Infinito

Infinito

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“Mãe, o que tem depois da estrela, lá atrás?”. “Lá atrás, filho, mora o infinito”. E eu fiquei ali, olhando, tentando manter meu pensamento indo, indo e indo. O máximo que podia. Eu queria medir, eu queria alcançar a distância entre o começo e o fim do que jamais termina.

Apertava os olhos, tentava contar, me imaginava viajando entre as estrelas, que geravam estrelas, que recebiam estrelas, que passeavam estrelas, que passavam, que cuspiam novas estrelinhas menores, que brotavam estrelas maiores, sem fim. Mas o infinito sempre acabava.

Eu queria tocá-lo, eu queria entendê-lo. Se eu, que era um dos maiores garotos de oito anos da rua, começava na ponta do cabelo e terminava de algum jeito em todas as direções, também tinha que terminar o breu do céu, o quintal das estrelas. O céu era o menino mais alto da rua. Se o infinito começa de algum lugar, também deságua em outro. Tudo tem que acabar, nem que seja nas voltas de si mesmo.

Ninguém poderia desenhar por toda a vida, por dias e noites, sem repetir o traço, sem adormecer sobre o esboço. Um dia, eu sabia, o tempo teria ficado cansado e simplesmente parado. Fim do infinito. Um dia, o tempo teria parado de tecer, arrematado as bordas e dobrado em quatro partes. É isso, está lá em algum lugar, a rua sem saída das estrelas. A beirada dos sentidos, a ribanceira do esquecimento, as margens do infinito, a minha resposta.

“Isso não está certo, mãe”, injuriei. “O que não está certo, filho?”, me olhou enquanto eu apertava os olhos entre as estrelas. “O infinito não ter fim. Não pode ser. As coisas que não acabam não tem graça de nada. Imagina um dia de escola infinito, um filme infinito, um sorvete infinito. As coisas só têm graça quando a gente sabe que elas vão acabar”, disse em tom científico. “Você está certo. O céu não parece mesmo ter muita graça, filho. Ele é escuro, desorganizado, frio e distante. Isso não parece coisa de coisas infinitas pra você?”, apoiada nos cotovelos. “Mas você disse que ele é, não disse?”, inconformado. “É o que o meu pai me disse, filho, que o universo é infinito em todas as direções”, tentou novamente minha mãe.

“Mas alguém foi lá, mediu, tirou foto no infinito?”, com as mãozinhas na cintura. “Menino, não tem como fazer nada disso. O infinito não existe”, perdendo a paciência. “Mas você acabou de dizer que existe! Eu não estou entendendo. Eu não estou entendendo, mãe”, emburrado. Ela riu alto e me abraçou, me abraçou, me abraçou e eu entendi. Havia um pouco de infinito ali, um infinito pequenininho só entre nós.

Diego Engenho Novo


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