Crônicas

Acho que de tanto manda-lo ir embora, ele se magoou. De tanto dizer da boca pra fora, um dia ele resolveu mesmo me ouvir e me deixou. Mas do meio de minhas dores fundas eu disse aquelas palavras, das quais eu mais me arrependo. Naquela noite, eu mandei o amor ir embora. E ele me atendeu. “Cuidado com o que pedes”, pensei sobre o poder absurdo das palavras.

E desde então, eu tenho conhecido muita gente. A cidade está cintilando da beleza delas. Pessoas incríveis, algumas com todas as qualidades que já me encantaram, mas que não vão muito além de um café, duas cervejas, algumas noites. Como se algo dentro de nós simplesmente não as convidasse pra entrar. Grosseria da braba. O amor foi embora e levou a chave da casa.

Eu não me sinto sozinho, desesperado ou coisa do tipo. E também não preciso que você volte, amor, é melhor do que isso: eu gostaria. E acho que também gostaria bem mais de mim hoje em dia. Adoraria que você voltasse para iluminar as paredes e o assoalho da casa de novo, como uma raspa de sol nascente.

Andaram dizendo que meu pedido é incoerente, que o amor gosta mesmo é do caos, do destempero e do improviso. Até concordo, mas acredito que ele também saiba admirar a doçura que há em amar a partir de dias serenos.

Você deve estar longe agora, observando um casal com roupas pesadas em uma fonte em Berlim, ou fazendo ondinhas em campos alagados da Tailândia para que um par se reconheça. Mas mesmo tão longe, eu espero que você possa me ouvir pedir: “Volta pra casa”. E um resto de sol derramou-se da janela pra sala.

Foto: Ben Warren

Eu estava inquieto naquela manhã. Passei rápido pra dar um beijo e raspar uma colher nas panelas da minha avó. “O que você tem que tá afobado?”, perguntou ela já achando engraçado meu bate-pé, rói-unha, ajeita-relógio. Não precisei responder. Ela me chamou no quintal e colheu uma fruta do conde direto do pé. Aquela árvore tinha a mesma idade de minha avó. Ou mais. “Come!”, me entregando, “Senta e come, devagar. Essa gastura vai passar”.

Não sei porque guardei isso por tanto tempo comigo. Não sabia, até que me lembrei disso justamente hoje, enquanto minha amiga me contava do seu último namoro-relâmpago. Você já deve conhecer essa história: um cara legal surge, vocês se adoram, algo bobo acontece, vocês se detestam, fim. Tem acontecido muito. Roteiro rotineiro dos relacionamentos afobados e pré-desgastados de hoje.

Naquela manhã, anos atrás, minha avó estava tentando me mostrar que certos momentos da vida precisam ser vividos com parcimônia ou com o mínimo de sabedoria. Não dá pra engolir uma fruta do conde inteira de uma vez, dá? Por sua própria estrutura, cheia de sementes revestidas com fruta, ela praticamente te obriga a comê-la bem devagarinho. A senti-la. A saboreá-la, parte por parte.

Ela lentamente transforma a dificuldade que é contornar o que não nos agrada em serenidade. As respostas vêm com jeito, mas principalmente vêm porque a gente se abre pra elas. É aí que o empecilho vira estímulo, a irritação vira bom humor e o insolucionável vai ficando miúdo, miúdo até poder ser contornado, até que a gente possa digerir.

Tomara que a gente nunca se esqueça disso, né? Que o amor se abastece da morosidade do entorno do tempo, na delicadeza do relevar e que a gente só aprende a fazê-lo, fazendo, teimando, deixando-nos ser contorno. Enxergar que nem tudo é problema, mas apenas nosso registro único nos tornando igualmente únicos e, com sorte, imensamente doces ao final de tudo.

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Minha amiga Sheila xingava aquele homem de tudo que era nome. Confesso que anotei dois ou três palavrões pra expandir meu vocabulário. O cara havia terminado um namoro com ares de casamento no frescor de seus dois anos juntos. “Como ele faz isso comigo?”, repetia chorosa. E eu sem entender o que o moço tinha feito de errado. “A gente era feliz. Como ele pôde me deixar sozinha? Que irresponsável. Eu mudei a minha vida todinha por causa dele”, respirei fundo.

Vinha na glote? Vinha. Eu queria poder dizer que era direito legítimo do coitado desistir do contrato de ser dois, no momento que fosse, sem multa de rescisão, sem bonequinho de vodu personalizado. Mas não era aquilo que ela queria ouvir. Chega vinha no fio do lábio a vontade de dizer? Vinha. Que aquele homem tinha sido correto, corretíssimo, que ele tinha sido mais legal com ela que muita gente por aí, mas eu perderia a amiga. Preferi perder a verdade momentaneamente. Sheila ia demorar um tempo pra entender que foi inclusive corajoso da parte dele ir embora quando não se percebeu mais feliz ali. E o dobro do tempo pra sacar que ninguém é responsável pelos prejuízos emocionais da gente.

Flor, se você tiver pausado o Grey’s Anatomy pra ler isso, entenda, com todo o apreço que lhe tenho: ser adulto tem disso mesmo. É arriscado, lento e doloroso, mas eu prometo que fica mais fácil com o tempo. Eu sei que é atraente, que dá uma vontade doida de escorregar dos braços dos nossos pais, cair nos braços aquecidos de outra pessoa, e adiar-nos enquanto adultos. Como se seu peso fosse um presente, como se ele pudesse preencher a solidão do outro, como um favor, uma generosidade cínica da parte da gente. Densa você, densa, certamente. Volume e massa são diferentes também emocionalmente.

Não importa o que você fantasiou. No mundo real somos só nós carregando nossos próprios ossos, pele e medos. Por tudo o que é mais sagrado, fica combinado que a gente até se ajuda às vezes, que a gente acarinha, abraça, dá colo quando o fardo parecer imenso. Mas cada um carrega a própria bagagem nessa conexão de voos demorada que é viver. Ninguém é responsável se não nós, pelo que aceitamos, pelo que escolhemos, pelo que preferimos acreditar, pelas verdades que preferimos adiar. Ninguém é responsável se não nós mesmos, por entrar e sair elegantemente da vida dos outros carregando os nossos próprios sonhos e pagando pelos excessos da gente.

Diego Engenho Novo

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Foto: William Ferguson

Se você não quer se frustrar, pare de ler agora. O que vou contar tende a frustrar as pessoas. Foi frustração plena e clara o que vi nos olhos de meu amigo Andres, semana passada. Ele queria saber como era que eu me preparava pra escrever. Se acendia velas em casa, colocava uma música tranquila, meia taça de vinho tinto. Estava curioso sobre meu ritual. E sempre que me perguntam isso eu vejo a mesma cara. Aquela cara.

Expliquei que escrevo da mesma forma que amo. Escrevo sem cerimônia, sem hora marcada, nas costas da lista de compras, na fila de espera do banco, por vezes, torto em uma cadeira feita para não se demorar. Escrevo como quem ama, na distração do acaso, na correria das horas, na cantoria dos carros, na frieza do metrô que murmura, no elevador antigo que se demora em me entregar em casa.

Escrevo como quem ama, na adrenalina das segundas-feiras, sob as mentiras da rua aos sábados, no tédio de domingo tentando achar uma vaga no estacionamento dos shoppings que tanto, tanto odeio. Escrevo como quem ama, na fome do meio dia, no medo da madrugada, no intervalo gentil dos meus pensamentos banais. Escrevo como quem ama, com fúria não programada, com culpa indexada, com medo do fim.

Escrevo como quem ama, na solidão dos bares, ao som quaternário dos meus passos, ao acariciar a esquina voltando da padaria, ao esperar no portão. Escrevo como quem ama, desajeitado e sem modos, ansioso e faminto, sem pompa, tentando tornar o milagre um método lógico. Escrevo como quem ama, apenas aceitando que as horas mais impróprias se alinham em lógica própria, insolentes.

Escrevo como quem ama. Porque sei que se vive sem escrever, mas que vida triste a de quem morre sem fazer da própria palavra um tipo de voz.

Diego Engenho Novo

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Foto: Hernan Sanchez

Aproveita que um dia todo o encanto passa – Ameaçam os amargurados – Ficará a rotina em seus tons acinzentados, tornar-se-á o seu caminho previsível, um dia você simplesmente se acostumará a ela. Um dia ela simplesmente se acostumará a você, até não poder te enxergar mais.

Jamais compreendi o tom de ameaça, se me acostumar à presença dela é exatamente o que busco. Teremos sorte se um dia eu puder mesmo me tornar banal como uma cadeira de balanço. Se um dia deixar de ser um corpo estranho, deixar de ser visita, novidade, ânsia, para ser somente a companhia calma pros seus cotovelos cansados de esperar

Aproveita, um dia o encanto passa – Repetem os amargurados. E tudo o que eu mais quero é desencantar-me diante dos seus olhos entediados. É ser silêncio calado pra acompanhar sua voz cada dia mais quietinha, como um canto por onde ninguém mais passa. Quero mesmo que todo o encanto nos deixe, que seu afago seja cada noite menos sedento de mim, quero ser tão costumeiro como o curvar dos galhos ou a mudança de opinião serena dos rios.

Sorte de quem puder atravessar os anos a ponto de deixar de ser encanto, sorte de quem puder amanhecer e perder o tom abobalhado dos amantes, o ar embriagado dos sonantes. Amanhecer, entende? Luz sobre a minha confusão.

Tudo o que eu mais quero é que o encanto passe, que os anos não nos perdoem, para que fique em mim a certeza de estar ao seu lado. E que como ameaçam os amargurados, você se acostume mesmo com a minha companhia, num acompanhar-te que nunca passa, lerdo e costumeiro.

E esse que fica quando todo o encanto decanta, e esse que se assenta junto com a rotina, não me ofenderia jamais. Depois que todo o encanto decanta, é ali que está o verdadeiro amor.

Diego Engenho Novo

Foto: Averie Woodard

Depois de caminharmos alguns minutos pela praia, meu amigo Filip apontou à frente: – Ali têm duas pedras que formam um coração perfeito. Se você vier aqui e não tirar uma foto lá, não veio. Respondi com ares de moleque: – Se todo mundo vai, eu não tenho o que fazer lá. Não há nada para se descobrir nos lugares em que todo mundo já foi – E saí andando na outra direção.

E foi assim que deixei de ver a troca da guarda real em Londres para conhecer uma trupe de atores em St. Martin’s Gardens. Foi assim também que me encantei bem mais vendo como os jovens franceses matavam o tédio dos fins de tarde bebendo vinho barato e conversando à beira dos canais do que com as obras do Louvre. Foi desse jeito que descobri muito mais sobre o Monte Roraima e seus demônios brincando com as crianças do vilarejo do que com o guia da Roraima Tour. Meus amigos foram para o tango? Preferi ir para as baladas subterrâneas de Buenos Aires. Alguém já te disse que aquela cidade pode ser eletrizante? Digo eu.

Eu sei, soa implicante da minha parte. Concordo que há lugares que precisam ser conhecidos se eles significarem algo para você. Dureza é pensar que tem gente que vive sem questionar os rumos que toma, as escolhas que faz, gente que segue roteiros que alguém escreveu, seja para viajar, seja para amar, seja para sofrer. E seguem vendo os mesmos lugares, tirando fotos ocas em monumentos sem graça, comendo nos mesmos cantinhos, dormindo nos mesmos hotéis que a amiga da amiga indicou por puro medo de se frustrar e ferrar a coluna. Arriscar é se permitir errar, mas é antes e acima de tudo se permitir a descoberta de novos acertos.

O poeta português José Régio já bem dizia em seu Cântico Negro: “Ninguém me diga: ‘Vem por aqui’. Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por aí”. E seguem tentando nos guiar para as profissões pré-fabricadas, para as franquias emocionais pré-testadas, para os abusos com os quais nos acostumamos de tão repetidos que são. Desconfie das verdades preguiçosas que tentam contar para a gente. Desconfie, rápida e imediatamente, não do que os outros lhes dizem, mas do que sua alma diz a si mesma ao sabê-lo, em um misto doce de curiosidade e intuição.

Só existe hoje um coração perfeito feito de pedras à beira do mar porque um dia alguém decidiu que era hora de tomar uma direção diferente. E o fez, doce e teimosamente, como aos poucos tudo à nossa volta nos desensinou a ser.

Diego Engenho Novo

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Que um dia tão grande amor te encontre como me encontrou. E tomou-me como vilas, esquinas e quebra-mares são tomados por encontros. E amei, como se só te amar bastasse, como se te querer já me deixasse ainda que uma pequena intenção de pensamento mais próxima de você. Como se pudesse te convencer silenciosamente a me amar também, na insistência crédula do meu bem-querer.

Assim, amei por mim, por ti e por nós, para que houvesse um nós conjugado em um lugar qualquer que fosse. Amei sabendo que amava sozinha, como quem doa para a mão direita com a própria mão esquerda. Te amei de fato, tão e bem mais em nome de mim mesma. Ganhando e perdendo sozinha, sonhando e acordando sozinha, sem ter a quem reclamar das escolhas que fiz. Amei porque ainda é melhor ter uma coleção inteira de vazios não preenchidos que não sentir nada.

Que um dia você descubra que quem ama, ama sempre por inteiro. Ama preenchendo as faltas com esperança, as esperas com lembranças, e erguendo-nas de um algo misturado a um punhado inexato e farto de fé. O amor se alimenta bem mais do que poderia ser do que de fato se é. E ele se reconhece mais fielmente no que poderia existir do que no que de fato se há. Por isso nos demos tão bem, como gêmeos docemente delirantes.

Assim, fui me reconstruindo, como um barco que se remenda sem conter a invasão do mar, apenas no esforço de seguir reagindo. Inútil, como quem guarda um segredo que não pertence a mais ninguém se não a si. Assim, te amei até não haver mais forças para continuar amando sozinha por dois. Que um dia tão grande amor te encontre e te entregue todo o amor que preparei para ti. Que um dia tão grande amor te encontre e te faça feliz como eu não pude fazer, nem ser sem ti.

Diego Engenho Novo


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A gente mata um pedaço da gente quando deixamos passar o que é mais emergencial e inadiável em nós. A gente mata um pedaço da gente quando calamos a vontade de dizer, quando nos envergonhamos da nossa vulnerabilidade e represamos nossas lágrimas com um erguer bonito de queixo. A gente mata um pedaço da gente quando cambiamos o desiludir dos sonhos dos outros pela desilusão desportiva dos nossos.

A gente mata um pedaço da gente quando dividimos refeições por educação, quando transamos em troca de falsa autoestima, quando beijamos pra sarar o medo de ficar sozinho: o nosso e o dos outros. E no afã inútil de não ferir ninguém, e no desespero de salvar a nós mesmos, a gente vai se matando lentamente.

A gente mata um pedaço da gente a cada novo arrependimento sem tentativa, a cada vez que nos dizemos não sem motivo real. A gente mata um pedaço da gente quando deixamos o medo tomar o guidão e pegar embalo. A gente mata um pedaço da gente quando nos obrigamos a sair de casa, mas nossa vontade é apenas chorar ouvindo um disco da Gal.

Um dia alguém ensinou que é preciso lutar contra a tristeza que mora em nós. Levianamente não nos disseram que às vezes ela precisa ser vivida e não contornada como um copo quebrado no chão. Vez ou outra, é preciso atravessá-las devagar, com um respeito solene. A gente mata um pedaço da gente porque esquecemos que sentimento nenhum é acidental.

E assim, a gente vai matando um pedaço da gente até não restar mais pedaço nenhum pra juntar.

Diego Engenho Novo

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Foto: Toa Heftiba

Lúcia é minha amiga desde que me entendo por gente. Tenho a impressão de tê-la visto à beira do berço me fazendo caretas já nos meus primeiros dias. Me acostumei a tê-la ali, espevitada, cheia de energia, morando do lado da casa onde cresci. Há alguns meses, o pai dela adoeceu e descobriu que estava morrendo de uma doença rara. Perguntei como era se despedir de alguém devagarinho, como era possível dar adeus tão pausadamente? Uma dor inconcebível, imagino.

Ela me contou que ele estava calmo e que ao contrário do que muita gente imagina nessas situações, não queria saltar de paraquedas, viajar pelo mundo ou fazer uma tatuagem. Ele pediu para voltar pra casa e continuou fazendo café com seu famoso pão de queijo para que seus amigos e sua família pudesse encontrá-lo.  Ele já havia conhecido muitos lugares, mas nada se comparava à paz que sentia ao observar a fervura da água, o cheiro do forno preenchido de afeto e paciência. Um dia, fez algo que não costumava fazer: dormiu até mais tarde. E foi assim, sem alarde, que ele nos deixou.

Hoje fiz meu café e fiquei sentado na ponta do sofá com a xícara acolhida entre as mãos como se fosse um pequeno pássaro, olhando para a luz que vinha de fora da janela. Parte de mim pensava na sabedoria de Lúcia diante da morte. Sabedoria que sinceramente não sei se saberia um dia ter. Ela falava de seu pai com a doçura de quem ia revê-lo na noite de Natal, tangendo as crianças da mesa de doces.

Minha outra parte pensava nas pessoas com quem gostaria de passar meus últimos dias. Nos tantos amigos que não caberiam numa mesa, nas nossas músicas preferidas, Lúcia certamente estaria entre elas. Lembrei de todas as pessoas que já me surpreenderam com sua doçura deixando instantaneamente de ser desconhecidos meus, senti uma saudade danada da minha família.

Pensei no quão adoraria passar meus últimos dias com a pessoa que mais amei na vida vendo-a reclamar de qualquer bagunça que eu fizesse na cozinha, vendo-a alinhar os temperos como quem despreza a importância do tempo, vendo-a pegar no sono com um programa de TV, e eu diria boa noite mesmo sabendo que ela não me ouviria. Como se o fim da vida fosse só um dia preguiçoso que esqueceu de acordar.

Diego Engenho Novo

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Foto: Greg Raines

Saí pouco antes da luz acender, ainda sob os fortes aplausos que nós da plateia enviávamos calorosamente às duas atrizes no palco. Saí meio aplaudindo, meio enxugando as lágrimas, meio curvado carregando minha vergonha de homem crescido chorando feito criança. Havia terminando a leitura aberta da peça Aquário com Peixes de Franz Keppler.

Não sei o que me deu. Não sou de chorar para fora. Sou do tipo que chora, ri e conversa para dentro. Mas a história daquelas duas mulheres que se amavam, mas se separavam, daquele amor que ia acabando como se acaba o ar, me tocou profundamente.

Ninguém havia me enganado: desde a primeira cena, do primeiro ato, ficava claro que o amor delas iria acabar. Não era segredo: desde o primeiro momento, transpareciam no palco os últimos momentos da história das duas. E libertos da ansiedade de vê-las juntas para sempre, só cabia a nós, amar o tempo que mantinha a elas, próxima uma da outra.

“Porque é tão difícil isso? ” Me perguntei tentando acertar o botão que me levaria para meu andar. Porque era tão difícil aceitar que as histórias são simplesmente histórias que começam e se acabam? Porque a gente não aprende? A valorizar os meios, os durantes, os tempos juntos, as noites de quarta-feira. A gente perde tempo demais nessa de achar que teremos todo o tempo do mundo.

Porque simplesmente não aceitamos que amores nascem para se consumirem até a penúltima gota? Jamais a última, jamais a última. A gente devia mesmo aprender a amar pelo tempo que durar, aprender a crer pelo tempo que amor for a nossa fé cega e suficiente, aprender a gostar mesmo daquilo que não vai ser nosso para sempre. Exercício terrível de desapego logo com o maior de todos os nossos apegos.

A gente devia mesmo aceitar que todo amor que começa já avisa na primeira cena, no primeiro ato: ‘O que começa agora, como tudo na vida, vai terminar. Talvez pela própria vida, talvez no dia em que a luz que é dela se apagar. Aproveite o meio, onde está o recheio, onde dorme o sabor. Ame enquanto puder e se fortaleça disso para quando a dor do fim vier nos doer. Por favor, desliguem seus celulares: a peça já vai começar’. Começo, meio e fim.