viver

Essa semana tive a honra de conhecer de perto uma das atrizes brasileiras que mais admiro: Maria Alice Vergueiro. Você deve conhece-la daquele vídeo divertido, o “Tapa na Pantera”, mas posso te garantir que ela é muito mais do que isso. Ela é uma das mentes mais geniais do teatro nacional. Sou fã mesmo de carteirinha.

Perguntaram para Maria Alice como era refletir sobre a própria morte, tema central da peça pela qual tem sido ovacionada nos últimos anos – Eu parei de duvidar. Quando alguém chega e diz pra mim que gosta de mim, eu decidi não duvidar mais. Tem sido incrível isso – explicou, com a fala já mais ralentada pelo Alzheimer e pela idade avançada. A genialidade de Maria Alice se estende para além dos palcos e inunda a vida de mais vida.

Temos sido condicionados a temer o outro, duvidar do próximo, para nos mantermos sempre com os dois pés atrás, quando não distantes. A cada decepção nos fechamos um pouquinho mais, aumentamos nosso muro, nos retiramos das relações para observá-las com mais desconfiança. Em quantas pessoas você pode dizer que pode confiar? Poucas, bem poucas – muita gente repete. E isso é mérito? Sei não.

A gente duvida do afeto, põe à prova os elogios de quem nos adora, trucamos o amor de quem está sempre lá por nós. Nos acostumamos a temer as tentativas dos desconhecidos de se aproximar, dificultamos as tentativas de quem nos feriu de se reaproximar. Seguimos implodindo as estradas que nos ligam até os países fronteiriços. A ordem é fechar e perguntar depois. Duvidar e tentar depois. Dizer ‘não’ e ‘talvez’ só depois.

Talvez pudéssemos aprender um pouquinho com alguém que já viveu tanto e certamente se decepcionou na mesma proporção. No final das contas, baixar a guarda, ter um tantinho de fé, aceitar a mão estendida e o sorriso aberto, talvez possa nos levar de volta até aquele ponto do caminho do qual temos sentido falta. Eu pelo menos sinto.

Você lembra? Quando as relações eram mais honestas, próximas e descomplicadas? O mundo mudou tanto assim ou foi a gente que se trancou pra dentro de casa? É o medo que nos divide, que nos separa e que impede a gente de viver a verdade. Da próxima vez que alguém disser que te adora, faça esse exercício, apenas não duvide logo de cara. Vale o risco. E, Maria Alice, te admiro muito. Jamais duvide disso.

Foto: Averie Woodard

Depois de caminharmos alguns minutos pela praia, meu amigo Filip apontou à frente: – Ali têm duas pedras que formam um coração perfeito. Se você vier aqui e não tirar uma foto lá, não veio. Respondi com ares de moleque: – Se todo mundo vai, eu não tenho o que fazer lá. Não há nada para se descobrir nos lugares em que todo mundo já foi – E saí andando na outra direção.

E foi assim que deixei de ver a troca da guarda real em Londres para conhecer uma trupe de atores em St. Martin’s Gardens. Foi assim também que me encantei bem mais vendo como os jovens franceses matavam o tédio dos fins de tarde bebendo vinho barato e conversando à beira dos canais do que com as obras do Louvre. Foi desse jeito que descobri muito mais sobre o Monte Roraima e seus demônios brincando com as crianças do vilarejo do que com o guia da Roraima Tour. Meus amigos foram para o tango? Preferi ir para as baladas subterrâneas de Buenos Aires. Alguém já te disse que aquela cidade pode ser eletrizante? Digo eu.

Eu sei, soa implicante da minha parte. Concordo que há lugares que precisam ser conhecidos se eles significarem algo para você. Dureza é pensar que tem gente que vive sem questionar os rumos que toma, as escolhas que faz, gente que segue roteiros que alguém escreveu, seja para viajar, seja para amar, seja para sofrer. E seguem vendo os mesmos lugares, tirando fotos ocas em monumentos sem graça, comendo nos mesmos cantinhos, dormindo nos mesmos hotéis que a amiga da amiga indicou por puro medo de se frustrar e ferrar a coluna. Arriscar é se permitir errar, mas é antes e acima de tudo se permitir a descoberta de novos acertos.

O poeta português José Régio já bem dizia em seu Cântico Negro: “Ninguém me diga: ‘Vem por aqui’. Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por aí”. E seguem tentando nos guiar para as profissões pré-fabricadas, para as franquias emocionais pré-testadas, para os abusos com os quais nos acostumamos de tão repetidos que são. Desconfie das verdades preguiçosas que tentam contar para a gente. Desconfie, rápida e imediatamente, não do que os outros lhes dizem, mas do que sua alma diz a si mesma ao sabê-lo, em um misto doce de curiosidade e intuição.

Só existe hoje um coração perfeito feito de pedras à beira do mar porque um dia alguém decidiu que era hora de tomar uma direção diferente. E o fez, doce e teimosamente, como aos poucos tudo à nossa volta nos desensinou a ser.

Diego Engenho Novo

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Tiraram a árvore da caixa hoje. Equilibraram-na logo ao lado da portaria, como nos anos anteriores. Tenho a impressão que nem a desmontam mais, só a guardam em alguma sala empoeirada onde sempre é Natal. Frutífera de luzezinhas o ano inteiro. Enquanto espero o elevador ouço o papo vindo das velhinhas – Já era, acabou o ano – olhando pros números em contagem regressiva acima da porta – Voou. Esse ano voou – completou a outra.

Eu fico aflito com esse tipo de conversa. Como assim “já era”? O que foi que acabou, gente? Em trinta dias dá pra viver mais do que você já viveu até hoje. Ainda dá tempo de mudar a cor sem graça da parede da sala, ainda dá tempo de doar as roupas que não vestem, ainda dá tempo de aprender a cozinhar, ainda dá tempo de tomar gosto pela corrida. Juro que dá.

Ainda é possível perdoar, ainda dá tempo de dar um presente de dia do amigo, ainda dá tempo de escrever um roteiro, ainda dá pra ler aquele livro que você sempre mentiu por aí ter lido. Ainda dá tempo de pegar a estrada, de mudar de rota, de pendurar os quadros, de se matricular na ioga, de não levar desaforo pra casa, ainda rola de descasar. Pelos deuses que ainda dá, pra aprender a pedir comida em francês, de vender a TV e correr pra Paris.

Ainda dá tempo de mudar de profissão, de aprender a usar o aplicativo esquisito que todo mundo tem. Ainda dá tempo de virar vegano, de se tornar um expert em pintura vitoriana, de ter um cachorro no pé da cama. Vai que dá! Dá pra descobrir como é que medita, como é que desculpa, como é que tem gente que se equilibra em cima de uma bicicleta e vai. Vai que dá, ainda dá tempo de descobrir seus desejos, atiçar seus sonhos, embromar seus medos, vai que ainda dá tempo de se apaixonar de novo.

Diego Engenho Novo


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