relacionamentos

Foto: Spencer Selover

Estou aqui. Sentado na sala como se você fosse entrar por aquela porta. Com a estranha sensação de que talvez o trânsito te segure, a livraria no caminho te distraia, uma amiga de longa data te pare pra conversar, e você se demore, mas ao final, chegue finalmente em casa. Estou aqui, com as duas mãos imóveis sobre as pernas, tentando senti-las. Tentando sentir qualquer coisa, já que não entendo. De repente, tal qual as ondas mudam violentamente, tudo mudou.

Estou aqui, como quem espera acordar de um sonho ruim. Ou como quem acorda de um sonho bom e por dois segundos ainda acredita que a realidade também é boa. Até se dar conta. Estou aqui revisitando cada palavra que você usou cuidadosamente pra não me ferir ao dizer o quanto estava machucada. E nas pausas do dito, fico tentando ouvir o que não me foi dito. Nem hoje, nem nunca. Talvez nunca mais. Não em palavras.

Estou aqui me lembrando que, a partir dos meus olhos, tudo parecia no lugar. Nossas terças pareciam ágeis, nossas sextas eram indecisas como de costume, nossos domingos solares e depois melancólicos, mas eram sempre dias revestidos de um “nós” possível.

Estou aqui pensando agora que seu silêncio, que por tantas vezes me pareceu paz, talvez fosse grito, solidão, insegurança. Tudo menos a paz aparentemente visível. Achei que fazia parte de respeitá-la jamais confrontar sua pausa. Eu apenas me deitava à volta do seu calar como um cão envelhecido que aguarda um comando.

Estou aqui olhando para tudo o que construímos, precisa e preciosamente como monges que empilham pedras imensas, e agora parece tão frágil. Sinto que uma palavra fora do lugar colocaria tudo abaixo. Estou aqui e nem sei mais se posso chamar essas paredes pálidas, esses móveis doloridos, esses cheiros que parecem vultos, nem sei se posso chamar nada disso de casa.

Por ora, tudo parece mesmo suspenso, ondas únicas e frias que se repetem insistentemente, mar que se revolta. E uma dúvida paira sobre meus ombros murchos: será que você ainda entra por aquela porta? Estou aqui, naquela esperança miúda e reticente de que talvez o tempo vire outra vez e te traga de volta.

 

Diego Engenho Novo

Faltava ar. Pouco antes da uma da manhã cheguei ao pronto-socorro. O noticiário da madrugada resmungava ao fundo, acompanhado pelas tosses e pelos bipes do painel de senhas. Fui atendida rápido até. Minha cara de desespero imprimia mesmo emergência. Bronquite asmática. O pior passou. Não morri. Não hoje, não dessa vez. Ainda. A moça da recepção me chamou. “Débora?”, confirmei com a cabeça. “Preciso atualizar seu cadastro. Seu contato de emergência ainda é o Miguel?”, gelei até a ponta dos pés.

Não via Miguel há um ano. Desde que terminamos educadamente na praça perto de casa. Desde que eu fui chorando descontroladamente e cheia de medo até meu portão. Não pronunciava aquele nome desde que apaguei do celular, como se apagasse junto da vida também. Gelei de pensar se tivesse um treco e Miguel me aparece sem entender. Quer dizer que pra namorado eu não sirvo, mas pra te socorrer tudo bem? Morri de vergonha antecipada. Essa foi por pouco. Se Miguel teria notícias minhas seria de mim divando nas férias num destino exótico ou bonita saindo do salão no sábado. Não semi-morta, não vestida de azul bebê-internação, jamais com um soro enfiado no braço. Ex tinha que ter a consideração mínima de só cruzar com a gente nos nossos ápices. Mas são os nossos dias piores e mais desgrenhados que os atraem.

“Apaga isso daí, moça”, falei sem jeito, admitindo meu fracasso. Parei pra pensar quem botar no lugar. Em tempos tão sozinhos, quem é que a gente coloca no contato de emergência? Não tenho família, parente, primo distante por perto. Não tenho melhor amiga morando na mesma cidade. Não sei o nome dos meus vizinhos. Não quero incomodar a Marta do departamento financeiro do trabalho. Chama quem? Liga pra quem se eu tiver um troço e cair dura no meio da Avenida Paulista? Tenho convivido elegantemente com o fato de que provavelmente estarei sozinha por um bom tempo. Não tô amargurada. Só não quero mesmo. Pura preguiça. Cheguei aos quarenta tão satisfeita com minha própria companhia. É bonito de ver. Não quero interrupções, barulho, drama, caos alheio. Ser ferida pelos outros e se consertar dá um trabalho danado. Quero a paz de uma pia sem louça e o conforto de dormir esparramada. Mais nada. Dá pra ser?

Mas nessas horas, admito, soa lá dentro da gente aquela frase que você também já deve ter ouvido. Ela começa baixinha, aumenta um pouco, e em seguida grita: “Eu vou morrer sozinha!”. Nessas horas de fragilidade, a gente lembra que o outro também é suporte, mão que embrulha o medo pra outra hora, beijo que ameniza a dor, riso deliciosamente inapropriado no meio do desespero. O outro é quem diz: “Tô aqui por você”. Eu, euzinha, tô aqui mais do que ninguém por mim, mas sei que não é a mesma coisa. Reconheço minhas limitações.

Reconhecer que a gente, assim como qualquer outra pessoa, não pode se dar tudo é essencial pra não pirar. Por enquanto, me basto, mesmo que nem sempre eu seja o bastante. “Bota aí, Fábio”, respondi com firmeza. “Fábio de quê?, digitando. “de Melo”, com um risinho sacana. Dei o número da central de orações do panfleto que uma senhora tinha me entregado na rua. E saí rindo e imaginando o susto do padre ao ligarem avisando que a Débora teve um treco. Tem horas que o que salva a gente é a leveza. Essa sim, já me salvou milhões de vezes. Se você tiver lendo isso, desculpa padre. Apesar de que não seria de todo o mal acordar com você no pé da cama do hospital. Ô bença.

 

Diego Engenho Novo

O Facebook me lembrou recentemente de uma imagem de alguns anos atrás. Dá pra ver um grupo de mochileiros na frente de uma cachoeira no interior do Amazonas. Lá no meio estou eu, todo felizinho, barba por fazer, e do meu lado um grande amigo que fiz naquela viagem: Sol Galáctico Amarelo. Sim, esse é o nome dele. Chileno e uma das pessoas mais doces que já conheci.

O curioso é que comecei essa viagem sozinho. Botei uma mochila nas costas e fui. Aos poucos, fui conhecendo uma pessoa aqui, outra ali, e fomos formando uma espécie de família de rota. A gente se encontrava numa cidade, alguns na próxima, outros na posterior, depois o grupo todo uns dias depois. Sem combinar nada. A gente apenas chegava e já avistava aquele pequeno grupo de mochilas coloridas.
Nesse mesmo dia da foto, conversei com Sol sobre como achava isso incrível. “Até onde será que vamos fazer o mesmo trajeto? Digo, todas essas pessoas. É muita coincidência, você não acha?”. Ele pensou e respondeu: “Eu não acho que a gente se encontre porque vamos pra mesma direção. Eu acho que nós nos encontramos porque vamos no mesmo ritmo”.

Essa conversa sempre me vem à mente quando penso nas relações à minha volta, e claro, nas que meu próprio coração atravessa. Cansei de ver casais que aparentemente sonham com as mesmas coisas, seguem a mesma estrada, mas se perdem pelo caminho por discordância de ritmo. Amigos com os mesmos interesses, mesma visão de mundo, desinteressando-se, desprendendo-se, tomando trajetórias completamente diferentes. Ritmo, repetiria Sol. Ritmo.

Na vida e na estrada é preciso respeitar o ritmo das pessoas. Seu tempo para aprender, absorver, enxergar certas verdades. Não dá para apressar o caminhar do outro, não dá para arrastar ninguém para a dianteira conosco. Não dá para atrasar o passo de quem vai longe por nossa vontade de ficar mais um pouco. O máximo que se pode fazer é ralentar seu passo, mas isso seria profundamente injusto consigo. E com o tempo aprendi que essa é a pessoa que mais devo respeitar pelo caminho: eu mesmo.

Eu torço pra que nossos passos sejam pareados. Eu torço pra que a gente continue se encontrando, meu amor. Mas jamais iriei intervir no teu ou no meu ritmo. Você é lindo demais no seu próprio tempo. Teu tempo é tua perfeição e imperfeição na mesma proporção, como tudo o que é bonito. Vim descobrindo que te admirar é parte essencial dessa parte da minha jornada. Simplesmente imperdível. Meu amor é aceitar teu ritmo, defender teu caminho e torcer para que a gente continue se encontrando aqui, ali ou mais adiante, pelo tempo que nos for possível.

 

Diego Engenho Novo

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Não pese sua mão sobre meus dedos, não pese, por favor, seus pés sonolentos sobre os meus. Não pese sua coxa tesa sobre as minhas. Encoste em mim, mas não se deite. Dai-me ar, dai-me combustível para querer-te mais. Só não pese seus olhos sobre meu olhar, não sufoque meu beijo com sua fome. Beijo não se pede, minha querida, beijo se perde.

Eu sei que é difícil encontrar a medida, entre bem querer e querer tudo ou nada. Eu sei que é frágil a ladeira que incita para se chocar no outro como um carrinho infantil e sem freio. Há avisos por toda parte, sinalização por toda a via, mas você os evita, você ignora o que não lhe interessa. Mas no fundo, todos os avisos, todos os sinais, também sou eu.

Não vou carregar, não vou mais levar suas mágoas. Não pese seus braços sobre meus ombros, chamando-me de meu bem. Não pese seus sonhos com minhas medidas, meu passo já é largo na direção oposta aos teus. Não pese meus ouvidos com suas palavras de culpa, não pese minha solidão com seu incômodo em viver a sua. Toma-me por teu e no instante seguinte eu serei completamente outro. Como a mulher-gorila em metamorfose: a incrível Monga.

Eu sei que algum dia sua paciência vai acabar e você observará a casa em chamas do lado de fora. Eu rezo por isso. Queime tudo, meu amor. Quem sabe as chamas te iluminem também. Eu queria que você soubesse que havia amor por toda parte, afeto em todas as pausas, verdade em toda a leveza que te pedia e te oferecia.

Mas não é isso o que você quer. Você quer meu corpo sobre o seu como um peso de papel, meu afeto sob o seu como a sombra de uma nuvem. Se quer algo para chamar de seu, voilà. Mas não peça a ninguém para carregar teus pesos. O que você quer, minha querida, ninguém pode te dar. Eu tentei ser contigo, não teu. Agora nem isso mais é possível. Não pese na minha saída.

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Trago comigo pequenas relíquias, pequenos detalhes na memória de todas as pessoas que amei. De cada uma delas tenho uma amostra única e preciosa que carrego no meu coração. Ou elas que seguem comigo? É pouco para ser algo, muito para ser esquecido. Um cheiro que vinha com ela, um assunto que frequentava a mesa, é um som que fazia a trilha de sermos amantes na época. Vez ou outra eu me deparo com algo que me lembra dessas pistas, como sinais me chamando de volta pra casa. Pra todas as casas que eu já tive na vida.

Por dois segundos ela está ali: sem dor, sem pesos, sem mágoas. Com todos os nossos sonhos irretocados, com todo o nosso futuro que já é passado, como se tudo o que imaginamos um dia ser, fosse uma pilha de livros que pode ser transportada de um canto pra outro, sem perda de nada. Por dois intensos e deliciosos segundos, nós não somos mais como dois estranhos conhecidos.

Ontem, um rapaz contava uma piada e segurava o cigarro pontuando as frases no ar. Em um milésimo de segundo eu estava lá, diante da primeira pessoa que amei e seu jeito parecido de me contar como foi o dia. Eu queria congelar aquele instante, aquelas sensações todas que recriavam tão profundamente uma realidade que já não existe mais, a não ser em mim. Não há para onde voltar. Talvez, um desdobramento daquilo.

É como se apegar a uma brisa, desejar que um raio de sol se demore, guardar um sabor devagar embaixo da língua, beijar um seio sem pressa. É como tentar aprisionar um relâmpago, correr para anotar uma ideia, persistir em continuar um sonho depois de acordar numa segunda-feira. É como se todo esse tempo fosse uma esquina a ser contornada, e como se nada pudesse trazer de volta aquela palavra que um dia dissemos: é o fim. Mas dentro da gente amor nenhum nunca acaba.

Diego Engenho Novo

Aos fundos do Parque Quinta Normal em Santiago, há uma antiga estufa do século passado esquecida, fechada para visitação. Só é possível conhecê-la se esgueirando por baixo de uma cerca e pulando um pequeno muro. Sim, bem coisa de moleque aventureiro mesmo. Mas aquele lugar não fazia sentido pra mim visto de fora. Entrar lá, foi descobrir meu jardim secreto de uma infância que eu nunca vivi.

Ali, observando aquela abóbada de ferragens curvas, fiquei um tempo pensando nisso. Na quantidade absurda de lugares que a gente deixa de entrar, nas oportunidades que a gente perde por educação, por medo ou por bom-mocismo. No nosso distanciamento asséptico dos sentimentos, logo deles, tão urgentes em tempos tão estranhos. Não é só com você. Tá todo mundo nessa. Do lado de fora das relações.

Sei lá quando a gente começou com isso. Foi o medo de se machucar, terror do desconhecido ou apenas uma tentativa responsável de sermos emocionalmente mais inteligentes? Fato é que a gente tem observado as relações de fora, avaliando se é prudente, correto ou maduro entrar. E elas vão passando por nós, como um trem que não espera ninguém. É tomá-lo, como um caubói que abandona o cavalo, ou vê-lo partir.

Eu até acredito em sinais, em pistas, mas, certezas? Desconfie. Não estou fazendo apologia ao impulso puramente, nem advogando pela estupidez, só digo que, talvez, a gente esteja exagerando no tempo que passa do lado de fora, em nosso medo de entrar nas relações. Que temor é esse? Se tudo der errado, a saída você já é conhecida.

Já para dentro! Como diria a mãe da gente. Ficar de fora é perigoso. Entrar é perigoso. Viver é perigoso. Pra caramba. Não há caminho seguro. Vibraria o moleque que ainda mora dentro da gente. O sentir é menos exato, mas bem mais real do que o saber. Aquele que observa, pode chegar a entender, mas só quem entra pode viver os presentes que a vida graciosamente escondeu pra gente encontrar.

Essa semana tive a honra de conhecer de perto uma das atrizes brasileiras que mais admiro: Maria Alice Vergueiro. Você deve conhece-la daquele vídeo divertido, o “Tapa na Pantera”, mas posso te garantir que ela é muito mais do que isso. Ela é uma das mentes mais geniais do teatro nacional. Sou fã mesmo de carteirinha.

Perguntaram para Maria Alice como era refletir sobre a própria morte, tema central da peça pela qual tem sido ovacionada nos últimos anos – Eu parei de duvidar. Quando alguém chega e diz pra mim que gosta de mim, eu decidi não duvidar mais. Tem sido incrível isso – explicou, com a fala já mais ralentada pelo Alzheimer e pela idade avançada. A genialidade de Maria Alice se estende para além dos palcos e inunda a vida de mais vida.

Temos sido condicionados a temer o outro, duvidar do próximo, para nos mantermos sempre com os dois pés atrás, quando não distantes. A cada decepção nos fechamos um pouquinho mais, aumentamos nosso muro, nos retiramos das relações para observá-las com mais desconfiança. Em quantas pessoas você pode dizer que pode confiar? Poucas, bem poucas – muita gente repete. E isso é mérito? Sei não.

A gente duvida do afeto, põe à prova os elogios de quem nos adora, trucamos o amor de quem está sempre lá por nós. Nos acostumamos a temer as tentativas dos desconhecidos de se aproximar, dificultamos as tentativas de quem nos feriu de se reaproximar. Seguimos implodindo as estradas que nos ligam até os países fronteiriços. A ordem é fechar e perguntar depois. Duvidar e tentar depois. Dizer ‘não’ e ‘talvez’ só depois.

Talvez pudéssemos aprender um pouquinho com alguém que já viveu tanto e certamente se decepcionou na mesma proporção. No final das contas, baixar a guarda, ter um tantinho de fé, aceitar a mão estendida e o sorriso aberto, talvez possa nos levar de volta até aquele ponto do caminho do qual temos sentido falta. Eu pelo menos sinto.

Você lembra? Quando as relações eram mais honestas, próximas e descomplicadas? O mundo mudou tanto assim ou foi a gente que se trancou pra dentro de casa? É o medo que nos divide, que nos separa e que impede a gente de viver a verdade. Da próxima vez que alguém disser que te adora, faça esse exercício, apenas não duvide logo de cara. Vale o risco. E, Maria Alice, te admiro muito. Jamais duvide disso.

Eu entendo que muita gente não entenda. Quem nunca amou à distância não pode mesmo saber como é se sentir intimamente ligada a alguém que está há quilômetros, horas de voo, dias de estrada, meses de espera da gente. Essa conta não fecha, não é mesmo? Um mais um tem que ser sempre dois, embora nem sempre seja.

Idealmente o que todo mundo quer é o outro ao pronto alcance da mão para aquecê-la, um colo facilmente acessível para onde se possa correr nos dias mais difíceis, beijos estalados como vírgulas e outros demorados encerrando as frases.

Mas nem sempre dá, nem sempre é possível se apaixonar pelo garoto que mora na esquina ou a moça que trabalha no terceiro andar. Às vezes toda a nossa bagagem emocional é extraviada para um país distante. E lá vamos nós, atrás do que é nosso, tentando reunir outra vez tudo o que faz sentido pra nós, numa jornada anti-solitária.

Eu entendo que muita gente confunda meu amar à distância com um amor distante. Meu amor nunca esteve longe. Por todo esse tempo, ele sempre permaneceu em mim. E se faz tão presente quanto é possível nas mensagens, vídeos, bilhetes, surpresas, tickets de correios e passagens aéreas. Parece que o amor constrói mesmo suas pontes. E ele é capaz de obras inimagináveis a partir das miudezas que vai juntando.

Eu entendo que muita gente seja descrente. Que coloquem em xeque nossas horas conversando pelo telefone, sobre assuntos que vão da música oitentista até a saudade quase tátil que sentimos nos dias mais frios. Que pensem que eu poderia estar melhor acompanhada do que deitada com meu tablet no travesseiro ao lado para poder imaginá-lo aqui. Mas eu não posso convencê-los de nada (e nem quero!). Eu só posso dizer que sim, nós existimos, e é maravilhosamente bom agora que posso dizer isso: nós.

Às vezes o garoto por quem temos esperado metade de uma vida mora mesmo ali na esquina, só que de Hong Kong. E algo dentro de nós nos diz que é melhor ter uma pista que vem de longe do que nenhuma possibilidade aparente da existência de alguém tão adorável. Eu jamais abriria mão do que sinto agora.

Se o amor é, como dizem, uma grande viagem, nós só pegamos o caminho mais longo. Se esse não é seu caminho, apenas não o trilhe, ora. Pra mim toda a distância vira poeira quando ele abre a porta e diz me abraçando demorado – Eu estou aqui – e tudo em mim faz sentido.

Acho que de tanto manda-lo ir embora, ele se magoou. De tanto dizer da boca pra fora, um dia ele resolveu mesmo me ouvir e me deixou. Mas do meio de minhas dores fundas eu disse aquelas palavras, das quais eu mais me arrependo. Naquela noite, eu mandei o amor ir embora. E ele me atendeu. “Cuidado com o que pedes”, pensei sobre o poder absurdo das palavras.

E desde então, eu tenho conhecido muita gente. A cidade está cintilando da beleza delas. Pessoas incríveis, algumas com todas as qualidades que já me encantaram, mas que não vão muito além de um café, duas cervejas, algumas noites. Como se algo dentro de nós simplesmente não as convidasse pra entrar. Grosseria da braba. O amor foi embora e levou a chave da casa.

Eu não me sinto sozinho, desesperado ou coisa do tipo. E também não preciso que você volte, amor, é melhor do que isso: eu gostaria. E acho que também gostaria bem mais de mim hoje em dia. Adoraria que você voltasse para iluminar as paredes e o assoalho da casa de novo, como uma raspa de sol nascente.

Andaram dizendo que meu pedido é incoerente, que o amor gosta mesmo é do caos, do destempero e do improviso. Até concordo, mas acredito que ele também saiba admirar a doçura que há em amar a partir de dias serenos.

Você deve estar longe agora, observando um casal com roupas pesadas em uma fonte em Berlim, ou fazendo ondinhas em campos alagados da Tailândia para que um par se reconheça. Mas mesmo tão longe, eu espero que você possa me ouvir pedir: “Volta pra casa”. E um resto de sol derramou-se da janela pra sala.

Foto: Ben Warren

Eu estava inquieto naquela manhã. Passei rápido pra dar um beijo e raspar uma colher nas panelas da minha avó. “O que você tem que tá afobado?”, perguntou ela já achando engraçado meu bate-pé, rói-unha, ajeita-relógio. Não precisei responder. Ela me chamou no quintal e colheu uma fruta do conde direto do pé. Aquela árvore tinha a mesma idade de minha avó. Ou mais. “Come!”, me entregando, “Senta e come, devagar. Essa gastura vai passar”.

Não sei porque guardei isso por tanto tempo comigo. Não sabia, até que me lembrei disso justamente hoje, enquanto minha amiga me contava do seu último namoro-relâmpago. Você já deve conhecer essa história: um cara legal surge, vocês se adoram, algo bobo acontece, vocês se detestam, fim. Tem acontecido muito. Roteiro rotineiro dos relacionamentos afobados e pré-desgastados de hoje.

Naquela manhã, anos atrás, minha avó estava tentando me mostrar que certos momentos da vida precisam ser vividos com parcimônia ou com o mínimo de sabedoria. Não dá pra engolir uma fruta do conde inteira de uma vez, dá? Por sua própria estrutura, cheia de sementes revestidas com fruta, ela praticamente te obriga a comê-la bem devagarinho. A senti-la. A saboreá-la, parte por parte.

Ela lentamente transforma a dificuldade que é contornar o que não nos agrada em serenidade. As respostas vêm com jeito, mas principalmente vêm porque a gente se abre pra elas. É aí que o empecilho vira estímulo, a irritação vira bom humor e o insolucionável vai ficando miúdo, miúdo até poder ser contornado, até que a gente possa digerir.

Tomara que a gente nunca se esqueça disso, né? Que o amor se abastece da morosidade do entorno do tempo, na delicadeza do relevar e que a gente só aprende a fazê-lo, fazendo, teimando, deixando-nos ser contorno. Enxergar que nem tudo é problema, mas apenas nosso registro único nos tornando igualmente únicos e, com sorte, imensamente doces ao final de tudo.