medo

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Não pese sua mão sobre meus dedos, não pese, por favor, seus pés sonolentos sobre os meus. Não pese sua coxa tesa sobre as minhas. Encoste em mim, mas não se deite. Dai-me ar, dai-me combustível para querer-te mais. Só não pese seus olhos sobre meu olhar, não sufoque meu beijo com sua fome. Beijo não se pede, minha querida, beijo se perde.

Eu sei que é difícil encontrar a medida, entre bem querer e querer tudo ou nada. Eu sei que é frágil a ladeira que incita para se chocar no outro como um carrinho infantil e sem freio. Há avisos por toda parte, sinalização por toda a via, mas você os evita, você ignora o que não lhe interessa. Mas no fundo, todos os avisos, todos os sinais, também sou eu.

Não vou carregar, não vou mais levar suas mágoas. Não pese seus braços sobre meus ombros, chamando-me de meu bem. Não pese seus sonhos com minhas medidas, meu passo já é largo na direção oposta aos teus. Não pese meus ouvidos com suas palavras de culpa, não pese minha solidão com seu incômodo em viver a sua. Toma-me por teu e no instante seguinte eu serei completamente outro. Como a mulher-gorila em metamorfose: a incrível Monga.

Eu sei que algum dia sua paciência vai acabar e você observará a casa em chamas do lado de fora. Eu rezo por isso. Queime tudo, meu amor. Quem sabe as chamas te iluminem também. Eu queria que você soubesse que havia amor por toda parte, afeto em todas as pausas, verdade em toda a leveza que te pedia e te oferecia.

Mas não é isso o que você quer. Você quer meu corpo sobre o seu como um peso de papel, meu afeto sob o seu como a sombra de uma nuvem. Se quer algo para chamar de seu, voilà. Mas não peça a ninguém para carregar teus pesos. O que você quer, minha querida, ninguém pode te dar. Eu tentei ser contigo, não teu. Agora nem isso mais é possível. Não pese na minha saída.

Aos fundos do Parque Quinta Normal em Santiago, há uma antiga estufa do século passado esquecida, fechada para visitação. Só é possível conhecê-la se esgueirando por baixo de uma cerca e pulando um pequeno muro. Sim, bem coisa de moleque aventureiro mesmo. Mas aquele lugar não fazia sentido pra mim visto de fora. Entrar lá, foi descobrir meu jardim secreto de uma infância que eu nunca vivi.

Ali, observando aquela abóbada de ferragens curvas, fiquei um tempo pensando nisso. Na quantidade absurda de lugares que a gente deixa de entrar, nas oportunidades que a gente perde por educação, por medo ou por bom-mocismo. No nosso distanciamento asséptico dos sentimentos, logo deles, tão urgentes em tempos tão estranhos. Não é só com você. Tá todo mundo nessa. Do lado de fora das relações.

Sei lá quando a gente começou com isso. Foi o medo de se machucar, terror do desconhecido ou apenas uma tentativa responsável de sermos emocionalmente mais inteligentes? Fato é que a gente tem observado as relações de fora, avaliando se é prudente, correto ou maduro entrar. E elas vão passando por nós, como um trem que não espera ninguém. É tomá-lo, como um caubói que abandona o cavalo, ou vê-lo partir.

Eu até acredito em sinais, em pistas, mas, certezas? Desconfie. Não estou fazendo apologia ao impulso puramente, nem advogando pela estupidez, só digo que, talvez, a gente esteja exagerando no tempo que passa do lado de fora, em nosso medo de entrar nas relações. Que temor é esse? Se tudo der errado, a saída você já é conhecida.

Já para dentro! Como diria a mãe da gente. Ficar de fora é perigoso. Entrar é perigoso. Viver é perigoso. Pra caramba. Não há caminho seguro. Vibraria o moleque que ainda mora dentro da gente. O sentir é menos exato, mas bem mais real do que o saber. Aquele que observa, pode chegar a entender, mas só quem entra pode viver os presentes que a vida graciosamente escondeu pra gente encontrar.