Como Água

Como Água

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Há sete anos nós nos retiramos com Tientai para o deserto. Na saída de Sraghna o velho mestre terminou de enrolar sua barba e nos entregou quatro recipientes pequenos de barro com toda a água que teríamos pelos próximos três dias. Caminhamos por doze horas e então dormimos sob uma árvore de muitos espinhos.

Andamos os outros dois dias inteiros em silêncio, a sede era imensa. Só tínhamos algumas castanhas e sementes para comer. Seria impossível viver por três dias debaixo de um sol gigante, com menos que três dedos de água. À metade do terceiro dia, cada um de nós economizava sua água ao máximo. Havia apenas um pequeno gole de vida nos potes de barro.

Tientai passou por nós apressado enquanto descansávamos nas pedras – Subiremos aquela montanha. Subiremos porque vocês estão com medo dela. Quero que vocês enxerguem o medo de cima. Tudo é menor visto de lá – e saiu cantarolando como se tivesse um compromisso importante.

Cheguei completamente sem forças ao topo da montanha. Minha garganta estava ferida de tão seca. Tientai aguardava pacientemente sentado à frente. Quando todos estavam a sua volta, mais mortos do que vivos, nosso mestre exigiu que lhe déssemos o que nos restava de água. Jamais me esquecerei daqueles olhares de desespero, de angústia, abismados. Ainda assim, ninguém se negaria a oferecer a sua vida por Tientai.

Ele juntou todos os restinhos em uma cuia e bebeu de uma vez, na nossa frente – Entendam, o homem que se agarra às migalhas, não consegue enxergar a grandiosidade. Aqueles que se apegam aos sentimentos do passado, não podem sentir o gosto fresco da vida renascendo – disse abrindo os arbustos e mostrando um poço de águas cristalinas. Assim me ensinou meu mestre.

Diego Engenho Novo


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