Crônicas

Foto: Matheus Bertelli

Ultimamente um assunto específico tem me deixado curioso. Tenho lido bastante sobre pessoas com uma síndrome rara chamada Memória Autobiográfica Altamente Superior. Em outras palavras, essas pessoas, vinte e poucas no mundo todo, jamais conseguem esquecer qualquer coisa. Tudo o que elas vivem, veem, ouvem, aprendem, sentem, é guardado pra sempre. Você deve imaginar como esse assunto é naturalmente instigante pra alguém que como eu tem memória de peixe. Minhas memórias me fogem como crianças de cinco anos: rápidas e misteriosamente, correndo em todas as direções.

Primeiro sinto uma leve inveja. Imagina poder guardar em detalhes o cheiro do cabelo da sua mãe? Imagina poder rever sempre que quiser a cor dos olhos da primeira namorada? O som da bola batendo na quadra da rua de trás nos chamando? Imagina poder lembrar de todas as receitas, datas, sabores preferidos dos seus amigos, de todas as respostas necessárias para ser um adulto bem-sucedido? Qualquer lembrança, memória sussurrado atrás das orelhas. Mágica.

Mas não deve ser fácil também carregar tanta coisa. Eu me desfaço de quase tudo e já me sinto pesado demais. Imagina lembrar em detalhes de tudo o que disse, mas não devia? De todas as vezes que se sentiu solitário e abandonado? Imagina jamais poder esquecer a primeira, a segunda, a terceira pessoa que amou? Jamais poder superá-las. Se bem que nisso, temos um pouco em comum. Eu jamais me esqueço de alguém que amei. Eu apenas as movo para um cômodo mais tranquilo de mim mesmo.

Mas ser um exímio esquecedor tem suas vantagens. As poucas lembranças que ficam são definitivamente as mais fascinantes. Hoje acordei e, ao olhar pelas janelas embaçadas pela chuva, me lembrei exatamente da primeira vez que te vi. Havia centenas de pessoas, não estava exatamente claro, mas, por um segundo, eu vi seus olhos olhando diretamente dentro de mim. Por um segundo, só havia você. Naquele instante, toda a minha dor, minha angústia, tudo em mim fez um silêncio muito respeitoso. Você sempre teve esse poder solene e doce sobre mim.

Eu me lembro de fio por fio dos seus cabelos escuros, textura por textura da sua pele clara, detalhe por detalhe da perfeição que te bordava. Eu me lembro de tudo. Você sorriu e, em seguida, riu de um jeito que eu jamais verei outra vez. Eu me lembro de cada canto daquele sorriso como um país distante do outro. Aquele instante mora em mim. Aquele olhar habita em mim e muitos dos olhares que você me ofereceu no tempo em que estivemos juntos. Eu sinto que nos meus últimos momentos nesse mundo, ainda vou te lembrar com a exatidão que carrego hoje. Algumas pessoas se lembram de tudo. Outras pessoas se lembram do todo. Eu me lembro de você.

 

Diego Engenho Novo

O Facebook me lembrou recentemente de uma imagem de alguns anos atrás. Dá pra ver um grupo de mochileiros na frente de uma cachoeira no interior do Amazonas. Lá no meio estou eu, todo felizinho, barba por fazer, e do meu lado um grande amigo que fiz naquela viagem: Sol Galáctico Amarelo. Sim, esse é o nome dele. Chileno e uma das pessoas mais doces que já conheci.

O curioso é que comecei essa viagem sozinho. Botei uma mochila nas costas e fui. Aos poucos, fui conhecendo uma pessoa aqui, outra ali, e fomos formando uma espécie de família de rota. A gente se encontrava numa cidade, alguns na próxima, outros na posterior, depois o grupo todo uns dias depois. Sem combinar nada. A gente apenas chegava e já avistava aquele pequeno grupo de mochilas coloridas.
Nesse mesmo dia da foto, conversei com Sol sobre como achava isso incrível. “Até onde será que vamos fazer o mesmo trajeto? Digo, todas essas pessoas. É muita coincidência, você não acha?”. Ele pensou e respondeu: “Eu não acho que a gente se encontre porque vamos pra mesma direção. Eu acho que nós nos encontramos porque vamos no mesmo ritmo”.

Essa conversa sempre me vem à mente quando penso nas relações à minha volta, e claro, nas que meu próprio coração atravessa. Cansei de ver casais que aparentemente sonham com as mesmas coisas, seguem a mesma estrada, mas se perdem pelo caminho por discordância de ritmo. Amigos com os mesmos interesses, mesma visão de mundo, desinteressando-se, desprendendo-se, tomando trajetórias completamente diferentes. Ritmo, repetiria Sol. Ritmo.

Na vida e na estrada é preciso respeitar o ritmo das pessoas. Seu tempo para aprender, absorver, enxergar certas verdades. Não dá para apressar o caminhar do outro, não dá para arrastar ninguém para a dianteira conosco. Não dá para atrasar o passo de quem vai longe por nossa vontade de ficar mais um pouco. O máximo que se pode fazer é ralentar seu passo, mas isso seria profundamente injusto consigo. E com o tempo aprendi que essa é a pessoa que mais devo respeitar pelo caminho: eu mesmo.

Eu torço pra que nossos passos sejam pareados. Eu torço pra que a gente continue se encontrando, meu amor. Mas jamais iriei intervir no teu ou no meu ritmo. Você é lindo demais no seu próprio tempo. Teu tempo é tua perfeição e imperfeição na mesma proporção, como tudo o que é bonito. Vim descobrindo que te admirar é parte essencial dessa parte da minha jornada. Simplesmente imperdível. Meu amor é aceitar teu ritmo, defender teu caminho e torcer para que a gente continue se encontrando aqui, ali ou mais adiante, pelo tempo que nos for possível.

 

Diego Engenho Novo

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Não há uma forma menos banal de começar essa conversa, perdão. Então, hoje eu espirrei na rua. E um moço jovem acompanhado da mulher soltou um solene “Saúde!” ao passar por mim. Primeiro achei inusitado. Traços de gentileza e afeto gratuito saltam aos olhos na dureza concreta de São Paulo. Mas o que me tocou mesmo foi pra onde aquela benção de um desconhecido me levou. De volta pra casa.

Lembrei de todas as vezes que a minha mãe parou tudo o que estava fazendo, me olhou e desejou saúde após meu espirrinho mirrado de moleque. Ela fazia isso e depois ficava mais uns segundos me olhando docemente, semi-sorrindo, me amando em silêncio. Esse moço da rua me levou de volta pra esse olhar que eu havia perdido. Me lembrou que durante muito tempo eu também desejei saúde para desconhecidos. Era hábito. Desejar algo bom pros outros era automático. Pensa na beleza disso nisso. Porque raios eu parei de dizer?

Lembrei também das manhãs tardias de domingo antes do almoço em que minha vó se sentava no sofá, me botava num banquinho na frente e ficava me ensinando a pedir a benção. Repetia, repetia e repetia fingindo seriedade didática. Mas logo caía na risada quando eu dizia “Deus te abençoe, vó” no lugar de pedir a benção dela. Demorei pra entender, mas não importava. Esse moço desconhecido me levou de volta praquele domingo e para o poder forte e mágico da prece e do amor ancestral.

A vida vai mudando nosso jeito de se portar, dando novos significados pras nossas tradições, a gente deixa de acreditar numa coisas e embarca noutras. Normal. Mas quem sabe vez ou outra a gente não possa sorrateiramente voltar pro lugar que enche a gente de calor, afeto e amor em conserva? Tudo continua lá, do jeitinho que a sua saudade deixou. A gente precisa fazer isso por nós, salvar nossas lembranças tirando-as de vez em quando da caixinha de guardados e botando elas pra acontecer. Pelo simples fato de fazer.

Passar o café do jeito que se passava na infância, escutar a música que lembra um dia banal de vinte anos atrás e a casa cheia, desejar o melhor para um desconhecido de graça, murmurar a reza que seus pais te ensinaram antes de dormir. Nosso afeto também enferruja, nossas memórias também perdem significância. Não deixa! Na busca de sermos melhores e mais sérios a gente vai se empobrecendo. Ao moço desconhecido, eu disse e repito: obrigado! Eu realmente me sinto bem melhor agora.

Diego Engenho Novo

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Não pese sua mão sobre meus dedos, não pese, por favor, seus pés sonolentos sobre os meus. Não pese sua coxa tesa sobre as minhas. Encoste em mim, mas não se deite. Dai-me ar, dai-me combustível para querer-te mais. Só não pese seus olhos sobre meu olhar, não sufoque meu beijo com sua fome. Beijo não se pede, minha querida, beijo se perde.

Eu sei que é difícil encontrar a medida, entre bem querer e querer tudo ou nada. Eu sei que é frágil a ladeira que incita para se chocar no outro como um carrinho infantil e sem freio. Há avisos por toda parte, sinalização por toda a via, mas você os evita, você ignora o que não lhe interessa. Mas no fundo, todos os avisos, todos os sinais, também sou eu.

Não vou carregar, não vou mais levar suas mágoas. Não pese seus braços sobre meus ombros, chamando-me de meu bem. Não pese seus sonhos com minhas medidas, meu passo já é largo na direção oposta aos teus. Não pese meus ouvidos com suas palavras de culpa, não pese minha solidão com seu incômodo em viver a sua. Toma-me por teu e no instante seguinte eu serei completamente outro. Como a mulher-gorila em metamorfose: a incrível Monga.

Eu sei que algum dia sua paciência vai acabar e você observará a casa em chamas do lado de fora. Eu rezo por isso. Queime tudo, meu amor. Quem sabe as chamas te iluminem também. Eu queria que você soubesse que havia amor por toda parte, afeto em todas as pausas, verdade em toda a leveza que te pedia e te oferecia.

Mas não é isso o que você quer. Você quer meu corpo sobre o seu como um peso de papel, meu afeto sob o seu como a sombra de uma nuvem. Se quer algo para chamar de seu, voilà. Mas não peça a ninguém para carregar teus pesos. O que você quer, minha querida, ninguém pode te dar. Eu tentei ser contigo, não teu. Agora nem isso mais é possível. Não pese na minha saída.

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Trago comigo pequenas relíquias, pequenos detalhes na memória de todas as pessoas que amei. De cada uma delas tenho uma amostra única e preciosa que carrego no meu coração. Ou elas que seguem comigo? É pouco para ser algo, muito para ser esquecido. Um cheiro que vinha com ela, um assunto que frequentava a mesa, é um som que fazia a trilha de sermos amantes na época. Vez ou outra eu me deparo com algo que me lembra dessas pistas, como sinais me chamando de volta pra casa. Pra todas as casas que eu já tive na vida.

Por dois segundos ela está ali: sem dor, sem pesos, sem mágoas. Com todos os nossos sonhos irretocados, com todo o nosso futuro que já é passado, como se tudo o que imaginamos um dia ser, fosse uma pilha de livros que pode ser transportada de um canto pra outro, sem perda de nada. Por dois intensos e deliciosos segundos, nós não somos mais como dois estranhos conhecidos.

Ontem, um rapaz contava uma piada e segurava o cigarro pontuando as frases no ar. Em um milésimo de segundo eu estava lá, diante da primeira pessoa que amei e seu jeito parecido de me contar como foi o dia. Eu queria congelar aquele instante, aquelas sensações todas que recriavam tão profundamente uma realidade que já não existe mais, a não ser em mim. Não há para onde voltar. Talvez, um desdobramento daquilo.

É como se apegar a uma brisa, desejar que um raio de sol se demore, guardar um sabor devagar embaixo da língua, beijar um seio sem pressa. É como tentar aprisionar um relâmpago, correr para anotar uma ideia, persistir em continuar um sonho depois de acordar numa segunda-feira. É como se todo esse tempo fosse uma esquina a ser contornada, e como se nada pudesse trazer de volta aquela palavra que um dia dissemos: é o fim. Mas dentro da gente amor nenhum nunca acaba.

Diego Engenho Novo

Aos fundos do Parque Quinta Normal em Santiago, há uma antiga estufa do século passado esquecida, fechada para visitação. Só é possível conhecê-la se esgueirando por baixo de uma cerca e pulando um pequeno muro. Sim, bem coisa de moleque aventureiro mesmo. Mas aquele lugar não fazia sentido pra mim visto de fora. Entrar lá, foi descobrir meu jardim secreto de uma infância que eu nunca vivi.

Ali, observando aquela abóbada de ferragens curvas, fiquei um tempo pensando nisso. Na quantidade absurda de lugares que a gente deixa de entrar, nas oportunidades que a gente perde por educação, por medo ou por bom-mocismo. No nosso distanciamento asséptico dos sentimentos, logo deles, tão urgentes em tempos tão estranhos. Não é só com você. Tá todo mundo nessa. Do lado de fora das relações.

Sei lá quando a gente começou com isso. Foi o medo de se machucar, terror do desconhecido ou apenas uma tentativa responsável de sermos emocionalmente mais inteligentes? Fato é que a gente tem observado as relações de fora, avaliando se é prudente, correto ou maduro entrar. E elas vão passando por nós, como um trem que não espera ninguém. É tomá-lo, como um caubói que abandona o cavalo, ou vê-lo partir.

Eu até acredito em sinais, em pistas, mas, certezas? Desconfie. Não estou fazendo apologia ao impulso puramente, nem advogando pela estupidez, só digo que, talvez, a gente esteja exagerando no tempo que passa do lado de fora, em nosso medo de entrar nas relações. Que temor é esse? Se tudo der errado, a saída você já é conhecida.

Já para dentro! Como diria a mãe da gente. Ficar de fora é perigoso. Entrar é perigoso. Viver é perigoso. Pra caramba. Não há caminho seguro. Vibraria o moleque que ainda mora dentro da gente. O sentir é menos exato, mas bem mais real do que o saber. Aquele que observa, pode chegar a entender, mas só quem entra pode viver os presentes que a vida graciosamente escondeu pra gente encontrar.

Essa semana tive a honra de conhecer de perto uma das atrizes brasileiras que mais admiro: Maria Alice Vergueiro. Você deve conhece-la daquele vídeo divertido, o “Tapa na Pantera”, mas posso te garantir que ela é muito mais do que isso. Ela é uma das mentes mais geniais do teatro nacional. Sou fã mesmo de carteirinha.

Perguntaram para Maria Alice como era refletir sobre a própria morte, tema central da peça pela qual tem sido ovacionada nos últimos anos – Eu parei de duvidar. Quando alguém chega e diz pra mim que gosta de mim, eu decidi não duvidar mais. Tem sido incrível isso – explicou, com a fala já mais ralentada pelo Alzheimer e pela idade avançada. A genialidade de Maria Alice se estende para além dos palcos e inunda a vida de mais vida.

Temos sido condicionados a temer o outro, duvidar do próximo, para nos mantermos sempre com os dois pés atrás, quando não distantes. A cada decepção nos fechamos um pouquinho mais, aumentamos nosso muro, nos retiramos das relações para observá-las com mais desconfiança. Em quantas pessoas você pode dizer que pode confiar? Poucas, bem poucas – muita gente repete. E isso é mérito? Sei não.

A gente duvida do afeto, põe à prova os elogios de quem nos adora, trucamos o amor de quem está sempre lá por nós. Nos acostumamos a temer as tentativas dos desconhecidos de se aproximar, dificultamos as tentativas de quem nos feriu de se reaproximar. Seguimos implodindo as estradas que nos ligam até os países fronteiriços. A ordem é fechar e perguntar depois. Duvidar e tentar depois. Dizer ‘não’ e ‘talvez’ só depois.

Talvez pudéssemos aprender um pouquinho com alguém que já viveu tanto e certamente se decepcionou na mesma proporção. No final das contas, baixar a guarda, ter um tantinho de fé, aceitar a mão estendida e o sorriso aberto, talvez possa nos levar de volta até aquele ponto do caminho do qual temos sentido falta. Eu pelo menos sinto.

Você lembra? Quando as relações eram mais honestas, próximas e descomplicadas? O mundo mudou tanto assim ou foi a gente que se trancou pra dentro de casa? É o medo que nos divide, que nos separa e que impede a gente de viver a verdade. Da próxima vez que alguém disser que te adora, faça esse exercício, apenas não duvide logo de cara. Vale o risco. E, Maria Alice, te admiro muito. Jamais duvide disso.

Eu entendo que muita gente não entenda. Quem nunca amou à distância não pode mesmo saber como é se sentir intimamente ligada a alguém que está há quilômetros, horas de voo, dias de estrada, meses de espera da gente. Essa conta não fecha, não é mesmo? Um mais um tem que ser sempre dois, embora nem sempre seja.

Idealmente o que todo mundo quer é o outro ao pronto alcance da mão para aquecê-la, um colo facilmente acessível para onde se possa correr nos dias mais difíceis, beijos estalados como vírgulas e outros demorados encerrando as frases.

Mas nem sempre dá, nem sempre é possível se apaixonar pelo garoto que mora na esquina ou a moça que trabalha no terceiro andar. Às vezes toda a nossa bagagem emocional é extraviada para um país distante. E lá vamos nós, atrás do que é nosso, tentando reunir outra vez tudo o que faz sentido pra nós, numa jornada anti-solitária.

Eu entendo que muita gente confunda meu amar à distância com um amor distante. Meu amor nunca esteve longe. Por todo esse tempo, ele sempre permaneceu em mim. E se faz tão presente quanto é possível nas mensagens, vídeos, bilhetes, surpresas, tickets de correios e passagens aéreas. Parece que o amor constrói mesmo suas pontes. E ele é capaz de obras inimagináveis a partir das miudezas que vai juntando.

Eu entendo que muita gente seja descrente. Que coloquem em xeque nossas horas conversando pelo telefone, sobre assuntos que vão da música oitentista até a saudade quase tátil que sentimos nos dias mais frios. Que pensem que eu poderia estar melhor acompanhada do que deitada com meu tablet no travesseiro ao lado para poder imaginá-lo aqui. Mas eu não posso convencê-los de nada (e nem quero!). Eu só posso dizer que sim, nós existimos, e é maravilhosamente bom agora que posso dizer isso: nós.

Às vezes o garoto por quem temos esperado metade de uma vida mora mesmo ali na esquina, só que de Hong Kong. E algo dentro de nós nos diz que é melhor ter uma pista que vem de longe do que nenhuma possibilidade aparente da existência de alguém tão adorável. Eu jamais abriria mão do que sinto agora.

Se o amor é, como dizem, uma grande viagem, nós só pegamos o caminho mais longo. Se esse não é seu caminho, apenas não o trilhe, ora. Pra mim toda a distância vira poeira quando ele abre a porta e diz me abraçando demorado – Eu estou aqui – e tudo em mim faz sentido.

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Fui ao cinema dia desses e, antes do filme, meio que tentando equilibrar minha pipoca, chocolate e refrigerante gigantes, vi o teaser de uma exposição da Yoko Ono que está passando por São Paulo. Olhando fixamente para mim ela disse algo que me fez pausar um dos bocados de pipoca na metade do trajeto. “Pessoas são como estrelas, às vezes nós só precisamos saber observa-las em sua órbita, brilhando”, disse Yoko.

Me lembrei de quando fui conhecer um centro de observação do céu e o astrônomo apontava para cada luzinha contando suas histórias. Mas por mais que ele tentasse transmitir toda a sua paixão pela estrela Sírius, todo seu fascínio pelas nebulosas, ninguém parecia estar realmente empolgado. Me incluo nisso. Eu só conseguia pensar se aquele frio que eu sentia seria uma sensação parecida com a de mergulhar de sunga num lago congelado da Sibéria.

Foi aí que ele apontou um dos telescópios gigantes para a Lua e disse que quem quisesse poderia fazer uma foto nítida das crateras lunares com o celular. Euforia geral. A ideia de sequestrar um punhado de satélite natural e levar consigo deixou todos nós instantaneamente empolgados. Mas porquê? Aquilo ficou martelando comigo por muito tempo, até ouvir a frase de Yoko. Como quem liga estrelas na noite e enxerga algo maior.

A gente leva essa mania feiinha para tantos espaços de nossas vidas. Aprendemos que o relacionar-se com os outros é meio que também desse jeito: como a tentativa boba de coletar estrelas, como o guardar de um pedaço do rio entre os dedos, como engarrafar o assovio bonito do vento. Nós seguimos tentando ter  as pessoas. Coleta-las de suas rotinas, rouba-las para nossas órbitas e inseguranças, tão infinitas quanto o próprio espaço.

O amor seria tão mais verdadeiro se pudéssemos olhar para as pessoas de nossas vidas como Yoko olha para as estrelas: apenas admirados de sua capacidade de brilhar, fascinados com seu mistério de existir, gratos pela possibilidade de nos conectarmos justamente a elas numa infinitude de possibilidades. As estrelas não existem para serem tidas. Como o amor, as estrelas existem para que a gente se sinta menos perdidos, para que nós nunca nos esqueçamos que tudo na vida pode ser grandioso.

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Despeço-me do homem que já fui. Do cara que construí e levei nos braços até ontem ou anteontem. E com ele despeço-me de todos os meus meninos, de toda a esperança infundada de um dia ser maior. E para quê? Eu te pergunto. Despeço-me com um abraço demorado que aperta, com o peito envergado para dentro que diz – Fica um pouco mais – pedindo e também respondendo.

Despeço-me do homem que já fui, de minhas inseguranças, de meus medos que não me matavam, nem me fortaleciam e sigo levando somente os fatos. Enfrento de frente o que está adiante. Afasto de lado o que não está ao lado, mas à margem. Deixo para trás o que não é memória, nem aprendizado, só culpa, estridente, quase que bonita como as latas amarradas que perseguem os carros dos recém-casados.

Acho que me casei com minha culpa. Depois pari minhas inseguranças, ninei minhas vergonhas, só minhas, filhinhas, miúdas, até serem grandes o bastante para também me carregarem. Tudo meu, tudo eu, tudo de mim, eucentrista como toda mãe.

Despeço-me então todos os dias, acompanhando a velocidade do reciclar da matéria. Nasce todo dia e morre a célula. Nascem todo dia e morrem minhas ideias. Nasço todo dia e, logo depois, morro. Sem estardalhaço, ali naquelas horas caladas entre o tatear insone dos chinelos para ir ao banheiro de madrugada e o despertar vitorioso no segundo que antecede o despertador.

Despeço-me do homem que já fui todas as manhãs, engolindo-o junto com o café amargo demais ou demasiadamente doce. Despeço-me dele e vou perdendo minhas histórias, minhas manias. Elas já foram de fato minhas ou foi alguém que me deu?

Vou abandonando minhas notas longas, minhas semibreves, como uma sinfonia que se simplifica dia após dia, até ser apenas três ou quatro notas que abrem um elevador, que empurram um metrô, que ligam um smartphone, que nunca são ouvidas diferentes, mas que igualmente jamais são iguais porque despedem-se de si segundo por segundo.

A pessoa que vocês conheceram não vive mais aqui. Destinatário não encontrado, favor devolver ao remetente.