Idem

Idem

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Mari, minha prima mais porra louca, sumiu no mundo com uma mochila nas costas. Alguns meses depois, avisou que estava de volta e que tinha trazido um pequeno souvenir: um noivo. Levando seu histórico em consideração, já imaginávamos um moço magro, alto, com dreads e aquele papo holístico durante o almoço. No dia marcado, a mesa posta, Mari me aparece com uma pessoa que realmente chocou toda a família. O moço era uma pessoa formal.

Roupa impecavelmente passada, dava pra ler todas as boas marcas, sapato mais limpo que o meu cabelo, tom de voz moderado. Ele não dizia “brigado!”, mas “muito obrigado”. Não era “dá licença, que eu vou ali rapidinho”, mas “com sua licença, vou me retirar alguns instantes”. Estávamos na novela das seis? Sabe aquelas pessoas que a gente até corrige a postura pra conversar? Eu estava tentando conhecer o moço, mas não conseguia parar de pensar que ele tinha tanto a ver com a Mari quanto eu com a torcida organizada do Vasco.

Se você é formal e está me lendo agora, não pense que tenho algo contra você. Não é isso. Torço pra que você seja muito feliz, de forma ponderada e elegante, é claro. Mas porque pessoas formais não se juntam com uma outra pessoa formal? Esse papo de os opostos se atraem não parece ter muito a ver com vocês. É papo de gente passional, romântica, que tem poster do Truffaut em cima da cama. O formal é prático, mental, metódico, namorado da Mari.

A primeira vez que namorei uma pessoa formal e ela respondeu meu “eu te amo” com um sonoro e grave “idem”, corri o mais rápido que pude. Deus me livre de gente que diz idem. Idem nem é palavra direito. É uma redução econômica de outra palavra que já nasceu sem personalidade, sem tesão, desalmada. Gosto de gente que arranca a roupa e te agarra com fúria. O formal não, ele retira calmamente a camisa e a dobra sobre a calça já dobrada. O formal tem pavor de mudança de planos, improvisações e acidentes de percurso: a receita perfeita para fazer novas descobertas. Preciso de alguém que grite aos sete ventos que também é doido por mim, que me ama muito mais e corra pra me beijar. Compare isso com um idem.

Quem é mais espontâneo talvez se atraia pela sensação de segurança, pela lucidez que equilibra, ou pela personagem que criou para tornar o formal mais palatável para seus sonhos. No fundo, o espontâneo acha que pode transformá-lo, torná-lo mais aberto ao seu mundo, vertê-lo em algo um tantinho menos…formal. Mas, veja, bem, se há algo que os formais fazem melhor e muito melhor que você é ter foco, organização e determinação. Nessa guerra de quem muda quem, nós já sabemos quem sai perdendo. Eu sei, eu sei, você o ama. Ele idem.

Diego Engenho Novo

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