sentido. Queria saber de onde que a gente tirava a preguiça, por exemplo – Você tá me achando com cara de dicionário, é isso, mocinho? – perguntei dando risada – e ele perguntou o que era um dicionário – e eu me sentei porque entendi que aquilo ia demorar.

Dicionário é um livro onde todas as respostas brincam de pique esconde – respondi achando que tinha me safado. E ele, dos mais empolgados perguntou se a gente podia fazer um dicionário também. Veja você, nem mesmo passou pela cabeça dele a possível existência de algumas dezenas de dicionários iguaizinhos para todas as pessoas que falam a nossa língua. Pro meu filho, cada pessoa merece suas próprias respostas, cada um devia escrever seu próprio livro dos sentidos. Céus, e como eu concordo com ele.

Compramos um caderno de capa dura azul, que é a cor preferida dele. E fomos anotando as respostas que o Natan encontrava. A ele, cabia a difícil curadoria do material e, claro, ilustrações para facilitar a compreensão dos sentidos das coisas. Eis alguns dos significados que encontramos juntos, após algumas semanas de pesquisa e rigor científico. Sonho é quando as nuvens ficam lá de cima imaginando com o quê que a gente parece. Há também um subtópico porque Natan achou interessante a expressão “sonhar acordado”. Chegamos ao acordo de que sonhar acordado é rezar baixinho.

Medo é um cubinho de gelo derretendo em cima do nosso umbigo. Vai passando, sumindo, até virar nada aguado do nada que sempre foi. Dessa ele acha muita graça. Orgulho é o último bolinho que ninguém quer pegar para não sentir vergonha. (Sugerimos como alternativa que todos os bolinhos sejam comidos repartindo-se meio a meio. Assim, dividindo tudo, vontades e vergoinhas, a ninguém jamais recairia a necessidade do tal do orgulho).

Beijo são duas pessoas que precisam ficar trocando ar para sobreviver. Essa eu juro que não sei de onde ele tirou. Saudade é quando amanhã não tem aula e demora amanhecer. Generosidade é quando a gente finge que tem algo na mão, mostra pro Farelo – nosso cachorro – e ele vem buscar, mesmo sabendo desde o princípio que não tinha nada lá. Ele pensa – Eles acham que tem algo ali. Achar isso deve ser importante pra eles. Vou pegar.

Amor é ver o DVD que ele mais gosta todos os dias, umas três vezes. Perguntei um dia se ele não se cansava de ouvir sempre as mesmas músicas com os mesmos bichinhos e ele respondeu – Eu fico feliz. Não cansa – não satisfeito insisti – E de ver as mesmas coisas, você não cansa? – parou um tempo e apontou pra tela em que tinha uma girafa dançando – Tá vendo essa manchinha aqui no pescoço dela? Essa eu não tinha visto ainda – Em outras palavras, ele me ensinou que amar é muito mais sentir do que encontrar sentido e bem, bem mais, olhar com novos olhos para o que tem nos preenchido do que buscar cegamente por novidades vazias. Seguimos juntos descobrindo novos sentidos.

Diego Engenho Novo (e Natan)


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