O Cachorro Que Caiu da Mudança

O Cachorro Que Caiu da Mudança

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Lembro-me que um dos maiores constrangimentos da minha infância, era o momento de passar pela catraca ao entrar no ônibus com meus pais. Como tinha o “benefício” de não pagar passagem, era obrigado a passar por baixo ou pular a catraca. Eu, obviamente, sempre exibi as formas saudáveis de um garoto bem alimentado, dono de um palato sem preconceitos, após anos tomando Biotônico Fontoura com ovo de pato. Tragédia.

Mas então, quando fiz meus sete anos, para a tristeza dos meus pais e vitória da minha moral, começaram a cobrar minha passagem e eu pude exercer meu digno direito de girar a catraca. Dono todo de mim! E lá estou eu, orgulhoso, tão vitorioso, com o pescoço mais em pé que professora de primário vigiando prova. Olhando pela janela, sob minha nova perspectiva de macho alfa, eis que vejo a vida encenar uma cena quase tão dramática quanto o episódio do Chaves em que todos seguem para Acapulco e o pobre coitado fica. Pela janela eu vi um cachorrinho que ia em cima da mudança em uma caminhonete. Caiu! O cachorro caiu da mudança!

Todos fizeram um “Uhh!”. Até o monossilábico motorista soltou um – Meu Deus! Acreditem se quiser: o cachorrinho caiu, levantou e saiu abanando o rabo, todo contente. Lembrei na hora de uma frase que minha avó sempre dizia – Triste como um cachorro que caiu da mudança – Mas ele, o pixurrinho, não estava nada triste. Certamente planejou aquilo tudo, friamente. Esperou por meses, anos, até os ardilosos donos se mudarem, para que ele, na surdina da mudança, pudesse cair, ou melhor, saltar!

Nunca me esqueci da cena, e hoje penso se a vida também não anda nos empilhando junto com as suas quinquilharias. Se a vida também não anda nos levado e nós nos deixando levar pelas vontades de outros. E eu, com o título há tempos conquistado de dono de mim, andei me dando e me deixando levar longe de mais. Saltemos nós da mudança, com um duplo carpado, um sorriso ficado no meio do rosto, sombreando o medo do enfrentamento do desconhecido. Aquele cachorro, pensava eu descendo da condução, pode ter morrido de fome ou encontrado vida melhor, mas em qualquer das direções, foi ele quem escolheu seu caminho.

Diego Engenho Novo


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