Crônicas

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Se tinha um negócio sério quando eu era criança era o tráfego – pra não dizer tráfico mesmo – de tupperwares. Sabe, aquelas vasilhinhas de guardar comida? Ela vinha da casa da vizinha com o cozidão da noite anterior. Depois voltava cheia de arroz doce. Arrependida, vinha a vasilhinha trazendo uns destroços do churrasco. Durava pouco e já voltava com a pamonha que vovó tinha trazido do sítio.

Se tinha um negócio sério, era o prazo de devolução. Tupperware, mesmo as mais improvisadas, tinha que voltar sem demora ou a dona ia buscar. Fosse pote de margarina, fosse a memória plástica do sorvete, fosse uma desdentada florida e sem tampa, tinha que voltar. E cheia. Questão de honra, educação, pensava eu.

– Pega, filho, leva esse feijão na Ceci – e eu me irritava de ter que parar o jogo pra dar asas a outra procissão de vasilhas. Não entendia porque raios minha mãe tinha que mandar comida pra vizinhança toda, sem ninguém ter pedido. Não era exatamente precisão. Todo mundo tinha uma vida simples, mas as vasilhinhas sempre voltavam recheadas, mesmo que já fossem fruto de uma terceira devolução.

Ia assado, voltava doce. Ia cozido, voltava fruta da estação. Ia pão, voltava, farofa. Iam e voltavam, iam e voltavam, infinitas, cúmplices e silenciosas. Demorei pra sacar, demorei pra entender que não era iogurte caseiro, coalhada recente, empadão de domingo, mas cuidado. Demorei pra sacar que não era macarronada sendo trocada por brigadeiro, nem polpa de acerola escambada por feijão tropeiro, era amor, era nobreza que minha mãe e suas amigas faziam caber naqueles potinhos. Era o melhor dos dizeres não ditos: penso sempre em você, com carinho, na doçura dos dias mais banais.

Diego Engenho Novo


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– Moço, você esqueceu seu livro – veio correndo a senhora com um monte de sacolas, esbaforida, até a porta do metrô. Eu agradeci e disse que não tinha esquecido, mas que tinha soltado o livro. Ela ficou ali embasbacada sem saber o que fazer com aquilo, aquilo que eu tinha esquecido de proposito para que outra pessoa encontrasse e fizesse melhor proveito.

Ela me olhava como se eu fosse um marciano enquanto o metrô se afastava da estação Pinheiros. Eu a entendo. A gente não foi mesmo educado pra libertar, coisas e pessoas. Se há amor, há de ser pra sempre nosso. Se há apego, há de estar pra sempre com a gente. E assim vamos colecionando pessoas e livros que não nos servem de nada, que não nos emocionam mais, para quem não damos tempo, atenção. Pessoas por quem passamos os olhos diariamente, mas não lemos.

Assim como o livro, você jura diariamente que amanhã terá um tempo pra ela, jura que vai mergulhar nela, mas sua promessa rasa não carrega nada além de apego e culpa. Culpa danada. A organizadora oriental Marie Kondo costuma dizer que se você não leu um livro de cabo à rabo quando o comprou, provavelmente não o lerá nunca mais. De igual modo, pessoas também vão ficando empoeiradas, também perdem o sentido, também são acumuladas na rotina diária. Triste, triste.

A gente guarda mesmo, pessoas e livros que não têm nada a ver com a gente porque aprendemos que tudo que cruza nosso caminho precisa ser nosso. Mesmo que não faça nenhum sentido, como colecionar pedras ou engaiolar pássaros. Você ama mesmo essa pessoa que amanhece contigo todos os dias ou só está com ela porque se acostumou? Você a ama ou só teme que alguém seja mais feliz com ela? Você a ama ou promete todos os dias que vai amá-la direito amanhã? Poeira que é lágrima em pó, acúmulo de tristeza.

E assim, ambos vão ocupando um espaço danado onde poderia habitar justamente a felicidade do outro. Olhe à sua volta, para as pessoas e livros, se elas não fazem mais sentido, se não há mais amor, talvez seja a hora de soltá-las, de esquecê-las carinhosamente para que outra pessoa as possa encontrar pelo caminho.

Diego Engenho Novo


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Eu não posso pedir que você fique, não em meio a essa bagunça, não sob os escombros do peso que carrego agora, não justo agora em que vivo meus piores dias. Pedir para você ficar seria muito, muito egoísta e eu jamais poderia admitir o quão realmente sou. Dizer que eu adoraria que você ficasse é o mesmo que pedir para que fique um pouco mais? Sem drama, sem drama – diz minha mente, mentindo novamente.

Mas eu não posso prometer que vai melhorar, que serei mais leve amanhã, que teremos dias tranquilos adiante. Você foi toda a luz que vi nos últimos dias, mas isso não me dá o direito de me agarrar como se ela fosse a última, minha última chance. É por isso que te abraço tão demoradamente. Eu comecei a perde-lo no dia em que te conheci.

Então é isso: você não me ouvirá pedindo, não me verá chorando, sem drama, sem drama – comumente mentindo. Para todos os efeitos estarei sorrindo. Como se não fosse nada, como se não doesse um tanto, como se eu já não estivesse apegado demais para simplesmente seguir em diante. Eu dou um passo covarde e apenas rezo para que você dê o próximo, para que você seja mais forte, porque não sei se sou.

Eu jamais poderia pedir para você ficar. Não sei se isso seria amar direito. Não com tudo caindo à minha volta, não com minhas mãos ainda trêmulas, não com tantas feridas abertas que ferem de volta. Eu sou um rio de medos e jamais pediria pra você entrar. Dizer que vou sentir sua falta é o mesmo que pedir pra você não ir? Vá, mas vá logo. À vida, o que há de ser feito, feito. Disso meu amor já deveria entender bem mais.

Diego Engenho Novo


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Amar, Modo de Usar

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Sobre o livro

Amar, Modo de Usar
Com leveza e delicadeza, Diego Engenho Novo trata da complexidade dos relacionamentos nos dias de hoje através de 110 crônicas inspiradoras.

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Se eu pudesse dar um conselho hoje, eu apenas diria: aproveita! Porque a gente se distrai mesmo das pessoas que já foram o centro do nosso coração errante. A gente se distrai delas, seja através do estranhamento calcado diariamente, por decepção violenta, seja porque naturalmente é da gente um dia também se distrair da dor.
 
A gente se distrai tomando a triste ciência de que tem gente que abusa do afeto. Eu entendo: há gente que aprendeu que as relações são assim, amensalistas, um dando-se para o tomar constante do outro. Há gente que cresceu em lares pouco afetuosos, há gente que foi endurecendo-se pela crueza da vida.
 
Há gente que foi ficando assim sem perceber, mas a partir do momento que eu percebo, cabe a mim escolher: permanecer ou não nesse tipo de laço, como aquele que sempre perde um pouco mais, como aquele que perdoa mais uma vez a falta de cuidado, como aquele que sempre é sugado para o caos alheio, envolvido por laços que mais parecem embaraços constantes. Eu não posso ser mais essa pessoa para ninguém. Foge-me o tempo, urge-me a pressa de relações mais verdadeiras, de pessoas mais verdadeiras inclusive para si mesmas.
 
Triste ou naturalmente, a gente também se distrai de quem nessa vida só nos foi amor. Demora um tantinho mais, não vem vestido nas formas ácidas do amargor, mas acontece. A gente se distrai do estar à volta delas tomando um avião, um caminho diferente que só nossos pés compreendem. Então aproveita, ama no tempo da pureza, olha demoradamente enquanto a beleza ainda está lá para ser vista. Porque a vida distrai a gente das pessoas. Das que nos fazem bem e das que não fazem a menor diferença.
 
Para quem me é benção ou para quem só faz bem para si, eu só digo uma coisa: aproveita. Para a vida ou para a curva distraída que a finda, nós um dia nos distrairemos um do outro. Uns guardo comigo como o bem que também me foram. Outros, apenas como pessoas que se vão entre uma distração e outra.
Diego Engenho Novo

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Deu match. Foi assim que começaram a conversar. Como se o destino soubesse programar encontros. Era véspera do Dia do Namorados e, embora ambos não ligassem muito pra esse lance de datas, decidiram sair para tomar alguma coisa. Dois desconhecidos, apartando um pedacinho da solidão um do outro. Parecia funcionar após alguns minutos – Queria te propor algo meio doido – coisa que ele adorou ouvir – Quer namorar comigo? Quer dizer…. Não pra sempre, só por vinte e quatro horas e depois cada um segue como chegou -Aceitou. Parecia divertido tentar algo novo.
 
Naquele dia, não fizeram nada especificamente para agradar o outro. Apesar do combinado, limitaram-se a serem divertidos para si mesmos. Cientes que provavelmente não se veriam mais, conversaram sobre todos os assuntos absurdos preferidos, sem restrições, com direito a todos os palavrões que só apareciam quando convidados pelas quinas das mesas. Gesticulavam sem elegância, riam sem pudor, comeram e repetiram. Uma vergonha. Um não precisava conquistar o outro e foi aí que tudo deu errado.
 
Em poucas horas, aquele cheiro também tinha gosto. Aquele beijo já despejava lembranças. Aquele abraço já se abria com certa dificuldade. Um não queria se perder do outro. Gostava do jeito debochado dela. Amava o humor ácido dele. Queria aquela fome desesperada em seus cafés da manhã. Queria aproveitá-lo como se jamais fosse ter tempo para machucá-lo, decepcioná-lo, parti-lo ao meio.
 
Dormiram juntos, sem necessidades tesas. Apenas ficaram ali por um tempo, amortecidos pela preguiça do outros. Às vezes um pé encontrava o outro pé, às vezes um braço se jogava envolvendo as costelas. Era estranho ir para a cama com um desconhecido e sentir um dos maiores prazeres que existem na vida: a falta de pressa. Doeu por dois segundos saber que iria perde-lo, sem tê-lo. Suspirou ao se imaginar da porta pra fora sem o pendurar-se dela em suas costas.
 
Amanheceram como se fosse domingo, beijaram-se como se fosse o primeiro dia em um país distante, e, puxando-a pelo braço, levou-a até sua última parada, na última hora em que seriam namorados. Mostrou seu lugar alto preferido, de onde se via as antenas da cidade, os ônibus enfileirados, a solidão das janelas. Deram seu último beijo e, sem ela, desceu sozinho, voltou a ser multidão.
 
 
Diego Engenho Novo


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Miguel e Emma têm um ritual bem diferente de muitos casais que já conheci. Vez ou outra, os dois se trancam em casa e aí, você já deve imaginar o que acontece. Nada. Isso mesmo, nadinha. Eles descobriram que ambos poderiam ficar sozinhos, inclusive quando juntos. Sem pavor, sem estranheza, sem achar que o outro desamou. Apenas um tempo que é nosso dentro do nosso tempo a dois.
 
Emma atravessa a casa de meias e sua camisetona preferida dos Rolling Stones. Somente o som da chaleira dança pela casa enquanto Miguel ainda dorme. Se espreguiça demoradamente e depois rouba um biscoito de si mesma. Ela se afunda no sofá e, agarrada com um livro, recebe um beijo na testa. Ele acordou.
 
Ao fundo, faz seus milhares de barulhos de homem, mas logo também se aquieta. Miguel adora jogar. Antes de se enfiar entre milhares de tiros fictícios, ele pega um copo gigante de gelo com coca e faz um sanduiche que aprendeu com a mãe. Quando bate saudade, Emma entra discretamente e lhe beija os ombros. Ela já descobriu que há jogos que não se pode pausar.
 
Para quem entende que casais precisam se divertir sempre juntos e acha um absurdo duas pessoas que se amam ocuparem o mesmo espaço sem necessariamente estarem focadas uma na outra, isso pode soar bem estranho. Mas quando conheci os dois isso me fez muito sentido. Eu só podia pensar em como queria um dia ter um amor assim. Eu jamais me sentiria menos amado.
 
Sem culpa, sem angústia, eles simplesmente descobriram que ficavam bem assim também às vezes. Jamais confunda isso com abandono, com solidão acompanhada, com casais que se apagam um pro outro, que começam a se desviar pelos cômodos.
 
O maior prazer deles era se encontrar, como desconhecidos que se conquistam numa festa que é só deles e depois seguirem. O amor deles cresceu tanto que perdeu a pressa, tornou-se maduro, perene como um lago antigo. Um dia eu também quero encontrar alguém com quem possa ficar feliz sozinho.
 
Diego Engenho Novo

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Lucas encontrou Marina após alguns meses que haviam terminado. Ela estava linda, com um olhar sereno, feliz. Ele não. Pensou em dizer mil coisas, das centenas de milhares que sentia, mas ateve-se a dizer que estava bem. Me contou isso com certo orgulho por ter vencido o drama, a falta que sentia dela. Tentei alertá-lo de que aquilo não era exatamente vitória. Ele havia perdido. Havia perdido a chance de vivenciar quando as coisas são realmente ditas.

Não acho que dizer que sentia a falta dela seria minimizá-lo, reduzi-lo ou descambar pro risco de se reaproximarem. Mas o que é sentido precisa ser dito. Ele mora ali por algum motivo, como um velhinho com sua casa de palha à beira da estrada. Talvez ela precisasse ouvir, talvez ele precisasse se ouvir dizer pra finalmente esquecer, mas fato é que o sentimento estava vivo e ele simplesmente o amordaçou. Com a tristeza de um carro alegórico passando em silêncio.

Manu e Léa, conheci em um evento recente de lançamento do meu livro. O fato de estarem juntas na mesma frase dá pistas de que tudo deu certo entre elas, mas poderia não ter dado. Se conheceram em uma festa. Se olharam, se beijaram, riram por alguns minutos, até que Manu disse que tinha que ir, que a noite ainda estava só começando para as duas, que deveriam beijar outras pessoas. O velho cálculo falho da quantidade em troca da qualidade.

No dia seguinte, Léa a escreveu dizendo que havia ficado triste com o desfecho da noite. Que não queria mais procurar ninguém. Havia a encontrado. Que não pediu que ela ficasse porque pareceria falta de amor próprio, pedir para o outro ficar. Manu esclareceu, que pensou em pedir para ficar, mas imaginou que uma guria tão linda quanto a Léa, estaria interessada em conhecer outras pessoas na festa. Aí sim, alguma falta de autoestima.

Houve tempo, ainda que tardio, para as coisas serem ditas. Sempre há. Mesmo que se passe um mês, dois anos, uma vida inteira. Algumas palavras brotam para serem entregues e nós seguimos carregando dizeres dentro da gente que não são nem nossos – Você me desculpa? Como eu fui tonta – disse, Manu – Não se desculpe. Eu não fiquei triste com você. Eu fiquei triste sem você – e dito, isso também não pertencia mais a ela.

Diego Engenho Novo


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Tânia buzinou em frente ao café. Entrei e rapidamente engatamos um assunto. Ela estava tendo problemas por causa da teimosia tardia dos pais idosos. Íamos conhecer o sítio que ela acabara de comprar. Sonho antigo. Lá pelas tantas, já na marginal, o painel do carro dela começou a apitar insistentemente – Ele me avisa toda vez que eu ultrapasso a velocidade permitida. Avisa quando eu passo do ponto – riu, Tânia, suavizando o pé do acelerador.

Onde compra? Eu queria um desses pra levar pra vida. Um que avisasse quando a gente está levianamente machucando quem é do amor da gente. Um que apitasse sempre que as palavras fossem duras de mais. Um que parasse o princípio de todo arrependimento, o falar mais que a boca, sem passar pelo filtro do coração. Já notou como a gente costuma ser duro justamente com quem mais merecia nossa candura, nossa paciência? Erro brutal de condução.

Todas as intensidades, diante do amor, se tornam um tanto mesmo desmedidas. O que nem incomodava ver, fere as vistas. O que nem importava ouvir, ofende o baço. O que todos sempre disseram parece de uma arbitrariedade sem precedentes vindos justamente de quem mais se preocupa com o bem da gente.

Acontece que na mistura da posse, no afã de defender nossos tantinhos de autoestima, incoerentemente, somos monstruosos justo com quem queríamos ser os melhores. Não queremos que ele veja nossas feiurinhas e isso o afasta também de nossa beleza.

Nessas horas, um sinal vindo do painel seria bem-vindo – Ei! Você está exagerando! – E a gente instantaneamente se lembraria que o amamos tanto, que temos nele nosso melhor amigo, que seu medo é proteção, que nosso orgulho nem estaria tão ferido se aquela fosse a opinião do Seu João da padaria. A gente é mesmo muito doida e mesmo assim ele nos ama, aguenta nossas patadas, releva nossos rompantes, mas, até quando? Por hoje, serei eu o seu sinal.

Diego Engenho Novo


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Leia ouvindo isso

Saí sozinho naquela manhã. Há duas manhãs nosso acampamento amanhecia cercado por pegadas felinas. Uma onça curiosa passava a noite fuçando entre as barracas. Apesar disso, saí sozinho naquela manhã, com a sensação de que não corríamos perigo. Sua espreita era inocente, quase moleca. Eu queria vê-la. Segui uma estrada de areia fininha e depois, virei à esquerda numa trilha, por onde caminhei por alguns minutos. Entrei na mata. Era para onde seguiam as pegadas.

Conforme a mata ia se fechando como um abraço que tenta calar, meu coração acelerava. Agora sim, estava com medo. O que é que eu tinha na cabeça? E se aquele bicho me encontrasse também? E se aquelas pegadas fossem dar em algum lugar? E se eu morresse? Coração a mil. Um som vindo da mata interrompeu meus pensamentos. Algo grande se movia entre as folhagens. Mais e mais perto. Era ela. Tinha vindo ao meu encontro. Tenha com o que pedes o mesmo cuidado com o que ofereces.

E a cada aproximar-se certeiro, meu peito parecia querer explodir. Toda a minha busca ali, me encontrando. Que inocência de minha parte acreditar que a busca não gera encontros, o medo não gera perigo. As perguntas amamentam as respostas. Parei e esperei o inevitável. Poderia tentar lutar. Peguei um pau, um galho, fechei os punhos, cerrei os dentes, arregalei os olhos. Era a própria morte costurando a mata. Revelaram-se então quatro porquinhos do mato. A da frente era a maior e a mãe. Em linha reta, cruzaram a trilha e pararam por um segundo para indagar minha presença estranha.

Ajoelhei-me e chorei copiosamente. De alívio, depois de gratidão, depois compreensão. Chorei com a mão da vida sobre meus ombros, dizendo que mesmo nossos rompantes impulsivos, mesmo nossa arrogância desmedida, mesmo nossos maiores medos não eram páreos para a sabedoria que apazígua. Se o peito é puro, se o ímpeto é correto, se a honestidade é nossa amiga, é a bondade que rege todos os acontecimentos. A vida vai trocando com a gente: amor pela capacidade de ser amado, servidão por generosidade, curiosidade pelas surpresas mais doces. Trilhe sem medo. Saía da trilha.

Diego Engenho Novo


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