Crônicas

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Foto: Hernan Sanchez

Aproveita que um dia todo o encanto passa – Ameaçam os amargurados – Ficará a rotina em seus tons acinzentados, tornar-se-á o seu caminho previsível, um dia você simplesmente se acostumará a ela. Um dia ela simplesmente se acostumará a você, até não poder te enxergar mais.

Jamais compreendi o tom de ameaça, se me acostumar à presença dela é exatamente o que busco. Teremos sorte se um dia eu puder mesmo me tornar banal como uma cadeira de balanço. Se um dia deixar de ser um corpo estranho, deixar de ser visita, novidade, ânsia, para ser somente a companhia calma pros seus cotovelos cansados de esperar

Aproveita, um dia o encanto passa – Repetem os amargurados. E tudo o que eu mais quero é desencantar-me diante dos seus olhos entediados. É ser silêncio calado pra acompanhar sua voz cada dia mais quietinha, como um canto por onde ninguém mais passa. Quero mesmo que todo o encanto nos deixe, que seu afago seja cada noite menos sedento de mim, quero ser tão costumeiro como o curvar dos galhos ou a mudança de opinião serena dos rios.

Sorte de quem puder atravessar os anos a ponto de deixar de ser encanto, sorte de quem puder amanhecer e perder o tom abobalhado dos amantes, o ar embriagado dos sonantes. Amanhecer, entende? Luz sobre a minha confusão.

Tudo o que eu mais quero é que o encanto passe, que os anos não nos perdoem, para que fique em mim a certeza de estar ao seu lado. E que como ameaçam os amargurados, você se acostume mesmo com a minha companhia, num acompanhar-te que nunca passa, lerdo e costumeiro.

E esse que fica quando todo o encanto decanta, e esse que se assenta junto com a rotina, não me ofenderia jamais. Depois que todo o encanto decanta, é ali que está o verdadeiro amor.

Diego Engenho Novo

Foto: Averie Woodard

Depois de caminharmos alguns minutos pela praia, meu amigo Filip apontou à frente: – Ali têm duas pedras que formam um coração perfeito. Se você vier aqui e não tirar uma foto lá, não veio. Respondi com ares de moleque: – Se todo mundo vai, eu não tenho o que fazer lá. Não há nada para se descobrir nos lugares em que todo mundo já foi – E saí andando na outra direção.

E foi assim que deixei de ver a troca da guarda real em Londres para conhecer uma trupe de atores em St. Martin’s Gardens. Foi assim também que me encantei bem mais vendo como os jovens franceses matavam o tédio dos fins de tarde bebendo vinho barato e conversando à beira dos canais do que com as obras do Louvre. Foi desse jeito que descobri muito mais sobre o Monte Roraima e seus demônios brincando com as crianças do vilarejo do que com o guia da Roraima Tour. Meus amigos foram para o tango? Preferi ir para as baladas subterrâneas de Buenos Aires. Alguém já te disse que aquela cidade pode ser eletrizante? Digo eu.

Eu sei, soa implicante da minha parte. Concordo que há lugares que precisam ser conhecidos se eles significarem algo para você. Dureza é pensar que tem gente que vive sem questionar os rumos que toma, as escolhas que faz, gente que segue roteiros que alguém escreveu, seja para viajar, seja para amar, seja para sofrer. E seguem vendo os mesmos lugares, tirando fotos ocas em monumentos sem graça, comendo nos mesmos cantinhos, dormindo nos mesmos hotéis que a amiga da amiga indicou por puro medo de se frustrar e ferrar a coluna. Arriscar é se permitir errar, mas é antes e acima de tudo se permitir a descoberta de novos acertos.

O poeta português José Régio já bem dizia em seu Cântico Negro: “Ninguém me diga: ‘Vem por aqui’. Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por aí”. E seguem tentando nos guiar para as profissões pré-fabricadas, para as franquias emocionais pré-testadas, para os abusos com os quais nos acostumamos de tão repetidos que são. Desconfie das verdades preguiçosas que tentam contar para a gente. Desconfie, rápida e imediatamente, não do que os outros lhes dizem, mas do que sua alma diz a si mesma ao sabê-lo, em um misto doce de curiosidade e intuição.

Só existe hoje um coração perfeito feito de pedras à beira do mar porque um dia alguém decidiu que era hora de tomar uma direção diferente. E o fez, doce e teimosamente, como aos poucos tudo à nossa volta nos desensinou a ser.

Diego Engenho Novo

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Que um dia tão grande amor te encontre como me encontrou. E tomou-me como vilas, esquinas e quebra-mares são tomados por encontros. E amei, como se só te amar bastasse, como se te querer já me deixasse ainda que uma pequena intenção de pensamento mais próxima de você. Como se pudesse te convencer silenciosamente a me amar também, na insistência crédula do meu bem-querer.

Assim, amei por mim, por ti e por nós, para que houvesse um nós conjugado em um lugar qualquer que fosse. Amei sabendo que amava sozinha, como quem doa para a mão direita com a própria mão esquerda. Te amei de fato, tão e bem mais em nome de mim mesma. Ganhando e perdendo sozinha, sonhando e acordando sozinha, sem ter a quem reclamar das escolhas que fiz. Amei porque ainda é melhor ter uma coleção inteira de vazios não preenchidos que não sentir nada.

Que um dia você descubra que quem ama, ama sempre por inteiro. Ama preenchendo as faltas com esperança, as esperas com lembranças, e erguendo-nas de um algo misturado a um punhado inexato e farto de fé. O amor se alimenta bem mais do que poderia ser do que de fato se é. E ele se reconhece mais fielmente no que poderia existir do que no que de fato se há. Por isso nos demos tão bem, como gêmeos docemente delirantes.

Assim, fui me reconstruindo, como um barco que se remenda sem conter a invasão do mar, apenas no esforço de seguir reagindo. Inútil, como quem guarda um segredo que não pertence a mais ninguém se não a si. Assim, te amei até não haver mais forças para continuar amando sozinha por dois. Que um dia tão grande amor te encontre e te entregue todo o amor que preparei para ti. Que um dia tão grande amor te encontre e te faça feliz como eu não pude fazer, nem ser sem ti.

Diego Engenho Novo


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A gente mata um pedaço da gente quando deixamos passar o que é mais emergencial e inadiável em nós. A gente mata um pedaço da gente quando calamos a vontade de dizer, quando nos envergonhamos da nossa vulnerabilidade e represamos nossas lágrimas com um erguer bonito de queixo. A gente mata um pedaço da gente quando cambiamos o desiludir dos sonhos dos outros pela desilusão desportiva dos nossos.

A gente mata um pedaço da gente quando dividimos refeições por educação, quando transamos em troca de falsa autoestima, quando beijamos pra sarar o medo de ficar sozinho: o nosso e o dos outros. E no afã inútil de não ferir ninguém, e no desespero de salvar a nós mesmos, a gente vai se matando lentamente.

A gente mata um pedaço da gente a cada novo arrependimento sem tentativa, a cada vez que nos dizemos não sem motivo real. A gente mata um pedaço da gente quando deixamos o medo tomar o guidão e pegar embalo. A gente mata um pedaço da gente quando nos obrigamos a sair de casa, mas nossa vontade é apenas chorar ouvindo um disco da Gal.

Um dia alguém ensinou que é preciso lutar contra a tristeza que mora em nós. Levianamente não nos disseram que às vezes ela precisa ser vivida e não contornada como um copo quebrado no chão. Vez ou outra, é preciso atravessá-las devagar, com um respeito solene. A gente mata um pedaço da gente porque esquecemos que sentimento nenhum é acidental.

E assim, a gente vai matando um pedaço da gente até não restar mais pedaço nenhum pra juntar.

Diego Engenho Novo

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Foto: Toa Heftiba

Lúcia é minha amiga desde que me entendo por gente. Tenho a impressão de tê-la visto à beira do berço me fazendo caretas já nos meus primeiros dias. Me acostumei a tê-la ali, espevitada, cheia de energia, morando do lado da casa onde cresci. Há alguns meses, o pai dela adoeceu e descobriu que estava morrendo de uma doença rara. Perguntei como era se despedir de alguém devagarinho, como era possível dar adeus tão pausadamente? Uma dor inconcebível, imagino.

Ela me contou que ele estava calmo e que ao contrário do que muita gente imagina nessas situações, não queria saltar de paraquedas, viajar pelo mundo ou fazer uma tatuagem. Ele pediu para voltar pra casa e continuou fazendo café com seu famoso pão de queijo para que seus amigos e sua família pudesse encontrá-lo.  Ele já havia conhecido muitos lugares, mas nada se comparava à paz que sentia ao observar a fervura da água, o cheiro do forno preenchido de afeto e paciência. Um dia, fez algo que não costumava fazer: dormiu até mais tarde. E foi assim, sem alarde, que ele nos deixou.

Hoje fiz meu café e fiquei sentado na ponta do sofá com a xícara acolhida entre as mãos como se fosse um pequeno pássaro, olhando para a luz que vinha de fora da janela. Parte de mim pensava na sabedoria de Lúcia diante da morte. Sabedoria que sinceramente não sei se saberia um dia ter. Ela falava de seu pai com a doçura de quem ia revê-lo na noite de Natal, tangendo as crianças da mesa de doces.

Minha outra parte pensava nas pessoas com quem gostaria de passar meus últimos dias. Nos tantos amigos que não caberiam numa mesa, nas nossas músicas preferidas, Lúcia certamente estaria entre elas. Lembrei de todas as pessoas que já me surpreenderam com sua doçura deixando instantaneamente de ser desconhecidos meus, senti uma saudade danada da minha família.

Pensei no quão adoraria passar meus últimos dias com a pessoa que mais amei na vida vendo-a reclamar de qualquer bagunça que eu fizesse na cozinha, vendo-a alinhar os temperos como quem despreza a importância do tempo, vendo-a pegar no sono com um programa de TV, e eu diria boa noite mesmo sabendo que ela não me ouviria. Como se o fim da vida fosse só um dia preguiçoso que esqueceu de acordar.

Diego Engenho Novo

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Foto: Greg Raines

Saí pouco antes da luz acender, ainda sob os fortes aplausos que nós da plateia enviávamos calorosamente às duas atrizes no palco. Saí meio aplaudindo, meio enxugando as lágrimas, meio curvado carregando minha vergonha de homem crescido chorando feito criança. Havia terminando a leitura aberta da peça Aquário com Peixes de Franz Keppler.

Não sei o que me deu. Não sou de chorar para fora. Sou do tipo que chora, ri e conversa para dentro. Mas a história daquelas duas mulheres que se amavam, mas se separavam, daquele amor que ia acabando como se acaba o ar, me tocou profundamente.

Ninguém havia me enganado: desde a primeira cena, do primeiro ato, ficava claro que o amor delas iria acabar. Não era segredo: desde o primeiro momento, transpareciam no palco os últimos momentos da história das duas. E libertos da ansiedade de vê-las juntas para sempre, só cabia a nós, amar o tempo que mantinha a elas, próxima uma da outra.

“Porque é tão difícil isso? ” Me perguntei tentando acertar o botão que me levaria para meu andar. Porque era tão difícil aceitar que as histórias são simplesmente histórias que começam e se acabam? Porque a gente não aprende? A valorizar os meios, os durantes, os tempos juntos, as noites de quarta-feira. A gente perde tempo demais nessa de achar que teremos todo o tempo do mundo.

Porque simplesmente não aceitamos que amores nascem para se consumirem até a penúltima gota? Jamais a última, jamais a última. A gente devia mesmo aprender a amar pelo tempo que durar, aprender a crer pelo tempo que amor for a nossa fé cega e suficiente, aprender a gostar mesmo daquilo que não vai ser nosso para sempre. Exercício terrível de desapego logo com o maior de todos os nossos apegos.

A gente devia mesmo aceitar que todo amor que começa já avisa na primeira cena, no primeiro ato: ‘O que começa agora, como tudo na vida, vai terminar. Talvez pela própria vida, talvez no dia em que a luz que é dela se apagar. Aproveite o meio, onde está o recheio, onde dorme o sabor. Ame enquanto puder e se fortaleça disso para quando a dor do fim vier nos doer. Por favor, desliguem seus celulares: a peça já vai começar’. Começo, meio e fim.

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Foto: Brooke Cagle

Desculpa chegar, depois de tanto tempo, como se ele, o tempo, não tivesse atravessado à nossa frente, forasteiro. Como se muitas noites não tivessem me feito companhia antes dessa. Como se eu não tivesse, por tantas vezes, inventando caminhos e motivos novos para não passar à sua porta. É engraçado cultivar esse quase medo dos lugares onde a gente foi tão feliz.

Talvez você nem more mais no número dois-sete-meia da avenida. Depois de tantos meses daria pra você ter se mudado de país e aprendido outra língua, daria pra você ter largado o escritório e se tornado cuidador de cavalos. Todo esse tempo seria suficiente para abraçar uma vida, embora não tenha sido suficiente ainda pra mudar o que sinto por você.

“Só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto”

E quando o interfone tocar, ao contrário de meses atrás, minha imagem não será seu primeiro pensamento. Poderia ser uma reclamação mal-humorada vinda do andar debaixo, a entrega da comida que sempre chega fria mesmo vinda da esquina, ou um amigo pedindo sofá para se curar da bebida. Mas dessa vez, querido, quando o interfone tocar, serei eu, me convidando outra vez para entrar na sua vida. Eu em minha eterna entrega pra tudo que vem de você.

E naqueles dois segundos após o abrir da porta, serão meus olhos inundando você num misto de curiosidade, saudade, dúvida e dívidas. As marcas de sol que revelam mais idas ao litoral, os cabelos por cortar mostrando que você está mergulhado em seu novo livro, uns quilos a mais contando de suas idas acompanhado ao restaurante que a gente adorava, uns quilos a menos dedurando que você finalmente tirou seu plano da gaveta de aprender a correr. Eu sei que é horrível dizer, mas sim, seria respeitoso da sua parte não ter vivido maravilhosamente bem sem mim.

E meio que sem jeito eu tentaria parecer confortável, e desconfortavelmente tentaria transparecer uma paz que não tenho, desde que nos despedimos pela última vez. E depois de tantos meses eu voltaria com algo seu embaixo do braço como desculpa, só pra ter certeza de toda essa certeza que você diz ter. Só pra te dizer que eu jamais me arrependerei de corresponder ao que sinto. Porque foi exatamente assim que me apaixonei por você.

Diego Engenho Novo

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Olhei para a falta uma última vez. Havia muitos dias que toda a minha atenção era só dela. Mimada. Minha vida inteira tornou-se um ato lento e morno de sobreviver, de passar pelos dias, um ensaio gordo de dormir, trabalhar, comer e esperar. Mas a grande verdade é que depois que adultecemos, ninguém mais vem. É preciso acordar para o fato irremediável de que se a gente não vai, se a gente não parte, se a gente simplesmente se senta e espera, ela nos engole. Ela, mesma: a falta.

O inverno acabou, as janelas estão postas, famintas pelo novo. Nessa manhã, testei meus dedos dos pés no ar, sentado na cama, ainda sem pisá-los no chão. Ensaiei o primeiro passo e depois o segundo, que é sempre o mais difícil. Logo em seguida, passei um café como minha avó fazia. Café daqueles que desperta a alma.

Arranquei duas folhas do caderno antigo. Escrevi com a pressa de quem compõe, duas listas. Eu adoro listas. São como compromissos com minhas próprias manias. Enfileirei primeiro o que gosto de fazer. Tudo aquilo que não é sobreviver. Que é banal, que é prazer, que só faz sentido pra mim. Tudo aquilo que sou quando não estou concentrado na falta que sinto de nós.

“Abandono apenas a falta. Que imobiliza, que atrofia, que impede a gente de perceber a existência inata e certeira de nossa melhor companhia”

Eu gosto de sair de casa para ler, de dormir de rede, de comer em portinhas, de dizer para meus amigos que os amo em horas impróprias, de ajudar desconhecidos. Eu gosto do som da orquestra afinando, de bisbilhotar lugares até então ocos de sentido, bagunçar meus horários no final de semana, eu gosto de cheirar o mar.

Enfileirei depois, na folha segunda, tudo aquilo que ainda gostaria de experimentar. E lá estava uma folha inteira de curiosidades bobas para serem vividas, de conhecimentos desnecessários que me encantavam, de viagens que eu nem mesmo sabia se poderia pagar, mas que estavam ali, endereçados ao universo imenso que sou quando quero muito qualquer coisa. Lá também estavam todas as frutas que só conheço por nome, minha ida ao planetário adiada, o restaurante que me convida sempre que passo na calçada.

Lá estava outra parte de mim que andava soterrada pela falta: minha vontade imensa de ir ver, de viver. Sua saudade será sempre sentida, nossas memórias serão sempre cultivadas. Sigo sentindo saudade, tendo visões travessas do seu cheiro pela casa. Abandono apenas a falta. Que imobiliza, que atrofia, que impede a gente de perceber a existência inata e certeira de nossa melhor companhia.

Diego Engenho Novo

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Meus avós costumavam contar que antigamente, quando ainda não existia eletricidade nas casas, e combustível para as lamparinas era artigo raro, a pouca luz que se tinha em casa era regrada. À noite, as pessoas apenas se aquietavam.

Mas quando ia se fazer uma visita ou levar um agrado, a luz da lamparina que iluminava o caminho, que clareava a estrada, era recebida pela casa com as seguintes palavras: “Bem-vindo você que trouxe luz para essa casa”. Eu sempre adorei essa história.

E o que é o amor se não isso, luz trazida de longe para iluminar a gente por dentro? Basta olhar para ver como os amantes se iluminam mutuamente. Em uma medida rara, são o ascender dos sonhos do outro, o aquecer da candura do outro, a centelha que generosamente se multiplica em nome do outro, sem esforço desproporcional, sem anulação. Iluminam, um ao outro, apenas existindo.

E nos momentos difíceis, em que nos perguntamos se o amor vale mesmo todos os desafios, a conta é fácil: se há respeito pela grandiosidade do outro, vale. Se há generosidade de aguardar o tempo de maturação da calma do outro, vale. Se após a tempestade, vem a doçura se assentando no horizonte, ainda que tomada emprestada das memórias, vale.

Vale porque, muito além do que se abre mão, há tudo que se ganha sendo dois. Ganha-se um colo que não exige pressa, pés que entrelaçados nos situam na noite, olhos que entrelaçados nos aprumam no dia. Ganha-se um parceiro sem julgamento para os domingos preguiçosos, uma voz que acalma em meio à rotina, um riso pela casa que também faz rir.

Ganha-se na espontaneidade de quem rima com seu jeito sem ensaio, ganha-se em silêncios que se respeitam, orgulhos que se põem de lado em espera, beijos paliativos, conversas que não se despedem. Ganha-se mãos que encorajam, interesse para os seus assuntos sem nexo preferidos, intimidade deliciosamente conquistada, ganha-se compreensão. Ganha-se o estado constante de estar-se iluminado pela existência do outro.

Diego Engenho Novo

 

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Outra vez cheguei atrasada, errei o caminho, comi errado, fumei cigarros demais. Falei pelos cotovelos de segredos não meus, fugi da quinta academia, comprei roupa para depois caber-me, paguei com dinheiro que não tenho. Outra vez esqueci de ser grata, falei que amava quem nem conhecia, bebi demais, outra vez incapaz de dar-me limites.

Outra vez acordei sozinha, protelei minhas plantas, fui seca com o porteiro, menti sem necessidade, me justifiquei pra quem nem se importava. Outra vez antecipei as escolhas, deixei de ser culta para ser preguiça, outra vez descontei na comida.

Outro dia sem grandes conquistas, quando dentes limpos, roupas sujas. Quando roupas estendidas, cama por fazer. Quando cama em branco, cabelos por lavar. Quando me senti mais bonita, ninguém notou. Outra noite com comida de plástico, bebida de caixa, louça suja vitoriosa, imponente. Quase que um outro país. Outra noite dormi tarde demais, acordei atrasada, nenhuma conquista.

Peguei a roupa que não me cabe, os sapatos que me deram sem amor e saí ouvindo a música já mil vezes repetida. Na bolsa me observa o livro que não leio solitária e bonita pela janela do metrô. Outro dia de trabalho, adoece mas paga as contas, compra meus remédios e etiqueta minhas comidas. E a vida se vai, falha, errante, desconexa, débil de sentido, colérica, engordativa.

E eis, que uns dias estou à beira da deriva, à véspera do choro, e algo bonito me acontece. Encho-me de sentido, frio na barriga, apaixono-me de novo. Comerei para celebrar. E é aí que percebo que a vida nada mais é do que tédio bordado, vezes de dor, vezes de doçura; vezes de amor, outras de loucura; vezes de futilidade, outras de solidão; vezes de perder o sentido, outras de encontrá-lo.

Outra vez cheguei atrasada, errei o caminho. Talvez amanhã. É. Quem sabe amanhã vive-se direito? Hoje, não deu. Beberei a isso, fumarei a isso e comerei para não beber de estômago vazio. Enfim, algo certo.

Diego Engenho Novo


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