Na Multidão

Na Multidão

0 2278
Deu match. Foi assim que começaram a conversar. Como se o destino soubesse programar encontros. Era véspera do Dia do Namorados e, embora ambos não ligassem muito pra esse lance de datas, decidiram sair para tomar alguma coisa. Dois desconhecidos, apartando um pedacinho da solidão um do outro. Parecia funcionar após alguns minutos – Queria te propor algo meio doido – coisa que ele adorou ouvir – Quer namorar comigo? Quer dizer…. Não pra sempre, só por vinte e quatro horas e depois cada um segue como chegou -Aceitou. Parecia divertido tentar algo novo.
 
Naquele dia, não fizeram nada especificamente para agradar o outro. Apesar do combinado, limitaram-se a serem divertidos para si mesmos. Cientes que provavelmente não se veriam mais, conversaram sobre todos os assuntos absurdos preferidos, sem restrições, com direito a todos os palavrões que só apareciam quando convidados pelas quinas das mesas. Gesticulavam sem elegância, riam sem pudor, comeram e repetiram. Uma vergonha. Um não precisava conquistar o outro e foi aí que tudo deu errado.
 
Em poucas horas, aquele cheiro também tinha gosto. Aquele beijo já despejava lembranças. Aquele abraço já se abria com certa dificuldade. Um não queria se perder do outro. Gostava do jeito debochado dela. Amava o humor ácido dele. Queria aquela fome desesperada em seus cafés da manhã. Queria aproveitá-lo como se jamais fosse ter tempo para machucá-lo, decepcioná-lo, parti-lo ao meio.
 
Dormiram juntos, sem necessidades tesas. Apenas ficaram ali por um tempo, amortecidos pela preguiça do outros. Às vezes um pé encontrava o outro pé, às vezes um braço se jogava envolvendo as costelas. Era estranho ir para a cama com um desconhecido e sentir um dos maiores prazeres que existem na vida: a falta de pressa. Doeu por dois segundos saber que iria perde-lo, sem tê-lo. Suspirou ao se imaginar da porta pra fora sem o pendurar-se dela em suas costas.
 
Amanheceram como se fosse domingo, beijaram-se como se fosse o primeiro dia em um país distante, e, puxando-a pelo braço, levou-a até sua última parada, na última hora em que seriam namorados. Mostrou seu lugar alto preferido, de onde se via as antenas da cidade, os ônibus enfileirados, a solidão das janelas. Deram seu último beijo e, sem ela, desceu sozinho, voltou a ser multidão.
 
 
Diego Engenho Novo


● Curta a minha página no Facebook:
● Quer comprar meu livro “Amar, Modo de Usar”?
Saiba mais detalhes aqui: http://goo.gl/BgKiMd

SIMILAR ARTICLES

0 418

0 858