Ervilhas

Ervilhas

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Escreveu uma linha inteira. Uma linha que não dizia nada. Só dizia: “Eu só queria que você soubesse”. Soubesse o que, Bianca? Você e essas vontades que não se findam, que não fecham a porta quando saem, vontades sem vontade própria, moscas-mortas. Você e essas manias sem nome, esses bilhetes sem pé nem cabeça, só coração. Você só é coração, Bianca. Que dó.

Não era aquilo. Tentou começar pelo finalzinho. “Com amor, Bianca”. Ai, amor é demais. Se ela já dissesse ali que era amor, estaria nas mãos dele, nas mãos dele como uma conchinha branca, bianca. Bianca e esses desejos que não se assumem, esses medos que calejam e calejam, que viram da família, gente de casa, por repetição. Como o cachorro que vai ficando e ficando, e recebe água, e depois comida e depois um nome. Amassou o papel, chega.

“Se eu pudesse dizer”, que bobagem, ela podia. Ela já estava dizendo, mas pensou que daquele jeito, ele pensaria que ela era a louca que era mesmo. Mulherão não diz que quer dizer, não teme dizer, mulherão diz e ponto, cáspita! Mas Bianca não queria ser mulherão, ela não. Só queria ser mulher o suficiente pra continuar depois do silencio do branco da página, ali, naquela mudez momentânea, miúda. Meu pai amado, Bianca! Escreva. Basta escrever o que lhe vem à cabeça e pronto.

“Saudade, tempo, dúvida, vontade, frio, desejo, medo, animação, preocupação, pressa, freio, sentido, o oposto, a ânsia, rápido demais, mais devagar, talvez, melhor não, mas se não arriscar, sozinha, seguir sozinha, um beijo, uma vida, ervilhas” Ervilhas? Quem é que consegue fazer um bilhete de amor com ervilhas no meio? Esqueça, esqueça. Melhor citar algo de Quintana. Está lá. Está pronto. “Se tu me amas, ama-me baixinho”, olha que beleza!

Sem essa. Bianca queria ouvir aquele homem gritando na janela, acordando os vizinhos, os latidos, os gemidos dos assoalhos, até a rua debaixo. Bianca queria ouvir o nome dela saltando daquela boca. Como era mesmo o começo? “Eu só queria que você soubesse que eu tentei fazer um poema onde coubesse ‘ervilhas’. Mas não cabe. Simplesmente não cabem, em lugar nenhum. Mas cabe todo o resto. Me ame com o que tiver. Se tu me amas, ama-me alto, bem alto, que a minha cabeça é barulhenta. Grite à janela, como quem pede socorro, como quem tem pressa. Se você não tem, eu a tenho”. Bravissimo, donna! Falou a voz que morava nela.

Diego Engenho Novo


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