Fora da Casinha

Fora da Casinha

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Sempre invejei as histórias tórridas de amor. Gente que grita na porta do prédio do ex dizendo que esqueceu alguma coisa, como se fosse possível coisificar a autoestima da gente. Gente que pega um avião, atravessa dois estados, pra dizer que errou. Gente que arde, enlouquece e se queima em seus próprios sentimentos.

O tempo vai nos deixando mais endurecidos e racionais sentimentalmente, se é que isso tem alguma lógica. Com os anos, passamos, por exemplo, a esperar a hora certa pra ligar e até enviar um torpedo antes, perguntando se aquele é o melhor momento. A ideia é não parecer um psicopata carente, embora quase todos estejam caminhando para o mesmo CID. Daí surgem os cânceres da alma, as vontades não realizadas, o que não foi dito, o que poderia ter sido. Ficamos prisioneiros do nosso bom comportamento, formalizamos o amor.

Dia desses falava sobre mais uma história de amor complicada para Clarice. Ela solucionou meu roteiro de novela da Televisa com um conselho pouco previsível – Dê uma de doido, saia da casinha, vá atrás dele! – e foi incrivelmente libertador. Agi como um maluco por três dias, ligando na hora que bem entendia, fazendo convites sem pé nem cabeça, dizendo tudo que me dava na telha, um kamikaze sentimental.

É óbvio que saí ferido da história, feliz, mas triste, se é que isso também tem algum sentido. Para me consolar recebi de outra amiga, Elvira, um trecho do romance de Baricco, Oceano Mar: “A gente espera que sejam outras as coisas que salvam as pessoas: o dever, a honestidade, sermos bons, sermos justos. Não. Os desejos é que salvam. São a única coisa verdadeira. Você fica com eles e será salva”. Não é ser inconsequente, é aceitar as consequências como um preço justo a se pagar pelo que alma anda desejando.

O músico britânico, Seal, também cantou a pedra já na década de 1990, com meu hino pessoal dos últimos tempos, Crazy, “Mas nós nunca vamos sobreviver, a menos que fiquemos um pouco loucos”. Enlouquecer, em alguns momentos, pode, sim, ser o melhor roteiro. Nos momentos em que a lógica complica demais, a falta total dela resolve. As feridas que colecionamos no caminho só nos mostram aquilo que não enxergávamos fazia um tempão; que estamos vivos, bem vivos, ainda que meio fora da casinha.

Diego Engenho Novo


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