sentimentos

Acho que de tanto manda-lo ir embora, ele se magoou. De tanto dizer da boca pra fora, um dia ele resolveu mesmo me ouvir e me deixou. Mas do meio de minhas dores fundas eu disse aquelas palavras, das quais eu mais me arrependo. Naquela noite, eu mandei o amor ir embora. E ele me atendeu. “Cuidado com o que pedes”, pensei sobre o poder absurdo das palavras.

E desde então, eu tenho conhecido muita gente. A cidade está cintilando da beleza delas. Pessoas incríveis, algumas com todas as qualidades que já me encantaram, mas que não vão muito além de um café, duas cervejas, algumas noites. Como se algo dentro de nós simplesmente não as convidasse pra entrar. Grosseria da braba. O amor foi embora e levou a chave da casa.

Eu não me sinto sozinho, desesperado ou coisa do tipo. E também não preciso que você volte, amor, é melhor do que isso: eu gostaria. E acho que também gostaria bem mais de mim hoje em dia. Adoraria que você voltasse para iluminar as paredes e o assoalho da casa de novo, como uma raspa de sol nascente.

Andaram dizendo que meu pedido é incoerente, que o amor gosta mesmo é do caos, do destempero e do improviso. Até concordo, mas acredito que ele também saiba admirar a doçura que há em amar a partir de dias serenos.

Você deve estar longe agora, observando um casal com roupas pesadas em uma fonte em Berlim, ou fazendo ondinhas em campos alagados da Tailândia para que um par se reconheça. Mas mesmo tão longe, eu espero que você possa me ouvir pedir: “Volta pra casa”. E um resto de sol derramou-se da janela pra sala.

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Minha amiga Sheila xingava aquele homem de tudo que era nome. Confesso que anotei dois ou três palavrões pra expandir meu vocabulário. O cara havia terminado um namoro com ares de casamento no frescor de seus dois anos juntos. “Como ele faz isso comigo?”, repetia chorosa. E eu sem entender o que o moço tinha feito de errado. “A gente era feliz. Como ele pôde me deixar sozinha? Que irresponsável. Eu mudei a minha vida todinha por causa dele”, respirei fundo.

Vinha na glote? Vinha. Eu queria poder dizer que era direito legítimo do coitado desistir do contrato de ser dois, no momento que fosse, sem multa de rescisão, sem bonequinho de vodu personalizado. Mas não era aquilo que ela queria ouvir. Chega vinha no fio do lábio a vontade de dizer? Vinha. Que aquele homem tinha sido correto, corretíssimo, que ele tinha sido mais legal com ela que muita gente por aí, mas eu perderia a amiga. Preferi perder a verdade momentaneamente. Sheila ia demorar um tempo pra entender que foi inclusive corajoso da parte dele ir embora quando não se percebeu mais feliz ali. E o dobro do tempo pra sacar que ninguém é responsável pelos prejuízos emocionais da gente.

Flor, se você tiver pausado o Grey’s Anatomy pra ler isso, entenda, com todo o apreço que lhe tenho: ser adulto tem disso mesmo. É arriscado, lento e doloroso, mas eu prometo que fica mais fácil com o tempo. Eu sei que é atraente, que dá uma vontade doida de escorregar dos braços dos nossos pais, cair nos braços aquecidos de outra pessoa, e adiar-nos enquanto adultos. Como se seu peso fosse um presente, como se ele pudesse preencher a solidão do outro, como um favor, uma generosidade cínica da parte da gente. Densa você, densa, certamente. Volume e massa são diferentes também emocionalmente.

Não importa o que você fantasiou. No mundo real somos só nós carregando nossos próprios ossos, pele e medos. Por tudo o que é mais sagrado, fica combinado que a gente até se ajuda às vezes, que a gente acarinha, abraça, dá colo quando o fardo parecer imenso. Mas cada um carrega a própria bagagem nessa conexão de voos demorada que é viver. Ninguém é responsável se não nós, pelo que aceitamos, pelo que escolhemos, pelo que preferimos acreditar, pelas verdades que preferimos adiar. Ninguém é responsável se não nós mesmos, por entrar e sair elegantemente da vida dos outros carregando os nossos próprios sonhos e pagando pelos excessos da gente.

Diego Engenho Novo