Entardecidos

Entardecidos

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Depois de muitos relacionamentos confusos, de fins, começos e tropeços, me percebi em um relacionamento diferente. Não havia afobação, não havia disputa, não havia espaço pra muito mais além dele, o amor, e nós dois, claro. Seu coração está entardecido – brincou minha amiga Cláudia. Ela havia perdido o marido recentemente. O companheiro de uma vida inteira. Tinha propriedade pra falar de certos assuntos.

Fiquei pensando em como eu tinha sorte de conviver com alguém tão sábio quanto Cláudia. O entardecer, a hora mais doce, quando o dia e a noite param de fugir um do outro e se olham com candura, sim aquela expressão era perfeita para o que eu estava sentindo, vivendo, entardecendo em mim.

Sem a loucura dos carros que buzinam apressados indo para o dia cheio, sem a penumbra que sob a noite oculta segredos, um coração entardecido é revelador, mas brando. Corações entardecidos sabem seu ritmo de ser, apreciam a brevidade das coisas que passam e a preciosidade de tudo o que fica. Eles se rendem à pureza que ri, tem leveza para dizer tudo, generosidade para escutar, fé para guiá-los. Principalmente fé um no outro.

Até meu coração entardecer, todas as pessoas pareciam a pessoa errada, tudo era passagem. Até meu coração entardecer, me desprender parecia fácil e gratuito, o perdão era uma hora distante, quase inacessível. Até meu coração entardecer, toda a força que faria meu relacionamento ir adiante não estava em mim, mas no outro. Peso demais para qualquer mortal carregar.

Até meu coração entardecer tudo o que me desagradava vindo da outra metade parecia uma ofensa direta, ferida inteira. Mas um coração entardecido sabe que devemos antes analisar os desagrados pela lente da paciência e levar à balança de tudo o que já foi construído. Dois corações entardecidos jamais se ferem gratuitamente. Puro exercício de um coração que entardeceu devagar.

Iluminam-se como meninos, aquecem-se de um tanto exato, amam a lógica do tempo invertido, que não corre, não exige. Os amantes entardecidos amam-se sem pressa de chegar. Eles sabem que lá, justo onde já estão, é mesmo a altura que todos têm procurado, como se ali fosse um lugar. E buscam incessantemente, e cercam famintos sem ver, e migram em direção nenhuma, sem saber que o amor nunca foi um lugar. O amor é um tempo, cuidadosamente entardecido pelo lado de dentro.

Diego Engenho Novo

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