amor

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Minha amiga Sheila xingava aquele homem de tudo que era nome. Confesso que anotei dois ou três palavrões pra expandir meu vocabulário. O cara havia terminado um namoro com ares de casamento no frescor de seus dois anos juntos. “Como ele faz isso comigo?”, repetia chorosa. E eu sem entender o que o moço tinha feito de errado. “A gente era feliz. Como ele pôde me deixar sozinha? Que irresponsável. Eu mudei a minha vida todinha por causa dele”, respirei fundo.

Vinha na glote? Vinha. Eu queria poder dizer que era direito legítimo do coitado desistir do contrato de ser dois, no momento que fosse, sem multa de rescisão, sem bonequinho de vodu personalizado. Mas não era aquilo que ela queria ouvir. Chega vinha no fio do lábio a vontade de dizer? Vinha. Que aquele homem tinha sido correto, corretíssimo, que ele tinha sido mais legal com ela que muita gente por aí, mas eu perderia a amiga. Preferi perder a verdade momentaneamente. Sheila ia demorar um tempo pra entender que foi inclusive corajoso da parte dele ir embora quando não se percebeu mais feliz ali. E o dobro do tempo pra sacar que ninguém é responsável pelos prejuízos emocionais da gente.

Flor, se você tiver pausado o Grey’s Anatomy pra ler isso, entenda, com todo o apreço que lhe tenho: ser adulto tem disso mesmo. É arriscado, lento e doloroso, mas eu prometo que fica mais fácil com o tempo. Eu sei que é atraente, que dá uma vontade doida de escorregar dos braços dos nossos pais, cair nos braços aquecidos de outra pessoa, e adiar-nos enquanto adultos. Como se seu peso fosse um presente, como se ele pudesse preencher a solidão do outro, como um favor, uma generosidade cínica da parte da gente. Densa você, densa, certamente. Volume e massa são diferentes também emocionalmente.

Não importa o que você fantasiou. No mundo real somos só nós carregando nossos próprios ossos, pele e medos. Por tudo o que é mais sagrado, fica combinado que a gente até se ajuda às vezes, que a gente acarinha, abraça, dá colo quando o fardo parecer imenso. Mas cada um carrega a própria bagagem nessa conexão de voos demorada que é viver. Ninguém é responsável se não nós, pelo que aceitamos, pelo que escolhemos, pelo que preferimos acreditar, pelas verdades que preferimos adiar. Ninguém é responsável se não nós mesmos, por entrar e sair elegantemente da vida dos outros carregando os nossos próprios sonhos e pagando pelos excessos da gente.

Diego Engenho Novo

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Foto: William Ferguson

Se você não quer se frustrar, pare de ler agora. O que vou contar tende a frustrar as pessoas. Foi frustração plena e clara o que vi nos olhos de meu amigo Andres, semana passada. Ele queria saber como era que eu me preparava pra escrever. Se acendia velas em casa, colocava uma música tranquila, meia taça de vinho tinto. Estava curioso sobre meu ritual. E sempre que me perguntam isso eu vejo a mesma cara. Aquela cara.

Expliquei que escrevo da mesma forma que amo. Escrevo sem cerimônia, sem hora marcada, nas costas da lista de compras, na fila de espera do banco, por vezes, torto em uma cadeira feita para não se demorar. Escrevo como quem ama, na distração do acaso, na correria das horas, na cantoria dos carros, na frieza do metrô que murmura, no elevador antigo que se demora em me entregar em casa.

Escrevo como quem ama, na adrenalina das segundas-feiras, sob as mentiras da rua aos sábados, no tédio de domingo tentando achar uma vaga no estacionamento dos shoppings que tanto, tanto odeio. Escrevo como quem ama, na fome do meio dia, no medo da madrugada, no intervalo gentil dos meus pensamentos banais. Escrevo como quem ama, com fúria não programada, com culpa indexada, com medo do fim.

Escrevo como quem ama, na solidão dos bares, ao som quaternário dos meus passos, ao acariciar a esquina voltando da padaria, ao esperar no portão. Escrevo como quem ama, desajeitado e sem modos, ansioso e faminto, sem pompa, tentando tornar o milagre um método lógico. Escrevo como quem ama, apenas aceitando que as horas mais impróprias se alinham em lógica própria, insolentes.

Escrevo como quem ama. Porque sei que se vive sem escrever, mas que vida triste a de quem morre sem fazer da própria palavra um tipo de voz.

Diego Engenho Novo

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Foto: Hernan Sanchez

Aproveita que um dia todo o encanto passa – Ameaçam os amargurados – Ficará a rotina em seus tons acinzentados, tornar-se-á o seu caminho previsível, um dia você simplesmente se acostumará a ela. Um dia ela simplesmente se acostumará a você, até não poder te enxergar mais.

Jamais compreendi o tom de ameaça, se me acostumar à presença dela é exatamente o que busco. Teremos sorte se um dia eu puder mesmo me tornar banal como uma cadeira de balanço. Se um dia deixar de ser um corpo estranho, deixar de ser visita, novidade, ânsia, para ser somente a companhia calma pros seus cotovelos cansados de esperar

Aproveita, um dia o encanto passa – Repetem os amargurados. E tudo o que eu mais quero é desencantar-me diante dos seus olhos entediados. É ser silêncio calado pra acompanhar sua voz cada dia mais quietinha, como um canto por onde ninguém mais passa. Quero mesmo que todo o encanto nos deixe, que seu afago seja cada noite menos sedento de mim, quero ser tão costumeiro como o curvar dos galhos ou a mudança de opinião serena dos rios.

Sorte de quem puder atravessar os anos a ponto de deixar de ser encanto, sorte de quem puder amanhecer e perder o tom abobalhado dos amantes, o ar embriagado dos sonantes. Amanhecer, entende? Luz sobre a minha confusão.

Tudo o que eu mais quero é que o encanto passe, que os anos não nos perdoem, para que fique em mim a certeza de estar ao seu lado. E que como ameaçam os amargurados, você se acostume mesmo com a minha companhia, num acompanhar-te que nunca passa, lerdo e costumeiro.

E esse que fica quando todo o encanto decanta, e esse que se assenta junto com a rotina, não me ofenderia jamais. Depois que todo o encanto decanta, é ali que está o verdadeiro amor.

Diego Engenho Novo

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Não é surpresa, anos depois de um casamento muita gente descobre que não conhece com quem se casou. Descobre quando um dos dois sai pela porta repentinamente, quando um dia nota uma risada mais alta por um motivo inusitado, quando se toca que tudo o que ela parecia ser se parece diferente agora. Foi assim como Aline. Um dia seu marido disse que era infeliz e ela pensou ser brincadeira de má hora. Mas ele estava mesmo indo embora. Indo embora dela.

Sempre que ouço histórias assim, tenho a sensação de que quem se depara com o desconhecido plantado ali na sala de casa, vestindo os chinelos do marido, ou carregando a bolsa da esposa, culpa sua própria existência, como se a casa tivesse sido invadida sorrateiramente. Como se um estranho tivesse invadido a casa e não morado por anos ao seu lado nela. É seu marido de vinte anos que está ali, sua mulher da vida inteira, é alguém que você viu por anos, sem enxergar. Reclamar que não conhece o outro, em muitos casos pra mim tem tanta lógica quanto culpar Paris por jamais ter estado lá ou culpar a Índia por ser longe. Em parte dos casos, claro, depende do outro também se mostrar. É preciso que Paris esteja lá para nós.

O que quero dizer e, eu sei: isso vai incomodar, é que muita gente que já ouvi reclamando ter tido um encontro repentino com o lado desconhecido da mulher ou do marido simplesmente não o conhecia por pura e boa falta de atenção e interesse genuíno. Não teve a curiosidade de atravessar a rua pra ver de perto quem disse que amava. Não tinha interesse em ver o que a curiosidade dele apontava no horizonte, não tinha atenção para ouvir as histórias até o fim, estava quase sempre contando algo sobre si, como se o outro fosse apenas testemunha, diário, público pagante.

Ouvi então Aline dizer aquela frase clássica “Meu Deus, quem é essa pessoa com quem me casei?”, pensei dizer – Pois é, é bem provável que ele se pergunte a mesma coisa. Vocês perderam a chance incrível de se conhecer em alma – mas não era isso que ela precisava. Um ombro que lhe segurasse o queixo já bastava. Algumas pessoas só são verdadeiramente notadas por nós quando, à luz da porta, chamam nossa atenção, não porque se tornaram mais nítidas, mas porque simplesmente pararam de nos dar ouvidos e naquele instante se tornaram menos nossas.

Diego Engenho Novo


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Tiraram a árvore da caixa hoje. Equilibraram-na logo ao lado da portaria, como nos anos anteriores. Tenho a impressão que nem a desmontam mais, só a guardam em alguma sala empoeirada onde sempre é Natal. Frutífera de luzezinhas o ano inteiro. Enquanto espero o elevador ouço o papo vindo das velhinhas – Já era, acabou o ano – olhando pros números em contagem regressiva acima da porta – Voou. Esse ano voou – completou a outra.

Eu fico aflito com esse tipo de conversa. Como assim “já era”? O que foi que acabou, gente? Em trinta dias dá pra viver mais do que você já viveu até hoje. Ainda dá tempo de mudar a cor sem graça da parede da sala, ainda dá tempo de doar as roupas que não vestem, ainda dá tempo de aprender a cozinhar, ainda dá tempo de tomar gosto pela corrida. Juro que dá.

Ainda é possível perdoar, ainda dá tempo de dar um presente de dia do amigo, ainda dá tempo de escrever um roteiro, ainda dá pra ler aquele livro que você sempre mentiu por aí ter lido. Ainda dá tempo de pegar a estrada, de mudar de rota, de pendurar os quadros, de se matricular na ioga, de não levar desaforo pra casa, ainda rola de descasar. Pelos deuses que ainda dá, pra aprender a pedir comida em francês, de vender a TV e correr pra Paris.

Ainda dá tempo de mudar de profissão, de aprender a usar o aplicativo esquisito que todo mundo tem. Ainda dá tempo de virar vegano, de se tornar um expert em pintura vitoriana, de ter um cachorro no pé da cama. Vai que dá! Dá pra descobrir como é que medita, como é que desculpa, como é que tem gente que se equilibra em cima de uma bicicleta e vai. Vai que dá, ainda dá tempo de descobrir seus desejos, atiçar seus sonhos, embromar seus medos, vai que ainda dá tempo de se apaixonar de novo.

Diego Engenho Novo


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