Crônicas

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Marta conheceu seu marido aos vinte e poucos anos. Naquela noite, ele tocava violão na praia e ela tomou mais vodka do que devia. E a história deles seguiu assim; parecendo música da Legião Urbana. Eles eram engraçados, bonitos, a família apoiou, o dinheiro surgiu na hora certa, a igreja estava abarrotada, de gente e de flores importadas. A felicidade rendeu muitos álbuns de família e um filho aparentemente saudável. Um dia, seu marido se afastou da sala para atender um telefonema. Foi assim que o fim começou.

Não era culpa de ninguém, o amor, como bem sabemos, dá tudo de si e morre, com ou sem a gente. Alguns amores explodem, ágeis, outros passeiam por uma vida inteira, na calma das horas. Depende de como o sentimento é distribuído, alimentado ou reformulado. O deles acabou após 22 anos. Ou como diz uma amiga minha, psicóloga, “Não é que o casamento não tenha dado certo. Deu certo por mais de 20 anos, poxa!”, certeira.

Antes de prosseguirmos, uma confissão precisa ser feita: Marta engana o marido comigo. Podemos explicar: há cinco anos, ambos prometeram abandonar o álcool, mas a danada, sempre que está na cidade, toma um chope comigo na praia, escondidos. Desta vez, após o nosso tradicional brinde lésbico, vi naqueles olhos cristalinos uma estrelinha a menos, uma ideia a mais. Marta precisava de um tipo de amigo que chamamos de bungee jumping, alguém que te empurra para o salto quando você tem medo.

Então ela subiu na grade de suas emoções e passou as duas pernas para fora da ponte – Eu quero me separar…Mas eu tenho medo que ele sofra muito, que ele faça alguma bobagem. Eu tenho medo que meu rapaz não entenda. A minha mãe tem o meu marido como um filho! – respirou e olhou para o rio abaixo de nós – Marta, pare de trazer o peso da dor alheia para si. Você só falou de todos a sua volta, mas não me disse como você vai se sentir com tudo isso – esticamos a corda elástica, conferimos os engates – Aliviada, eu acho. Eu ainda posso amar, ainda posso ser amada. Eu não quero morrer assim, de dentro pra fora, lentamente – o cinto estava firme – Todos têm a força para enfrentar as suas próprias perdas. Pela primeira vez na sua vida, Marta, pense em si e somente em si – respiramos fundo. Marta apertou os olhos e saltou. Primeiro o medo, depois a santidade do voo.

Diego Engenho Novo


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Sempre invejei as histórias tórridas de amor. Gente que grita na porta do prédio do ex dizendo que esqueceu alguma coisa, como se fosse possível coisificar a autoestima da gente. Gente que pega um avião, atravessa dois estados, pra dizer que errou. Gente que arde, enlouquece e se queima em seus próprios sentimentos.

O tempo vai nos deixando mais endurecidos e racionais sentimentalmente, se é que isso tem alguma lógica. Com os anos, passamos, por exemplo, a esperar a hora certa pra ligar e até enviar um torpedo antes, perguntando se aquele é o melhor momento. A ideia é não parecer um psicopata carente, embora quase todos estejam caminhando para o mesmo CID. Daí surgem os cânceres da alma, as vontades não realizadas, o que não foi dito, o que poderia ter sido. Ficamos prisioneiros do nosso bom comportamento, formalizamos o amor.

Dia desses falava sobre mais uma história de amor complicada para Clarice. Ela solucionou meu roteiro de novela da Televisa com um conselho pouco previsível – Dê uma de doido, saia da casinha, vá atrás dele! – e foi incrivelmente libertador. Agi como um maluco por três dias, ligando na hora que bem entendia, fazendo convites sem pé nem cabeça, dizendo tudo que me dava na telha, um kamikaze sentimental.

É óbvio que saí ferido da história, feliz, mas triste, se é que isso também tem algum sentido. Para me consolar recebi de outra amiga, Elvira, um trecho do romance de Baricco, Oceano Mar: “A gente espera que sejam outras as coisas que salvam as pessoas: o dever, a honestidade, sermos bons, sermos justos. Não. Os desejos é que salvam. São a única coisa verdadeira. Você fica com eles e será salva”. Não é ser inconsequente, é aceitar as consequências como um preço justo a se pagar pelo que alma anda desejando.

O músico britânico, Seal, também cantou a pedra já na década de 1990, com meu hino pessoal dos últimos tempos, Crazy, “Mas nós nunca vamos sobreviver, a menos que fiquemos um pouco loucos”. Enlouquecer, em alguns momentos, pode, sim, ser o melhor roteiro. Nos momentos em que a lógica complica demais, a falta total dela resolve. As feridas que colecionamos no caminho só nos mostram aquilo que não enxergávamos fazia um tempão; que estamos vivos, bem vivos, ainda que meio fora da casinha.

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Tive na vida um presente de que poucos podem se gabar: fui ao casamento dos meus pais. E não estou fazendo metáforas sobre espermatozoides, à la Augusto Cury. Eu estava mesmo no grande dia deles, em carne e osso. Essa é uma das primeiras lembranças que tenho de vida. Eu tinha quatro anos e ostentava um galo imenso na testa, fruto do sacolejo da Kombi que meu pai guiava apressadamente para o cartório.

Papai nunca bateu na gente, nem de cinto, nem de chinelo. Mas também não precisava; a combinação pai grande e desengonçado com filho gordinho e cabeçudo sempre rendeu hematomas naturais. Era papai derrubando, prendendo o dedo, prensando no sofá e chorando junto com a gente. Doía mais nele, eu sei, mas ser criado pelo Jigsaw parecia ser mais seguro na época.

Hoje damos risada, mas no dia que meu pai me colocou em cima da bicicleta e empurrou ladeira abaixo gritando – Pedala e equilibra! – não pareceu tão engraçado. E ele repetiu esse ritual da águia várias outras vezes – Braçadas e pernadas! Braçadas e pernadas! – ou daquela vez – Relaxa! O cavalo só fica nervoso se você também ficar! – ou então – Passa a marcha! A marcha, filho! O freio, filho! Freia! –  meu velho tinha de ter sido pai do Jackie Chan.

Eu me sentia crescendo no Brooklin. Quando um ladrão levou meu relógio novinho, da escola pra casa, meu pai soltou – E você deixou o cara te assaltar? – anos mais tarde, fui atacado por três cachorros – E você deixou eles te atacarem?. Pode parecer maluquice, mas acho que de alguma forma papai me ensinou a não me vitimizar. Entendi que o que nos acontece na vida, de bom ou de ruim, parte de nós. Não terceirizemos a culpa, amém?

Eu poderia ter seguido direto para os divãs da vida, mas não carrego trauma nenhum do papai. Ele é o meu herói desengonçado, meu grandão admirável. Era uma criança criando outra com o melhor que seus vinte e poucos anos haviam lhe dado. E ele se tornou um grande homem, atencioso, generoso, honrado e especialista em primeiros socorros. Está sempre comigo, me estimulando a saltar sem medo, voar sem culpa e sem culpar pelos tombos que colho.

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“Um dia, a gente olha para a pessoa que amava e percebe que não tem por ela mais admiração. Morreu o amor”, quem disse isso foi meu amigo e psicólogo Juliano Correa. E ele está certinho da Silva. O amor também morre por fatalidade, morre por preguiça, por falta de tesão ou pelo excesso dele. Morre sem que a gente nem perceba e, às vezes, leva pedacinhos de nós com ele.

Dia desses, um amigo com dor de cotovelo me perguntou – Como que a gente se cura do amor? – Ué, a gente se cura com o tempo, com a raiva, a distância, o esquecimento, a loucura, o trabalho, o cansaço, o sexo e um novo amor – simplifiquei o insimplificável.

O fim de algo que nasceu para ser pra sempre, não é fácil. A gente chora, grita, morre e ressuscita ao terceiro dia, todos os dias. Engorda, emagrece, enche a cara, esvazia gavetas, pinta cabelo, ri e se desespera. Tudo antes do café da manhã. Em uma dessas, ouvi Clarice, minha amiga, disparar – Concentre-se nas coisas chatas da vida! – achei maluquice, mas foi o que me curou, o que me salvou, uma ou duas vezes, e salvaria a Gretchen umas dezoito.

Dobrar as roupas, organizar os livros, plastificar documentos, pendurar quadros; seguir em frente. Por mais que não faça sentido no começo, diante de uma dor mortal, escolher um varal novo para a área de serviço, nos impede de ir à loucura. Lavar a pilha de louça ajuda a enxaguar as idéias e lustrar a nossa autoestima. Limpar os espelhos pode ampliar os espaços, arejar os pensamentos, delivery da dignidade.

É nas coisas chatinhas da vida que começamos a reavaliar nossos valores, nossos sonhos, nossos pontos de vista, que saem naturalmente embaralhados da mistureba deliciosa de se viver a dois. E é com a casa arrumada que preparamos terreno para novas visitas, novas relações ou para nossas tão requisitadas horas só nossas. A escolha é sua, e só sua, daqui pra frente.

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Assistindo ao documentário sobre os índios Krahô, “Hotxuá”, dirigido brilhantemente pela atriz Letícia Sabatella, viajei de volta a uma aldeia no coração do Tocantins. Era Carnaval e nós não estávamos com espírito para Chiclete com Banana, queríamos uma aventura de verdade. Empilhamos as mochilas no carro e tivemos uma ideia maluca – Vamos conhecer uma aldeia indígena? – fomos.

Estrada terrível, carro abandonado na cidade, trilha difícil por cima de pedra, por dentro da água, do jeitinho que a gente queria. Na linda aldeia em formato de sol pudemos vivenciar com aquele povo toda a sua ancestralidade, seu conhecimento, sua sabedoria. A ansiedade de conhecimento me levou, antes mesmo de guardar a bagagem, a perguntar pelo índio mais velho da tribo, seu tesouro.

Após algum tempo, lá estávamos, sentados à frente daquela figura mítica, que fumava o seu cachimbo e nos lia, enquanto praticava a receita de longevidade daquele povo, rir. Sua mulher é bonita – disse o ancião. Enquanto eu tentava explicar que éramos só amigos, ele já me corrigiu – Ela parece ser sua mulher, porque está sempre atrás dos seus ombros – eu não sabia como desfazer aquele mal entendido, então segui a receita da casa e sorri.

Ao final do dia, enquanto íamos ao rio, acompanhados pelo jovem filho do cacique, vi dois casais voltando – Por que as mulheres tem que andar alguns metros atrás do próprio marido, Renato? – perguntei querendo entender como aquela cultura via a submissão feminina, ali evidente – A mulher sente mais, vê mais longe, ela vai atrás para proteger o marido do perigo que surge pelas costas.

Corri para abraçar a minha mulher. Por anos tive uma relação difícil com aquela amiga. Sentia-me sufocado, vigiado por ela e por aquela que me parecia ser uma relação claustrofóbica. Neste dia entendi seu cuidado, seu medo de que algo me acontecesse. Eu tinha uma mulher, em um dos melhores sentidos, e não sabia. Que a gente valorize mais quem nos cuida, que a gente entenda mais quem nos ama. Vez ou outra, pare e surpreenda a mulher atrás dos seus ombros com um longo abraço de gratidão.

Diego Engenho Novo

 


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Há alguns meses reencontrei um grande amigo. Foi um bom reencontro, daqueles em que mal se sabe o que perguntar primeiro, mas bem se sabe que nunca, nunca se comenta o peso alheio. Em poucos segundos descobri o quanto a sua vida havia mudado, o quanto meu amigo tinha crescido e visto, e o melhor, que agora estava amando, novamente.

– É uma pessoa incrível sabe, mas tem um problema sério…Ela junta todas as sacolinhas do supermercado, todas! Minha cozinha está abarrotada de saco. Até acho legal essa coisa natureba de reaproveitar pra usar como saco de lixo, mas a minha casa está virando um lixão – eu poderia ter rido, mas não ri. Na verdade parei por alguns segundos para pensar no que estava ouvindo.
Ali, olhando para a indignação do meu amigo, pensei em todos os relacionamentos que despistamos com desculpas esfarrapadas da mesma estirpe. Não nos serve o cara que faz um som estranho ao coçar o ouvido, também não serve a guria macrobiótica, Deus me livre do carinha que foi de abadá no primeiro encontro, e graças aos céus conseguimos despistar a garota que não gosta do Black Sabbath.

De fato, lidar com as diferenças não é missão fácil. É mesmo um exercício de tolerância, como quando você pensa em jogar a coleção de filmes do Steven Seagal dele pela janela, mas não o faz. Pequenos desvios de caráter como ter lido e assistido todos os filmes da saga Crepúsculo são perdoáveis, vai. Exemplo disso é um outro amigo que disse que preferia morrer queimado na Sapucaí a ver qualquer filme dos vampiros saradões. Queimou a língua: na última estréia lá estava ele, de cara fechada, comprando pipoca para a namorada ensandecida. Já dá pra imaginar, no próximo filme, ele com dentinhos postiços, chorando mais que a sua senhora.

As diferenças, na verdade, podem nos ensinar muito sobre nós mesmos. Uma das grandes vantagens dos relacionamentos, além é claro de conseguir descontos especiais para casais em sites de compra coletiva, são os ensinamentos que as diferenças, de um e do outro, trazem para a vida a dois. Tenha fé, vai que essa mania algum dia passa. Tenha força, vai que essa maluquice só piora. Tenha ciência, de que você também não é perfeito.

O meu amigo, por exemplo, não desistiu do namoro. Na verdade casou-se. Ele joga secretamente metade das sacolinhas fora, toda semana (perdão amigo), dando aula de paciência, tolerância e astúcia. Os dois, ao invés de corrigirem suas manias, adquiriram juntos mais uma e agora andam amontoado, por todos os cantos da casa, pilhas e mais pilhas de amor.

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Cau e Juliano se amam. Juliano e Cau não se desgrudam. Conversam o tempo todo, trocam mensagens pelo celular o dia inteiro. Deixam recadinhos com frases gostosas e sacanas um para o outro, trocam carinho por horas e horas, e depois ainda enviam longos e-mails comentando suas sensações, seus sentimentos, sua vontade de estar ainda mais juntos. Tanto sentimento, quase despista os dois mil quilômetros que os separam. Cau mora perto do mar, Ju sonha com ele.

Dalton e Ana Clara se amam. Clarinha e Dalton quase nunca se vêem. Pouco conversam, trocam algumas mensagens de texto durante o dia para tomar decisões práticas. Os recadinhos sacanas foram trocados por frases imperativas e não têm mais cheiro de perfume, nem gosto de nada. Assistem TV juntos, por horas e horas, e depois murmuram algum comentário, geralmente sem réplica. Dalton e Ana Clara vivem juntos em um apartamento pequeno no centro da cidade.

Cau e Juliano tinham tudo para nunca se conhecerem, mas pela graciosidade da vida, se encontraram, ao acaso. Dalton e Ana cresceram na mesma cidade, frequentavam as mesmas festas, foi fácil se apaixonar. O amor surge em terrenos improváveis, como uma planta delicada que floresce nas pedras. O desamor, na contramão, é cultivado vagarosamente, em solos óbvios, no descuidado diário.

O distanciamento no amor acontece nas pequenas coisas que deixamos de fazer e dizer, nos consecutivos desencontros, nas noites mal dormidas. O amor se vai de mãos dadas com a admiração. Já um amor em distância física, é alimentado por pequenas delicadezas, por todo e qualquer sintoma da vontade de proximidade. A dificuldade nos ensina a valorizar quem não está por perto, isto é antigo e certo. Ter alguém ao alcance do braço e do abraço, nos lança ao risco de nos acostumarmos.

Cau e Juliano só se tocam em feriados e datas comemorativas. Dalton e Ana Clara também. Há quem duvide do futuro do amor de Cau, Juliano, Dalton e Ana. Mas, no frigir dos ovos, o que importa é que eles se acreditem. Se o amor pega um trem, avião, táxi, e ainda sobe dois lances de escada, porque não poderia vencer o dia de hoje e atravessar a sala para dar um abraço apertado numa hora imprópria? Cau e Juliano não podem fazê-lo, por enquanto.

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Case-se com alguém que adore te escutar contando algo banal como o preço abusivo dos tomates, ou que entenda quando você precisar filosofar sobre os desamores de Nietzsche. 

Case-se com alguém que você também adore ouvir. É fácil reconhecer uma voz com quem se deve casar; ela te tranquiliza e ao mesmo tempo te deixa eufórico como em sua infância, quando se ouvia o som do portão abrindo, dos pais finalmente chegando. Observe se não há desespero ou  insegurança no silêncio mútuo, assim sendo, case-se.

Se aquela pessoa não te faz rir, também não serve para casar. Vai chegar a hora em que tudo o que vocês poderão fazer, é rir de si mesmos. E não há nada mais cruel do que estar em apuros com alguém sem espontaneidade, sem vida nos olhos.

Case-se com alguém cheio de defeitos, irritante que seja, mas desconfie dos perfeitinhos que não se despenteiam. Fuja de quem conta pequenas mentiras durante o dia. Observe o caráter, antes de perceber as caspas.

Case-se com alguém por quem tenha tesão. Principalmente tesão de vida. Alguém que não lhe peça para melhorar, que não o critique gratuitamente, alguém que simplesmente seja tão gracioso e admirável que impregne em você a vontade de ser melhor e maior, para si mesmo.

Para se casar, bastam pequenas habilidades. Certifique-se de que um dos dois sabe cumpri-las. É preciso ter quem troque lâmpadas e quem siga uma receita sem atear fogo na cozinha; é preciso ter alguém que saiba fazer massagem nos pés e alguém que saiba escolher verduras no mercado.

E assim segue-se: um faz bolinho de chuva, o outro escolhe bons filmes; um pendura o quadro e o outro cuida para que não fique torto. Tem aquele que escolhe os presentes para as festas de criança e aquele que sabe furar uma parede, e só a parede por ora. Essa é uma das grandes graças da coisa toda, ter uma boa equipe de dois.

Passamos tanto tempo observando se nos encaixamos na cama, se sentimos estalinhos no beijo, se nossos signos se complementam no zodíaco, que deixamos de prestar atenção no que realmente importa; os valores. Essa palavra antiga e, hoje assustadora, nunca deveria sair de moda.

Os lábios se buscam, os corpos encontram espaços, mas quando duas pessoas olham em direções diferentes, simplesmente não podem caminhar juntas. É duro, mas é a verdade. Sabendo que caminho quer trilhar, relaxe! A pessoa certa para casar certamente já o anda trilhando. Como reconhecê-la? Vocês estarão rindo. Rindo-se.

Diego Engenho Novo


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Lembro-me que um dos maiores constrangimentos da minha infância, era o momento de passar pela catraca ao entrar no ônibus com meus pais. Como tinha o “benefício” de não pagar passagem, era obrigado a passar por baixo ou pular a catraca. Eu, obviamente, sempre exibi as formas saudáveis de um garoto bem alimentado, dono de um palato sem preconceitos, após anos tomando Biotônico Fontoura com ovo de pato. Tragédia.

Mas então, quando fiz meus sete anos, para a tristeza dos meus pais e vitória da minha moral, começaram a cobrar minha passagem e eu pude exercer meu digno direito de girar a catraca. Dono todo de mim! E lá estou eu, orgulhoso, tão vitorioso, com o pescoço mais em pé que professora de primário vigiando prova. Olhando pela janela, sob minha nova perspectiva de macho alfa, eis que vejo a vida encenar uma cena quase tão dramática quanto o episódio do Chaves em que todos seguem para Acapulco e o pobre coitado fica. Pela janela eu vi um cachorrinho que ia em cima da mudança em uma caminhonete. Caiu! O cachorro caiu da mudança!

Todos fizeram um “Uhh!”. Até o monossilábico motorista soltou um – Meu Deus! Acreditem se quiser: o cachorrinho caiu, levantou e saiu abanando o rabo, todo contente. Lembrei na hora de uma frase que minha avó sempre dizia – Triste como um cachorro que caiu da mudança – Mas ele, o pixurrinho, não estava nada triste. Certamente planejou aquilo tudo, friamente. Esperou por meses, anos, até os ardilosos donos se mudarem, para que ele, na surdina da mudança, pudesse cair, ou melhor, saltar!

Nunca me esqueci da cena, e hoje penso se a vida também não anda nos empilhando junto com as suas quinquilharias. Se a vida também não anda nos levado e nós nos deixando levar pelas vontades de outros. E eu, com o título há tempos conquistado de dono de mim, andei me dando e me deixando levar longe de mais. Saltemos nós da mudança, com um duplo carpado, um sorriso ficado no meio do rosto, sombreando o medo do enfrentamento do desconhecido. Aquele cachorro, pensava eu descendo da condução, pode ter morrido de fome ou encontrado vida melhor, mas em qualquer das direções, foi ele quem escolheu seu caminho.

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Minha avó ainda é daquelas avós de antigamente – ainda faz comidinhas e me dá dinheiro escondido no meu aniversário. Mesmo sendo minha heroína, às vezes solta frases dignas do Darth Vader, como – Quem tem dó do coitado vai para o lugar dele – ou – Quem muito se abaixa acaba mostrando os fundos – terrível. 

Isso me soou como egoísmo da parte dela por muito tempo. Como aquela mulher que fazia tudo por mim, não se importava em nada com os outros? E não é que aprendi recentemente o que ela estava tentando ensinar? A dureza de suas palavras só foi vencida pela dureza da vida. Estou falando de ingratidão. Conseguimos mais uma vez transformar o veneno em antídoto.

Em uma carona no interior do Piauí conheci um homem que me ajudou a digerir a ingratidão humana e o nazismo da vovó. Foi exatamente assim: ele parou o carro, eu entrei, ele disse seu nome e atirou – Pensar mais em si ao ponto de não ser egoísta. Ser bom, mas não ao ponto de ser bobo – sua frase pretendia justificar o motivo de parar para dar carona a um desconhecido. Mal sabe ele, que naquele dia, ele me salvou de mim mesmo.

Entender que o tratamento que damos para as pessoas nem sempre é correspondido é duro, duríssimo. Em diversos momentos nos prejudicamos por não saber dizer não, ou por oferecer demais. Uma boa dica, que aprendi com ele? Ajude os desconhecidos, porque deles você não espera nada de volta, está livre disso. Não existe nada pior do que descobrir em uma curva dessas da vida que a gente não sabe nem a cor real dos olhos de quem achávamos saber tudo. Farinha pouca, meu pirão primeiro – já dizia vovó. 

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