Irmãozão

Irmãozão

0 698

Quando a grande luz abaixou por trás da montanha serena, ele foi uma das primeiras coisas que eu vi. Tava ali curioso, ensaiando pra me cumprimentar. Pessoinha intrigante, o gigante pequeno. Vinha de tempos em tempos, meio desconfiado, tentando me entender com os olhos. Parecia justa a curiosidade. Eu era a novidade que eles gostavam de chamar de – o bebê. Pouco imponente, eu sei, mas todos os gigantes atrás da montanha serena respeitavam – Lá vem o bebê! – abriam caminho.

Ao contrário dos outros, ele era silencioso como uma nuvem a passeio. Minha paz no meio de tantos zumbidos, miados, fungadas, que era o que soava enquanto eu passava de mão em mão, como um prêmio. Sobrevivi também a isso. Descobri cedo que se eu ficasse com os olhos bem abertos e estatelados, eles simplesmente param. Entenda isso – gigantes adoram atenção.

Às vezes me deixavam tomando conta dele, do pequeno, e claro, eu vigiava. Entre uma soneca e outra, entre uma fome e outra, eu me certificava de que ele estava ali se também à minha existência. Falávamos sobre um monte de coisas que não me tinham sentido, mas eu gostava do som pausado da fala dele.

No dia em que ele apareceu sem o sorriso das bochechas, eu não pensei duas vezes: tirei minha chupeta e quis emprestar. Orgulhoso que era, não aceitou. Ficamos ali em silêncio, acompanhando a pausa do outro. Ele não era lá muito forte, mas, ainda assim, tentava me dar apoio pra que eu enxergasse o mundo inteiro além da montanha serena. Era sempre um rápido e incrível passeio. Ele me foi companhia, foi o alcance do meu braço, ele era o pequeno gigante que também me tornava maior. Hoje, acredite você – eu me tornei um gigante bem maior do que ele. À montanha serena nós damos o nome de mãe.

Para meu irmão Marcos,

que sempre me viu bem maior do que eu era.

SIMILAR ARTICLES

0 327

0 777