tempo

Foto: Ben Warren

Eu estava inquieto naquela manhã. Passei rápido pra dar um beijo e raspar uma colher nas panelas da minha avó. “O que você tem que tá afobado?”, perguntou ela já achando engraçado meu bate-pé, rói-unha, ajeita-relógio. Não precisei responder. Ela me chamou no quintal e colheu uma fruta do conde direto do pé. Aquela árvore tinha a mesma idade de minha avó. Ou mais. “Come!”, me entregando, “Senta e come, devagar. Essa gastura vai passar”.

Não sei porque guardei isso por tanto tempo comigo. Não sabia, até que me lembrei disso justamente hoje, enquanto minha amiga me contava do seu último namoro-relâmpago. Você já deve conhecer essa história: um cara legal surge, vocês se adoram, algo bobo acontece, vocês se detestam, fim. Tem acontecido muito. Roteiro rotineiro dos relacionamentos afobados e pré-desgastados de hoje.

Naquela manhã, anos atrás, minha avó estava tentando me mostrar que certos momentos da vida precisam ser vividos com parcimônia ou com o mínimo de sabedoria. Não dá pra engolir uma fruta do conde inteira de uma vez, dá? Por sua própria estrutura, cheia de sementes revestidas com fruta, ela praticamente te obriga a comê-la bem devagarinho. A senti-la. A saboreá-la, parte por parte.

Ela lentamente transforma a dificuldade que é contornar o que não nos agrada em serenidade. As respostas vêm com jeito, mas principalmente vêm porque a gente se abre pra elas. É aí que o empecilho vira estímulo, a irritação vira bom humor e o insolucionável vai ficando miúdo, miúdo até poder ser contornado, até que a gente possa digerir.

Tomara que a gente nunca se esqueça disso, né? Que o amor se abastece da morosidade do entorno do tempo, na delicadeza do relevar e que a gente só aprende a fazê-lo, fazendo, teimando, deixando-nos ser contorno. Enxergar que nem tudo é problema, mas apenas nosso registro único nos tornando igualmente únicos e, com sorte, imensamente doces ao final de tudo.

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Foto: Hernan Sanchez

Aproveita que um dia todo o encanto passa – Ameaçam os amargurados – Ficará a rotina em seus tons acinzentados, tornar-se-á o seu caminho previsível, um dia você simplesmente se acostumará a ela. Um dia ela simplesmente se acostumará a você, até não poder te enxergar mais.

Jamais compreendi o tom de ameaça, se me acostumar à presença dela é exatamente o que busco. Teremos sorte se um dia eu puder mesmo me tornar banal como uma cadeira de balanço. Se um dia deixar de ser um corpo estranho, deixar de ser visita, novidade, ânsia, para ser somente a companhia calma pros seus cotovelos cansados de esperar

Aproveita, um dia o encanto passa – Repetem os amargurados. E tudo o que eu mais quero é desencantar-me diante dos seus olhos entediados. É ser silêncio calado pra acompanhar sua voz cada dia mais quietinha, como um canto por onde ninguém mais passa. Quero mesmo que todo o encanto nos deixe, que seu afago seja cada noite menos sedento de mim, quero ser tão costumeiro como o curvar dos galhos ou a mudança de opinião serena dos rios.

Sorte de quem puder atravessar os anos a ponto de deixar de ser encanto, sorte de quem puder amanhecer e perder o tom abobalhado dos amantes, o ar embriagado dos sonantes. Amanhecer, entende? Luz sobre a minha confusão.

Tudo o que eu mais quero é que o encanto passe, que os anos não nos perdoem, para que fique em mim a certeza de estar ao seu lado. E que como ameaçam os amargurados, você se acostume mesmo com a minha companhia, num acompanhar-te que nunca passa, lerdo e costumeiro.

E esse que fica quando todo o encanto decanta, e esse que se assenta junto com a rotina, não me ofenderia jamais. Depois que todo o encanto decanta, é ali que está o verdadeiro amor.

Diego Engenho Novo