Carta dos leitores

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Nossa, menino, como adoro te ler. Me encontro em cada verso teu. Eu sou uma mulher já madura, tenho filhas independentes e netos. Me casei muito cedo, me separei quando completei 23 anos de casada por não desejar mais ficar com meu ex-marido e pai das minhas filhas. Me desligar dele foi difícil mesmo não o amando mais como deveria.

Conheci outro homem e me apaixonei, me joguei, esqueci de mim, fui viver a vida com ele (entenda-se a vida dele). Novamente desamei, preferi me separar por não amá-lo como ele merecia. Sempre tive relacionamentos abusivos por minha inteira culpa, dava amor e atenção pra receber exatamente o mesmo em troca: nada! Depois de me separar do meu segundo companheiro, fui aproveitar a vida, conheci vários caras e não conseguia mais me prender a ninguém.

Conheci uma pessoa que me deixou novamente apaixonada, uma mulher. A princípio foi um baque pra mim. Me deixei envolver, conversávamos diariamente por telefone e era perfeito. Nos conhecemos pessoalmente e depois disso, começaram os nossos problemas. Tive ciúmes de uma grande amiga dela e isso mudou um pouco nosso relacionamento. A partir deste evento ela ficou diferente comigo e passou a se distanciar, não deixa de falar comigo, mas sinto que está mais fria. Sempre está cansada. Vontade de mandar tudo as favas, mas gosto dela. Ou será que gosto do que ela representa: o amor? Marquei terapeuta, acho que preciso me curar. Eu sempre estrago tudo por não saber amar. Isadora, Santa Catarina.


Querida Isadora, também adorei te ler.

É natural que a gente fique meio sem fé na gente, no amor e na gente no amor depois de tantas frustrações, ainda mais depois dessa nova feridinha. Você não está se cobrando demais? O que vi em tudo o que você me contou não foi uma mulher que não sabe amar, mas uma mulher que não foi amada direito. Você se entregou, cuidou, aceitou e teve bem menos em troca. E isso, infelizmente também acontece muito. Para que um relacionamento dê certo é preciso empenho e entrega dos dois lados. Não carregue essa culpa. Você tentou.

Acredito que todas essas experiências ruins estejam refletindo agora na sua insegurança de entrar em uma nova história. Como é que você pode saber se essa mulher adorável que você encontrou a esta altura da vida não é justamente alguém para quem tem se preparado? Alguém que pode te dar todo o carinho, afeto e cumplicidade que sempre faltou? Tudo bem, você começou com o pé esquerdo, nada que uma conversa honesta e o tempo não maturem.

Enquanto tenta construir sua história com ela, construa também uma história consigo, uma história de cumplicidade, auto perdão e verdade. Talvez a questão não seja que você não sabe amar, mas que você ame muito mais aos outros que a si. Chegou o momento de viver uma história leve, doce e terna. Se em algum momento você desconfiar que não está mais feliz, que está remando sozinha, não hesite em saltar desse barco também. A vida já te ensinou que como ninguém você sabe se manter acima das ondas, lutando por sua verdade. Conte sempre comigo. Beijão, Diego.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

0 1268

Olá, Di! Tudo bem? Conheci uma pessoa um tempo atrás. A gente se dá muito bem, gosto dele como nunca gostei de alguém. Faz mais de 3 meses que estamos juntos, mas não em relacionamento sério. Conversamos todos os dias, sentimos saudades um do outro. Porém ultimamente ele diz que sente saudade, mas não faz nenhum esforço pra me ver. Ele diz que tem problemas em demonstrar os sentimentos e acho que cada um sabe amar/gostar de uma maneira diferente. Essa maneira pode ser a dele.

Quando ele quer me ver, eu saio e vou vê-lo. Mas quando eu quero vê-lo, tem sempre uma desculpa. Isso tá me machucando demais. Estou sofrendo porque não sei o que faço com esse amor que sinto por ele. Já tentei me afastar, mas ele vem dizendo que sente minha falta, que não me quer longe, vem conversar comigo.

No fundo, mas bem no fundo do meu coração eu sei que ele gosta de mim e me quer por perto, porém, fico um pouco confusa e sinceramente, às vezes, não consigo acreditar que ele goste de mim, porque as atitudes dele me fazem acreditar no contrário e acabo tendo uma certa insegurança em relação a isso. Acho que é medo de sair magoada. Eu quero muito acreditar no que ele diz. Não sei se luto por esse amor ou deixo ele ir. (Isabela, Irati- PR)


Oi, Bela, que bom receber sua carta.

Infelizmente (ou felizmente) na relação há sempre um mais disposto e outro que tem seu tempo mais lento. Tem sempre um mais generoso e outro mais focado nas próprias necessidades. Tem sempre um que se expressa mais e outro mais ensimesmado. Às vezes, faz um bem danado pra gente entender essas diferenças de cada um e parar de lutar contra elas, mas aprender com um pouquinho de cada uma.

Com o tempo, acredito que o disposto ensina o que tem seu tempo lento a buscar mais. No caminho inverso, é o mais quieto que ensina o disposto a aceitar as pausas dos tempos, sem pressa. O generoso não pode transformar o mais egocêntrico em generoso, mas pode ensiná-lo a incluir outras pessoas em seus planos, a fazê-las se sentir especiais. Do outro lado, aquele que é mais focado em si pode ensinar a gente a se amar mais, a se curtir mais um pouco.

Aquele que expressa seus sentimentos precisa ser bem prático e dizer como é que se faz: “Ei, me liga todo dia de manhã pra dar bom dia. Isso é uma ordem de amor!”, “Olha só, não quero mais presente sem cartão. Presente sem cartão não tem alma. Se você não souber o que escrever, diga que me ama e assine. Estará perfeito”. Tem gente que precisa aprender amar como uma criança aprende a escrever: de pouco em pouco, pegando na mão, sendo pacientes. Tem gente que precisa de um verdadeiro “Manual do Gostar de Mim”.

E o que a gente pode aprender com quem não demonstra muito seus sentimentos? Podemos aprender a ser mais práticos, menos dramáticos e guardar algum mistério para o outro. Nada de se mostrar inteiro duma vez. O amor é um exercício delicioso de descoberta.

Eu realmente acho, Bela, que esse moço aí tá precisando de umas dicas práticas. Esse lado meio distante dele não vai mudar drasticamente, faz parte da natureza inata dele, mas vocês dois podem juntos descobrir pequenos atalhos para se amarem mais e se machucarem menos. Podem encontrar formas de driblar o que incomoda para alcançar o que encanta.

Algo me diz que ainda não é hora de desistir. Eu realmente espero que ele descubra logo a mulher incrível e doce que você é. Mostre o caminho a ele. Abração, Diego.

PS. Quando precisar me escreva. Eu estou sempre por aqui pra você.

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0 663

Diego, parabéns pelos seus escritos. Suas palavras são abençoadas e também me abençoam todas as terças e quintas. Na verdade, sinto como se você me conhecesse há muito tempo. Você é minha companhia por que eu me sinto sempre muito sozinha. Não sou ingrata. Tenho uma família linda. Já tenho um netinho de três anos, meus filhos estão felizes e vencendo na vida, meu marido mesmo após trinta anos juntos ainda é meu maior companheiro. Por isso, me sinto culpada. Por que eu me sinto tão sozinha mesmo tento tudo o que sempre sonhei?  Eu não posso dividir isso com ninguém. Ninguém pode entender. Nem eu mesmo entendo bem. A verdade é que me sinto culpada por sentir isso. Um beijo carinhoso, Edna (São Caetano do Sul – SP)


Ei Edna, obrigado pelo carinho.

As suas palavras também me abençoaram daqui. De verdade. Também acho que nos conhecemos, porque eu, como muita gente que está lendo isso agora, sinto algo bem próximo do que você está sentindo. Eu gosto de diferenciar bem a solidão da solitude. Quando você precisa de tempo, coloca uma música gostosa pra ouvir no carro, cozinha algo novo com uma mesa incrível para si, toma um banho demorado, vai ao cinema sozinha pra se divertir, você está vivenciando a solitude. Você está fisicamente só, mas com a alma acolhida.

Isso faz um bem danado e deve ser exercitado, porque não é fácil. Muita gente vai olhar torto para a mulher sozinha com seus óculos 3D. Solidão é o que você vive. Vem de dentro e não de fora. Ela pode ter nascido com você ou crescido aos pouquinhos, como um barranco que vai sendo engolido pela margem do rio. Não se sinta culpada. Essa inquietação, essa dúvida, essa busca, fazem parte de quem você é, de quem todos somos. É claro que a sua família é muito importante, mas há um lugarzinho lá dentro em que o lance é você com você mesma.

Se você tivesse uma vida completamente diferente, se hoje você vivesse fosse babá de gêmeos em Nova Iorque ou monja no Nepal, provavelmente ainda estaria sentindo essa mesma solidão acompanhada. Minha melhor amiga, Clarice, tem mania de escrever trechos de livros nos ladrilhos do banheiro. Em um deles diz: “Solidão é uma ilha com saudade de barco”, essa frase é de uma escritora muito especial chamada Adriana Falcão. Cadê o seu barco, Edna? O que ele vem trazendo do horizonte? É bem provável que a sua solidão só seja um aviso vindo da ilha, pedindo suprimentos, pedindo visitas.

Ei, está tudo bem com essa família incrível que você criou. Que tal agora, responder aos seus próprios chamados e transformar essa solidão em uma linda solitude? Você vai ficar ótima com aqueles óculos 3D. Se alguém olhar de cara feia, ignore. Boa parte daqueles casais grudados no cinema, também estão se sentindo muito sozinhos. Toca o barco! Qualquer coisa, estou por aqui. Escreva sempre que se sentir mais solitária do que sozinha.

Diego

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Diego, estou separada há quase um ano. Perdi mais um relacionamento para a traição. Começo a pensar se sou eu que sou ultrapassada, que vivo num tempo que já foi, já passou. Penso muito se conseguiria viver em um relacionamento mais aberto. Acho que a mentira me machuca mais do que ver meu parceiro com outra. Isso pode dar certo? Olha eu aqui, nem tenho uma relação ainda e já estou querendo abri-la. Acho que quem está se abrindo sou eu. Guardo todos os seus textos como preciosidades. Isabela (Catalão-GO).


Oi Isabela,

Não seria irônico usar uma relação aberta para cobrir um buraco? É isso que muita gente faz. Abre o sexo, tem um filho, dá presentes mais caros, enche a casa de gente, faz qualquer coisa para fugir do que realmente deveria funcionar: a cumplicidade. Não estou dizendo que não há cumplicidade nos ménages e em todas as opções anteriores. Conheço casais incríveis, apaixonados e cúmplices que viram seu amor um pelo outro crescer tanto que sentiram a necessidade de distribuí-lo por aí. Viu a diferença? É amor sobrando e não faltando.

Por outro lado devemos sempre respeitar algo que é cultural em nós: nós fomos criados para vivenciar o amor romântico. Lembra? Aquele dos contos de fadas? Toda a nossa estrutura social e até espiritual é moldada pra ele, para o dia em que encontraremos alguém muito especial que vai seguir com a gente. Que tipo de amor você quer neste exato momento da vida? Os dois dificilmente podem ser vividos plenamente juntos, porque a lógica de um está na contramão do outro. Não há nada de errado no amor romântico, assim como não há nada de errado no amor múltiplo, cabe a você ser, antes de tudo, aberta consigo mesma.

Acredito que faça bem experimentar um pouquinho de cada. Nenhum amor pode ser um erro já que todo amor é luz. Aquela luz que o Jorge Mautner e o Nelson Jacobina escreveram na canção, sabe? “Belezas são coisas acesas por dentro”. O amor nos acende por dentro. Precisamos estar sempre acesos para encontrar nosso caminho. Espero que você encontre o seu. Sozinha, com alguém, com toda a torcida do Flamengo. Basta lembrar-se sempre de permanecer iluminada por dentro, ainda que você mesma tenha que fazer isto por si.

Beijo grande, obrigado pelo carinho, Diego.

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0 559

Querido Diego, perdi meu primeiro e grande amor há 10 meses num infeliz incidente. Ler os teus textos é como uma válvula de escape, pois tenho sempre uma esperança de que tudo irá ficar bem. Tudo irá ficar bem, eu sei. Nós não estávamos mais juntos há uns anos, mas éramos muito próximos, nunca guardamos mágoa um do outro. Cinco dias antes dele falecer, eu havia terminado um namoro sem futuro de cinco anos. Estava pronta pra começar de novo, mas o que eu não sabia era que nós não teríamos mais tempo. Hoje vivo com essa saudade, esse arrependimento. Se eu pudesse voltar no tempo, pediria pra Deus tirar o orgulho de minha vida, pois foi isso que atrapalhou de ficarmos juntos. Esperança talvez seja a palavra certa, muito obrigada pela esperança de toda terça e quinta, você é demais Diego. Com Carinho, sua fã, Kelly (Tucuruvi-SP)


Ei Kelly, eu repeti algumas vezes seu mantra junto com você: “Tudo irá ficar bem. Tudo irá ficar bem. Tudo irá ficar bem, eu sei”. Nós sabemos que vamos perder as pessoas, seja pela morte, seja pelo acaso, distância, pelo silêncio, seja pelo simples fato de que um dia seremos nós a desaparecer. Um dia, todos vamos nos perder.

Todas as pessoas que temos hoje ao alcance do abraço, que vemos online, mas deixamos para dizer oi depois, que vemos na rua, mas preferimos não parar o carro para fugir do atraso, todas as pessoas para quem dizemos que vamos marcar algo e nunca marcamos, todas elas irão se esvair das nossas vidas com o passar dos dias, como o som do vento sobre as montanhas que parece infinito, mas em algum momento simplesmente cala.

Este é um exercício difícil, amar não a infinitude das pessoas, mas sua capacidade óbvia de desaparecer. Não devíamos amá-las com tristeza ou saudade antecipada, a gente devia curtir essa ida sem fim como quem chega, com aquela mesma curiosidade e interesse, com a compreensão de que todo mundo é meio que novo quando acorda no dia seguinte.

Eu sei que você sabe que não deve se culpar, ou se martirizar, você tinha que fazer escolhas e as fez. Você tinha que ter vivido tudo isso para aprender o que aprendeu. Talvez você precisasse dessa distância que teve para sentir o carinho que sente por ele hoje. Talvez, talvez e talvez. A vida ensina duramente que existe uma distância entre amar profundamente alguém e conviver com essa pessoa. Amor nem sempre é proximidade, amor também pode ser amplitude.

Há alguns anos, vi no escritório de uma amiga uma listinha de nomes colada entre os avisos. Parecia ser uma lista para uma festa e fiquei surpreso ao ver que meu nome também estava lá. Marie me explicou que se certificava de falar, mesmo que rapidinho, com todas aquelas pessoas, todo santo dia, porque a gente simplesmente esquece. A gente esquece de um monte de coisa que faz um bem danado pra gente, né?

Se na porta da geladeira tem lista de coisas importantes pra comprar, compromissos importantes pra cumprir, porque não pode ter também uma lista pra que a gente nunca se esqueça das pessoas que são vitais pra nossa alma? Eu também tenho uma listinha agora. Perguntei pra mim mesmo de quem mais sentirei falta quando eu for embora desse mundo bonito e o amor respondeu. O amor sempre dá respostas.  Não se sinta culpada por ter escutado o seu. Tudo irá ficar bem, nós dois sabemos. Obrigado por me escrever. Diego.

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0 299

Olá, Diego. Leio suas crônicas e assim como tantos outros leitores, também sou apaixonada por você, por suas palavras. Sei que já deve ter recebido várias cartas de desabafo e a minha será mais uma. Sinto-me próxima de você, daquelas amizades mais profundas. Namorei quase dois anos com um homem mais velho e com ele realizei todas as minhas fantasias românticas: tomamos banho na chuva, ele me surpreendia todos os dias, cuidava de mim como ninguém, me dava a atenção que eu nunca recebi. Obviamente, existiam coisas ruins, mas pra mim, as brigas não pesavam mais do que as coisas boas. Todavia pra ele foi acabando e hoje ele já não gosta mais. Partiu sem dizer um adeus digno, partiu levando uma parte de mim. Ahhhh, Diego, como fazer morrer quem ainda está vivo dentro de mim? Gostaria de escutar suas palavras. Já escutei muitos conselhos, para seguir, para me amar, para deixar de sofrer, para sofrer e depois superar. Mas nesse momento, gostaria de escutar você que tanto me toca com suas palavras. Abraços, Diego. (Sofia – Palmas-TO)


Oi Sofia, que bom que você se sente tão próxima a mim, quanto eu me sinto de você agora que também estou te lendo. Que bom que você tem consciência do quão foi feliz ao lado dele. Muita gente passa a vida procurando por sentimentos e formas de relacionamento tão distantes e humanamente inviáveis que simplesmente não percebem que viveram sim grandes histórias, para as quais não estavam totalmente presentes. O amor, que andaram procurando a vida inteira, bateu à porta e elas nem notaram. Como é bom poder fechar os olhos e respirar baixinho: eu fui muito amada e eu sei disso, eu reconheço isso.

Eu já escrevi muito sobre términos, sobre recomeçar, sobre juntar os próprios pedaços após a explosão, na hora mais dura, quando um silêncio quase palpável se estabelece em nós. O que dá pra fazer? Poxa, faça o que dá pra ser feito. Todas essas fórmulas seguem o mesmo preceito: não há o que fazer a não ser sobreviver a isso. Pense comigo: se você está no mar escuro e turbulento após um naufrágio, o que você faz? Faz o que dá. Mantém a cabeça pra fora da água, busca algo pra se apoiar, boia, nada, sobrevive. Pense no sentido dessa palavra: se manter sobre a vida, apoiada nela, acima das necessidades básicas. Respire fundo e escute seu próprio instinto, é ele quem joga a boia.

Eu sinto ter que te dizer que certas pessoas se misturam em nossa alma, como um rio que se deixa engolir pelo mar aberto. Certas pessoas jamais partem, mesmo que você as mande embora. Certas pessoas jamais morrem ou deixam nosso coração, talvez porque em outros tempos a gente tenha justamente pedido isso, com toda força. A boa notícia é que essas pessoas podem ser realocadas. Elas adormecem num cantinho especial, são guardadas juntas com suas lembranças, seus vestígios, dentro da gente. Então, Sofia, não gaste tanta energia tentando mata-lo ou esquece-lo, mas tentando acomodá-lo onde melhor lhe couber. Por um lado, pensar que ele jamais vai embora pode parecer doloroso, mas tira um peso enorme das costas.

Seja forte, seja grata, você foi muito amada e será ainda mais. Consegue enxergar? Lá na covinha do sorrido do mar? Terra à vista, Sofia. Terra à vista. Beijo enorme, Diego.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

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Bom dia Diego, seus textos são uma dádiva. Já passei por situações na vida nada agradáveis. A minha pior foi uma separação, depois de vinte anos de casada. O chão se abriu. O mundo parou pra mim.

Busquei todas as formas de sair do fundo do poço. Entrei na academia, passei a fazer mais leituras, busquei todas as receitas para afastar a depressão. Fui me redescobrindo, vendo o que me agradava, como assistir novamente os filmes no cinema (caraca! fazia mais de 20 anos que não ia ao cinema!)e como é bom! Busquei no fundo de meu baú da alma coisas que deixei de fazer e, assim, fui aos poucos ressurgindo.

Aprendi a me cuidar, a usar batom para mim e mais ninguém. Hoje posso dizer que a separação foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu libertei uma Camila presa, que vivia no automático. Posso dizer que a separação foi a melhor coisa que me aconteceu. A dor sumiu de mim e fui aprendendo cada dia a viver. Viver comigo mesma. (Camila – Florianópolis-SC)


Ei, Camila, bem-vinda à luz. Não estou falando do mundo que há aqui fora, cheio de possibilidades. Talvez dele também, em parte, mas não só dele. Estou dando as boas-vindas à sua própria luz, que você reencontrou após tanta dor.

A gente não pode se culpar: o estar junto é estar próximo demais e, é claro, algumas vezes nós nos perdemos um pouco. A gente se mistura, se dilui, se alimenta do outro, sem bons modos. Não sei se concordo com o que algumas pessoas dizem, que tem gente que deixa de ser a si próprio quando com o outro, como se isso fosse algo ruim. Nós estamos renascendo o tempo todo, experimentando, aprendendo com os novos gostos e costumes. Nós estamos nos melhorando, toda vez que nos encostamos à luz de outra pessoa, como se cada um, carregasse uma centelha de fogo.

Claro, quando saímos, quando estamos machucados, achamos que nós perdemos, porque nos sentimos perdidos. Tempo, amor, vida, ficamos ali calculando o prejuízo aparente. Mas nenhuma relação nos deixa sem nadas nas mãos, mesmo aquelas onde não se recebeu nenhum amor. Quando se ama sozinha, se ama por dois. Naquele momento você está aprendendo consigo mesma, trocando consigo própria, alimentando sua própria chama, sol dos próprios dias.

Camila, você fica linda com esse batom. Não deixe ninguém jamais tirá-lo de você, ainda que com beijos. Pensar em como você foi corajosa para se descobrir e nadar para cima, me inspirou. Que essa nova mulher continue se transformando e aprendendo. Sozinha, acompanhada, sendo farol para os outros, ou incandescendo de si mesma. Estou por aqui. Grande beijo, Diego.

((Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

0 496

Resposta à carta da leitora Joice de Três Lagoas-MS

Foto: Zastaki.com

 

Oi Diego, eu leio seu blog há dois anos e sempre me vejo de alguma forma nas suas palavras. Acabei de terminar um namoro de pouco mais de quatro meses. Ele era do bem, atencioso, carinhoso, mas depois de alguns meses, simplesmente fui me cansando, me sentindo sufocada. Terminamos. Terminei na verdade. Eu fiquei triste, mas fiquei ainda mais aliviada. Isso não seria grande coisa se já não tivesse acontecido várias vezes comigo. Se você me perguntar porque meus relacionamentos anteriores acabaram, eu te juro, que não sei. Nenhum deles durou muito mais do que alguns meses, acho que todos eram caras incríveis, que hoje me acham uma maluca. Eu sou maluca? Tenho a sensação de que nunca terei uma relação de verdade. E agora medo de conhecer outro cara legal e passar por tudo de novo, machucar ele. O que eu faço? (Joice – Três Lagoas-MS)


Joice você não tem ideia da quantidade de gente que está lendo isso agora e pensando – gente, essa sou eu! Sim, muita gente sofre da síndrome do Doce Novembro. Sabe, aquele filme? Nele, uma moça se relaciona com um cara por mês e depois some do nada. Ela não quer se apegar (nem pode), mas também acredita que os primeiros 30 dias são mágicos, seguidos de cobranças e frustrações de ambas as partes.

Tem gente que, vivendo dessa síndrome, começa a sabotar o próprio relacionamento depois de uns meses – mesmo que inconscientemente – porque fica assustada quando a magia do novo vai dando lugar a uma visão mais realista da coisa. De certo modo, nossas máscaras vão caindo, e pra não ficarmos expostos, fugimos. A gente tem medo que o outro perceba que somos cheios de defeitinhos. Abandonamos para não sermos abandonados. Péssima ideia.

Tem também quem sabote os próprios relacionamentos porque internamente acredita que não merece ser feliz. Sim, em diversos momentos da vida, nós jogamos contra o nosso próprio time. Seja por falta de autoestima, seja por que tivemos uma criação de pouca valoração. Freud explica.  Há uma opção mais leve e totalmente compreensível: vai ver que você se sente muito nova para algo mais sério e quer conhecer outras pessoas. Qual o problema nisso?

Pode ser um monte de coisas. Uma terapia ia ajudar. Não, você não é maluca. A consciência de que tem algo esquisito nessa história é a maior prova disso, rs. Mas às vezes a gente precisa de ajuda mesmo pra desanuviar os sentimentos, pra ter paz com nosso próprio silêncio.

Independentemente das respostas que encontrar, eu quero que você saiba que eu acredito que você vai superar isso e passar a ter relacionamentos mais profundos. Com maior entrega, com perdão mútuo, vendo a magia que existe também nas sombras do outro, na redenção que a maturidade vai trazendo aos poucos. Um dia a gente percebe que fugir do sofrimento vem acompanhado de uma sensação de liberdade, mas que só somos livres mesmo quando decidimos ficar e fazer que nossa estadia seja doce, pelo tempo que durar. Vai sem medo, Joice.

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Resposta à carta da leitora Chloe de São Paulo-SP

ChloeEu estava casada há oito anos com um cara maravilhoso, quando conheci o Phillipe, um estrangeiro que me seduziu e eu achei que era minha alma gêmea. Eu sou uma pessoa explosiva e meio maluca então achei que deveria ficar com ele. Meu casamento já estava um pouco desgastado, mais por causa do tempo, nada demais. Assim, eu saí de casa, deixei meu marido em choque, assim como eu estou hoje.

Apesar de nossas brigas constantes durante os dois anos que ficamos juntos, Philli sempre foi muito romântico e carinhoso, um príncipe mesmo. No final do ano fomos com a família viajar, foi tudo ótimo, ele super amoroso. Depois disso eu voltei para casa e ele ficou mais uma semana com a família no país deles. Ele voltou estranho, seco, uma outra pessoa e disse que nós dois sabíamos que lá na frente não iria dar certo, que era melhor sofrer agora e terminou comigo, assim do nada. Tentei conversar, mas ele estava decidido e não quis volta.

Perdi dois caras incríveis, perdi minha casa, e agora estou aqui sem chão. Ainda não acredito que ele fez isso comigo. Não entendo como a pessoa em uma semana te ama e de repente é outra pessoa que você nem reconhece. Eu continuei amiga do meu ex, que me perdoou, mesmo que eu não tenha me perdoado, mas acredito que o dele sim era um amor verdadeiro. No fundo eu sei que talvez não daria certo e sei que me arrependi de ter deixado meu marido. Mas sei que não queria terminar, queria tentar ser feliz com ele. Agora estou sozinha, destruída e sem saber o que fazer.


Querida, Chloe

Por vezes, a vida parece mesmo brincar com a gente. Ela brinca, mas esquece de nos contar as regras do jogo. Eu sei, parece inevitável assimilar as coisas, pensar que você está pagando agora pelo que fez no passado. Parece óbvio, como somar um mais um e ainda assim, acabar sozinha.

Certa vez escrevi em uma crônica que falava que se você olha para o mar inteiro, ele parece mesmo invencível, insuperável. Mas, se junta as duas mãos e recolhe um pouco de água salgada, neste momento você se torna maior do que ele, porque separou o mar em uma pequena parte, uma parte que consegue domar. Sua história inteira é o mar, te engolindo com ondas que voltam ainda maiores do passado, talvez seja hora de separá-la em pequenas partes com as quais possa lidar. É isso, ou pirar.

Talvez você tenha mesmo feito uma escolha ruim. Quem nunca? Ainda assim, acredito que fazer escolhas ruins é melhor do que não fazê-las. Talvez, se não tivesse agido na época, você estivesse me escrevendo hoje para falar de um gringo charmoso que você conheceu, de um amor que pensou viver, mas não viveu e como era infeliz por isso, por não ter seguido seu instinto de ser dona de suas vontades. Você escolheu, isso foi muito corajoso.

Talvez Philli não volte mesmo, mas quando você associa seu término com ele com seu relacionamento anterior, o está culpando por isso tudo. Philli te amou, algo mudou dentro dele, talvez ele só esteja com medo de como tudo evoluiu tão rápido, tão intenso, talvez em algum lugar, ele saiba que você se arrependeu da escolha que fez. Este homem a amou com tudo que pode, enquanto pode. Isso é lindo. Não deixe que a dor apague.

Tente não culpar, não somar as histórias. Você está sofrendo agora pelo Phillipe, pela falta dele, pelos planos que fizeram, pela dor que está sentindo. É isso ou se afogar. Ninguém é mais responsável pelas suas escolhas do que você mesma. De igual modo, ninguém pode culpa-la por tentar ser feliz da melhor maneira, nem você mesma. Continue corajosa, fazendo escolhas, escolha sobreviver também a isso.

Nós nunca estaremos completos, é isso que nos move: saber que jamais o seremos, e ainda assim continuar buscando sê-lo. Olhe pra esse punhadinho de água em suas mãos e se pergunte: o que posso fazer agora pra me sentir um tantinho mais completa? Essa é a direção mais certa a seguir. Estou por aqui, sempre com você. Vamos vencer o mar, minha querida.

Di

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas)

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Resposta à carta da leitora Erika do Rio de Janeiro-RJ

Erika – Olá, Diego, como vai? Namoro há 5 anos, tenho 21. Passei minha adolescência e minhas experiências com a mesma pessoa me acompanhando a vários lugares, o amei muito e posso dizer que talvez seja o único que amei desenfreadamente. Porém, como todo namoro, há altos e baixos, brigas e acertos. E infelizmente, após 5 anos eu percebi que não tenho mais forças para lutar e continuar nessa relação. Estamos á deriva do nosso amor.

O problema é que ele é a pessoa certa, sabe? Aquele romântico que me enche de mensagens, aquele que deve apresentar aos pais, aquele que irá tirar sorrisos em horas que a alma esquece de sorrir. Entretanto, não está sendo mais a pessoa certa na minha vida nesse momento. Eu quero viajar, me encontrar, dançar, ter experiências loucas com minhas amigas para contar e até quebrar a cara se for necessário para o meu amadurecimento.  

Um dia, me disseram que a pessoa certa faz o momento virar certo, e com medo de perder uma pessoa extraordinária, fico em um relacionamento sem vida. Não o quero magoar e machucar, mas também não aguento mais essa situação de medo, de não valorizar a quem me valoriza, entende? Aguardo suas palavras e seus conselhos que aliviam. Um beijo e abraço carinhoso, Erika, Rio de Janeiro-RJ.


Diego Engenho Novo – Oi Erika, lendo a sua carta, me lembrei de uma adivinhação que ouvi uma vez de um amigo austríaco. “Um camelo entra com metade do corpo em uma tenda. A cabeça e as duas patas dianteiras estão dentro. O rabo e as duas patas traseiras estão fora dela. Onde está o camelo: dentro ou fora da tenda?”. Pensei por um tempo e respondi que o camelo não estava dentro, nem fora da tenda. Meu amigo sorriu e disse: “Bem, agora você sabe como fazer um camelo desaparecer”.

Eu sei que parece uma brincadeira inofensiva de criança, mas essa adivinhação me fez entender que boa parte do nosso sofrimento está em não saber. Há beleza em ficar e lutar pela calma que ele te dá, em valorizar o tempo pelo qual se dedicaram, em valorizar a pessoa incrível que ele é, em respirar fundo mais uma vez e tentar novamente e novamente. De igual forma, há beleza em se reinventar, em se arriscar, em se permitir ser uma mulher diferente ali na frente. Há beleza em se perdoar, se você se arrepender, no mesmo nível em que há beleza em ser grata se essa escolha torna-la maior do que você já é. Escolha.

Pense por um segundo: se a sua escolha, não fosse fazê-lo mais feliz, nem mais triste; se a sua escolha não fosse fazer sua família mais triste ou orgulhosa; se fosse somente você a afetada; você se enxergaria mais feliz seguindo a sua rotina com ele ou sem a vida que conhece? Eu, particularmente, também tive que fazer essa escolha tempos atrás. Tive que ser honesto comigo mesmo e com alguém que amava muito. Meu camelo estava divididinho. E eu escolhi tirá-lo da tenda, cair no mundo.

Sabe, Erika, eu ficava remoendo futuros inalcançáveis, possibilidades, remoía tanto, que não me sentia mais capaz de fazer-nos feliz, de estar presente naquela relação. Sei que perdi alguém único, mas sei também que me encontrei. Depois de tudo que vi por esse mundo lindo, sinto que hoje eu seria um companheiro melhor, mais presente. Hoje, o meu camelo estaria inteiro dentro da tenda, fazendo uma bagunça danada, desengonçado, mas feliz, completo. Recentemente, Jô Soares contava uma história sobre seu filho falecido. Quando criança, Jô levou o guri numa livraria e, ao ver o pequeno com uma pilha de livros nos braços, disse que aquilo era exagero. “Escolhe uns seis, filho”, conta Jô, “Então eu não quero nenhum. Escolher é perder, pai”. Escolher é perder, Erika, mas não escolher é desaparecer de algum modo. Empurra esse camelo!

Um abraço do tamanho do mundo!

Diego Engenho Novo