Crônicas

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Foto: Brooke Cagle

Desculpa chegar, depois de tanto tempo, como se ele, o tempo, não tivesse atravessado à nossa frente, forasteiro. Como se muitas noites não tivessem me feito companhia antes dessa. Como se eu não tivesse, por tantas vezes, inventando caminhos e motivos novos para não passar à sua porta. É engraçado cultivar esse quase medo dos lugares onde a gente foi tão feliz.

Talvez você nem more mais no número dois-sete-meia da avenida. Depois de tantos meses daria pra você ter se mudado de país e aprendido outra língua, daria pra você ter largado o escritório e se tornado cuidador de cavalos. Todo esse tempo seria suficiente para abraçar uma vida, embora não tenha sido suficiente ainda pra mudar o que sinto por você.

“Só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto”

E quando o interfone tocar, ao contrário de meses atrás, minha imagem não será seu primeiro pensamento. Poderia ser uma reclamação mal-humorada vinda do andar debaixo, a entrega da comida que sempre chega fria mesmo vinda da esquina, ou um amigo pedindo sofá para se curar da bebida. Mas dessa vez, querido, quando o interfone tocar, serei eu, me convidando outra vez para entrar na sua vida. Eu em minha eterna entrega pra tudo que vem de você.

E naqueles dois segundos após o abrir da porta, serão meus olhos inundando você num misto de curiosidade, saudade, dúvida e dívidas. As marcas de sol que revelam mais idas ao litoral, os cabelos por cortar mostrando que você está mergulhado em seu novo livro, uns quilos a mais contando de suas idas acompanhado ao restaurante que a gente adorava, uns quilos a menos dedurando que você finalmente tirou seu plano da gaveta de aprender a correr. Eu sei que é horrível dizer, mas sim, seria respeitoso da sua parte não ter vivido maravilhosamente bem sem mim.

E meio que sem jeito eu tentaria parecer confortável, e desconfortavelmente tentaria transparecer uma paz que não tenho, desde que nos despedimos pela última vez. E depois de tantos meses eu voltaria com algo seu embaixo do braço como desculpa, só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto. Porque foi exatamente assim que me apaixonei por você.

Diego Engenho Novo

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Olhei para a falta uma última vez. Havia muitos dias que toda a minha atenção era só dela. Mimada. Minha vida inteira tornou-se um ato lento e morno de sobreviver, de passar pelos dias, um ensaio gordo de dormir, trabalhar, comer e esperar. Mas a grande verdade é que depois que adultecemos, ninguém mais vem. É preciso acordar para o fato irremediável de que se a gente não vai, se a gente não parte, se a gente simplesmente se senta e espera, ela nos engole. Ela, mesma: a falta.

O inverno acabou, as janelas estão postas, famintas pelo novo. Nessa manhã, testei meus dedos dos pés no ar, sentado na cama, ainda sem pisá-los no chão. Ensaiei o primeiro passo e depois o segundo, que é sempre o mais difícil. Logo em seguida, passei um café como minha avó fazia. Café daqueles que desperta a alma.

Arranquei duas folhas do caderno antigo. Escrevi com a pressa de quem compõe, duas listas. Eu adoro listas. São como compromissos com minhas próprias manias. Enfileirei primeiro o que gosto de fazer. Tudo aquilo que não é sobreviver. Que é banal, que é prazer, que só faz sentido pra mim. Tudo aquilo que sou quando não estou concentrado na falta que sinto de nós.

“Abandono apenas a falta. Que imobiliza, que atrofia, que impede a gente de perceber a existência inata e certeira de nossa melhor companhia”

Eu gosto de sair de casa para ler, de dormir de rede, de comer em portinhas, de dizer para meus amigos que os amo em horas impróprias, de ajudar desconhecidos. Eu gosto do som da orquestra afinando, de bisbilhotar lugares até então ocos de sentido, bagunçar meus horários no final de semana, eu gosto de cheirar o mar.

Enfileirei depois, na folha segunda, tudo aquilo que ainda gostaria de experimentar. E lá estava uma folha inteira de curiosidades bobas para serem vividas, de conhecimentos desnecessários que me encantavam, de viagens que eu nem mesmo sabia se poderia pagar, mas que estavam ali, endereçados ao universo imenso que sou quando quero muito qualquer coisa. Lá também estavam todas as frutas que só conheço por nome, minha ida ao planetário adiada, o restaurante que me convida sempre que passo na calçada.

Lá estava outra parte de mim que andava soterrada pela falta: minha vontade imensa de ir ver, de viver. Sua saudade será sempre sentida, nossas memórias serão sempre cultivadas. Sigo sentindo saudade, tendo visões travessas do seu cheiro pela casa. Abandono apenas a falta. Que imobiliza, que atrofia, que impede a gente de perceber a existência inata e certeira de nossa melhor companhia.

Diego Engenho Novo

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Meus avós costumavam contar que antigamente, quando ainda não existia eletricidade nas casas, e combustível para as lamparinas era artigo raro, a pouca luz que se tinha em casa era regrada. À noite, as pessoas apenas se aquietavam.

Mas quando ia se fazer uma visita ou levar um agrado, a luz da lamparina que iluminava o caminho, que clareava a estrada, era recebida pela casa com as seguintes palavras: “Bem-vindo você que trouxe luz para essa casa”. Eu sempre adorei essa história.

E o que é o amor se não isso, luz trazida de longe para iluminar a gente por dentro? Basta olhar para ver como os amantes se iluminam mutuamente. Em uma medida rara, são o ascender dos sonhos do outro, o aquecer da candura do outro, a centelha que generosamente se multiplica em nome do outro, sem esforço desproporcional, sem anulação. Iluminam, um ao outro, apenas existindo.

E nos momentos difíceis, em que nos perguntamos se o amor vale mesmo todos os desafios, a conta é fácil: se há respeito pela grandiosidade do outro, vale. Se há generosidade de aguardar o tempo de maturação da calma do outro, vale. Se após a tempestade, vem a doçura se assentando no horizonte, ainda que tomada emprestada das memórias, vale.

Vale porque, muito além do que se abre mão, há tudo que se ganha sendo dois. Ganha-se um colo que não exige pressa, pés que entrelaçados nos situam na noite, olhos que entrelaçados nos aprumam no dia. Ganha-se um parceiro sem julgamento para os domingos preguiçosos, uma voz que acalma em meio à rotina, um riso pela casa que também faz rir.

Ganha-se na espontaneidade de quem rima com seu jeito sem ensaio, ganha-se em silêncios que se respeitam, orgulhos que se põem de lado em espera, beijos paliativos, conversas que não se despedem. Ganha-se mãos que encorajam, interesse para os seus assuntos sem nexo preferidos, intimidade deliciosamente conquistada, ganha-se compreensão. Ganha-se o estado constante de estar-se iluminado pela existência do outro.

Diego Engenho Novo

 

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Outra vez cheguei atrasada, errei o caminho, comi errado, fumei cigarros demais. Falei pelos cotovelos de segredos não meus, fugi da quinta academia, comprei roupa para depois caber-me, paguei com dinheiro que não tenho. Outra vez esqueci de ser grata, falei que amava quem nem conhecia, bebi demais, outra vez incapaz de dar-me limites.

Outra vez acordei sozinha, protelei minhas plantas, fui seca com o porteiro, menti sem necessidade, me justifiquei pra quem nem se importava. Outra vez antecipei as escolhas, deixei de ser culta para ser preguiça, outra vez descontei na comida.

Outro dia sem grandes conquistas, quando dentes limpos, roupas sujas. Quando roupas estendidas, cama por fazer. Quando cama em branco, cabelos por lavar. Quando me senti mais bonita, ninguém notou. Outra noite com comida de plástico, bebida de caixa, louça suja vitoriosa, imponente. Quase que um outro país. Outra noite dormi tarde demais, acordei atrasada, nenhuma conquista.

Peguei a roupa que não me cabe, os sapatos que me deram sem amor e saí ouvindo a música já mil vezes repetida. Na bolsa me observa o livro que não leio solitária e bonita pela janela do metrô. Outro dia de trabalho, adoece mas paga as contas, compra meus remédios e etiqueta minhas comidas. E a vida se vai, falha, errante, desconexa, débil de sentido, colérica, engordativa.

E eis, que uns dias estou à beira da deriva, à véspera do choro, e algo bonito me acontece. Encho-me de sentido, frio na barriga, apaixono-me de novo. Comerei para celebrar. E é aí que percebo que a vida nada mais é do que tédio bordado, vezes de dor, vezes de doçura; vezes de amor, outras de loucura; vezes de futilidade, outras de solidão; vezes de perder o sentido, outras de encontrá-lo.

Outra vez cheguei atrasada, errei o caminho. Talvez amanhã. É. Quem sabe amanhã vive-se direito? Hoje, não deu. Beberei a isso, fumarei a isso e comerei para não beber de estômago vazio. Enfim, algo certo.

Diego Engenho Novo


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Se tinha um negócio sério quando eu era criança era o tráfego – pra não dizer tráfico mesmo – de tupperwares. Sabe, aquelas vasilhinhas de guardar comida? Ela vinha da casa da vizinha com o cozidão da noite anterior. Depois voltava cheia de arroz doce. Arrependida, vinha a vasilhinha trazendo uns destroços do churrasco. Durava pouco e já voltava com a pamonha que vovó tinha trazido do sítio.

Se tinha um negócio sério, era o prazo de devolução. Tupperware, mesmo as mais improvisadas, tinha que voltar sem demora ou a dona ia buscar. Fosse pote de margarina, fosse a memória plástica do sorvete, fosse uma desdentada florida e sem tampa, tinha que voltar. E cheia. Questão de honra, educação, pensava eu.

– Pega, filho, leva esse feijão na Ceci – e eu me irritava de ter que parar o jogo pra dar asas a outra procissão de vasilhas. Não entendia porque raios minha mãe tinha que mandar comida pra vizinhança toda, sem ninguém ter pedido. Não era exatamente precisão. Todo mundo tinha uma vida simples, mas as vasilhinhas sempre voltavam recheadas, mesmo que já fossem fruto de uma terceira devolução.

Ia assado, voltava doce. Ia cozido, voltava fruta da estação. Ia pão, voltava, farofa. Iam e voltavam, iam e voltavam, infinitas, cúmplices e silenciosas. Demorei pra sacar, demorei pra entender que não era iogurte caseiro, coalhada recente, empadão de domingo, mas cuidado. Demorei pra sacar que não era macarronada sendo trocada por brigadeiro, nem polpa de acerola escambada por feijão tropeiro, era amor, era nobreza que minha mãe e suas amigas faziam caber naqueles potinhos. Era o melhor dos dizeres não ditos: penso sempre em você, com carinho, na doçura dos dias mais banais.

Diego Engenho Novo


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– Moço, você esqueceu seu livro – veio correndo a senhora com um monte de sacolas, esbaforida, até a porta do metrô. Eu agradeci e disse que não tinha esquecido, mas que tinha soltado o livro. Ela ficou ali embasbacada sem saber o que fazer com aquilo, aquilo que eu tinha esquecido de proposito para que outra pessoa encontrasse e fizesse melhor proveito.

Ela me olhava como se eu fosse um marciano enquanto o metrô se afastava da estação Pinheiros. Eu a entendo. A gente não foi mesmo educado pra libertar, coisas e pessoas. Se há amor, há de ser pra sempre nosso. Se há apego, há de estar pra sempre com a gente. E assim vamos colecionando pessoas e livros que não nos servem de nada, que não nos emocionam mais, para quem não damos tempo, atenção. Pessoas por quem passamos os olhos diariamente, mas não lemos.

Assim como o livro, você jura diariamente que amanhã terá um tempo pra ela, jura que vai mergulhar nela, mas sua promessa rasa não carrega nada além de apego e culpa. Culpa danada. A organizadora oriental Marie Kondo costuma dizer que se você não leu um livro de cabo à rabo quando o comprou, provavelmente não o lerá nunca mais. De igual modo, pessoas também vão ficando empoeiradas, também perdem o sentido, também são acumuladas na rotina diária. Triste, triste.

A gente guarda mesmo, pessoas e livros que não têm nada a ver com a gente porque aprendemos que tudo que cruza nosso caminho precisa ser nosso. Mesmo que não faça nenhum sentido, como colecionar pedras ou engaiolar pássaros. Você ama mesmo essa pessoa que amanhece contigo todos os dias ou só está com ela porque se acostumou? Você a ama ou só teme que alguém seja mais feliz com ela? Você a ama ou promete todos os dias que vai amá-la direito amanhã? Poeira que é lágrima em pó, acúmulo de tristeza.

E assim, ambos vão ocupando um espaço danado onde poderia habitar justamente a felicidade do outro. Olhe à sua volta, para as pessoas e livros, se elas não fazem mais sentido, se não há mais amor, talvez seja a hora de soltá-las, de esquecê-las carinhosamente para que outra pessoa as possa encontrar pelo caminho.

Diego Engenho Novo


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Eu não posso pedir que você fique, não em meio a essa bagunça, não sob os escombros do peso que carrego agora, não justo agora em que vivo meus piores dias. Pedir para você ficar seria muito, muito egoísta e eu jamais poderia admitir o quão realmente sou. Dizer que eu adoraria que você ficasse é o mesmo que pedir para que fique um pouco mais? Sem drama, sem drama – diz minha mente, mentindo novamente.

Mas eu não posso prometer que vai melhorar, que serei mais leve amanhã, que teremos dias tranquilos adiante. Você foi toda a luz que vi nos últimos dias, mas isso não me dá o direito de me agarrar como se ela fosse a última, minha última chance. É por isso que te abraço tão demoradamente. Eu comecei a perde-lo no dia em que te conheci.

Então é isso: você não me ouvirá pedindo, não me verá chorando, sem drama, sem drama – comumente mentindo. Para todos os efeitos estarei sorrindo. Como se não fosse nada, como se não doesse um tanto, como se eu já não estivesse apegado demais para simplesmente seguir em diante. Eu dou um passo covarde e apenas rezo para que você dê o próximo, para que você seja mais forte, porque não sei se sou.

Eu jamais poderia pedir para você ficar. Não sei se isso seria amar direito. Não com tudo caindo à minha volta, não com minhas mãos ainda trêmulas, não com tantas feridas abertas que ferem de volta. Eu sou um rio de medos e jamais pediria pra você entrar. Dizer que vou sentir sua falta é o mesmo que pedir pra você não ir? Vá, mas vá logo. À vida, o que há de ser feito, feito. Disso meu amor já deveria entender bem mais.

Diego Engenho Novo


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Amar, Modo de Usar

R$ 30,00

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Como comprar

Para adquirir o seu ou tirar suas dúvidas, escreva para loja@palavracronica.com.br ou clique aqui.  Pagamento via depósito, transferência bancária ou PayPal.


 

Sobre o livro

Amar, Modo de Usar
Com leveza e delicadeza, Diego Engenho Novo trata da complexidade dos relacionamentos nos dias de hoje através de 110 crônicas inspiradoras.

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Se eu pudesse dar um conselho hoje, eu apenas diria: aproveita! Porque a gente se distrai mesmo das pessoas que já foram o centro do nosso coração errante. A gente se distrai delas, seja através do estranhamento calcado diariamente, por decepção violenta, seja porque naturalmente é da gente um dia também se distrair da dor.
 
A gente se distrai tomando a triste ciência de que tem gente que abusa do afeto. Eu entendo: há gente que aprendeu que as relações são assim, amensalistas, um dando-se para o tomar constante do outro. Há gente que cresceu em lares pouco afetuosos, há gente que foi endurecendo-se pela crueza da vida.
 
Há gente que foi ficando assim sem perceber, mas a partir do momento que eu percebo, cabe a mim escolher: permanecer ou não nesse tipo de laço, como aquele que sempre perde um pouco mais, como aquele que perdoa mais uma vez a falta de cuidado, como aquele que sempre é sugado para o caos alheio, envolvido por laços que mais parecem embaraços constantes. Eu não posso ser mais essa pessoa para ninguém. Foge-me o tempo, urge-me a pressa de relações mais verdadeiras, de pessoas mais verdadeiras inclusive para si mesmas.
 
Triste ou naturalmente, a gente também se distrai de quem nessa vida só nos foi amor. Demora um tantinho mais, não vem vestido nas formas ácidas do amargor, mas acontece. A gente se distrai do estar à volta delas tomando um avião, um caminho diferente que só nossos pés compreendem. Então aproveita, ama no tempo da pureza, olha demoradamente enquanto a beleza ainda está lá para ser vista. Porque a vida distrai a gente das pessoas. Das que nos fazem bem e das que não fazem a menor diferença.
 
Para quem me é benção ou para quem só faz bem para si, eu só digo uma coisa: aproveita. Para a vida ou para a curva distraída que a finda, nós um dia nos distrairemos um do outro. Uns guardo comigo como o bem que também me foram. Outros, apenas como pessoas que se vão entre uma distração e outra.
Diego Engenho Novo

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Deu match. Foi assim que começaram a conversar. Como se o destino soubesse programar encontros. Era véspera do Dia do Namorados e, embora ambos não ligassem muito pra esse lance de datas, decidiram sair para tomar alguma coisa. Dois desconhecidos, apartando um pedacinho da solidão um do outro. Parecia funcionar após alguns minutos – Queria te propor algo meio doido – coisa que ele adorou ouvir – Quer namorar comigo? Quer dizer…. Não pra sempre, só por vinte e quatro horas e depois cada um segue como chegou -Aceitou. Parecia divertido tentar algo novo.
 
Naquele dia, não fizeram nada especificamente para agradar o outro. Apesar do combinado, limitaram-se a serem divertidos para si mesmos. Cientes que provavelmente não se veriam mais, conversaram sobre todos os assuntos absurdos preferidos, sem restrições, com direito a todos os palavrões que só apareciam quando convidados pelas quinas das mesas. Gesticulavam sem elegância, riam sem pudor, comeram e repetiram. Uma vergonha. Um não precisava conquistar o outro e foi aí que tudo deu errado.
 
Em poucas horas, aquele cheiro também tinha gosto. Aquele beijo já despejava lembranças. Aquele abraço já se abria com certa dificuldade. Um não queria se perder do outro. Gostava do jeito debochado dela. Amava o humor ácido dele. Queria aquela fome desesperada em seus cafés da manhã. Queria aproveitá-lo como se jamais fosse ter tempo para machucá-lo, decepcioná-lo, parti-lo ao meio.
 
Dormiram juntos, sem necessidades tesas. Apenas ficaram ali por um tempo, amortecidos pela preguiça do outros. Às vezes um pé encontrava o outro pé, às vezes um braço se jogava envolvendo as costelas. Era estranho ir para a cama com um desconhecido e sentir um dos maiores prazeres que existem na vida: a falta de pressa. Doeu por dois segundos saber que iria perde-lo, sem tê-lo. Suspirou ao se imaginar da porta pra fora sem o pendurar-se dela em suas costas.
 
Amanheceram como se fosse domingo, beijaram-se como se fosse o primeiro dia em um país distante, e, puxando-a pelo braço, levou-a até sua última parada, na última hora em que seriam namorados. Mostrou seu lugar alto preferido, de onde se via as antenas da cidade, os ônibus enfileirados, a solidão das janelas. Deram seu último beijo e, sem ela, desceu sozinho, voltou a ser multidão.
 
 
Diego Engenho Novo


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