Cartas dos Leitores: Síndrome do Doce Novembro

Cartas dos Leitores: Síndrome do Doce Novembro

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Resposta à carta da leitora Joice de Três Lagoas-MS

Foto: Zastaki.com

 

Oi Diego, eu leio seu blog há dois anos e sempre me vejo de alguma forma nas suas palavras. Acabei de terminar um namoro de pouco mais de quatro meses. Ele era do bem, atencioso, carinhoso, mas depois de alguns meses, simplesmente fui me cansando, me sentindo sufocada. Terminamos. Terminei na verdade. Eu fiquei triste, mas fiquei ainda mais aliviada. Isso não seria grande coisa se já não tivesse acontecido várias vezes comigo. Se você me perguntar porque meus relacionamentos anteriores acabaram, eu te juro, que não sei. Nenhum deles durou muito mais do que alguns meses, acho que todos eram caras incríveis, que hoje me acham uma maluca. Eu sou maluca? Tenho a sensação de que nunca terei uma relação de verdade. E agora medo de conhecer outro cara legal e passar por tudo de novo, machucar ele. O que eu faço? (Joice – Três Lagoas-MS)


Joice você não tem ideia da quantidade de gente que está lendo isso agora e pensando – gente, essa sou eu! Sim, muita gente sofre da síndrome do Doce Novembro. Sabe, aquele filme? Nele, uma moça se relaciona com um cara por mês e depois some do nada. Ela não quer se apegar (nem pode), mas também acredita que os primeiros 30 dias são mágicos, seguidos de cobranças e frustrações de ambas as partes.

Tem gente que, vivendo dessa síndrome, começa a sabotar o próprio relacionamento depois de uns meses – mesmo que inconscientemente – porque fica assustada quando a magia do novo vai dando lugar a uma visão mais realista da coisa. De certo modo, nossas máscaras vão caindo, e pra não ficarmos expostos, fugimos. A gente tem medo que o outro perceba que somos cheios de defeitinhos. Abandonamos para não sermos abandonados. Péssima ideia.

Tem também quem sabote os próprios relacionamentos porque internamente acredita que não merece ser feliz. Sim, em diversos momentos da vida, nós jogamos contra o nosso próprio time. Seja por falta de autoestima, seja por que tivemos uma criação de pouca valoração. Freud explica.  Há uma opção mais leve e totalmente compreensível: vai ver que você se sente muito nova para algo mais sério e quer conhecer outras pessoas. Qual o problema nisso?

Pode ser um monte de coisas. Uma terapia ia ajudar. Não, você não é maluca. A consciência de que tem algo esquisito nessa história é a maior prova disso, rs. Mas às vezes a gente precisa de ajuda mesmo pra desanuviar os sentimentos, pra ter paz com nosso próprio silêncio.

Independentemente das respostas que encontrar, eu quero que você saiba que eu acredito que você vai superar isso e passar a ter relacionamentos mais profundos. Com maior entrega, com perdão mútuo, vendo a magia que existe também nas sombras do outro, na redenção que a maturidade vai trazendo aos poucos. Um dia a gente percebe que fugir do sofrimento vem acompanhado de uma sensação de liberdade, mas que só somos livres mesmo quando decidimos ficar e fazer que nossa estadia seja doce, pelo tempo que durar. Vai sem medo, Joice.

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