Carta dos leitores

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Resposta à carta do leitor Cadu de Belo Horizonte-MG

Cadu -Olá Diego, tudo bem? Ler seus textos às terças e quintas se tornou um costume bom, que deixa o dia melhor. Tenho 32 anos e trabalho com uma jovem que também tem 32 anos. Ano passado, comecei a conversar com ela e fomos nos envolvendo, vendo que tínhamos afinidade em algumas coisas. Ela tinha namorado à época, mas em dado momento acabou cedendo às minhas investidas e acabamos nos beijando. 

Ela ficou chateada por ter traído o namorado, e em mim começou a nascer um sentimento que antes eu acreditava ser impensável, mas que aconteceu: me apaixonei. Pela traição, o namorado acabou terminando com ela, e eu e ela ficamos juntos por mais 5 meses. Eu imaginava que tinha chegado minha hora, que eu poderia construir algo com ela, que poderíamos namorar, mas infelizmente não foi o que aconteceu. Mês passado ela reatou o namoro e eu fiquei sozinho. Eu estava sozinho há 10 anos e não sei se ela realmente foi a pessoa que encontrei pra mim, ou eu, pela carência, quis que ela coubesse em minha vida e em meus sonhos. Não sei se luto por ela ou se desisto e parto pra outra. Um forte abraço, Cadu.


Diego Engenho Novo – Cadu, rapaz, que situação. Eu sei que é difícil aceitar, mas, assim como você não tem mais controle sobre os seus sentimentos por ela, tenho certeza que ela não tem sobre o que manda o coração. Se tivesse, quem sabe ela não escolheria mesmo seguir com você. Mas quando se trata de coração, a gente, como você bem deve saber, só abaixa a cabeça e obedece, né? “Sim, senhor!”

A inteligência diz pra seguir e o coração empaca, como uma mula teimosa dos Andes. Outras vezes, a mente da gente sabe que estar ao lado daquela pessoa é o melhor a se fazer e o coração manda a gente partir. Estaremos sempre atravessando essa ponte estreitinha que liga mente e coração e passa calmamente sobre o rio da vida. Viver é buscar completude.

Essa mulher, que você tanto ama, também saiu em busca da dela. Já está batida essa história de “O problema não é você. Sou eu”, mas a grande verdade é que a forma como nos posicionamos nos relacionamentos sempre parte mesmo das nossas próprias necessidades, da forma como lidamos com essa ponte que atravessa o rio entre a razão e o sentimento, dessa ponte que assusta, dá vertigem, medo de cair, mas que é necessária.

A grande verdade é que vocês não estão separados por algo que você tenha feito. Tire isso da cabeça. Pare de pensar no que poderia ser feito. Você deu o melhor de si para essa mulher incrível. E ela, provavelmente também te deu o melhor que podia naquele momento. Mas ela, nitidamente, ainda tem coisas pra resolver. E você, embora não veja agora, a ajudou muito a se reencontrar, a dar paz pra própria alma, a se sentir mais forte, mais amada. Parece ironia da vida, mas você a ajudou a enxergar que podia lutar pela própria felicidade.

Eu sei, você agora está pensando: “Ok! Ok! Ajudei, que beleza! Mas agora eu estou aqui sozinho. Isso não parece justo”. Na verdade, Cadu, se você olhar com calma vai ver que essa relação fantástica, esses meses ao lado dela, a ajudaram a escolher um lado da ponte, mas muito mais, ajudaram você a sair da margem do rio e se arriscar. Agora, você está aí, dolorido, com a cabeça cheia, com o coração confuso, mas aberto.

Tudo bem, amigo, isso também vai passar. Essa confusão é o balançar da ponte, tonteando as vistas, chacoalhando os sentimentos, bagunçando as ideias, para acomodá-las em lugar melhor, logo em seguida. Há alguém esperando por você do outro lado da ponte. Não sei se ela, não sei se alguém para quem você foi preparado pela passagem dela. De qualquer forma, vença seu medo e atravesse. O amor pode doer, mas ainda é uma das provas máximas de que nós estamos vivos e fazendo por onde merecer isto. Grande abraço, meu amigo. Obrigado por me escrever.

Diego Engenho Novo